La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.25.2006

Quando nuncar é presunção de sempre

Quando nuncar é presunção de sempre


A minha aldeia é tão grande como todas as aldeias
Porque todas as aldeias são simplesmente aldeias
Incluindo as grandes e cosmopolitas com um rio ao meio.
Todavia, quando preciso de trazer-me cá fora a arejar
A brincar com as veleidades da rua
Sorrir aos cães que passam
Atirar beatas com um piparote
Correr atrás dos pombos
Mandar piropos às garinas bonitas das saias ciganas
Escutar a mexeriquice dos patins e esplanadas
Esquecer o silêncio dos corredores dos edifícios seculares
Planger as cordas que me acordam o destino
Sofrer as descidas abruptas ao lusco-fusco
Esgrimir a voz no implorar de um beijo somente,
Então, costumo pôr-me à esquina, à tua espera
Indiferente ao lugar, numa quina qualquer, anónima
E anónimo, aconchegados pela hora de chegares
Embalado pelo misterioso enigma dos teus olhos
Que são capazes de sobrevoar as maiores distâncias
Atravessar multidões, ficarem depois do comboio partir,
Regressarem de detrás do autocarro, prever a velocidade
O pulsar do minuto, do segundo, o ritmo da respiração
Serem outros para ser aquilo que em si mesmos são
E lerem na profundidade da minha mente
Até ao destemido recôndito das intrigas inconfessáveis
Quanto é subornável o meu querer perante a tua vontade...
A que não sei resistir

A que não posso resistir

A que não quero resistir.


E me faz conjugar o verbo nunca como sempre,
Sempre no futuro do incondicional mas com ses.

(E a propósito...
Quem da vida disse já não haver certeza alguma?
Olha: mente. Diz-lhe descaradamente que mente– Exactamente, como sempre, e mais que nunca, mentiu!...)

9.30.2006

Certidão de renascimento

Certidão de renascimento

Deve haver uma lenda, um fado, um mito
Onde esteja o nosso destino traçado...
É que ao olhar-te, ao ver-te acredito
Que temos o futuro escrito
No mais recôndito passado.

Continuo, depois destes anos todos
Como desde a Escola me acontecia,
A perder os sentidos, a sensatez, os modos
Mal te vejo, ou vendo-te, fatalmente em ti me perdia.

Perdia a noção do real, e da fantasia;
Perdia o pé, o equilíbrio, a certeza do gesto;
Perdia a luz, tanto a da noite como a do dia,
Enfim, então tudo perdia, só não perdia tudo o resto.

E não perdia este prazer que tenho de sonhar
Tudo, tudo trocar, nada sentir como meu
Excepto o secreto pressentir que é o teu olhar
O selo, o anel real, aquele que valida (a realidade)
E dá garantia de verdade – e vida
A todo o universo: terra, mar, sangue e céu!

Daí que quando assim, nada deseje então
Senão o que há em mim
Quando te nomeio dentro do mito
Que me arrebata e penetra como grito
De sonho nascido em ter-te no coração,
Tão dentro, que te vejo no brilho expedito
E no luminoso céu em que acredito
Estejas cintilando estrela sim
Estrela sim, estrela sim
Estrela sim, estrela sim...
E por que não?!!...


A Terceira Rosa
Manuel Alegre

(1998)

Eis mais um romance fragmento que caminha, que se revela em cada painel desdobrado do pórtico histórico do pré, pró, contra e após 25-A, com diversos amores ao amor pelo meio, exalando uma mescla de qualquer iguaria quimérica de elevado condimento provençal e cavalheiresco, que quase remanesce por milagre, posto que se interpelarmos a mancha gráfica sobre o que traz por dentro, entre capas e fólios, a resposta cai rotunda e sem margem para dúvidas: «São mulheres, senhor. Rosas de seu nome, a maioria delas, mesmo se já morreram e prostradas repousam nas bermas da prosa, alguéns que cresceram em mim, para mim, por mim e comigo, enquanto a liberdade se reinventava e nascia para nós.» O que, ressalte-se, tanto se pode dizer acerca deste romance como de qualquer outro que tenha por background o ambiente sócio-político português, dos finais do salazarismo, da primavera marcelista e do primeiro 1º de Maio sob os auspícios da revolução. Ou cuja data de referência se viesse dos 60 libertando quanto o permitissem as malhas do império e da raça insana, considerando que se nota deveras nele a intenção autoral de os reflectir, de os depilar, depurar e, consequentemente, espremendo-lhe alguns pontos negros com que pintalgaram a história. Uma revolução sentada na varanda com um sinal (flor) na mão, confirmando a sua anuência ao encontro marcado. Qual menina que não expira nunca totalmente e se procura em cada mulher cuja inocência ficou e passou mas ficou em nós, como marca distinta de todas as paixões que imperiosas arrebatam, ferram, selam, aplicam o ferrete modelar que nos há-de perseguir vida fora.

Aliás sequência de flores, de pessoas, de sinais... Primeira Rosa, segunda Rosário, terceira: rosa. Como que a inquirir-nos, semelhando William Shakespeare, o "que há num nome? Será que isso a que chamamos rosa, deixará de ter o mesmo suave e doce aroma, com outro nome qualquer?" O que nos motiva a esperar para ver, para confirmar o talvez – de Talavera e Malos Pasos –, que faz com que a morte seja o mais bonito, o clímax da faena, o que somente poderá acontecer no final do espectáculo que ahora se recuerda pelas cinco em sombra de la tarde, já que não há nenhuma morte que não seja igualmente muitas outras. Precisamente porque sempre que alguém morre, sempre que algum companheiro perece pelo caminho, é também mais um pedacinho de nós que se apaga. Talvez Rosário; talvez Cláudia; talvez Talavera. Mas o seu verdadeiro nome até poderia ser Pandora, se houvesse quem o procurasse insistentemente...

E porque não? Alguém que seja todas as que não querem morrer das paixões que suscitam, que passam mas que ficam. Porque esse alguém há-de ser visível nas águas do rio, da Ria – para ser mais exacto –, no dia 1º de Maio, conforme conta William Faulkner, em Mayday, que é crença enraizada, segundo a qual aquele que olhar a água do rio neste dia verá nela o rosto da pessoa com quem casará e por quem se darão todos os tropeções no escuro, incluindo aqueles que já não acreditávamos ainda ser possível alguém dar, tamanha é a cegueira, considerando que a força das rotinas disso o impeçam, tão inevitavelmente quanto estas nos prolongam, mas nunca conseguimos contornar por maior que seja a nossa experiência de vida e, reforçada pelo conhecimento, esteja firmemente consolidada a sensatez que nos assiste.

E quem diz rio, diz Ria, diz rio Alva, diz Alba, diz aurora, diz madrugada, enfim, diz multidão que se manifesta na rua. Pois o homem ainda continua a ser aquela mosca zumbindo sob o copo invertido das suas ilusões, que inventa verdades, histórias, romances de cavalaria, aventuras onde seja o herói absoluto, tendo a sua amada como causa e único motivo. Exactamente assim. Cruelmente assim, e conforme cada um seja capaz de se arremessar para melhor ficar.

9.27.2006

Fisgada certeira

Nocturnos Mensageiros


É muito caprichosa, a noite...
Tem mistérios inauditos.
E em cada luar que acoite
Brilhos pálidos e expeditos.

Às vezes, sei-o eu – e bem!...
Possui-nos através dum sorriso;
Através do recordar preciso,
De tanto desejarmos alguém.

A mim, acontece-me frequentemente...
E acordo a beijar os ares, além
De deitar a língua de fora, contente.
Porque vivi; e vivendo, vivi-te também!



A l m a
Manuel Alegre
(1995)

Paródia de formação é um típico cervantino de estilo, autêntico romance de cavalaria de quem atravessa a infância montado no cavalo de pau da família considerada, honrada, por bastos pergaminhos justificada, e generosa, do establishment provinciano. É aquele olhar distante sobre a guerra de 42-45, mas interessado, aproveitado politicamente pelos clientes da Loja, que fisicamente tanto é estabelecimento comercial e de convívio, como igualmente centro espiritual da república, ou da sua laicizidade maçónica e da resistência clandestina. Confirmação de como Quixote deambulou por cá deixando geração apreciada. E uma breve história da sonegada participação com os situacionistas do Manholas, aos botas de elástico e aos solas Ceilão, que iam sustentando o regime à custa do atraso e do medianismo supersticioso aldeão.

Romance numa só voz para o adolescer em Alma, reflecte contudo nela a expressão e peculiaridades das gerações de 50/60, assentes nos pilares da família, escola, loja e retouça com a natureza, também esta repartida por quantos elementos a compõem (rios, caça, pesca, pássaros, como natureza humana: política, esotérica, sexual, bélica, desportiva e relações de amizade), que perfizeram um homem e seus valores, implantando nele o respeito pelos demais, a necessidade de alterar a ordem, principalmente quando ela está errada, o apreço pela justiça, liberdade e democracia, sempre inspirada nos itens da solidariedade e coesão social para despeito da caridadezinha regimental e canasteira.

Embora raramente me convençam os textos literários dos rabequistas, sobretudo se saídos da filarmonia partidária e/ou ideológica, o que é certo é que esta novela não se atém a ser aquilo que parece. Daí que me sinta na obrigação de a ressaltar como excepção, considerando que o seu autor, além de poeta combatente, democrata de torna-viagem pelo 25-A depois de ter exercido significativa acção revolucionária no exílio, emprestando dedicação e voz a veículos de comunicação, nomeadamente na Rádio Argel, foi (quer dizer: é) também escribalista, conforme a definição de escribalismo que aqui se sustenta, não obstante o seu campo de ficção se estenda para lá da estrita conjugação narrativa, prolongando-se nele enquanto modo de intervenção social.

Porque excepção justificada, além de obra que carece de atenção cuidadosa e destacada, não obstante esse jeito de contrabandear deus e demais obscuridades relativas através da tonalidade dos provençais e gentis-homens que povoaram o universo cavalheiresco em contos, romances, cantigas e novelas, na formação de quase todos os aspirantes a principezinhos deserdados da monarquia, que alimentava a fadação com que as mães predestinavam seus filhos para arautos da esperança, anexando-lhe sempre a distinta marca do eleitos para missões superiores, nobres, semelhantes às que inspiraram os cavaleiros do ciclo arturiano, combatentes do bem e da justiça que, sob o pendão da cruz, defenderam o santo sepulcro ou se amuralharam em Malta, de onde demandaram o pronunciamento da uma nona ordem terrena.

Acima de tudo por ser Alma o lugar inicial para o cúmplice entrosamento na grande loja que é o mundo. Este e o outro, se o houver. Pois nunca o homem acontecerá neles por acaso. Que normalmente isso, a humanidade e humanismo que forjam o indivíduo, são atributos de pelejada conquista, frutos por poda tida nos anos antecedentes à formação académica, que aliás a prepararam, por mais completa e importante para a sobrevivência da pessoa que esta se venha a revelar vida fora. Há quem prefira usar o termo podar trocando-o pelo seu eufemismo de educar, na esperança de dar aquela pincelada de civilização em algo tão vegetativo, como o processo de aprendizagem; porém, em termos de Alma tal equivaleria a desvirtuar por ró-có-quismo maneirista a formação de qualquer personagem tão empenhadamente perto da natureza ancestral humanóide.

Portanto, este livro é a visão adulta, avaliada, perspectivada, parodiada de uma poda que resultou bem, prescindindo de enxertias extemporâneas a fim de manter entroncada a genealogia da geração que se empenhou em sobrevier ajustando a realidade aos seus ideais, promovendo e multiplicando as possibilidades de vida em liberdade aos seus vindouros, sob a interpretação de alguém que deveras lhe pertenceu, mas sempre, incluindo quando nela participou activamente, a viu, a observou, se lhe apresentou predestinadamente distanciado. Quem provavelmente melhor saberá os porquês de tal postura e atitude, anda à hora por paragens alheias ao mundo, e talvez se mantenha absorto falando de caça com entusiasmo ou apontando a mira a alguma lebre celestial ou perdiz astral, que se lhe levantem na frente, quiçá na companhia de Aquilino Ribeiro, que também se perdia acostumadamente nesse género de miragens calcorreando as fragas e serranias, sem receio de comprar a Alma com quaisquer cinco réis e gente.

