La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.20.2008

Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional

Representante português em vários comités internacionais, incluindo a Cambridge Philosophical Society, Cephalopod International Advisory Council (CIAC), Association of Early Career Scientists (APECS), Youth Steering Committee for the International Polar Year (YSC) e Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR) José Xavier, doutorado pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, actualmente investigador pós-doutoral do Centro de Ciências do Mar (laboratório associado da Universidade do Algarve) e da British Antarctic Survey (Reino Unido), faz investigação na Antárctica desde 1997, biólogo marinho com numerosas publicações na ecologia, conservação e gestão de recursos marinhos no Oceano Antárctico, Oceano Atlântico, Reino Unido e Portugal, tendo experiência em estudos interdisciplinares e em colaborações internacionais, membro do Comité Português para o Ano Polar Internacional, coordenador nacional de três projectos chave do Ano Polar Internacional, http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=20867&op=all , será quem irá proferir a próxima conferência do Ciclo de Conferências Na Fronteira da Ciência 07/08, uma iniciativa conjunta do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian e da Ciência Viva, no dia 26 de Março, pelas 18 horas, no Auditório 2, da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A), intitulada Icebergs, Neve e Muitos Pinguins: As Razões do Ano Polar Internacional.
E nela se desvendarão parte dos porquês e fascínio das regiões polares, sobretudo "por terem componentes que nos atraem, tais como a neve, os icebergs, os pinguins e os ursos polares. Esta palestra focará a forma como estes elementos nos podem ajudar a compreender a importância das regiões polares em relação às alterações climáticas que estão a ocorrer no Planeta (num contexto português, ao nível histórico, científico e educacional), porquanto, e historicamente, Portugal foi um dos países envolvidos no início da exploração polar, logo no século XVI."
Aliás, conforme circular da organização, "nos últimos trinta anos, um grupo de oito investigadores portugueses desenvolveram estudos científicos na Antárctica, em colaborações internacionais com vários países, incluindo o Reino Unido, Espanha, Estados Unidos da América, Bulgária, França e Itália. No entanto, esses estudos têm sido desenvolvidos a título individual, sem estarem enquadrados num suporte científico nacional. Pela primeira vez na sua história Portugal está a participar num Ano Polar Internacional (API), o programa internacional científico e educacional sobre os pólos que decorrerá até Março de 2009 (consultar o site: http://anapolar.no.sapo.pt). O último API foi há cinquenta anos e este é apenas o quarto API (depois de 1882-83, 1932-33 e 1957-58).
Ao nível científico, Portugal tem realizado excelente ciência polar e tem tido um papel activo durante o Ano Polar Internacional. Nesta palestra, pretende-se ilustrar que estudos científicos estão a ser realizados por cientistas portugueses nos pólos, nas suas diferentes áreas (ciências atmosféricas, ciências biológicas, ciências da Terra e criosfera, ciências planetárias e astronomia) durante o API. Pretende-se também evidenciar a estratégia cientifica que Portugal tem para estes dois anos e qual o seu contributo ao nível internacional. De momento, os cientistas portugueses estão envolvidos em projectos onde estão incluídos mais de trinta países. Através do trabalho do Comité Português para o Ano Polar Internacional, Portugal já é reconhecido como parceiro científico polar, ao ser aceite pelo Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR). Portugal irá assinar em breve o Tratado da Antárctica, que define que este continente seja devotado à ciência e à paz.
Ao nível educacional Portugal está igualmente bastante activo, tendo um dos projectos educacionais mais reconhecidos internacionalmente. O comité Português para o Ano Polar Internacional, conjuntamente com a Associação de Professores de Geografia, elaborou um projecto chamado LATITUDE60!, cujos principais objectivos são educar a comunidade escolar portuguesa sobre as regiões polares, mostrar a importância determinante que estas regiões têm para a dinâmica e regulação climática do Planeta e apresentar a excelente ciência que os investigadores portugueses produzem nessas regiões, sempre com o objectivo de motivar as gerações mais jovens para as ciências e para as artes. Patrocinado pela Agência Ciência Viva, este projecto já tem cerca de cem escolas e quatrocentos professores envolvidos a nível nacional.
Finalmente, esta palestra pretende ilustrar a perspectiva portuguesa de “realizar ciência” e de viver num dos mais fascinantes locais do Planeta: a Antárctica."
Todavia, se se considerar a presente informação ainda não suficiente para motivar a ida a esta conferência, ou tiverem dificuldades de lá se deslocarem, poderão sempre assistir a ela em directo, pelo site:
http://live.fccn.pt/fcg/ (podendo no fim da conferência enviar por email as perguntas que entenderem para fronteiradaciencia@gulbenkin.pt ) ou solicitar mais informações sobre ela em www.gulbenkian.pt/fronteiradaciencia.

