La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

1.30.2009

carta de participação de acidente


A Rabaça e o Agrião

"Uma meada, que se saiba, tem sempre duas pontas."
Carlos de Oliveira, in Casa nas Dunas (p. 72)

Normalmente as minhas investidas na horticultura, ou visitas à horta, quando ainda achava que o trabalho era uma brincadeira divertida, coisa comum a quem cresce e nem nota, eram feitas com o meu avô paterno ou o meu tio Garranchinho, e terminavam quase sempre com um lacónico «sai daí, ventas de penico!» mais ou menos elucidativo da qualidade da acção desenvolvida durante a estadia entre as hortaliças, do posto em que me amesendara ou do poleiro em que me instalara para melhor dirigir as operações. Se a lembradura não carecia de gravidade suplementar nem orçava danos às novidades e mimos de época, então o respectivo «sai daí» tornava-se coisa fina de cozedura apurada para o intelecto em subtilidade, na brandura dos apodos, e transformava-se num «sai daí, ventas de abrunho!» cuja doçura ainda reflectia ocasionais destemperos, mas já sem apontar para solturas de terrível desfecho. Porém, a que mais impressão causava, pela pujança da imagem, e a que só o simples imaginar causava, provocava uma dor insuportável, pior que antevisões do inferno a que certamente iria parar se não fizesse, ou não parasse de fazer, isto ou aquilo a que a minha tia Inês não descortinava mérito algum, era o «Ah, malandro, que esgarro-te uma perna da outra!!...» com que o meu homónimo avô punha termo a qualquer pendência, ou celeuma, que entre ambos se levantasse por mor de pensamentos e acções menos consentâneas como seu modo de ver e avaliar a realidade comum. A diligência não era para tanto, está bom de crer, e sempre suspeitei de exagerada dramatização dos resultados, todavia perdia invariavelmente a lucidez de análise e julgamento, mal sentia serem passíveis de separação duas peças tão queridas ao meu corpo, precisamente num encaixe e região por demais preciosas, frequentemente acarinhadas por mim, como pelas filhas dos caseiros que assim demonstravam, não obstante serem muito novas para funções próprias a estremecimentos superiores, possuírem já um talento especial e inato para manuseamentos miraculosos. Portanto, desnecessário é dizer que o «ah, malandro: esgarro-te uma perna da outra!», quer viesse acompanhado com o salientar encarniçado das veias do pescoço como do mostrar apoplético do branco ocular, ainda não tinha sido acabado de proferir já estava a fazer efeito, doendo-me cruelmente só de pensá-lo, mesmo que o reportasse para o universo das figuras de estilo deveras inviáveis e obscuras.

(Continua amanhã)