Precisamente porque depois da Alma visitada mais fácil se torna compreender a estirpe dos homens que a edificaram de rústica pedra, a teceram nos vilares da transformação operativa, tal qual as terras do despertar fizeram e onde tudo o que nos acontece, em que participamos ou vemos, nos marca para sempre, de forma definitiva, balizado por datas inesquecíveis, interregnos de tempo a partir dos quais nunca mais voltámos a ser apenas "aquilo" que antes éramos.

Fisgada certeira


Aquele pedrada atirada à janela
Que partiu o vidro do meio,
Transtornou quem morava nela
A ponto de lhe tumescer o seio.

Três dias o mamilo lhe inchou.
Três noites lhe sentiu palpitações.
E quando ansiosa à mãe contou,
Esta apenas lhe disse serem sezões.

E assim andou semanas ensimesmada
Até que uma noite o vento nela entrou,
Trazendo consigo o rapaz da pedrada.
Mas ela nem um pouquinho se assustou...
Gemeu, contorceu-se, gritou – e ficou calada!


Estórias e retratos da história

Conto IV
– A parábola do V de Vitória

A minha eternidade pequena não é lá grande coisa. É certo que cada um tem a eternidade que merece, mas eu merecia melhor. Levanto-me todos os dias cedo – cedo! Que digo eu...? Cedíssimo! –, sou mal pago, alombo diariamente com os desquilates do patronato, e sempre que saio um tantinho antes do toque de finados não me livro sem levar roda de doidivanas, estroina, irresponsável e refractário. Se não fossem aquelas reuniõezinhas, ainda que raras, com os meus confrades, embora as mais das vezes esteja em desacordo com o que aí se diz, isto de vida não tinha nada e seria uma peeira pegada!

Por exemplo, na confraria do coice, afirmam, com acérrima frequência e redundância, que o burro é um animal literário por natureza. Ná! Não me convencem!... Aliás, essa qualidade dos peremptórios arrasta sempre marosca consigo. Um tal Platero, que o Ramón Jiménez elevou a nobel; outro que fez o sacrifício de transportar o soneto ao Sá-Carneiro, num caixão batendo em latas e aos pinotes; o da moleirinha no toque-toque do João de Deus, estrada fora; algum jumento de padre na arribação serrana da extrema-unção; o do Shrek e mais uns quantos, que se alambazam na retouça ibérica, a acompanhar aios de quixotes e arautos das esperanças de cortesãs, vá que não vá... Agora os mais, não me cheira! São asnares sem tirar nem pôr. Escarrachadinhos!

Literário mesmo, é o cavalo. Sei que pode parecer faccioso, estar a beneficiar a própria genealogia com a conjectura, porque é uma mula que o confessa. Mas juro que não: pileca seja eu!

Todavia, passo a explicar.
Vejamos: quem lida com toiros enraivecidos e lhe faz piruetas nos cornos? Quem se estampa em todas as cartas, desde as notificações judiciais às ridículas de amor? Quem domestica os gnr's por essas charnecas fora e os faz apear para urinar detrás da moita, envergonhados, inferiorizados perante a poça de espuma e polegadas da torneira daqueles que bucolicamente os transportam? Quem se caga na parada do dez de Junho, nas trombas de presidentes e generais? Quem sente no dorso os húmidos prazeres das virgens de lantejoulas e equilibristas de circo? Quem é perito em métricas de passo, trote e galope nas rimas do picadeiro? E exímio nas correntes de estilo das escolas de quitação? Quem se dá bem com deficientes? Quem acompanha com mulas de má porte e as torna amazonas ou princesas? Quem voa do Olimpo à Terra e serve de taxi aos deuses sempre que estes querem vir às maganas? Quem é o Pégaso frontispício dos modernistas? Quem puxa o trenó à bailarina e lhe ouve os lamentos de discriminação depois dos saraus aristocráticos? Quem é o motard da lezíria e esvoaça as crinas sem sombra de capacete nas correrias do todo-o-terreno? Quem com a mesma galhardia atura tanto índios como cowboys, talibans como cristãos, campinos como jograis? Se afoita nas pradarias das cobras e lagartos como nas liças de presbíteros e Viriatos? Quem cobre qualquer burra com igual esmero e resultado que nem égua fosse égua de passarela? Julgam que nasci por acaso ou geração espontânea?... Quem é que o Camilo José sela? E o já sinto do Eça? Ou assoma à desfilada no sangue das glandes dando-lhes a temulência própria para transformar crateras apagadas em autênticos vulcões de lava e grito, palavras ordinárias e corriqueiras em metáforas sublimes? Montaria sem ele é caçada; cortejo a que falte, romaria; e peregrinação, caminhada. É destes pormenores que ninguém se pode olvidar, nem deixar-se confundir pelos cascos, que se não fosse o V de cavalo, nenhuma aguardente chegava a brandy. Vá: toma!!...

Porque é esta letrinha que marca a diferença no caalo. E mais do que isso é a literatura? Desvio que dá ao erro a arrebatada perfeição do certo? Não é daí que advém a natureza artística do calo (experiência) que não se cala? Não é esse o V que põe o silêncio a dizer? Pois sem ele a literatura nunca chegaria a literária, e a narrativa ou a poético, simples reportagens, apontamentos, da história, da filosofia, ideologia, memórias descritivas, arrolamentos contabilísticos da variedade vocabular na conta-corrente do dia a dia e da gramática. E ecolalia, quando muito!...

9.25.2006

Dois ditados para uma cópia

DOIS DITADOS DA MESMA CÓPIA


Saiba-se que nesta séria herança da promissão
Em ser futuro tendo por alicerces o ser passado
Conforme mandam as leis divinas da procriação,
As benesses da normalidade e os desvios a satanás
Com que se intentam qualificar os genes ao procriado,
Que é tão verdade o ditado do "filho és, pai serás"
Como igualmente aquele do "pai foste, filhos terás"!


Alucinação do suspeito (ao despertar)


Lembrei-me agora de tudo quanto aconteceu...
Naquela manhã quando se ergueram as pálpebras
Ainda se ouviam os gestos ressuscitados da noite
E o rosto entressonhado de plúmbea tez estremunhada
Era o mapa indesmentível de sombra e sulcos, espectros
Cruzados pelos deltas de rios louros e sinuosos de ouro
Quase linhas ondulantes desalinhadas na crosta rósea
Das faces, da testa, suados, colados, esquecidos de correr.
Ninguém jamais os poderá ver como eu naquele instante os vi...


Principalmente, porque a sua dona não existe. Nunca existiu!


Definição europeia de Portugal


Afinal, segundo antigamente de nós diziam os romanos
Continuamos a ser esse povo de hermínios Viriatos
Dadores de novos mundos ao mundo, e de mulatos
Que não se governam nem se deixam governar; lusitanos
Da guerrilha paroquial e cruzada dos respeitados anos
Que tanto abandonam como molestam os seus gaiatos!

9.23.2006

Recado

Recado

Nunca estive contigo na Brasileira
Nem foi no teu tempo em que vivi,
Mas deu-me o tardio nascer esta maneira
De também poder ter o meu Chiado... –
aqui!

Sábado


É quando no teu sorriso desperto
E acordo a sonhar-te perto
Crescendo em mim tua valentia.
Que posso ter o passo incerto
Mas aproximar-me de ti,
Ficar perto,
É o meu destino de cada dia.

É este o meu segredo que fala e diz...
Diz ternura. Diz poesia.
Diz sonho. Fala da raiz
Da noite como nicho certo
Onde se acolhe a matriz
De beijar-te com alegria!


Riqueza em pobre rima


Se se cansa o pobre de pedir
Como se não há-de o rico de dar,
Que um mês traz outro a seguir
Sem nunca o dinheiro lhes chegar!

Fábulas da Mula da Cooperativa

Estórias e retratos da história

Conto III

O Milagre do Pão Desacabado

No dia em que as bestas selvagens, nas costas dos contribuintes, escoicearam o blogspot, a mula da cooperativa ficou privada de contar a sua estória aos meninos orelhudos da urbe, pelo que não teve outro remédio senão entreter-se a admirar a harmonia familiar das manjedouras suas avizinhadas. O que, se ao princípio lhe acarretou tédio, certo foi mais tarde se manifestar altamente instrutivo em consonância com os postulados pedagógicos em vigor, porquanto pôde confirmar in loco o modo como as modas domésticas se tornam ainda mais duradouras do que a eternidade, sobretudo para a pequena eternidade que é a vida de cada um, que é das eternidades conhecidas aquela que menos dura, mesmo sem se tomar a medicação adequada, ou ser-se vacinado a tempo e horas.

É claro que isto tem mulas de graça. Aos píncaros de gargalhada. É que hoje em dia, se se quer molhar a sopa na gema, isso tem que ser feito com enorme cuidado... Ele há mesuras; ele há diplomacias de preceito; ele há refregas de género. E, não obstante as cautelas, indabenão a loura entra nas couves, acabando sempre no gerar discórdia, e armar-se um sporting-benfica de todo o tamanho!...

Por exemplo: no bardo em que habito, uma família moderníssima, daqueles ele e ela, ela e ele, em que quando cada um não está só se aplica a amolar o outro, à hora da refeição, que ela fizera com desembaraço e perícia, tipo pantagruélica mestria de batatas fritas, ovos estrelados e salsichas, na explícita tentativa de intoxicar o adversário, para lhe tornar a eternidade pequena ainda menor, para o cônjuge, e para si salada de legumes plasticizados, regalias de casal perfeito com juras de amor derradeiro e infinito, obediência cega à felicidade e à doença, pobreza e riqueza, roupa, cama e criada para todo o serviço, que é no que dá quando as burras desposam camelos de bossas enchumaçadas a esteróides e transgénicos vários, ela enlinguiçada como pau de cabide com encanudados de oxigenada alouradura, qual vara de virar tripas, pondo acento na frugalidade esquecera-se de lhe servir também pão, pois salada de couve penca, grelo tenro, feno e alcácer de estufa já têm fibras fartas.

Então, porque nas baias privadas os barrotes são de vidro, as quadras coudelares e as mangas de estacionamento apertado, quando se aprestaram ambos para o desenfastio, mordiscando já a jumenta nas verduras em canto recatado, deu o camelo por falta do cerealífero ingrediente. Indignou-se. Bateu com os cascos. Sacudiu o rabo. Abriu as ventas pelo desaforo e, finalmente, imperativo zurrou: «cadê o pão?! Acabou????....»

Toda ela se afligiu, estremecendo peles e pêlos da garupa às orelhas, que lhe murcharam sobre os quartos dianteiros, amuando com o vocifero coice acerca do desmando na lide caseira. Mas soltou-se lesta e partiu esganiçada à procura do dito prò conduto. E quedou-se ele soturno e determinado, frente ao ovo estrelado, sem sacudir uma mosca ou mexer numa palha até ela voltar.

Findo o ínterim da espera, entrementes o depositar a ração de cereal na manjedoura e aliviar-se dos aviados que mercara no hiperprado com super rapidez, não se ateve de meigamente reparar-lhe dengosa «pronto... Aqui está o pão... Vês? Desacabou.» E logo foi notória a luz de harmonia que dessa baia jorrou para iluminar a cavalariça. Resplandecente, emoldurando o idílio familiar para quantos cépticos e descrentes ultrajam a nupcial cristandade, o ofício da procriação e os lavores dos sagrados laços do matrimónio.

É óbvio que aquele desacabou fora fulminante para eliminar a controvérsia. Dando-lhe azo a que molhasse a sopinha na gema com jubilada alegria. Fora como que uma porta que se fechara estrondosamente sobre a tempestade que se aprestava para invadir-lhes os cómodos. Um relincho de êxtase na plenitude da parelha. E um afago da virtude feminil, na presteza de servir o seu macho até que a morte os separe. Daí que deva registar-se que não há desigualdade quando a última palavra é a expressão encantada com que qualquer muar aceita e cumpre a canga que escolheu para viver.