Lector in Fabula

"No máximo, existe apenas uma objecção, à minha objecção à objecção de Lévi Strauss: se até mesmo os reenvios anafóricos postulam cooperação por parte do leitor, então nenhum texto escapa a esta regra."
Umberto Eco

São partes essenciais do processo crítico, em literatura, desde que este esteja eivado de boa vontade e cooperação semântica, a interpretação, a análise e a valorização do texto, seja ele poema ou ficção, teatro ou ensaio. Todavia há pessoas, e que me desculpem a ousadia de chamar pessoas a este tipo de gente!..., capazes de avaliar a qualidade de um livro, sem que antes o tenham interpretado, muito menos analisado e nem sequer lido totalmente. Pegam num item do leque temático, em que mais à vontade estejam, aplicando-lhe seguidamente todo o seu saber sobre o assunto para, invariavelmente, sentenciarem de cátedra que os restantes capítulos estão a mais. Pretendem, não só saber mais que o próprio autor a propósito da obra, como também, e em superlativo grau, melhor desta acerca do autor ou como ele nela se revela. Melhor dito, já têm tantas ideias feitas acerca do quer que seja, que até para dizer mal de um autor e de suas obras, acham desnecessário pensar, ou procurar outras que pior digam, inovando assim o seu maldizer que apenas reflecte o seu não saber fazer, numa manifestação exemplar e típica daquilo que o povo português, sem eufemismos nem maneirismos de falsos católicos ou falsos ateus, empregando o vernáculo da sua estirpe vicentina, designa por dor de corno. A sinédoque é o seu cavalo de batalha, a ironia socrática o seu estandarte, o sofisma o seu florete, o tráfico de influências o seu escudo e a ignorância enciclopédica a sua estratégia contra toda e qualquer metáfora, ser estranho e extraterrestre ao seu linguajar narcísico, que tem por anáfora incansável o "ama-me" até parecer que sim, à força de tanta repetição, reproduzindo sobre os textos literários o modus operandi da política de massas, cuja propaganda, em mais não consistiu, do que usar o boato, a trocagem de dizer bem do que é mau, até que as estatísticas lhe confirmem os méritos e a sua eleição se verifiquem, demonstrando que o número, em vez de prova de quantidade, é prova de qualidade, pintando um arco-íris virtual e falso na sinestesia da sua existência(e obtusa alma).
Para estes críticos do quem não tem vergonha todo o mundo é seu ou água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mas que substituíram a água pelo ácido corrosivo da sua bílis afectiva, a sua destilaria de venenos pessoais, sugando todas as relações para o canal único e edipiano, ou elétrico, do amor-ódio, a qualidade de qualquer manifestação artística reside exclusivamente no seu grau de parentesco ideológico com o autor dela, com a simpatia ou tesão que lhes desperta, e nunca da genialidade ou eficácia, rigor, mestria, domínio da técnica e recursos que a suportam e sustentam. E em face deles, confrontados com a sua evidência, recusam admiti-los, nem que para isso tenham que confessar que não compreendem, que são burros e desinteligentes, uma vez que estão tão habituados a corromper, a justificar com os fins os usos de qualquer meio, que até a si mesmos corrompem e usam, utilizam e violentam, desde que esteja em causa defender a sua causa. Transformar uma grande merda numa obra prima, é tão fácil para estes críticos, e amigos da onça, como fazer o contrário, que é do tornar numa bosta a melhor e mais sublime das criações.