1.24.2009

Em Reconhecimento do Primaz Valor dos Finalmentes

Finalmente, além da famigerada crise, Portugal acompanha a Europa em qualquer coisa que, sendo supostamente uma constatação boa virará arrelia, isto é, na tendência de envelhecimento com sucesso garantido, quer pelo escore da baixa fecundidade como pelo aumento da longevidade, porquanto os seniores com mais de oitenta anos, espécimen rara nos meados do século passado, passarão a ser uma das maiores minorias na sociedade portuguesa, o que sem dúvida lhe facilitará a formação de um lobby poderoso, contando com mais de 450 mil recenseados em causa própria, mas cujo número deverá triplicar até 2060, altura em que se prevê serem uma parcela de 13% da população, o que resultará, evidentemente, na banalização e perda de comoção – portanto um considerável decréscimo na lamechice saloia e pacóvia do Zé-Povinho –, o facto de pessoas como José Saramago, Mário Soares, Eunice Muñoz, Manoel de Oliveira, José Hermano Saraiva, Ruy de Carvalho, Nella Maissa, Júlio Resende, Almeida Santos, Maria Barroso, Eduardo Lourenço, Vitorino de Almeida, Odete Santos, Marcelo Rebelo de Sousa, Agustina Bessa-Luís, Maria de Lourdes Rodrigues e Bagão Félix serem motivo de notícia pela idade que têm e ainda se manterem no activo, embora não seja nada de qualidade aquilo que fazem, nem o seu provecto pensamento melhore minimamente o presente nacional e humano, assim como deixarão de poder preencher os buracos no macadame programático das vias de comunicação, quando a braços com a falta de assunto, facilitando que essa deslumbrante ideia de serem uns velhinhos que ainda dão muito bem conta do recado passe à história, como aliás eles também hão-de passar, mas sobretudo entender-se-á mais claramente o que significa para um geração o facto da sua predecessora se manter activa e inoportuna, atrasando a civilização para que se não sinta tão notoriamente ultrapassado pelo conhecimento e actualidade, esvaziando-lhe o gás dessa declarada intenção de continuar a fazer as mesmas travessuras magníficas e talentosas e geniais de que toda a gente fala mas ninguém usa, ninguém vê, ninguém lê, ninguém ouve, ninguém se serve, embora haja quem considere que isso tem uma gracinha especial, outros dirão, menos atreitos aos contágios das caganeirices maneiristas, piadinha arqueológica do anedotário universal, que pode vir a ser um excelente motivo para algumas famílias normais aparecerem nos écrans e parangonas, como prémio por os terem aturado tanto tempo, sem sequer se suicidarem nem sucumbirem ao stress, facilitando assim a imediata subida nos escores/rankings de audiência, ou venda ao público, de alguns dos órgãos de comunicação mais expeditos da nossa desalegre praça, de tão enegrecido empedrado à portuguesa.
Até porque o Finalmente Morreu Fulano Tal pode tornar-se o título mais frequentemente usado e recorrente na garantia de chamar a atenção geral, coisinha menos que original para quem tem assistido paulatinamente às aventuras dos Simpsons amarelos, cuja icterícia mental se propaga tão eficientemente como a malária, deng e leishmaniose nos pântanos globais, podendo este título passar a slogan político e indicativo dos principais blocos noticiosos (telejornais, jornais e noticiários), prima donna dos grupos de merceeiros e multimédia continentais, com garantida exportação para África, Américas e Ásia nos planos éco-colonialistas das TIC de sexta geração elaborados por copy past em retiros ultramodernos como freeports do ocultismo regular inglês e offshores em Madeiras paradisíacas de forte crescimento e proliferação infiscal, a fim de melhor captar a atenção das famílias ensimesmadas e distraídas com os acepipes enlatados ou acabamentos fumegantes dos aromáticos pré-cozinhados, ainda com rótulo de promoção da caridosa e beneplácita cadeia de hipermercados, tão oportuna e conveniente como a fome de cada um, dizia, título ou indicativo, capaz e suficiente de nos captar a atenção nas horas das refeições, esses momentos familiares excelsamente propícios às bombas políticas, boatos difamatórios e contundentes, anúncios de crise, prisão preventiva, comunicados de imprensa, discursos à nação e breefings de última hora, porquanto essas novidades o já não sejam nem suspendam ninguém dos quadradinhos mágicos, que era o modo mais eficaz de comer e calar que a democracia vigente inventou para nos fazer o ninho detrás da orelha, alcançar o céu (da boca) ou mergulhar na esperança dum sarapatel bem condimentado, alvitrando quanto a vida pode mudar, e que por mais infelizes que sejamos não nos podemos queixar, pois neste mundo ainda há muita coisa para além dos comezinhos vociferados das promulgações polémicas, das mensagens ecuménicas de profanidade relativa, dos conselhos patriarcais para a evitação de sarilhos, coisa que aliás os seus progenitores não ouviram, pois, se o tivessem feito eram, agora, de Dos Rostos ao Landal, duas parcelas do território nacional orgulhosas dos seus filhos. Assim, embora o possam ser por alguns deles, o que é certo é que nunca o poderão ser acerca de todos, visto haver um sobre quem recaia a maior vergonha que há no mundo: a de brincar com as fezes dos demais.
Isto é, a expressão popular de nem o pai morre, nem a gente almoça ganhará novo e superiormente expressivo sentido, maior pujança semântica, obrigando-nos a reconhecer definitivamente quanto um povo pode deveras ser sábio, sobretudo nas sentenças, ditados e provérbios que cria, precisamente por os tornar evidentes e indesmentíveis, não obstante em alguns a acutilância e excelência divinatória nos escape esporadicamente, mas lá vem aquele dia inegável em que não falham, batem de frente na nuca do nosso entendimento, se fazem luz vista claramente vista, e como um simples, convicto e convincente "vai chover" que não é prà'gora, e eis senão quando numa bela manhã em que nada o fazia prever, ao abrirmos a janela, levamos com a poalha nevoenta nas ventas, que nos arrepia que nem constatação sobrenatural, nos eriça os desagrados, embacia os tutanos, deveras ressequidos por não lhe acertarmos o passo e fulgor com o clima, alterado que está, obrigando-nos, finalmente, a enfiar as galochas se queremos ir à garagem pensar as rolas ou ir ao lugar da esquina comprar agriões para acompanhar a farinheira assada que destináramos como refeição principal do dia.
Caso para afirmar que o ditado curdo kem bijî, kel bijî (vive pouco mas vive quente, ou melhor dito, intensamente) virou treta de aliviar terrorismos breves, coisa de convencer quem ainda conta poucos anos, ainda acredita em sonhos e intenções benfazejas,empresta à realidade os semáforos de uma navegação sempre pronta a confundir fantasias com objectivos.