Após o que a mula, finalmente, rematou para o aplauso geral:
Eis como a malta do pulo e do pinote ficou a saber, que não há falta de maior que uma boa zurradela não emende. Que camelo, quando fala língua de burro, até os cavalos entendem!

9.22.2006

Grabato e Knopfli: um diálogo sem pudores de interiorização

TESES EM CONDOMÍNIO FECHADO

7. Grabato Dias e Rui Knopfli: diálogo adiado que se retoma irreflectidamente mas sem pudores de intercepção (e interiorização)

... Dado que ficou líquido que os computadores portáteis facilitam escrever como quem está "sentado sob a luz que do alto / desce" (RK), à semelhança das ardósias e papiros que "houve, outrora, em que as palavras / vertiginosa enxurrada, me acudiam desenvoltas / à memória", "sobre a pedra dura do tempo / mal distintos mas acidulados sinais" (idem), é legítimo que os escribas de hoje reabilitem, através dos seus blogs, os que antes deles viveram e não dispuseram da excelência do suporte electrónico, para que assim continuem a pintalgar de cristalinas luminosidades as nebulosas imagéticas, estabelecendo constelações de entendimento compatíveis às astronomias interiores, sublinhando a intemporalidade da sua arte para além do que lhes durou a vida e a fama, como registo de renascimento e tentativa de continuidade. Os escribas de agora lho devem com humildade; os de amanhã o merecem, como prova de gratidão pela atenção que lhe dispensam.

Porque actualmente somos excelsos privilegiados face a eles, porquanto podemos privar com os consortes da nossa tribo sem rebuços esclavagistas, a fim de partilhar, comungar, reprovar, discutir, exibir, rever constantemente e autenticar (pela justificação como pelo contraditório), a relevância das nossas conjecturas e/ou criações, as teorias como a execução delas, as teses e sua experimentação, com o círculo de amizades, ao inverso do que eles fizeram, em reuniões que estavam centradas num determinado espaço-quando público, que se encontra agora espalhado por todo o mundo, ficando no entanto ao alcance de todos e cada qual, o que era só de alguns, e sem os condicionalismos económicos, de etiqueta e de modos, de tempo e de pronúncia, de visibilidade pública (também dito de espectáculo de presença, folclore literário correntista, estímulo e incentivo de excentricidades várias), que felizmente muito pouco têm a ver com a literatura, embora tenham contribuído sobremaneira para a (re)produção da imagem do literato, comummente visto como uma figura, um cromo, espécie de actor sem palco, hiperbolicamente caricaturado como lunático e absorto inadaptado, prenhe de desencantado amargor ou sentida e angustiada solidão, traumatizante mas revertida em letras pelos consanguíneos da palavra ultramelancólica, exemplificada por diversos textos de José Duro, Baudelaire, Nietszche, Rimbaud, Bataille, Verlaine, António Nobre, Proust, Florbela Espanca, Sá-Carneiro, Mallarmée, Ângelo Lima, Jean Coucteau, etc., etc., por aí fora, que emprestou a típica nuança sofredora à literatura, lhe anexou a insatisfação existencialista, essa modelar viscosidade de náusea, de nojo, de luto quase vómito, que a conformou durante largos anos no arquipélago do niilismo, nublado pelas laivosas travessuras dos fetichistas do eu. Do antropocentrismo mórbido do absoluto EU.

Aquele encontro civilizacional, banho de cultura, deixou assim de ser feito periodicamente, com hora e lugar marcado, convivas seleccionados, traje a rigor para ocasião, visto ser possível a qualquer instante, estando cada em seu ambiente e sítio geográfico, sem notícia indumentária nem sob o olharento atrito social costumeiro, precisão de jogos e salamaleques sociais de bem parecer e melhor fingir, ou impressionar de então: faz-se no blog, via e-mail ou comentário, sempre que nos dá na gana fazê-lo, sem correr o risco de incomodar ou ser interrompido, necessitar de bater à porta, recear ser descabido nas observações, armar em intelectualóide ou cair em despropósito, corresponder a exigências maneiristas, considerado bajulador ou vampiresco, nem honrar o (re)conhecimento e favor particular a quem o introduziu (iniciou) na esfera tertuliana. Por quanto os blogs nunca foram, não são nem jamais virão a ser, editoras ou órgãos de comunicação social. São instrumentos de trabalho, ferramentas úteis e comuns a diversos profissionais de socialização, incluindo os criadores artísticos ou os protagonistas da intervenção estético-filosófica na sociedade. Em resumo, perdeu-se a perdição das beberagens absínticas, as noctívagas ressonâncias e excessos de boémia, mas ganhou-se a liberdade para a consumação da amizade escribista, sem os traçados e matrizes da formalidade dos pré-concebidos no affaire.

Por isso importa trazer para aqui, para este local de desacautelação livre e aferência valorativa que é o blog, cada um dos que também assim estariam escribando, se ainda vivos e fisicamente o pudessem fazer. Em nome da justiça e honestidade literária, por solidariedade, reconhecida amizade e empatia, galhardia por que pugnaram, mas que em troca receberam desdém, a indiferença intencional dos seus irmãos de pátria, qual sublimidade que no seu entender foi irremediavelmente a língua em que se expressaram. Dando-se, e com eles, reflectido o silabado mundo em que viveram, para a posteridade possível.

A fala do escriba

"Servidor incorruptível da verdade e da memória escrevo sentado e obscuro palavras terríveis de ignomínia e acusação. Animal cauteloso, escrevendo escrevo-me, retraçando um velho ritual, venho de longe, no verbo latino, no axioma grego; fui escravo no Egipto, engendrei filhos, plantei a árvore, ergui pedra a pedra uma morada. A História que há-de ler-se é por mim escrita.

Tenho a pátria nas línguas em que me digo e aos espectadores silenciosos na treva da oficina, sonhos, ângulos, esquinas e arestas, formas, objectos e panejamentos que ganham dimensão e vida própria, instantes suspensos conjecturando se espaço e terra e eu, elos da mesma continuidade cósmica, pensando em uníssono, constituem fracções de um acabado e unívoco todo, edificação imemorial, porém exacta e ameaçada de ruína, na abside que rompe, deflagrando solene e morosa no modelar das estações, ao ritmo pendular dos dias precedendo as noites.

Porque neste corpo, liso barro rigoroso, o sexo é o meu alcalóide total, que me dá o conforto nocturno do teu corpo de sol, o torpor dos teus braços, a memória do teu sangue, o olvido do teu ventre, por quem em viagens só, meu coração bate contra a pedra do silêncio, como Cão do Nilo sobrevivendo entre o ranger metálico das culatras e o bafo cálido da pólvora.

Escrevo contra o silêncio. Não tenho já nome aqui, a minha voz nasce no deserto, vertical e desnuda, e rompe lâmina cega, porém exacta; bate na pedra, azorrague de fogo, irreconhecível e rouca, sulfurosa e purificante. Mas tudo quanto havia para dizer, eu o disse, com frontal clareza.
"

(Adaptação livre e prosaica de O Escriba Acocorado, de Rui Knopfli, começado a escrever em Lourenço Marques, em 1971, e terminado em Londres, em 1977, segundo é explícito in Memória Consentida: 20 anos de Poesia 1959 / 1979.)

Calibans dos (além) mares

João Pedro Grabato Dias (GD) e RK cruzaram-se essencialmente através do convívio diário, que ainda é hoje o principal veículo de influência mútua, por maiores que sejam as idiossincrasias que separem os indivíduos. Em Moçambique, e da edição conjunta dos cadernos Caliban, onde reuniram, por exemplo e entre outros, colaboradores como José Craveirinha, Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Sebastião Alba, Fernando Assis Pacheco, e publicaram traduções de quase todos os grandes nomes da poesia (ficção e crítica) daqueles tempos e conforme a Primavera marcelista ia permitindo penetrar na lusofonia, graças à enorme ignorância literária dos mentores e fiscais culturais do Estado Novo: Erza Pound, Yeats, Apollinaire, Octávio Paz, Reverdy, René Char, Sylvia Plath, Kavafis, Robert Lowell, Blake, Dylan Thomas, T. S. Eliot, etc., etc.

(Àparte necessário:
Algumas pessoas mostram-se apreensivas e desorientadas perante a atitude escribalista. Não sabem que pensar de algo que parece brincadeira mas é muito a sério. De uma actividade que é deveras nova embora já seja exercida há milhares de anos. De pessoas que utilizam os recursos da modernidade e do progresso para produzir precisamente o mesmo que se criava na ancestralidade antiga, e que terá chegado à península ibérica como terão chegado os cavalos oriundos da Mongólia, em resultado de sucessivas invasões, embora através de meios tão rudimentares e obsoletos como a argila e estilete de cana afiada.
E têm razão. Estão não só no seu direito como obrigação de estranhar. Fazem carradas de bem aos escribalismo emprestando-lhe a sua sã desconfiança. Porque isso prova que sobrevivem de forma infra-humana, estão reduzidos aos brochados fundamentais, sentem sadio receio por tudo quanto desconhecem à semelhança dos primitivos da savana, ainda adormecem de balalaica ao peito, andam de gatinhas face aos poderes instituídos e seus poderosos representantes ou algozes, esperam sebastiões de qualquer fumaça desportiva – mundial, europeu, torneio de matraquilhos... – que os leve às quibíricas da humilhação, desprezam a língua em que se expressam e são imensamente felizes na sua bem-aventurada cobardia e carência cívica ou cognitiva. O que é esta, indubitavelmente, a melhor maneira de afastarem os escribas do seu convívio e influência, deixando-os assim livres e disponíveis para exercerem os seus misteres, isentos da sua perniciosa e perversa mentalidade, moral abjecta, numa espécie de vacinação do papiro contra a mediocridade e desinteria emocional que lhes subordina a consciência, e faz com que abanem o rabo e lambam as botas a qualquer salazar que lhe esguiche o veneno em que se destilam. Enfim, facilitando-lhe a maneira adequada para os escribas se afastarem deles sem pejo, constrangimento ou remorso, que sem dúvida sentiriam se o fizessem por iniciativa própria. Pelo que a sua aversão ao escribalismo é a sopa no mel que faltava, e o maior favor que os arruaceiros das bandeirinhas podiam fazer à humanidade, uma vez que permite que aqueles que efectivamente se preocupam com ela, se lhe dediquem por inteiro, sem perder demasiado tempo com empecilhos.
Sobretudo porque a maior parte destes insignes proprietários da coisa mental até têm cursos superiores e são respeitosamente agraciados com os ícones da pedantocracia, que lhes alimenta a peeira de consciência e os torna benquistos nos sufrágios locais, nacionais e internacionais. O que gera e denota alguma curiosidade científica, já que não obstante a sua primorosa formação reajam ao escribismo com igual desenvoltura que a Igreja inquisitória reagiu a Galileu, ou semelhante à daqueles tempos faraónicos em que ele, o escriba, era mandado queimar vivo ou lhe decepavam os membros superiores sempre que se esquecia de tecer loas ou louvores ao seu senhor e amo em qualquer reportagem sobre uma noite de chuva que contribuiu para o alagamento do leito e delta do Nilo. E exactamente as mesmas pessoas que ulularam ovações, bateram palmas, estouraram foguetes e abriram tendas de "comes & bebes" no recinto fronteiro à execução sumária e efectiva dos condenados pelas sentenças imperiais e religiosas, sob as quais enorme número de escribas pereceu: a estirpe dos bem pensantes, proprietários da razão como da dúvida. Senhores únicos do direito à prosperidade e reconhecimento dos seus pares (e ímpares – que para os seus confrades de despotismo, não só é um merecido direito mas também uma concessão divina, para quem todos os números contam e argumentam irrefutavelmente).

O que GD realmente não desconhecia.

9.21.2006

Presente

PRESENTE

Que é isso de a gente
Estar à porta do tempo
Com um pé fora e outro dentro,
Trajados no rigor descendente,
Com a certeza que o passo não nos pertence?

Não há prosas vãs, rimas falhadas,
Quando os momentos são directos
Em que todas as noites são resultadas
Do acontecerem dias completos,
Na surpresa graça do que soído fora.

Que o amanhã é um ontem que vigora,
Embora haja quem lhe chame futuro sustentado
No humano designo de um soneto inacabado
Ou daquilo que eu, rústico e tosco, nomeio apenas por agora!