Os clusters de estilo, aquelas ideias ou figuras chave – alegoria, parábola, metáfora, sínquise, imagem, metonínia, sinédoque, ironia, elipse, palimpsesto, etc. –, convenções semióticas ou sistemas semânticos, capazes de impulsionar a criação de conteúdos, estruturas sintácticas e moleculares, inovar dentro de um determinado formato ou modelo, não passam para eles de academismos ou deselegâncias de intelectual armado em sabichão. Pieguices do não-sentir as lamechices do seu contentamento, do seu corporativismo ou, ainda, falange de gosto. Não lêem, não vêem teatro, cinema, pintura, fotografia, não ouvem música, nem admiram a paisagem ou a natureza, a não ser que essas manifestações de beleza possam servir para debitar os seus preconceitos, empurrar a sua falua, rumo à foz dos seus anseios e maquinações, interesses e teses de competição, directa e indirecta.
Conforme salientou Umberto Eco, num outro estudo, acerca da Interpretação e Sobreinterpretação, coligido e dirigido por Stefan Collini (p. 34), é reconhecida geralmente a lenda do califa que ordenou a destruição da Biblioteca de Alexandria, advogando ele que ou os livros diziam a mesma coisa que o Alcorão, caso em que seriam supérfluos (palimpsestos), ou então diriam coisas mui díspares e diferentes dele, caso em que estariam errados como nocivos, pelo que se tornariam igualmente inúteis e cuja perda seria um notório ganho para a humanidade, como, aliás, de facto é qualquer mal intencionada mentira. Portanto, o califa, além de conhecedor da verdade, possuí-a, e achava-se no direito de julgar/avaliar os livros sob o "espírito absoluto" dela, que em si mesmo seria também uma verdade absoluta. Pertencia à noite dos tempos, embora fosse o que melhor aprendizagem usufruíra e o mais sagaz espírito do seu tempo, não dos anteriores nem dos que se lhe seguiram, e muito menos deste tempo que é nosso, enquanto efeito dilecto da modernidade...
Ora, sendo nós apenas leitores e não fazedores de literatura, por mais que nos queiramos impor sobre a informação – sem a adulterar... – veiculada nos textos, literários ou não, podendo eles ser tão-só simples documentos cuja informação está "criptada" numa determinada mensagem, somente essa e não outra qualquer que poderia ser mas não é, o que faz deles aqueles textos ou documentos, e não outros quaisquer, se quisermos descodificar os que eles contêm, que há-de sobretudo ser traduzível num produto cognitivo ou conteúdo cultural, posto que sendo conhecimento tácito será igualmente conhecimento explícito, se não nos outorgarmos outros califas destruidores de livros, teremos de cooperar com o autor dele, como seu codificador inicial, até já não precisarmos dos sinais e marcas que o definiram para o percebermos, pois que assim, grosso modo, estaremos então aptos a avaliá-lo de acordo com a sua lógica, sensatez e gosto explanados, utilidade ou bem-aventurança que manifestem, quer conforme o resultado que dele colhamos, quer pela utilidade ou conhecimento tácito que nos facultou e podemos dar à informação contígua, como pelo conhecimento explícito que nos transmitiu, ou pelo maquinismo com que apetrechou (ou não) a nossa estrutura mental, na medida em que a reforçou ou abalou, consolidou ou degradou, reparou ou abateu, preencheu ou feriu, em termos cognitivos e de superação da vida, o nosso ser, enquanto personalidade plausível de estar entre os demais e influenciável pelo que lhe (e lhes) acontece.