1.22.2009

O Grande Amor de Jane Eyre

O Grande Amor de Jane Eyre
Charlotte Brontë

Tradução de Leyguarda Ferreira
Edição Romano Torres – Lisboa, 1965

Eis um livro sobre o qual não vou adiantar qualquer comentário, visto ele ter "sofrido" já várias edições (e traduções) em português, das quais, esta deve ser a primeira ou uma das primeiras, além de ter igualmente sido "vítima" de adaptação a filme e série televisiva, ainda que em produção da BBC, coisa séria e de monta, se dirá, embora que pouco séria na montagem, sob o homónimo original de Jane Eyre. Mas sobretudo, e principalmente, porque nela está inserido um texto de Gentil Marques, em jeito de prefácio, a que não resisto à transcrição, por ser um documento de enorme clareza para ajudar a compreender, tanto a obra como a sua autora, tanto a época, a estética e a sociedade que lhe subjazem, além de romper, sem a mínima leviandade, com os cânones da crítica actual, não só pela frugalidade e fazer-de-conta que enferma, como também insatisfação de caldo verde aguado e sem conduto com que nos deixa. Uma crítica de copy pastiche a navegar no oceano dos lugares comuns que, tal como os modelos de horóscopos de revista são passíveis de ser aplicados a qualquer pessoa dando sempre certo, pode igualmente ser aplicada a qualquer livro, independentemente de o ter lido ou não, afirmar por verdadeiro algo que é também verdadeiro para um milhão de outros com romances milionariamente diferentes, e ninguém notar isso.

Breve Ensaio Sobre a Vida e Obra de Charlotte Brontë
por
Gentil Marques

1 – Num certo dia de 1847 surgiu nas vitrinas das livrarias inglesas um romance estranho. Intitulava-se «Jane Eyre». O seu autor assinava Currer Bell. Na primeira página trazia uma entusiástica dedicatória ao famoso W. M. Thackeray.
Começou assim, precisamente, um dos mais curiosos e dos mais fascinantes mistérios literários de todos os tempos...

2 – Quem era Currer Bell? Ninguém o sabia – nem o próprio editor.
E contudo o romance ia conquistando, aos poucos, um interesse deveras invulgar. Tratava-se de uma obra de verdadeira análise humana. Os leitores, habituados aos rendilhados de prosa da época, espantaram-se sinceramente com a ousadia do autor desse livro. «Jane Eyre» valia, de facto, como um romance desassombrado de realismo comovente e de crítica oportuna. Nas suas páginas passava, sem dúvida, um reflexo da própria vida – com o seu cortejo de misérias e de grandezas, de virtudes e defeitos, de bem e de mal...
E, então, não só o público ledor mas também os próprios críticos e até mesmo os literatos se entregaram à tarefa de descobrir esse autor novo e desconhecido que tão ousadamente vinha abrir novos caminhos ao estilo da literatura inglesa.
Não foi nada fácil chegarem a um resultado positivo. Currer Bell continuava na sombra, como que desfrutando o alto interesse criado em seu redor.
E somente um ano depois – o editor conseguiu solucionar o mistério. Mas a solução deixou muita gente de boca aberta...