PEDAGOGIA

Tu, és filha de um ano lectivo.
Nasceste quando as aulas começam,
Foste feita nas férias do Carnaval...

E anseias por que terminem
Para te estenderes no areal!

Crónicas (In)divisas
Por Joaquim Castanho
osverdes.ptg@gmail.com

Já ninguém duvida por método mas por necessidade e sobrevivência...

A César o que é de César. A Deus o que é de Deus. Ao Estado o que é de todos.

Não obstante o Ministério da Ciência ter garantido recentemente que o Reactor (Nuclear) Português de Investigação, a funcionar em Sacavém, estar devidamente licenciado, o que é certo, é que de acordo com informações veiculadas pelo Ministério/Instituto do Ambiente, este reactor continua como estava há décadas: sem licenciamento.

Os factos são o que são; são factos – e nada pode ser uma coisa e simultaneamente a sua contrária. Em filosofia diz-se que o que é, é. Em política, se é de sensatez, persegue-se esta lógica para incentivar à descoberta da verdade, a fim do que a democracia possa surgir à tona das problemáticas, livre de transgénicos sentidos, limpa de dogmatismos, escanhoada de propagandas falaciosas.

Portanto, além da dúvida e da controvérsia, do diálogo que superintende as negociações, outras interrogações nos acometem de não menos pertinácia: Como é? Que sucedeu, ou que sucede, para que o não licenciamento do reactor nuclear se tenha escondido durante tanto tempo? Porque estamos nós, portugueses, a fazer aquilo que combatemos noutras pátrias? É receio de sermos invadidos como o Irão?...

Houve algum aconselhamento nesse sentido da parte dos Institutos do Ambiente e dos Resíduos? Que resíduos radioactivos produziu até hoje e o que tem feito o Instituto Tecnológico Nuclear para os acondicionar ou eliminar? Se não sabemos sequer que destino lhe tem sido dado, como aliás sucede com os resíduos hospitalares nucleares, como podemos estar confiantes acerca das condições do seu acondicionamento ou uso para que foram reencaminhados? Quem o faz e como se faz, com que regularidade, quantas amostras foram recolhidas e analisadas, no capítulo da monitorização ambiental de grau de radioactividade, conforme o regulado no DL 138/2005? Estamos bem em Portugal ou convém emigrar para o algures patagónico a fim de salvarmos a estirpe dos Viriatos? Este era o único segredo que nos reservavam sob a perspicácia do interesse de Estado e bem público ou têm mais alguns na manga? Se sim, quantos, e com que nível de gravidade para o nosso futuro e dos nossos descendentes? Por quanto tempo mais vão continuar a brincar com a segurança dos contribuintes que lhe pagam os salários para lhe defenderem a vida mas a quem têm sonegado informações essenciais sobre matérias tão perigosas como os resíduos nucleares, que podem afectar directa e indirectamente o seu bem-estar, qualidade de vida, saúde e ambiente? É precisamente a isso que se referem quando nomeiam a necessidade de aprofundar a democracia e implementar a cidadania, aumentar a participação democrática, melhorar os níveis de envolvimento e responsabilidade cívica do povo português?

É?... Então, obrigado pelo exemplo!

Ou, se calhar, perdeu-se o dicionário que tínhamos e já nenhum dos sinónimos tidos para palavras tão simples como civismo, pluralidade, igualdade, solidariedade, fraternidade, frontalidade, é o mesmo que descobrimos nos bancos da escola... Se calhar!

9.14.2006

Deitar-me-ei em casa e fingirei estar doente

TESES EM CONDOMÍNIO FECHADO

6. Há diferenças entre escribalismo, literatura e propaganda

"Deitar-me-ei em casa
e fingirei estar doente.
Entram os vizinhos para me ver
e lá vem a minha amada com eles.
Ela fará os médicos supérfluos
pois entende bem o meu mal!"

(VI poema, do Papiro de Harris 500)

Em primeiro lugar, convém que se esclareça que escribalismo não tem nada, mas absolutamente nada, a ver com qualquer espécie de canibalismo e, muito menos, com as referências fundamentalistas dos escribas das sagradas escrituras, do livro dos livros, emparedado na sinonímia comum de Bíblia, tábua de acomodação discursiva para a fleumática dos profetas e dos semióticos guerreiros, dos esotéricos e dos monásticos. É sim o reduto teórico daqueles que através dos tempos usaram a escrita (cuneiforme, hieroglífica, hierática, ibérica ou silábica), nos mais diversos suportes (pedra, barro, madeira, ferro, papiro, tela, tecido de seda ou algodão, pergaminho, papel ou word electrónico) para expressar o diálogo, intercepção, conflito, fusão ou dispersão, que a sua voz interior experimentava no contacto com a sociedade, tanto para melhor se conhecer a si mesmo, como para se dar a conhecer aos seus semelhantes, ajudar a que estes melhorassem o conhecimento que de si tinham, ou dos demais, bem como a forma pela qual se implementaram partes essenciais da estrutura civil (e estatal) ou cognitiva de qualquer povo e país, desde os tempos egípcios antigos até hoje, relatando-se e, consigo, as particularidades do meio social em que viveram.

Além daquela maneira de revelação original que gere, modifica, analisa, expõe e avalia a verdade, ou universo de conjecturas supostas como tal, no âmago da sua opção discursiva e com que pejaram de pontualidades (sempre) subjectivas a universalidade humana: poética ou narrativa.

Nesse sentido o escribalismo é também uma fórmula eficaz para o escritor se afastar, se separar, se aboletar em condomínio fechado, onde não será permitida a entrada aos membros do clã dos críticos paroquianos do provincianismo que confundem arte com bosta moral, que normalmente se debruçam sobre a literatura mas são marginais a ela, e em seus excelsos canudismos a enrolam num emaranhado de rebuscados conceitos (aquilo que as cabeleireiras denominam de permanente) estruturais, camisas de forças com que tentam manietar e domar a livre criação dos escribas, numa panóplia de fundamentos adversos às definições não belicosas de literatura, ou atribuindo-lhe motivações, funcionalidades e préstimos que lhe são especialmente alheios, normalmente especulativos e afectos àquilo que chamam correntes ou doutrinas estéticas, mas que mais não é do que um subtil artifício político e de propaganda na tentativa de obrigar determinados escritores a enfileirarem no batalhão dos seus soldados, raposinhos adoradores do chumbo que se lhes cravou sob a pele após o tiro crítico, alinhados correligionários do seu bandeirismo artístico, adeptos fervorosos do quem não é por mim é contra mim, que tanto prejudicou a literatura e seus intérpretes ao longo dos tempos, dizendo-lhe definitivamente que basta de arrazoados simiescos de quem é falho de talento para criar e se vinga apreciando, qualificando, envenenando e torcendo os textos literários com o pretexto da sua divulgação, pois aqueles que realmente fazem literatura são suficientes para além da criticarem, promoverem e divulgarem sem as bastardias dos arruaceiros da praça pública, legendando cada crítica sua com o epitáfio molecular de
«Parabéns. Ganhaste... Alguém perdeu.
Só que desta vez não fui eu!»


Dado ser inegavelmente fantástico o prazer que algumas pessoas sentem em elogiar livros que não prestam de autores tão medíocres, cujas obras não passam de meros palimpsestos mal assimilados e pior digeridos, só pela esperança de que com isso consigam arreliar alguém. Não esclarecem os méritos seja do que for, a não ser que com eles possam denegrir outrem.

Portanto, das duas, uma: ou são tão aparelhadas de visão como as mulas de puxar carroça, em que as palas do cabrestão as não deixam ver para os lados nem para trás, tendo que fantasiar enredos que lá poderiam estar mas quase nunca estão; ou o seu empenhamento em fazer má figura é tanto, que não se importam de correr qualquer risco para o conseguir.

Admitamos a melhor das hipóteses, a segunda, que é a menos perversa das duas e se apresenta com alguma dignidade e honestidade naif, embora ambas sejam características de quem está deficientemente formado, atrofiado moral e muito mal intencionado em literatura, com o fito de compensá-la pela coragem demonstrada, acerrimamente cristã, feudal, de nobre cruzada contra os infiéis, fundamental, missionária, kamikaze ou de suicida bombista, de quem morre por autocrucificação para salvar a sua tribo, porquanto seja uma atitude primária é também falha de invenção esquizofrénica ou paranóica, logo igualmente destorcida da realidade mas não tão insana quanto a primeira. O que, diga-se para abono da verdade e salvaguarda da sanidade estética ou justificação condigna ao seu papel socializador, não é, nunca foi e jamais será literatura, nem sequer jornalismo ou crítica literária, antes abnegação pura, cujo mérito, a tê-lo se esforçadamente o quisermos encontrar, se pode atribuir ao âmbito arturiano da busca do Santo Graal, e da esotérica defesa da Terra Santa e Santo Sepulcro com que o esclavagismo medieval e religioso se apetrechou para vencer os seus demónios interiores e aquilo que denominou de barbárie exterior.

Há assim que discernir entre o que é literário, então matéria e reflexo de uma técnica que se prende exclusivamente ao modo de produção de pensamento e ideias através do exímio tratamento da palavra, depuração silábica e metamorfose lexical, e o que é indubitavelmente propaganda do eu, uso da palavra para expressar uma teoria de vida, uma cosmogonia ou ideologia, onde alinham simultaneamente muitos fenómenos da polissemia, da subjectividade narcísica e condicional do niilismo, como diversos recursos escolásticos, de efeitos florísticos e retóricos, ou de embelezamentos barrocos da frase, da estrofe e do parágrafo, também por alguns erroneamente apelidado de estilo. Porque o corpo, visto como motivo estético, promotor de literatura, qualquer que ele seja, só pode ser anatomia (animal, vegetal, mineral) ou pornografia, se dele seccionarmos partes, pudendas ou não, se delas fizermos grandes planos descritivos, fixarmos obsessivamente nelas a narrativa (ou poética), quer ele pertença ao eu que escreve ou ao tu a quem este se supõe dirigir-se, o que faz dele veículo de mensagem mas não literatura, já que se não pode considerar uma voz de si, palavra surgida da moldagem na expressividade própria e significado ímpar, mas uma aplicação ou adaptação para que diga a nossa intenção determinada, aquela que sustém e motiva esse escrever. Ou enunciado. Ou exposição. Ou tese que se quer confirmar e demonstrar argumentando.

O escriba está, é, emite-se no que produz. O propagandista demite-se, utiliza-se para se vender ou àquilo que apregoa. E essa não pode ser somente uma diferença residual insignificante: é toda a essência opcional entre escribalismo e diletantismo intelectual, como costumava referir Eça de Queiroz.

Ou seja, tal como é visível no VI poema do Papiro de Harris, finge-se uma doença para demonstrar uma paixão, mas não se finge uma paixão para esconder uma doença. Não embeleza a realidade mas antes se lhe entrega e lhe sucumbe, ainda que para isso tenha que ficcionar (ou mentir). E isto nunca serão, torça-se o que se torcer, duas vertentes, perspectivas da mesma definição de literatura. Pois não há como meter duas coisas tão diferentes no mesmo cabaz, a não ser que o crítico e a pessoa seja míope para uma e para outra, e nas duas incapaz. Nunca. Ok?
Por outro lado, o gesto artesanal da escrita enquanto actividade sem a qual o escriba nunca poderia ser quem deveras é, quer do ponto de vista da resolução do seu conflito, quer do da forma como ele se reflecte na realidade que o circunda ou na visão que porventura dela tenha, deve – ou pode, conforme estejamos do lado operativo, criador, de agente, ou do lado crítico, do observador e do usufruto do bem cultural –, ser efectivamente visível na maneira de agilizar e encadear o discurso, independentemente da opção que tomou como definitiva, acaso o tenha feito, considerando que para muitos isso não tenha sido assim tão fácil nem claro, a fim de estabelecer nele, como em si mesmo, a "utopia" do equilíbrio genérico. Porque nunca é suficiente matar o outro (poeta ou narrador) que no íntimo habita para se conseguir a definição pacificadora em que ciranda a utópica harmonia, nem tampouco revelar as regras instituídas acerca do pacto unificador, se o houve, e que não raras vezes são confundidas já como literatura, ou da enunciação das quais podem resultar textos muito próximos daquilo a que chamamos literários, genuínos e eivados de quase todos os desvios e características desses textos, pois não nunca será totalmente líquido que regras são essas que vigoram, se imperam em ambos os sentidos, nem que tipo de influência exercem para engendrar essa convivência e coabitação possíveis, ainda para além dos limites do desejável. É igualmente necessário que o poeta reconheça o narrativo como testemunha essencial, ou vice-versa, e quase farol, margem de navegação à vista, em função do qual, enquanto resposta directa às exigências, expectativas e alinhamentos criteriosos, ele, o discurso eleito, o género escolhido, enfim a obra, o texto, se erige. O que, no fundo, equivale a reconhecer que um escriba, ao contrário do simples escritor, indiferentemente de ter optado por fazer poesia ou romance, faça o que fizer, o fará sempre sob a acutilante vigia, sageza, flexibilidade vocabular, destreza gramatical e insinuação oratória do outro. Porque é esse diálogo que os veicula e de cuja intensidade depende a justificação, generosidade, proliferação e fertilidade de uma obra. Incluindo o tamanho! A extensão e alcance!...