Interpretar um texto, significa explicar por que razões as palavras dele, não obstante poderem significar diversas e diferentes coisas, significam precisamente aquilo que significam, e não carecem de demais ou quaisquer significações para que o entendamos, posto que sendo ler não somente soletrar – Albert Camus, nos seus Primeiros Cadernos, afirmava até que ler é compreender e compreender seria criar, aliás, posição radical que aqui não é subscrita totalmente... –, na tentativa de reconstruir a intenção do texto, distante essa da intenção do autor ao fazê-lo, decifrá-lo enfim, descobrir e enveredar pelos sentidos dele, para preparar a releitura que, essa sim, estabelecerá outras vias de análise, de aprofundamento, de sobreinterpretação, onde se verão esclarecidas, por observância das intertextualidades e entretextualidades vigentes nele, os voilàs e dejà vus passíveis de facilitar identificações, projecções e transferências fundamentais à empatia, e que concorrem para que aquele texto que lemos seja igualmente o outro texto lido mas cuja experiência nos modificou, bem como à nossa maneira de o acatar e entender, sem deixar de ser o anterior nem descambar no simples palimpsesto do primeiro que lemos, seja ele excerto da Bíblia Sagrada ou do Alcorão, da Gata Borralheira, do Assim Falava Zaratustra ou de O Principezinho, ultrapassando definitivamente o "wo Es war, soll Ich werden" (onde era Isso, devo ser Eu) freudiano, envolvido afastamento mas essencial, para reconhecer que, independentemente dos sete sentidos de cada um – gosto, tacto, ouvido, cheiro, visão, propriocepção e empatia –, ou das sinestesias que suscitem, estarem positivamente activos e actuantes, servindo para recuperar o objecto desconstruído, alvo do nosso interesse (o texto, neste caso) e não para o danificarem pela utilização, talvez distorcendo-o sob a nossa intenção ao lê-lo, quiçá destorcendo-o dela em seguida, até já nada do texto restar como intenção de si ou da do seu autor, quando se propôs a redigi-lo que, sem dúvida, nem sempre coincide com aquela que ele espelha depois de pronto.
(Quadro de Ian Cox)
A fábula está aí. Essa é que é a verdadeira fábula em que o animal falou, humano que seja esse animal, artesão no menos, alquimista da palavra, se bem sucedido. E saltar para dentro dela, para ver claramente visto o que nela ocorre, deduzir do seu texto, além do pretexto também o contexto, permitir que da polissemia dos significantes nasçam os constructos semânticos que a identificam, fazem dela aquilo que deveras é e não uma outra qualquer, quebrando a cadeia de palimpsestos que a submergem, emergindo então ela original, se original for, eis então o trabalho do leitor que, finalmente, terá sobre ela o direito de valorização, condenando-a ou absolvendo-a perante os seus juízos e valores.
Agora, se ao entrar nela nos abstrairmos dele, se da fábula não descortinarmos o texto que a elabora, a executa, a realiza, sucumbindo apenas às (primeiras) impressões que nos suscitou, isso pode entender-se como uma leitura desnecessária, uma vez que nós a não queríamos conhecer mas usá-la, coisa que poderíamos fazer com qualquer outra que ela fosse, para nos relatarmos nela, descobrindo-nos nela, revelando-nos não pelo que ela é, e sim pelo que pretendemos que ela seja, tornando-a não um palimpsesto de si mas um palimpsesto de nós. O que irremediavelmente provoca que todas as histórias sejam a mesma história, atribuindo plena razão ao califa (sem dúvida leitor monomaníaco, fundamental adepto da percepção motivada) da Biblioteca de Alexandria, que a queimou por desnecessária, perante a relevância do Corão.
Como os animais, as coisas também falam... Incluindo as palavras, os números, o quotidiano, as cores, as condutas, os objectos, os sujeitos, a memória, a experiência, os símbolos, os sinais. A cultura é feita disso. A arte, também. Principalmente, a ficção e a poesia... O romance e a verdade. A fábula, como a doutrina que lhe subjaza. E ao transportarmo-nos para dentro dela, metemo-nos fora (metáfora) de nós. Os clusters de estilo, são portanto, nesse sentido, estratégias facultativas desse ínterim. Reconhecê-las, ser permeável a elas, é cooperar com o texto, com a intenção dele, como com a do seu autor, que as usou para o balizar, tornando-o naquilo que é, de entre tudo aquilo que ele poderia ser.
Discernir entre as hipóteses possíveis a mais plausível, ou verosímil, é por conseguinte, a mais rudimentar forma de ler, logo, de interpretar, embora esta se revele, assim, como uma maneira de enfabular a fábula propriamente dita, seja ela de cariz realista (caso de consciência, gesta, enigma, locução), seja ela idealista (mito, memória, traço de espírito, lenda ou conto de fadas). Narrativa ou poema. Documento ou informação. Contexto ou conteúdo. Enciclopédico ou semântico, visto ambos veicularem conhecimento, tanto tácito como explícito.