3 – Porque afinal de contas – Curer Bell era apenas um pseudónimo. O pseudónimo de uma jovem...
Havia razão, decerto, para o espanto dos leitores e dos críticos e dos literatos. Podiam lá pensar que uma rapariga, filha de boas famílias, se atrevesse a publicar uma obra tão revolucionária, no estilo, e, sobretudo, tão genuinamente humana?
Porém – a verdade era essa, e só essa! Currer Bell representava unicamente o pseudónimo literário de Charlotte Brontë...
E quem era Charlotte Brontë?

4 – Nasceu em Thornton, a 21 de Abril de 1816. Filha do reverendo Patrick Brontë e de Maria Branwell, tinha mais cinco irmãos, Mary, Elizabeth, Patrick, Emily e Anne.
Em 1820, a família instalara-se no presbitério de Haworth – no mesmo edifício onde hoje existe o já famoso Museu Brontë.
Mas, então, nesses primeiros de estadia – Haworth representou para Charlotte mais do que um pesadelo vivido, quase a própria imagem do inferno na terra.
Aí morreu sua mãe. Aí morreram, quatro anos depois, as suas duas irmãs mais velhas, Mary e Elizabeth, ambas vítimas de uma tuberculose insaciável.
E ficaram assim somente as três irmãs Brontë – Charlotte, Emily e Anne – suportando sobre os ombros frágeis a doença do pais e as impertinências do irmão.
Por causa deste, Charlotte e Anne acabaram por aceitar empregos como preceptoras e governantas. E felizmente que o fizeram. Felizmente, porque da experiência vivida por elas resultaram algumas das obras-primas da literatura mundial!

5 – Foi em fins de 1845 que as três irmãs resolveram tentar, pela primeira vez, o juízo da opinião pública. E publicaram uma antologia de poemas, assinados com os pseudónimos de Currer, Ellis e Anton Bell. Mas o livro passou quase despercebido...
Corajosamente, elas resistiram ao fracasso. Sobretudo, Charlotte, a mais enérgica das três. Queriam ser escritoras – e seriam escritoras, custasse o que custasse. Não se poupavam a sacrifícios para que o irmão se tornasse um grande pintor. Pois também não se poupariam para alcançar a meta dourada dos seus sonhos.
Da estadia na Bélgica, no Pensionato Hèger, Charlotte trouxera uma viva e dolorosa recordação: o seu amor pelo senhor Hèger, director do pensionato. E daí nasceu o entrecho do seu romance «O Professor».
Entretanto, Emily, a irmã romântica e sonhadora, misturava a realidade e o sobrenatural no seu empolgante «Monte dos Vendavais». E Anne Brontë com as esperanças e as desilusões da sua própria existência a história singular de «Miss Grey».
Porém – os três romances tinham contra eles a incompreensão dos editores. Várias vezes apresentados para edição – foram recusados outras tantas.
Era um novo e mais terrível fracasso – mas nem esse, também, as fez desistir!

6 – Para o temperamento aguerrido de Charlotte, esses desaires só lhe trouxeram estímulos de coragem. Foi então que tentou a sorte com um seu outro romance, «Jane Eyre», escrito igualmente com um pouco da sua própria vida e da vida das suas irmãs.
Chegara, finalmente, a grande hora. Um editor leu o livro e gostou. O volume saiu a público. «Jane Eyre» por Currer Bell. De mansinho, o triunfo veio bater à porta das irmãs Brontë...

7 – Todavia, a sombra da fatalidade não lhes largava a porta. Enquanto Emily, no desespero de amores impossíveis, sonhava com «um cavaleiro negro» que a viria buscar, e Anne, flor delicada e campestre, não sabia resistir às intempéries do tempo – o irmão Patrick, semi-louco, semi-bêbedo, semi-génio, partia para um Mundo melhor.
Então, como se fosse um sinal, o grupo começou a reduzir-se, a desfazer-se. A seguir a Patrick, desapareceu Emily, levada decerto por um dos seus sonhos. E depois, Anne...
Charlotte ficou sozinha em frente da vida. Sozinha. Só os livros a poderiam salvar. E salvaram-na, na verdade. Das suas mãos, saíram mais três pequenas obras-primas: «Vilette», «Shirley» e a edição definitiva de «O Professor», já completamente remodelada.