CHEONG-SAM: A Cabaia
Deolinda da Conceição
Instituto Cultural de Macau – 1995

A autora não é nova, o livro não é recente, o género não é original e a problemática milenar: as diferentes formas de se ser humano, principalmente mulher, numa sociedade patriarcal. Ou duas: a chinesa e a portuguesa.

E são contos, senhores; pequenas histórias, pequenos quadros, excelentes apontamentos do empalhamento social, da tecedura (trama) em ponto de cruz colonial, desse ver a ser-se visto a observar o que nos rodeia, cuja primeira edição é datada de 1956, que reflectem o ambiente multifacetado sino-português da época sob a perspectiva de quem o viveu e lhe assistiu simultaneamente. Falam sobretudo das preocupações e estádios do quotidiano feminino, cerzidos em malha limpa, escorreita, tricotada cuidadosamente em linguagem concisa e sucinta, mas emotiva, com meticulosa pormenorização de tipos e entrançado das sílabas, de alguém que vai bordando no papiro da alma os motivos da sua vida, para o registo da humanidade em tranches fatiadas de modos no tempo.

A espelhada visão de quem é duplamente colonizado, quer pelo ocidente (os sai iong cuai – demónios do ocidente, como eram conhecidos os europeus), como pelo oriente, sem que possa interferir mais nesse processo do que assistir-lhe, conviver conjugalmente com ele desconfiando acuidadamente não haverem muitos motivos para sublimá-lo, uma civilização que tem tanto de milenar quanto de primitiva e supersticiosa, terra de letrados, adivinhos e feiticeiras, cujo contacto com os estrangeiros se fez mais pela invasão do que pelo câmbio cultural, amuralhada na tradição, nos traumas de guerra, resultantes das experiência nipónica, inglesa ou portuguesa, e mesmo assim aceita o destino com humildade e obediência, bate cabeça aos seus deuses, os celebra com generosas oferendas e festejos de elevados colorido e duração. A China das mulheres reduzidas à sua missão familiar de mães e esposas, mais valorizadas pelo número de varões que dão ao seu senhor, que partilham com as demais mulheres que este desposou, do que pelos seus talentos, humanidade e consciência cívica, onde o casamento se estabelece como espécie de contrato de compra e venda através de dotes, se vêem garantia de cumprimento de promessas e vinganças, ou se matam para não trair os seus sentimentos, mas também se arrastam em desgraça esmolando, vítimas de fome como de difamação, de abandono ou consequência por terem tido a coragem de romper o ciclo de fados que pelas famílias lhe fora traçado: a china da civilização com elevado teor narcótico, na cultura das lanternas vermelhas e dos dragões, dos pagodes, bonzos, códigos de honra; das tríades, do chá, dos rituais, mitos, ópio, prosperidade e ostentação, obediência e gerontocracia; das sedas, dos cetins, das cabaias, dos jardins secretos, do jade, das óperas, das sombras, das tabuinhas e dos bambus; da trágica sorte dos desafortunados como das paisagens idílicas da terra da promissão e arquitecturas celestiais. Enfim, do fatalismo oriental como da beleza inocente, a porcelana sonhadora das adolescentes que aspiram à felicidade tendo por único veículo a paixão e o amor. Uma China genuinamente chinesa com gente dentro, tão profundamente igual e diferente a todo o mundo, no martírio quanto no privilégio.

Deolinda (do Carmo Salvado) da Conceição não é apenas mais uma escriba que resolveu pela prosa, pelo conto, a sua necessidade de expressar a "poética narrativa" que lhe ia na alma e no corpo de filha de macaense com europeu. Era também a secretária executiva e administrativa de jornal – o Notícias de Macau –, que dirigia a Página Feminina desse órgão de comunicação, que tinha por línguas além da portuguesa, a inglesa e diversos dialécticos chineses, casada em segundas núpcias com o chefe de redacção mas porta-voz da dupla fragilidade característica da mestiçagem genérica, de corpórea e cultural. Era o cruzamento de imensas possibilidades que soube fazer as suas escolhas sem nunca arrepiar caminho, e os seus contos pela minúcia dos pormenores, pelo escalpelizar dos sentimentos, pelo background em que se estampam as acções e (a)venturas, personagens e valores, são disso o magnífico exemplo, onde não há nenhum rebuscar de frases feitas, de clichés, de enquadramentos em correntes e ismos da estética literária da altura, mas sim o depoimento, o relato do escriba que fixava os acontecidos instantes de si e do meio onde vivia: a portugalidade fora da Barra.

Falecida um ano depois da edição do livro, visitou pela primeira vez a metrópole, designação dada então a Portugal continental, em 1955, ano anterior à publicação, editando-o aqui, sim, mas com capa de Bernardino Senna Fernandes, artista macaense, demonstrativo da tempera afirmativa da sua autenticidade mista, da presença de quem não arreda pé de ser quem é, e como foi desse condomínio que julgou, viu e descreveu o fenómeno humano, principalmente feminino. Aliás narrativas carregadas de experiência pessoal, de sentimentos íntimos, profundas dores e alegrias, transposição da sua vida como da alheia, tipicamente chinesa, onde o sangue e a geografia sentimental da escrita vigoram, imperam e se impõem signo de resistência e liberdade.

E não será essa a justa definição de eternidade? Aquele espaço-quando ímpio e sem lamechices, apenas acessível aos que transpõem a transparência do que são naquilo que fazem e dizem? Muito obrigado, Deolinda, pela concepção dessa alma que ainda perdura em cada conto...

9.09.2006

Parabéns Antónia Rita

PARABÉNS ANTÓNIA RITA

(Central, 8 de Setembro de 2006)

Avozinha!... Estou aqui; não estranhes...
(Eu sei que poucas vezes te tratei assim
A não ser quando estava doente!) Mas sou o Quim
O de sempre; aquele que nasceu depois de ti,
Só um dia depois, mas também um dia antes...

Sei que terias orgulho de mim, neste momento...
Sobretudo pela companhia. Ela consegue
Como tu esquentar o frio, arrefecer o calor, mudar o vento,
Arrepiar o pesadelo, suster o rodopio que me persegue
Na febre, o receio, como tu conseguias – ela consegue!

Te celebramos com sopa... Não leves a mal.
Que da horta, na horteloa que foste
Ainda não há quem melhor mostre
Como da folha de qualquer copa
Se pode fazer uma sopa
Juntando-lhe apenas água, azeite e sal.

Ou soro para enfermo, como fazias
Com salsa, hortelã, caldo de carne e pão
Matando varicelas, sarampos, papeiras e demais agonias
Que não poupavam o crescer à trupe do calção.

Mas hoje, escuta a Philipa... Ela tem algo a dizer
Além de ser Antunes e ter a marca do Brasão:
– Parabéns avó! – Tu que foste sangue, carne, osso e pó
És igualmente agora aquele simples coração
A bater, a pulsar, a ler, a tinir sem mágoa nem dó
Nas colheres que brindam o plim-plim do teu renascer.
Parabéns avó, que a morte não é condição
Que apague o teu amor ao amor, nem vontade de viver!


Filipa Brasão Antunes
Joaquim Maria Castanho

Mousinho de Albuquerque

Mousinho de Albuquerque
António Ventura
Editora Planeta DeAgostini
Col. Grandes Protagonistas da História de Portugal
Capa dura,192 páginas, em papel reciclado

Eis um livro reconfortante!
Embora seja indiscutível que aqueles que melhor compreendem o mundo mais chances têm de nele sobreviver, ou que se Deus escreve direito por linhas tortas na política e na justiça se costuma escrever torto por alíneas do direito, como da glória à ingratidão vai um passo de anão, este livro de António Ventura, autor portalegrense director da memorável revista A CIDADE, licenciado em História (1984), Mestre em História Contemporânea (1988), Doutor em Letras (História Contemporânea) pela Universidade de Lisboa, Professor do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa e Equiparado a Professor Coordenador da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre, colaborador das revistas Clio e História, mas que outrora também foi docente das Escolas Mouzinho da Silveira e São Lourenço, em Portalegre, como da Escola Preparatória de Arronches, que esteve ligado às exposições "comemorativa do centenário do nascimento de Emílio Costa" (1977), "Portalegre - Homens e Livros" (1980), "Retrospectiva da Imprensa de Portalegre" (1981) e "Portalegre no Século XVIII" (1983), colaborador da imprensa regional, nomeadamente da A Rabeca, Fonte Nova, O Distrito de Portalegre, Notícias de Elvas, Diário do Alentejo, ou ainda da nacional, em títulos sobejamente conhecidos como Seara Nova, Diário Popular, O Ponto, Diário de Notícias, Diário de Lisboa, etc., vem confirmar a clareza, rigor, correcção e harmonia discursiva a que nos habituara desde o primeiro livro publicado em 1976, intitulado Bento Gonçalves, Escritos (1927-30), e profusamente disseminado pelos demais do género (v.g. D. Francisco Bravo / Bispo de Portalegre, Edições "O Semeador", em 1981; José Frederico Laranjo, ed. Assembleia Distrital de Portalegre - 1984; Eusébio Leão, ed. Câmara Municipal de Gavião - 1991; Teófilo Junior, ed. Câmara Municipal de Arronches - 1991; Joaquim Vermelho, ed. Câmara Municipal de Estremoz / Edições Colibri - 2003; Feliciano Falcão, ed. Câmara Municipal de Portalegre / Edições Colibri - 2003), além de contar-nos a História de Portugal através da caracterização e biografia dos seus intérpretes, à semelhança do efectuado por outro nome da nossa portugalidade, igualmente exímio no retratar e recriação contemporânea embora que menos austero e disciplinado na narrativa: Oliveira Martins - acerca do qual, Moniz Barreto terá afirmado que "retrata tão bem o fundador do jesuitismo, como o filho da lavadeira". Aliás, garantindo mais: que embora sendo nos retratos que ele triunfa, como se podem ver dependurados em todos os cantos da sua obra, vastos como quadros ou concisos como medalhas, "se ordenasse e concentrasse, o efeito seria fulminante e a crítica batida recuaria até à admiração".