Tal como nos edifícios, perante tantas aberturas (janelas, varandas, sacadas, etc.), desde que neles queiramos entrar naturalmente, sem excentricidades saloias nem intenções malévolas de saqueadores nocturnos, a melhor e mais inteligente, ou expedita, forma de o fazer, é utilizar a porta da frente, se estiver aberta, ou, caso o não esteja, usando a respectiva chave para abri-la, também aos textos, enquanto fachada da mancha gráfica, lhe devemos aceder pelo mesmo processo: pelo item por onde melhor falam – que sempre é o que mais nos surpreende neles, ou aquela característica sua que mais alterada esteja em relação aos outros da sua índole, ou então, pelo contrário, por aquela semelhança tão exaustiva e evidente em relação a alguns dos seus pares que impossível se tona não reparar nela, logo às primeiras e diagonais vistas. E, no caso da fábula, pela fala do animal, que principalmente por ser uma das suas características alteradas e simultaneamente semelhantes, logo alternativa, visto ser a fala aquilo que antes estaria vedado ao animal (ou coisa, ainda apenas que personagem seja...), embora o faça com características tão iguais às da fala humana, que nos chega parecer que muito superior em humanidade é do que quando usada por essa espécie, no seu corrente dia a dia, onde apenas o conhecimento tácito da língua é revelado, facto pelo qual o identificamos ora por narrador, ora por alter-ego, ora por sujeito, ora por voz polifónica, ora por protagonista principal, ora por objectiva que nos filtra, como amplia ou minimiza, a realidade candente nela, que é enfim onde o animal mostra a face hiperbólica da sua natureza, as suas aspirações maiores, os seus feitos superiores, o seu habitat e comunidade, as suas mais fantásticas aventuras e relações, quer com tudo isso como consigo mesmo, incluindo o protocolo do seu relacionamento (hiperligação) com o divino, o onírico e o paranormal. E, grosso modo, com o leitor. O espectador. O olhar do outro que obrigou o autor a meter-se fora de si para facilitar a comunicação com ele.
Eco chamou-lhe leitor-modelo. Todavia, adiante se verá porquê, na geração do autor-modelo, inerente aos modelos literários (narrativos como poéticos) que formatam não só o género, como igualmente a modalidade discursiva (discurso). Por enquanto, a suspeita recai toda sobre a palavra (signo: significante e significado) e o seu crime hediondo que é o de invadir-nos e alterar-nos. Bala que entra em nós para estilhaçar-nos a alma, sem se importar connosco minimamente, nem como no-la deixa, se num vitral perfeito e magnífico a transforma, se num escaqueirado espelho que estonteante e assustadora imagem reflecte. Bala que seja, fala que indubitavelmente é, é através dela que a História se revela na história, quando ela é história palimpsesto, ou que a não-História se revela na história, quando ela é história elipse, por exemplo. Uma pela (às vezes exagerada) presença, outra pela (não menos notória) ausência. Digamos que se a fala fala, o silêncio é outro falar que, em comunicar, a iguala. Logo, igualmente bala.
Em Ian Cox, por exemplo, o céu é vermelho e chove sangue, mas palpita-me que seja apenas tinta de guache sobre papel. Para Eva De Mul, D. Quixote montado no seu rocinante de rodas recicláveis tenta combater as gigantescas centrais nucleares com o protocolo de Quioto, espelhando uma vez mais a sonhadora alienação do cavaleiro da fraca figura. Ziek funde analisador e analisado na mesma cadeira de baloiço ou sofá de psicanalista. Entre o ventre e o seu interior há um voilá a revelar-se na concretização do dejà vu com que se nasce. Ever Meulen não se coíbe de indicar-nos que o estilo é um pensamento especial que serve de combustível ao protótipo de corrida em que molhamos a pena. E os clusters de estilo são a fechadura na qual cabe a figura-chave que há-de abrir-nos a porta da fábula onde o nosso animal (alma, inconsciente, pátria, língua, etc.) nos ensina quem afinal somos. Portanto, se interpretar é entrar no texto, analisar é descobrir as ligações entre a chave e a fechadura, o imbricado jogo entre arestas e ranhuras, que provoca o clique para vermos claramente visto algo que apenas tínhamos a impressão (suspeita) que existia. E após isso, mas só após Ich, depois do animal que fala ter sido superado (Nietzsche) ou suprimido (Amélie Nothomb), só depois de termos desenleado o fio da meada, é que nos é legítimo avaliar se esta ou aquela obra é boa ou má. Mas, nunca antes!
(De Bloedregen, 1975, de Ian Cox)