8 – Acabou por casar. Por casar com um homem de quem Emily gostara e que, por sua vez, sempre gostara de Charlotte.
Ele chamava-se Arthur Nicholls e viera para Haworth a fim de ajudar o pai Brontë nos inúmeros afazeres do presbitério.
Estranho romance de amor unira essas: Emily, Charlotte e Arthur. De tal modo que certo dia, ao ler os manuscritos de «Jane Eyre» e do «Monte dos Vendavais», Patrick gritara bem alto a sua descoberta:
– Vocês, as duas, amam o mesmo homem!
Talvez só nesse momento tivesse compreendido a terrível verdade. Mas, de qualquer modo, passaram-se anos antes que a verdade se encontrasse a si mesma. De facto, Emily apaixonara-se por Nicholls, Nicholls apaixonara-se por Charlotte. E Charlotte julgava que Nicholls amava Emily...
Quando um dia, finalmente, as suas mãos e os seus corações se uniram para sempre – aos ouvidos de Charlotte devem ter soado, com certeza, aquelas palavras que Emily escrevera no «Monte dos Vendavais»:
«
Ninguém deve imaginar que tem um sono inquieto. O amor virá aquietar-lhe a alma.»
Ou então as palavras que ela própria confessara na boca de Jane Eyre:
«
Que nunca sejas um instrumento de morte para o ser que mais ames no mundo».

9 – Dizem certos críticos – e nós estamos de acordo com eles – que «Jane Eyre» é o mais autobiográfico dos livros de Charlotte Brontë. E, também, o mais sentido.
Por exemplo: a figura magnífica de Saint-John Rivers deve ter sido inspirada por Henry Nusser, o primeiro grande pretendente ao coração de Charlotte. Os retratos de Diana e de Mary têm forçosamente como modelos as figuras de Emily e de Anne Brontë. E a própria casa dos Rivers não é mais do que a reprodução exacta do presbitério de Haworth...
Mas, sobretudo, o que salta à vista de qualquer estudioso do romance de Charlotte Brontë – é a semelhança espantosa entre a autora e a protagonista. Mais do que semelhança – total identidade de carácter.
Por isso mesmo, talvez – a obra conseguiu despertar tal interesse à sua volta. Continha um depoimento vivo, humano, sincero. Era o testemunho leal de alguém que vivera, sofrera e amara. De alguém que confessava em público as suas fraquezas e as suas revoltas. De alguém que tinha uma história comovente e impressionante.

10 – E, acima de tudo, a rebelião contra os padrões estabelecidos pela literatura inglesa. Até então – as heroínas dos romances eram todas talhadas pelo molde clássico de cativar os leitores pela sua beleza, pela sua aristocracia, pelo seu ambiente familiar inacessível aos leitores.
Pois, muito bem, a heroína de «Jane Eyre» – nem era bonita, nem tinha sangue azul nas veias, tratava-se de uma rapariga banal, filha de gente pobre, vivendo quase na intimidade dos próprios leitores.

11 – E agora – a propósito – permitam-nos uma observação meramente pessoal: estamos em acreditar que a grande base para o êxito universal de «Jane Eyre» foi precisamente a aceitação que encontrou por parte das leitoras. Sim, das leitoras! E porquê? Porque todas as mulheres sem beleza e sem fortuna viram na aventura e no amor e na felicidade de «Jane Eyre» – o eco dos seus sonhos mais íntimos.
Quanto a nós – foram elas, principalmente, que lançaram o romance, como brado de emancipação, para os tempos vindouros. E são elas, ainda, estamos certos, que mantêm hoje a celebridade da obra de Charlotte Brontë. E serão elas, afinal de contas – que não mais deixarão apagar-se a projecção humana e social de «Jane Eyre».