Descodificar os compostos sociais através do desenho dos caracteres, cenários interiores, naturais, políticos e conjunturais, acções, sentimentos e valores que alinhavaram a "alma" das individualidades históricas, ou daqueles que tornaram o momento que viviam num impulso determinante para a bandeirada do futuro dos seus compatriotas, é uma tarefa assaz difícil, para a qual a prática e pesquisa de inúmeros anos muito pouco pode ajudar se se não estiver também apetrechado duma grande flexibilidade vocabular e excelsa empatia, porquanto cada um desses protagonistas além de ser caso único é igualmente meritório de tratamento especial. E Mousinho de Albuquerque, o herói de Chaimite, que subjugou os Vátuas, primeiro aprisionando o rebelde e insubmisso régulo Gungunhanha e depois matando o seu seguidor Maguiguana, cuja saga das campanhas moçambicanas culmina em gloriosa apoteose de reconhecimento e prestígio quer do povo português, como dos seus governantes ou dos seus similares europeus, no que é utilizado diplomaticamente para sanar algumas quezílias com países igualmente interessados em África (França, Grã-Bretanha, Alemanha, Prússia), mas cuja influência não foi suficiente para aplacar a mediocridade política do corporativismo partidário português que o levou ao suicídio, após o ter desmoralizado perante o povo como aos olhos dos seus soberanos, posto que sendo aio do príncipe Filipe é-lhe aviltado um affaire com a rainha D. Amélia, está nessa linha de personalidades a quem as dificuldades de caracterização apenas são desafiadoras para os que, como o autor deste livro, não temem enveredar numa actuação que ultrapassa a mera produção livresca, atinge as raízes sociais da cultura, se escora numa necessidade de investigar nascida da acção concreta e da capacidade de intervenção sobre a realidade cultural envolvente, ou de quem já era historiador ainda antes de cursar História, como o espelhou José Martins dos Santos Conde, em 1985, num artigo tornado público pelo então semanário Fonte Nova.

E reconfortante por três motivos: primeiro, porque é imprescindível que se reconheça como obras desta qualidade nada ganham em ser impressas noutros países da CE, ao caso em Espanha onde este o foi (Rotapapel, S.L., Móstoles - Madrid), visto que o aprimorar dos acabamentos, mais precisamente da justificação do texto, lhes acrescenta alguns busilis desnecessários na divisão silábica, que as entorpecem e levam o leitor a trepidar, perante os quais os autores, além de alheios, são manifesta, por mor da distância, e absolutamente impotentes. Segundo, porque nele se demonstra que o génio e instinto, formação e ética, raramente são suficientes para romper a teia dos corruptos e maledicentes ao abrigo da lei, das panelinhas do poder, dos tições económicos incendiados com que os empestados emocionais da percepção motivada tentam fustigar e destruir a dignidade, a moral e os feitos dos homens de bem, os autênticos e solitários que não temem dizer que um boi é um boi, quando de algum boi em realidade se trata, nem de uma rã que rã é, quando outra coisa não se avizinha que seja; como não bastaram a Mousinho de Albuquerque que condenado ao suicídio lhe sucumbiu, não obstante ter vencido demais perigos e guerras esforçadas, embora dos arregimentados causadores da sua desgraça a História não registe outro epitáfio além das datas de nascimento e morte, perdidas em qualquer livro de registos apodrecido sob o musgo dos tempos. E em terceiro lugar, porque permite que os homens de boa fé de outras épocas reproduzam e aprendam com o exemplo daqueles que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando, bem como fazer alinhar um português - o seu autor -,na senda das grandes editoras europeias, mas não só português, como igualmente alentejano, e acima de tudo portalegrense. O que, portanto, no mínimo é consolador para todos quantos ainda não perderam a esperança de inscrever o Alentejo nas rotas da cidadania, e no-lo impõe não só na estante como também na linha da frente das prioridades de leitura!...

Estórias e retratos da História

Conto IA Fábula do Indicador de Comandos

Tempos houve em que a acreditação de um homem, na praça pública, se fazia pela quantidade de burros e camelos que possuía (ou representava). Qualquer gaja boa podia valer, por exemplo, 20 camelos, e no entanto significar excelente negócio para o comprador, já que a sua aquisição certamente acarretaria, por arrasto e transferência de outros pastos, para o seu escore de propriedade e audiência, um elevado número de burros (e até de cavalos!), valorizando-lhe a herdade com subidas de densidade, variedade de malhagem, fixação de genótipos, que podiam chegar a 20% dos totais asininos nacionais, o que inconfundivelmente beneficiaria muitíssimo o comprador em publicidade e capacidade de negociação futura. Incluindo o levantar o preço de venda das suas criações e linha de montagem, com exportações de esperma e órgãos para transplante, clones, enlatados de conserva e enchidos científicos.

Principalmente se a gaja tivesse três tetas, personalidade avassaladora, sofrido violações, abortado quadrigémeos, actriz pornográfica ainda em muito bom estado, raptada, refém de terroristas ou assaltantes de bancos, ex-concubina de magnata ou pedófilo famoso, tivesse crescido sequestrada numa masmorra e amamentada por dragões insaciáveis. Que essas, sim essas, havia quem as pagasse com cem camelos e dez cavalos e ainda lucravam com o transacção, às vezes duplicando e triplicando as mais-valias, para gáudio das burricadas gerais, cáfilas, manadas e poder financeiro com expressão bolsista.

Certo que eram tempos consagrados pelas universidades, ciência, empresas de comércio e produção de tecnologia, à proliferação de asnos, não obstante o seu baixo valor individual, porquanto eram precisos cinco burros para pagar uma mula, duas mulas para um camelo, três camelos por um cavalo e dez cavalos por uma esposa com boa apresentação, ainda virgem (ou quase), personalidade catalisadora, óptima dicção e fluência em várias línguas, carteira de frequência em manicuras e saraus de arte & moda bem preenchida ou inscrição no protocolo dos ginásios e gineceus mais populares da urbe.

Por isso, tudo era feito em função do seu número, gosto, mentalidade, aplauso, procriação, felicidade, bem-parecer, moral e arrebatamento. Os homens sábios, determinados, audazes, empreendedores, competitivos, empresários de sucesso, chegaram mesmo a contratar escribas, pagos em cavalos das mais premiadas ou galardoadas coudelarias, cujo léxico e estrutura congnitiva melhor reflectissem, espelhassem, traduzissem as expectativas e anseios jumentinos, com o objectivo de dificultar a mudança de ferro, sua dispersão por prados e lezírias de charneca duvidosa, pastagens alheias, canais de flutuação e concorrência, directa ou indirectamente adversos aos adventos e missais dos seus patronos. O marketing e linhas gráficas ou/e de design, estudaram-nos em profundidade, instituíram-nos como bitola criativa, supra-sumo de excelência e ideal a atingir, auscultaram-lhe os pareceres, fizeram estatísticas, sondagens, tratados científicos acerca das suas tendências de zurro, características de habitat, necessidades fisiológicas individuais e de espécie, genealogias e migrações; produziram diversos a vedetas, deram-lhe carisma, grupos de fãs, ícones, bandeirinhas, formação e discurso enquadrado em universos semióticos e sinalética de eficácia indesmentível, bem como os cumularam de honrarias e comendas prestigiosas.

Enfim, não fossem estas terríveis saudades por tais eras, a prostração nostálgica em que me abato, eu nunca passaria tanto tempo a ver televisão... Mas assim, os remédios para a depressão e melancolia tão caros, as consultas de aconselhamento e terapia psicológica fora de orçamento, que me resta senão seguir as instruções dos manuais de comandos, para trazer para próximos os longínquos tempos, tornar-me o futuro Noé da arca? Aliás, como as profecias e escrituras, nos recomendam muito bem e a propósito: quem não pode caçar com cão, coça c'o dedo!

"Se a unha deixar...", acrescentam as teorias da moderna ciência, inovando a bem do rigor, da verdade e da irreverência que há-de (re)confirmar a tradição dos ditados, ditames e originalidade com que os céus da popularidade nos sagraram a espécie eleita.

Assim falou a mula da cooperativa à pequenada!

Conto II A Lenda do Provérbio Proverbial

Tal como da mula a graça lhe advém do coice, também o pior veneno dos cogumelos está nos fígados de quem os ingere.

Por cada vez que me deparo com a indigna crueldade de o dia ter apenas 24 horas, sinto-me terrivelmente burlado, defraudado, violentado, e comigo toda a humanidade, que não há destino que me subjugue e não lho faça também. Porque é que o tempo e a vida não existem na razão directa da nossa necessidade de viver? Somos uma espécie assim tão imerecedora do Paraíso e da Eternidade que até a linguiças cronológicas nos aperranhem o fado? Que mal fez a humana espécie ao Criador para Ele se vingar de nós limitando-nos o usufruir de um bem que nem coisa é, e por fartura é de borla – o tempo? Não havia outras maneiras de nos demonstrar a Sua omnipotência e superioridade? Bem...

Ireneu Passouvite, famoso alentejano a quem o tempo sempre escasseou, conhecido por andar rápido, o que é iníquo oxímoro que estigmatiza qualquer indivíduo, pior ainda que aquele do correr devagar, de ascendência belga, nascido nos alqueives da beira do Alqueiva, num dia assim-assim, confrontou-se pela primeiríssima vez com a morte quando se despistou nas azinhagas de Borba, ao volante do seu dois cavalos, máquina à época apreçada por 60 burros, mais coisa menos coisa, dependendo das oscilações da bolsa e custo do barril, baptizado com preceito arturiano de Roxinante, conforme era sabiamente identificado no grafite das portas, onde, em garrafais pop-arte o mecânico das tabuletas lhe afixara o designo. Quiçá em homenagem (ou desfeita, que o protocolo peninsular é basto e avezado neste género de equívocos...), a essoutro astronauta ibérico, piloto de jericos em segunda mão, que por trigo limpo assobiava repinocante acompanhado ao cavaquinho pelo desmascarador de gigantes que se disfarçavam de moinhos para melhor nos moer o juízo, lidador pela honra das dulcineias do reino, pelejador de causas justas com camisas largas, furadas na esgrima das traças, eis que o nosso herói Ireneu de louro celta e sardenta tez, visitava dia sim, dia sim, a sua conversada num monte tipicamente convicto, a que não faltava a choupana de rodapé azul nem a azinheira mendicante dos viçosos sonetos, onde se denúncia a exagerada gula de água aos chaparros de tão rala sombra, como rezam as floribelinas escrituras antigas.

Ora, cabeceou o navegante no regresso do namoro, por falta de sesta, e baldeou o faval numa curva a direito de quem vai aos tortulhos, cruzando o restolho na gáspia até afocinhar no trancão dum sobreiro com a cortiça tirada de fresco, o que não lhe almofadou nadica o estatelanço no secular madeiro, espécimen de "quercus" na glande e montado, de encarniçada derme com o nove cabalístico caiado nos trombis, de importância e valentia, orgulhoso da catalogação, por exibir o maior dos números da escala decimal, que nunca dali arredara pé desde que nascera, e não estava pelos ajustes com os ditames doutrinários dos 60 burros que lhe impunham a mobilidade e intentavam assim inverter o curso da história e tradição!

Portanto Ireneu se a ressonar vinha, mal acordou, de pronto adormeceu, resultado da violenta acometida entre as feras desses trancos e barrancos, a árvore e as bestas do Roxinante, cuja estocada lhe amolgou a chaparia, e deixou o condutor em lastimoso estado, de frontaria escaqueirada e bacia quebrada, ilíaco, sacro e cóccix enlatados compactamente, num molho fundido à pressão, sob a força dos milhares de anos com que a história aportou ao cais da civilização, fazendo-se testemunha privilegiada do conflito entre progresso e natureza. Valeu-lhe, ao caso, o estrondo do embate, que soou ainda para lá das encolhas da planície, dado o sossego e calmaria da hora, que desinquietou carraceiros, moscas e moscardos, mas principalmente espantou a Famel ao moiral, que retornava da vila onde se fora aviar de tinto e kenthukys, e não obstante o capacete sobre o boné, lhe permitiu ainda ouvir o estrepitado «pum!!!....», que o fez duvidar das qualidades VQRD do carrascão que bebera, se mistura de zurrapa teria ou não, e tendo-a que género seria ela, que o punha a ouvir «puns!!!...» num cu de judas daqueles sem vivalma à vista.

Atentou na poeira que estas coisas levantam sempre, e viu adiante, no meio-caminho entre o monte e a vila, a escultura surrealista que o sono de Ireneu esculpira na calada da tarde. Aproximou-se. Identificou o sinistrado e sacou do telemóvel para avisar a vizinha conversada do desmando, que acorreu logo, depois que comunicou aos socorrismos de serviço, tendo-lhe contudo chegado muito antes. Esbaforida e suada, mas lúcida como nunca, viu o que viu e a gente já sabe, abriu como pode, primeiro a boca em seguida a porta da viatura, malmente é claro, mas quanto bastasse para, de mãos nos quadris, esclarecer as dúvidas motivadoras do sucedido, sem minimamente desconfiar do desacordo do desacordado nomaradeiro ou sequer duvidar que ele a não pudesse ouvir, e arrefinfou-lhe de enfiada valente ensaboadela, que mulher séria se não tem ouvidos também nada obsta a que não tenha língua, de preferência com palmo: «Oh, Ireneu!! Mas eu não te disse, que aos tortulhos, se não fosses tu, ia eu???...»