3.04.2008

A peregrinação inteior de Orhan

Orhan Inner Pilgrimage

Presently we live in a world whose essential reality rests upon the will of two duplicates, which now get closer, then stay far away from each other; now get similar, then get different; now join their spades against evil, then they engender it; now they are for each other, then they are against each other; now they devise an invincible machine, then they smash it: well, of two Gods. The God of the Christians and the God of the Muslims. And this could be the conclusion taken of what was not said but largely demonstrated in the White Cidadel, a novel in which story, plot and supposition balance on the borders of identity, swinging “on tiptoe” in an exercise of risk, in as much as “to be” is not unpunished, because “to be” one it takes to be the other, in the vice-versa of a mirror dance.
However, that crossed reflection, typical of the flickering writing between the lines, is not extinguished in the above mentioned work and can be the clue of signs for detectives committed in the revelation of the supreme crime, or the one that makes each one what it is and not other which he could equally be. Leading thread among incident reflections, traces of familiar sprinkling, flashes of memory on the river of forgetting, shades of undoubtable similarity among different tapestries of different craftsmen, in the disparity of motives, whether they are revealed to the sight and on the face, whether they are simply guessed as a possibility on the reverse. That’s why this presentation is, was, a gesture of resistance, an obliquely look that insists on recognizing that “when the garden of memory starts getting desert” as Djélâl had already said, “we tender its last trees and its last roses, we fear for them. To avoid that they dry and disappear, we smooth them, we water them from morning to night! We do nothing but remembering and remembering again, fearing to forget!”
To go through the imagetic universe of The Gardens of the Memories is to recognise how much permeable to common history we are and to allow it the transparency of the waters where will be reflected the inseparable futures of two worlds, which exerted the secular magic of making flourish the alchemy of the fusion again, changing the lead of the difference into the gold of identity, as true houroufis, initiated in the art of verbal play and punning of the old literature, inhabitants of the “Heart of the Cities”, watered by the rivers and seas of memories, whose tides fertilize its margins, filling them with the green ink of its trees (secular) in search for the secret and for the lost sense in the faces, cities which are the reunion of themselves, built from addresses, which are built from letters, and the letters built from the faces which teach the memory to read and write, just as the lead which changes the simple glass of transparency into the mirror of the secret, words that in Turkish are homographic and homophonous, which tell us that reading is looking at the mirror, but knowing the secret is being able to cross it, as all those that ignore the secret of the letters cannot but discover in this world the dullness, the banality of their own face.
“…
“Remember me?” he asked the old journalist after a moment.
- Of course! You are also a flower in the garden of my memory! – Néchati answered without raising his head. – Who said that the memory was a garden?
- It was Djélâl Salik.
- No, it was Bottfolio. In his very classical translation of Ibn Zerhani. As always Djélâl Salik has stolen him that image. As you stole him his glasses.”