12 – Repetimos: a projecção humana e social. Humana – porque contém, por assim dizer, a odisseia física e moral de uma pobre rapariga, na sua luta de existência. Social – porque reflecte naturalmente os erros, as imperfeições – e também as virtudes – de certos meios que são de sempre. Aliás – Charlotte Brontë teve a seu favor esta grande força: molhou a sua pena na verdade. Foi com a verdade que ela escreveu este magistral e inolvidável volume que se intitula na edição portuguesa: «O Grande Amor de Jane Eyre». Um nome e um símbolo. Jane Eyre. Como ela própria confessa: «Eu digo simplesmente a verdade».

1.20.2009

Da Curiosa Modernidade à Prefeitura da Perfeição

É, no mínimo, curioso que neste conflito entre o povo judeu, como os seus lideres gostam de o apelidar quando querem usá-lo para fazer passar a sua fraqueza de espírito ou executar, pôr em prática, o seu ódio ancestral por outras culturas, outros credos, outros povos, outras formas de estar na vida que não contemplem o seu criancismo monoteísta, onde se pretende que a Guerra Fundamental só possa ser ganha por quem for mais fundamentalista, Omer Granot, a israelita que se negou a cumprir o serviço militar obrigatório – coisa impensável da parte palestiniana –, nos seus poucos 19 anos, demonstrou ser mais sensata e inteligente que todos os dirigentes políticos de uma civilização milenar radicada num país (Israel) onde a isenção militar apenas é prevista por motivos religiosos, logo por motivos ilógicos e irracionais, que assentam na crença e na fé, na ignorância pré-científica, ou naquilo em que o homem se nota menos humano, por assim dizer, mais besta medieval de formação pré-histórica. Filha de um agente de espionagem da Mossad, onde fora dirigente, nega-se a fazer parte de um "exército que, desnecessariamente pratica actos de violência e viola os mais básicos direitos humanos", além de ser suspeito de fornecer "mísseis" (ou rockets) e pagar a membros de famílias palestinianas miseráveis, numerosas e famintas, para enviarem esses mísseis de zonas que querem destruir e onde suspeitam residir algum líder do Hamas.
Ora, isto pode ser muito contemporâneo, muito bem-intencionado, muito faixa de Gaza, ou tampão unilateral de medricas preconceituosos, tipo gaja que toma três pílulas anticoncepcionais, com medo de engravidar, no dia em que vai jantar com o namorado e depois o acusa de ele querer ter relações sexuais pré-matrimoniais, como se isso não lhe tivesse passado pela ideia quando combinou a refeição, criou expectativas acerca dela ou anteviu o seu desenrolar... Mas, sem sombra de dúvida, também é doentio, patológico, de assassínio premeditado de inocentes, enraizado no trauma e no determinismo do quando a globalização era uma anedota marselhesa para difundir ideologias. E entre duas facções fundamentais que tentam assegurar a sua segurança optando pela loucura (da guerra), em vez de pela via do diálogo e da diplomacia, só escolhem e tomam partido aqueles cuja rigidez caracterial e mente doentia se lhe iguala, pelo menos, ou obedece a interesses económicos e bélicos superiores ou estratégicos. Que o mesmo é afirmar, que entre duas maluquices somente tomam partido aqueles que são ainda mais doentios, mais loucos e malucos dos que os que geraram e continuam esse conflito. Ou, como diz o povo, de tão celebradas fundações judaico-cristãs, que é o nosso, e que também costuma dar para tudo, entre uns e outros, venha o diabo e escolha.