O moiral de soslaio compungido, apenas abanou a cabeça pesaroso, enfatizando a legenda para o quadro, como quem repete estribilho em moda há muito cantada... «Mas estes janotas da cidade, nunca se acreditam das razões c'os da terra lhe dão!....», onde se notava choroso lamento, principalmente pelo pastoso arrastar de sílabas característico de quem muito lhe dá dó.

O que é verdade. Que isto de ir aos cogumelos é enganador, pois tem ciência e regras puras, que não é lá por os verem quietos e paradinhos, de cabaça ao léu ou de gurda-sol aberto, que a coisa se torna mais fácil e se pense que até a dormir se apanham... Sobretudo quando o tronco é grande e duro, que ninguém se espete nele, porque o melhor mesmo é pedir licença ao armário ou passar ao lado, que tal como diz o ditado, "Quem sem mexer o cu quer comprar, é com ele que depois vai pagar". O que quase todos os gestores da coisa pública bem sabem, embora inúmeras penas tenham sofrido para o aprender e decorado, uns com mais prazer e cuidado, que outros é claro, mas todos no comprimento da constituição e compenetrados da grossura da liça.

Os pequenos sorriram, enfim. Não bateram palmas, mas depois, mal parou de chover e enquanto se preparavam para soltar os cascos à desfilada no rectângulo húmido e escorregadio do relvado, num prado de louvres repleto, disseram uns aos outros que das mulas, até na graça vem coice, o que era a prova proverbial de que nem todos os provérbios seculares eram para esquecer depois das notas tidas e testes feitos.

Após o que a mula da cooperativa se recolheu aos seus aposentos, de onde, através da vidraça lhes observou os pinotes!

9.07.2006

Obrigada, Obrigado

Séria, murmuraste que não tenho idade…
Que sou aquele minuto difuso que vagueia
Entre o segundo, a hora e a claridade
Que ao sangue nosso apelo incendeia.

Dizes-me instante… Seja. Resigno-me portanto.
Pois nunca sei como argumentar contra ti,
Que és o simples complexo do soslaio de espanto
De cada memória que em pleno futuro vivi.

Era meia-noite, mais quase nada depois
Que o segredo disse o silenciado cicio
Da vertigem feita queda no precipício
Em que suados e colados e gritados caímos os dois!

9.02.2006

Costa, Alexandre Carvalho

Alexandre Carvalho Costa:
um portalegrense das letras a quem a memória escondeu o nome

"Os como tu nunca morrem! E se o fizeram
Até à morte, distraídos, recitaram
Os poemas que a seus alunos, em vida, leram.
"
Do poema Saudade - Três Anos de Ausência,
In O DISTRITO DE PORTALEGRE, nº6131, de 17 de Julho de 1986

Porque nada de novo existirá debaixo do sol (nihil novi sub sole) e sabendo que raramente se é original em matéria cujo suporte é sobretudo a memória, baseada no conhecimento enciclopédico, o lema da obra de Alexandre Carvalho Costa, como ele próprio gostava de referir, era "non nova, sed nove", por quanto desde cedo reconheceu que o labor obreiro das coisas da cultura e da linguística é de contínua reciclagem idiomática, semântica, cognitiva, sustentando-se essencialmente não pela sua originalidade, posto que não serão coisas novéis nem recentes ao povo que tradicionalmente as acolhe e resguarda, mas sim apresentadas em novo formato ou maneira, e aí propostas como factor ilustrativo de alguma mudança na forma de as ver, entender e assumir.

Dessa legitimidade resultou vasta obra que alguns dela entenderam vislumbrar três vectores classificativos ( v.g. José Martins dos Santos Conde, que o enuncia num artigo publicado no Jornal Fonte Nova, nº 9, de 19 de Dezembro de 1984), caracterizados conforme a especialidade que denotavam.

Assim num primeiro vector, onde cabem os 14 volumes dos Entretenimentos Etnográficos e Folclóricos, os dois volumes de Lendas, Historietas, Etimologias Populares e Outras Etimologias Respeitantes às Cidades, Vilas, Aldeias, e Lugares de Portugal Continental e de Reflexões Etimológicas, as suas Nótulas Etnográficas e Linguísticas Apresentadas em Expressões Populares, (publicadas inicialmente no Boletim de Língua Portuguesa - 1954 e 1957), Gente de Portugal - Sua Linguagem, Seus Costumes, 3 Volumes, ou Notas de Divulgação Linguística e Filólogos Portugueses e Notas Bibliográficas Desde o século XIX, de publicação fasciculada em rodapé do Distrito de Portalegre a partir de 1946.

Em outro patamar a parte dos estudos acerca da toponímia e antroponímia, de onde fazem especial relevância os trabalhos ou brochuras relativas às origens dos nomes de todas as freguesias e concelhos do distrito de Portalegre, e nele podem classificar-se títulos do cariz de Toponímia Alentejana, inicialmente publicada no jornal Voz de Portalegre, Gentílicos e Prolóquios Toponímicos Transtaganos (1956), Apodos Tópicos Transtaganos (1967), Gentílicos e Apodos de Portugal Continental (1973), Antroponómios - Origens e Significação, Como é a Sua Graça? - Origem e Significação de Antroponómios, que exemplificam o quanto de laborioso se concerne ao procurarmo-nos nas ancestralidades do verbo que nos nomeia e nos dá entrada no universo gregário, sem o qual seríamos simplesmente ninguém.

E numa terceira vertente, as obras adstritas à sua actividade docente, que versam principalmente o estudo da língua e da literatura portuguesa, como o exemplificam os títulos, Apontamentos de Língua Portuguesa (Editora Educação Nacional - Porto, 1904), Ninharias Literárias - Resumo de Algumas Obras dos Nossos Escritores (Editora Educação Nacional- Porto, 1941), os diversos volumes das Questões Sobre História da Literatura Portuguesa, quer as das Edições ASA, na Enciclopédia de Estudo (Porto - 1971, Porto - 1972 e Porto - 1977), como as da Livraria Atlântida Editora - Coimbra, 1972, ou As Notas Básicas à Margem da Gramática Portuguesa, edição dos Livros Horizonte - Lisboa, em 1985, cujos conteúdos são inegavelmente de extrema importância para quem se queira (ou dedique) exímio nas manigâncias da comunicação entre as gentes da lusofonia, as ideias da lusatinidade e os reflexos da nossa cultura entre os demais povos, sempre pronta a tomar novas atitudes e qualidades denunciando como nem apenas o tempo é constante (de mudança), como o sublinha "algures" o Luís Vaz da nossa camoniedade, a quem também os contratempos e as sevícias do poder instituído aventuraram na eternidade, fazendo jus a mais uma das grandes notícias versadas na Eneida, de Vergílio, destroçando a pertinácia à vulgaridade medíocre, e, quiçá, denunciando já aquilo que em Carvalho Costa se veio a confirmar: apparent rari nantes in gurgite vasto - ou seja, aparecem raros os nadadores do vasto abismo.

Biografia:

Natural de Alagoa, concelho e distrito de Portalegre (n. 31.03.1908 - f.11.07.1986),filho de Joaquim Costa e de Maria Antónia Bruno de Carvalho Costa, fez a instrução primária na escola da sua freguesia e exame de admissão ao Liceu de Portalegre, em 1920, em que cursou Letras, e de onde seguiu (em 1928) para a Secção de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, licenciando-se aí a 24 de Julho de 1934.

Consequência das dificuldades sistemáticas e corporativistas que caracterizavam o ensino de então, só vem a ingressar no público depois de tarimbar no privado, tendo passado sucessivamente pelo Colégio Nisense (Nisa, 1934-36), Colégio Nuno Álvares (Tomar, 1937-39), Colégio Contestável (Nisa, 1939-42), Colégio Nossa Senhora de Fátima (Castelo Branco, 1949-54), e no Colégio Elvense (Elvas, 1955-56).

A par da actividade docente, cuja vínculo adquire ao ser nomeado professor de serviço eventual do 1º Grupo do Liceu Nacional de Portalegre, a funcionar antigamente nas actuais instalações da ESEP (Escola Superior de Educação de Portalegre), conforme enuncia uma Portaria de 26 de Setembro de 1926, e após primeiros contactos com o ensino oficial nos dito Liceus de Portalegre (1936), Santarém (1939), Castelo Branco (1943) e Évora (1943), foi também bibliotecário conservador do Museu Municipal de Elvas (1955-1962), responsável pela inventariação dos fundos da Biblioteca Municipal de Portalegre (anos 70/80...), bem como colaborador do Diário da Manhã, da Revista de Língua Portuguesa, do Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, d’O Distrito de Portalegre, Jornal Fonte Nova, Alentejo (Cabeço de Vide, 1933-34), Notícias de Vila Viçosa (1933), Castelovidense (Castelo de Vide), Brados do Alentejo (Estremoz, desde a sua fundação em 1931), Jornal de Elvas e Linhas de Elvas, e no Reconquista, de Castelo Branco.

Com pergaminhos e provas dadas na multidisciplinaridade, é todavia a filologia a sua grande paixão, conforme o atestam a grande maioria das obras de sua extensa bibliografia, mais ou menos 75 livros e brochuras, posto que haverá ainda três ou quatro por publicar (e todo o espólio por classificar e avaliar), e o explicitaram os seus pares, dos quais Reis Brasil (ou Dr. José Gomes Brás), Paulo Catarão Soromenho, Fernando Falcão Machado, Luís Chaves, Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, entre outros.

Testemunhos, convivências e companhias

Por conseguinte, se, tal como afirmara o seu amigo Luís Chaves em jeito de prelúdio a Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental (1973), "o espólio das idades e das suas culturas" é um "estudo cumulativo da história psicológica e linguística, até mesmo da literatura", então a bagagem formativa de Alexandre Carvalho Costa, a multidisciplinaridade e teoria da vida, quer a sua experiência pedagógica, como a do quotidiano convívio, foi sempre muito para além dos "saberes fazer" académicos com que se apetrechou, primeiro para desempenhar funções de amanuense do Governo civil de Castelo Branco, onde Carlos Garcia de Castro o vai contactar a primeira vez a fim de lhe solicitar os préstimos em explicações de Latim e Grego, e depois enquanto docente, articulista, bibliotecário, conservador museológico, filólogo e etnógrafo, amigo, crítico, etc.

Mas irremediavelmente vocacionado ao esquecimento público e institucional porque cometeu em vida o maior crime que os fundamentalistas supõem existir à face da terra (do céu e arredores), os apaniguados da sigla bíblica e defensores do "quem não é por mim é contra mim", que é o de, por lhe bastarem e preencher a existência os pormenores da sua gaia especialidade (a palavra e seus diferentes modos de uso), não se ter ilustrado na política nem ter angariado estatuto de vítima do regime ou de seu subscritor. Aliás hediondo crime este de ser gente a quem o humanismo não se equaciona na sua etiqueta partidária, pois lhe é apostrofada a dúvida rebelde, ou de opositor, mais depressa que a certeza acólita, criando-lhe voluntariosos adversários num lado e outro, demonstrando que isso de semear ventos para colher tempestades é já mentira grossa nos tempos que correm, pois que estar quietérrimo no seu canto ou no embalo das filólogas lides, pode muito bem trazer o mesmíssimo efeito. O que foi sobejamente confirmado por quantos com ele privaram, não só na tertúlia cavaqueira, como os Drs. Francisco Subtil, João Tavares, Manuel Ferreira, Luís Bacharel ou José Conde, mas igualmente os funcionários e alunos dos estabelecimentos de ensino onde exerceu o seu magistério, ou a este vosso apontador de casos, a quem nunca sonegou atenção, ajuda nos tratos do linguajar, nem polimento de etiqueta para as vestes gramaticais.

9.01.2006

Conde, José

RETRATO DE UM HOMEM EM CORPO INTEIRO
JOSÉ MARTINS DOS SANTOS CONDE

CORAGEM!