Sobre o estádio no Estado


Previsões, sondagens, estatísticas e estimativas, cada um toma as que quer, para um ano a caldos Knorr...
Embora as contas estejam bem-feitas, os resultados não condizem. Isto é, na escala dos políticos, não obstante o raciocínio esteja correcto, as operações foram manietadas, adulterando assim os efeitos ao polinómio. As incógnitas e variáveis tiveram mais força que as acções concretas e as motivações. Intentou-se um salteado com pouca gordura, saiu uma salada fria, sonsa, deslavada e subalimentar. Para mais, se a «moda de faltar às aulas» nos dias de ponto (avaliação) pega, também denominadas «assistidas», e tudo indica que sim, num país cuja principal tradição reivindicativa nos andar de alevante só tem convencido pelo lado do não-fazer, então é caso para dizer que Portugal abrirá falência brevemente, como o exemplo que veio do frio (Islândia), pondo de pantanas todas as previsões, desde as orçamentais ou governativas, às do Banco de Portugal, Economist e europeias. O investimento público redundará noutro gasto supérfluo para enriquecer algumas empresas pródigas em engenharias, financeiras e obras públicas, far-se-á um novo aeroporto ainda que o tráfego aéreo diminua consideravelmente, dois ou três charcos para as rãs e lagostins de água doce se reproduzirem a bel-prazer, a aposta ferroviária limitar-se-á ao TGV, a quebra de receitas das autarquias locais pela redução dos efectivos fiscais no IMI, IMT, IRS, derrama e não aumento das taxas municipais e rendas das concessões à EDP, transformar-se-ão 555 milhões de € em meio milhão de razões para o poder local continuar com a política do pão com queijo que até hoje tão bem têm executado, e o ensino produzirá mais uns milhares de mal-formados aptos a licenciaturas e doutoramentos em retórica no safe-se quem puder, suficientes e necessários para desbaratar o PIB metendo-se na cadeia uns aos outros, alternando entre si nas secretárias ministeriais conforme o partido que estiver a comandar o establishment constitucional, assim como se manterão excluídos dos conteúdos programáticos do ensino básico, secundário, politécnico e superior quaisquer conceitos relacionados com o conhecimento e a liberdade, consciência cívica, responsabilidade, emancipação, respeito pela diferença, autonomia, gestão sustentável e democrática de recursos e distribuição equitativa dos resultados, ou valorização da cultura, da natureza, da paisagem, das condições ambientais e território aduaneiro, costeiro, atmosférico e da biodiversidade, desde que não seja para efeitos turísticos e imediatamente vendáveis. A eficiência energética será legitimamente usada para fugir ao fisco e dar dinheiro aos investidores nas campanhas eleitorais para as autarquias, subornar concelhos directivos nos estabelecimentos de ensino das áreas metropolitanas, aliciar novos quadros para a função pública, principalmente nas TIC e formação de formadores capazes de alterar as estatísticas do INE quanto ao desemprego e qualidade de vida. No restante, continuará a ser o país a que nos habituámos desde 1383-85: selvagem, mal amanhado, paroquial, corporativista, produtor de emigrantes e paraíso do xicoespertismo nacional, onde arte do bom viver se funda no gastar enquanto houver, pedir emprestado e não pagar, contar como ovo no cu da galinha, acusá-la de traição à pátria se não puser, e estabelecer compromissos que as gerações futuras hão-de cumprir como recompensa por terem nascido mesmo sem serem planeadas e muito menos desejadas.
Todavia, que ninguém perca a esperança, pois o PS(D) está com força de mudança: bastantes gays poderão vir a passar a ser menos homossexuais e muitas lésbicas menos fufas, além do que, finalmente, um português genuíno entrará na Casa Branca (como oferta de Barack às filhas).

1.16.2009

COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS, por EUGÉNIA CUNHA

O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, realiza no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A) a conferência – COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS – que terá lugar no dia 21 de Janeiro, às 18h00, e será proferida pela Profª. EUGÉNIA CUNHA da Universidade de Coimbra, a que poderá também assistir em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ e enviar as suas questões ( darwin@gulbenkian.pt ) que o orador responderá no final da sessão.
Mais se adianta que Eugénia Cunha é Bióloga ( cunhae@ci.uc.pt ), doutorada em Ciências (especialidade Antropologia, 1994); é professora catedrática de Antropologia, do Departamento de Antropologia, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra desde 2003.
A evolução humana sempre foi uma das suas áreas científicas prioritárias porque entende que o conhecimento da história natural do homem é crucial para várias ciências tais como a Antropologia e a Biologia. Ver o homem como um Primata, conhecer os primatas não humanos, é um modo insubstituível de nos conhecermos. Entender o nosso passado é também indispensável para perspectivar o nosso futuro como espécie. A evolução humana é uma ciência eminentemente transdisciplinar, sujeita a mudança, rica em descobertas de vários tipos e em que a ausência de evidência não é evidência de ausência. A divulgação e o ensino da Paleontologia Humana têm sido uma constante.
Entre outros, criou e desde 1998 é responsável pelo Mestrado em Evolução Humana, agora 2º ciclo em Evolução e Biologia Humanas do Departamento de Antropologia da FCTUC. Nas licenciaturas de Biologia e Antropologia lecciona desde 1985 disciplinas de Evolução Humana e Paleontologia Humana.
Orienta/ou cerca de 30 teses de Mestrado na área em questão; orienta/ou 16 teses de doutoramento (incluindo 7 bolseiros da FCT). Preside o Departamento de Antropologia da FCTUC e o GEEV, Grupo de Estudos em Evolução Humana http://www.geevh.org/, cujo lema é “ a especialização conduz à extinção”.
Ministrou vária conferências, debates e seminários em Evolução humana em Universidades nacionais e estrangeiras assim como em Escolas Secundárias. Desde 1987 participa em congressos internacionais sobre evolução humana.
Tem desenvolvido e colaborado em vários projectos na sua área tais como o Projecto Ciência Viva sobre a divulgação da Evolução Humana intitulado “ A Grande Árvore da Evolução Humana” 2007.

COMO NOS TORNÁMOS HUMANOS
EUGÉNIA CUNHA
Esta pergunta recorrente que se coloca desde sempre vai buscar respostas a várias ciências e permanece um dos maiores desafios da antropologia e da biologia. Leva-nos a uma inevitável e fascinante viagem ao nosso interior e no tempo porque o entendimento de onde viemos elucida também sobre para onde vamos. E no exercício de mergulhar no passado, há que recuar até há cerca de 7 milhões de anos para encontrar os mais prováveis candidatos a primeiros hominídeos. Desde eles até ao presente, passamos por uma cadeia impressionante de antepassados, directos e indirectos, que vamos colocando na nossa árvore evolutiva, densamente ramificada mas da qual só conhecemos uma parte dos inquilinos. Falaremos de alguns deles, onde, como surgiram e como se relacionam connosco. As peças do puzzle vão surgindo com as novas descobertas e com a reavaliação de outras. Cada uma dessas peças conta-nos uma história. Mas cada vez mais, não são só os fósseis que permitem reconstruir a nossa história natural. O acesso ao nosso genoma e ao de alguns dos outros primatas levou-nos para uma nova era em que se procura identificar os genes e as alterações genéticas que nos tornaram únicos. A nossa singularidade remete-nos inevitavelmente para o órgão mais complexo do universo, o nosso cérebro. Recentemente, foi sugerido que um determinado gene, o HAR1F, possa vir a ajudar a perceber porque somos os mais encefalizados de todos os primatas. Mas temos que reconhecer que somos muito mais do que genes. A velha máxima “ somos aquilo que comemos” continua válida e o segredo do aumento do nosso cérebro, um autêntico devorador energético, parece ter sido contrabalançado por uma concomitante redução do aparelho gastrointestinal viabilizada por uma mudança na dieta. A incorporação de mais carne na dieta terá facilitado o crescimento cerebral. A hipótese ETH- Expensive- tissue hypothesis é aqui cruzada com o aumento do período de gestação, com a prematuridade do recém-nascido humano e com o crescente investimento parental por parte dos humanos como uma explicação possível para o facto de o nosso cérebro ser três vezes maior do que aquilo que seria de esperar. Mas este não é o nosso único traço distintivo. O bipedismo e a nossa linguagem têm sido cruciais para termos chegado onde hoje estamos. A chave está no cruzamento de todos estes traços distintivos, dos genes a eles subjacentes e na sua correcta contextualização ecológica. Sabendo que a evolução não é gratuita e que só quando os benefícios de uma dada mudança evolutiva superam os custos é que o processo avança, é um desafio destrinçar as cada vez mais peças chave deste intrincado ser que somos com a certeza de que muitas das questões só serão respondidas ao longo do próximo século, quiçá, no próximo grande aniversário de Darwin que, acredito, continuaria a dizer” Light will be thrown on the origin of man and history”.

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