É preciso vencer a angústia e os medos, para
recuperar a coragem de viver e, sobretudo,
de viver um projecto de qualidade.

In AS CHAVES DA VIDA

Homem que pautou toda a sua vida por princípios e valores, cujas ideias-sentimento (resumidas por si mesmo em nove, e a saber: calma, paz, alegria, coragem, compreensão, solidariedade, justiça, integração e amor universal), chaves de conduta intelectual e moral que sem dúvida lhe vincaram inclusive a actividade de professor (norteada por três preocupações maiores: 1 - fazer o acompanhamento assíduo das turmas, nunca tendo excedido o número de três faltas por ano lectivo; 2 - perspectivar a História numa permanente ligação com o mundo actual; 3 - aprender a História fazendo-a, levando sempre os seus alunos a apreciar o contacto com as fontes), de autor e de cidadão, nasceu a 6 de Julho de 1934, na aldeia de Santa Madalena, freguesia de Vila Fernando, concelho e distrito da Guarda, e faleceu em Portalegre, na sua residência, em 16 de Agosto de 2003, José Martins dos Santos Conde, além de nos legar uma obra vasta e variada, abrangendo desde a poesia ao ensaio, passando pela monografia e artigos avulsos, contribuiu também com o seu exemplo e dedicação aos outros e à sociedade para a revolução ética e necessária do nosso dia a dia, sublinhando como a vida é um tirocínio perfeito onde aprender é mudar, talvez em excelsa demonstração daquilo que sempre foram as suas principais características: flexibilidade de espírito e ambientação imediata.
Humanista, filósofo, frade, teólogo, historiador, docente, tradutor, jornalista, poeta, chefe de família, companheiro e amigo, indivíduo enraizado no meio mas igualmente cidadão do mundo, cujo pensamento eivado de influências diversas, como culturalmente universais, caso das perspectivas existenciais de Satre, como budistas, cristãs e ameríndias, raiando as essências profundas desde o Ioga e Lao-Tsé até à imagética de Florbela Espanca ou Vergilio Ferreira, revelando um ecletismo apurado e exigente, todavia simultaneamente tolerante e apoiado na moral científica, consciente da problemática regional, jamais deixou de registar, divulgar e descodificar os valores da nossa região em pessoas e coisas, de fazer o levantamento de conflitos ou situações, de procurar dar-lhe uma explicação ou resposta, bem como de partilhar informação objectiva, interessante e peculiar acerca dela, tentando fintar o destino ao provincianismo paupérrimo e desolador que nos acomete desde os tempos imemoriais.
Senhor de DUAS VIDAS que abriu e fechou com as chaves da determinação, pensamento e moral insuspeitáveis, depois de ter palmilhado as veredas da formação mística, cursado humanidades e teologias (Seminário de Vila Nova de Gaia – de 1946 a 1952; Seminário Maior de S. Alfonso, em Valhadolid/Espanha – entre 1952 e 1960, onde fez “profissão perpétua” como frade redentorista; Institut Catholique de Paris – em 1967), sofrido os tormentos da repressão vocacional num esgotamento nervoso com 14 anos de tratamento adiado, que transformaram um jovem líder libertário amante de poesia, literatura e música, discípulo de Guerra Junqueiro e Gomes Leal, num borrego dócil e cabisbaixo que seguia atrás do rebanho politicamente correcto, cuja tortura o levou até a leccionar Português e Latim no Seminário de Vila Nova de Gaia onde começara os estudos, mas também a aproximar-se de Portalegre, via Castelo Branco, onde no seminário local leccionou Filosofia Antiga, Literatura e Arte (de 1964/67) e aprendeu Ioga, que o ajudou a recuperar a autoestima, confiança e gosto pela vida real, pontos de partida fundamentais que inspiraram a lutar pela autenticidade e estabelecer contacto (carta e telefone) com Angelina Pires de Sousa Gomes, natural de Portalegre, enamorando-se, e com a qual veio a contrair matrimónio em 22 de Setembro de 1968 (na Igreja e S. Lourenço, com copo de água no Café-Restaurante Amaia), renascendo assim outro mas bastante mais próximo da sua vocação primária, posto que é partir de então que se licencia em História (Universidade de Coimbra, 1979), conclui o curso de pós-graduação de História Cultural e Política (Universidade Nova de Lisboa, 1992) ou defende a tese de mestrado (1995), cria família própria (três filhos: Paulo, José e Ana Raquel) e inicia a sua carreira literária, publicando primeiramente O Ensino Primário no Distrito de Portalegre (1983 – edição da Assembleia Distrital de Portalegre, em colaboração com Dionísio Cebola, Director Escolar do Distrito de Portalegre), a que se seguiram Rostos e Gostos do Norte Alentejano (publicado em vários semanários, desde 1983), Escritores do Distrito e Portalegre (publicado no jornal Fonte Nova, desde 1984), Luís Gomes – Perfil e Obras de Um Portalegrense (edição de O Semeador, em 1985), Diálogos do Fim de Século (publicado no jornal Notícias de Elvas, desde 1987) António Silvestre, Artista em Ponte de Sor (Folheto comemorativo, Ponte de Sor, em 1987), Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica (edição da ESSL – Escola Secundária de S. Lourenço, em 1987), Teatro de Portalegre (edição do autor, em1987), Um Minuto de Olhos Fechados (poemas publicados no Notícias de Elvas, desde 1987), José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo (Edições Colibri, em 1998), Luzia, o Eça de Queiroz de Saias (edição do autor, em 1990), As Chaves da Vida (publicado pela ESSE – Artes Gráficas, Lda, Lisboa, em 2002), Duas Vidas – Poemas (conjunto de versos de 1962 a 1999, editado por Produções Gráficas UNP, Lda, Lisboa, em 2003, cujo lançamento acontecerá durante as Festas da Cidade, com apresentação/leitura de Joelle Ghazarian e Júlio Henriques, e espectáculo de Ana Raquel Conde, numa performance de interactividade multidisciplinar de música, som, vídeo, gestos, movimento e palavras) e, para publicação, Beatriz Emília Rente – Glória de Portalegre nos Palcos Nacionais (rubrica inserida na revista Miradouro, mas que, segundo vontade expressa do autor, só será publicado em livro se a Câmara Municipal de Portalegre tomar a seu cargo iniciativa e custos, o que caso contrário nunca acontecerá), Instantâneos (com publicação prevista para este ano, espécie de fragmentos que retratam o alter-ego do autor, repartindo-o por momentos, situações e relatos avulso) ou Pronomes (Marvão – 2002, conjunto de quadros burlesco-satíricos, onde se descrevem com ironia e graça algumas figuras típicas do quotidiano português).
Se enquanto colaborador de diversos títulos da imprensa regional – colaborou na revista Miriam (de índole teológica, entre 1960 e 1967), nos jornais Fonte Nova (de 1984 a 1988), O Distrito de Portalegre (e 1985 a 1989), Notícias de Elvas (1987 a 1989), O Arraiano (de Elvas, em 1990), e na revista cultural portalegrense Miradouro, em 1989, ou como tradutor (traduziu do italiano, francês e castelhano cinco livros de divulgação teológica, publicados em 1969/70) – a sua atitude não foi a de profundo empenhamento, já enquanto professor se não pode dizer o mesmo, posto que no campo profissional excedeu sobremaneira as exigências do ensino, quer no sector privado, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesa (nomeadamente no Seminário de Cristo Rei – Vila Nova de Gaia, Colégio La Salle – Abrantes, Colégio Municipal de Serpa Pinto – Angola, e Salas de Estudo “Renascença”, do qual foi também director em 1970/72, entre 1960 e 1972), quer no ensino oficial, que marcou multidisciplinarmente, onde ingressou em 1972 para leccionar Português e Latim em Malange, Benguela, Bailundo e Batalha, até 1977, e a partir daí como professor de História (Escolas Secundárias de S. Lourenço e Mouzinho da Silveira - ESMS, em Portalegre, e D. Dinis, em Lisboa), não se limitando contudo a ministrar conhecimentos mas sim também a participar activamente em Conselhos Directivos (Escolas Secundárias de Vila Teixeira da Silva e ESMS – 1974/75 e 1978/9, respectivamente), ora fazendo estágios (Estágio do 10º Grupo A, na Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, em 1979/80), ora enquanto orientador de estágio (zona sete, distritos do Alentejo, em 1984/85 e 1985/86), ora como director de turmas ou delegado de grupo (p.e. na ESMS, durante os anos lectivos de 198/81, 1981/82 e 1982/83, e na ESSL, em 1986/87 e 1987/88), bibliotecário (ESSL, nos anos lectivos de 1986/87, 1987/88, 1990/91 e 1991/92), professor de Português e Mundo Actual (Centro de Formação Profissional do Instituto do Emprego), planificador de visitas de estudo nacionais e internacionais, assim como definiu e orientou actividades de pesquisa em bibliotecas e arquivos. Adepto do riso vital e da ironia mansa, jocosa, apaixonada de prazer e de alegria, consciente da sua pequenez na imensidade do Universo, mas também da importância que tem para o seu equilíbrio o tudo está relacionado com tudo, os elementos naturais e as pequenas coisas e seres, despojado de egoísmo messiânico fundamental, embora cada um dos seus livros possua valor intrínseco e interesse pontual, é em Luís Gomes – Perfil e Obra de um Portalegrense, Chaves da Vida e Duas Vidas que melhor se notam a pujança discursiva e acutilante de um espírito universal e convicto do papel reservado ao homem no planeta e o deste para a humanidade e vida. Desencantado mas lúcido, tranquilo, fluente, mas igualmente rigoroso e objectivo, o seu discurso espelha a determinação, segurança e coragem de uma pessoa habituada a encontrar-se consigo mesmo sem subterfúgios nem esquizofrenias. Ali, onde no olhar de quem se reinventou quotodianamente entre a moral e a ética, entre o pedagogo e o chefe de família, entre o historiador e o poeta, entre o passado e o (então) presente, entre o religioso e o social, com que sublinhou figuras esquecidas que se empenharam na prossecução do bem público com capacidade de entrega ao trabalho e ao dever, na defesa intransigente dos valores em que acreditavam (José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo) ou personagens primeiríssimas no panorama das literaturas femininas europeias, enaltecendo-lhe a sensibilidade profunda e vibrátil, destruindo preconceitos e restabelecendo a verdade que circunscreveu Luzia, o Eça de Queiroz de Saias, ou ainda assentando a importância histórica dos tradicionais festejos dos caixeiros no Dia da Espiga (A Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica), bem como tecendo a panorâmica da actividade dramática em Portalegre através dos tempos (Teatro em Portalegre), cresceu uma personalidade exemplar e um cidadão modelo. Porque quem como ele soube o que é a fraternidade universal, reconheceu que a solidariedade significa estar com os outros, pagar a sua parte de obrigação ou de soldo, navegar no mesmo barco e prosseguir a mesma viagem, em igualdade de circunstâncias e sentimentos, se edificou no sacrifício e abdicação, retirando das horas amargas lições de luta, franqueza e galhardia, e enfrentou com riso e temperança os dissabores com que a mediocridade adversa bastas vezes lhe foi atreita, como no caso do concurso ao Ensino Superior Politécnico, em que foi preterido em favor de um estagiário sem a mínima prova dada, e denunciou apropriações autorais (soneto de Luís Gomes reciclado por José Régio, in Fonte Nova nº 31, de 29 de Maio de 1985), e jamais deixou de crer na democracia e liberdade, nem de ser firme na salvaguarda da vida, como valor essencial do Universo, de proteger os animais (v. g. os cães Becas e Pixy) e a natureza da inconsciência e do terrorismo humano, guardar o património artístico e histórico da humanidade, apoiar os criadores da beleza, pugnar pelo aumento de paz, justiça e verdade n mundo... Enfim, um homem que sempre esteve à altura da sua nobreza, e que até no leito de morte soube legar aos que lhe sobreviveram o melhor da sua existência, incutindo-lhes esperança numa última e derradeira palavra: «coragem!» - tal e qual como lhes disse. Coragem, de coração, praticando com os seus aquilo que a muitos ensinou!

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