And saying glasses we say lens. And saying lens we say glass. And saying glass we say mirror… If, alas, we are able to put together enough and the necessary dose of (green) lead that History gave us.
(Tradução de Margarida Coelho)




A peregrinação inteior de Orhan

Vivemos actualmente num mundo cuja realidade essencial se fundamenta na vontade de dois sósias, que ora se aproximam, ora se afastam; ora se assemelham, ora se diferenciam; ora unem as espadas contra o mal, ora o forjam; ora se pronunciam a favor um do outro, ora contra; ora inventam a máquina invencível, ora a desmantelam: enfim, de dois Deus. O Deus dos cristãos, e o Deus dos muçulmanos. E esta podia ser a ilação conclusiva de quanto não foi dito mas sobejamente demonstrado em A Cidadela Branca, onde a trama, o enredo, a conjectura, se equilibra nas fronteiras da identidade, balançando-se "pé ante pé" num exercício de risco, por quanto isso de ser não é impune, pois para se ser um obriga igualmente a ser-se o outro, no vice-versa duma dança de espelhos.
Todavia, esse reflectir entrecruzador, típico do entrelinhamento bruxuleado, não se esgota na obra citada e pode também ser pista de sinais para detectives empenhados na desvendação do crime supremo, ou aquele que faz com que cada um seja o que é, e não outro qualquer que podia igualmente ser. Fio condutor entre reflexos incidentes, traços de aspersão familiar, flashs da memória sobre o rio do esquecimento, matizes de inequívoca similaridade entre diferentes tapeçarias de diferentes artesãos, na disparidade dos motivos, quer eles se revelem à vista e no rosto, quer se adivinhem simplesmente como possibilidade no avesso. Por isso, esta apresentação é, foi, um gesto de resistência, um olhar de soslaio que insiste em reconhecer que "quando o jardim da memória começa a desertificar-se", como dissera Djélâl, "acarinhamos as suas últimas árvores e as suas últimas rosas, tememos por elas. Para evitar que sequem e desapareçam, acariciamo-las, regamo-las de manhã à noite! Não fazemos outra coisa que não seja recordar e voltar a recordar, com medo de esquecer!"
Atravessar o universo imagético de Os Jardins das Memórias, é reconhecer quanto somos permeáveis à história comum e permitir-lhe a transparência das águas onde se reflectirão os futuros inseparáveis de dois mundos que exerceram a magia secular de fazer reflorir a alquimia da fusão, transformando o chumbo da diferença em ouro da identidade, como autênticos houroufis, iniciados na arte dos jogos verbais e dos trocadilhos da literatura antiga, habitantes do "Coração das Cidades", irrigadas pelos rios e mares da memória, cujas marés fertilizam as suas margens, impregnando-as da verde tinta das suas árvores (seculares) na busca do segredo e do sentido perdidos nos rostos, cidades que são a reunião de si mesmas, construídas a partir de endereços, estes a partir de letras, e as letras a partir dos rostos que nos alfabetizam a memória, qual estanho que transforma o simples vidro da transparência em espelho do segredo, palavras que em turco são homógrafas e homófonas, e nos indica que ler é olhar o espelho, mas conhecer o segredo é poder atravessá-lo, porquanto todos os que ignoram o segredo das letras não podem descobrir neste mundo senão a insipidez, a banalidade do seu próprio rosto.
" ...«Lembra-se de mim?» perguntou ao fim de um momento o velho jornalista.
– Claro! Também você é uma flor no jardim da minha memória! – respondeu Néchati, sem levantar a cabeça. – Quem foi que disse que a memória era um jardim?
– Foi Djélâl Salik.
– Não, foi Bottfolio. Na sua tradução muito clássica de Ibn Zerhani. Como sempre o Djélâl Salik roubou-lhe essa imagem. Como você lhe roubou os óculos a ele."
– página 323.
E quem diz óculos diz lente. E quem diz lente diz vidro. E quem diz vidro diz espelho... Se, enfim, lhe soubermos juntar a dose suficiente e necessária de (verde) estanho que a História nos forneceu.

3.01.2008

A Minha Tia é Uma Baleia, de Anne Provoost


"As lágrimas são para os olhos o que o arco-íris é para o céu"
Ditado popular neerlandês.


Quando uma das relações primárias (do indivíduo consigo mesmo, do indivíduo com os outros indivíduos, do indivíduo com a natureza e seus elementos, do indivíduo com os animais e do indivíduo com a cultura do lugar, a civilização, o imaginário colectivo e os mitos), em vez da consumada realização, encalha, então as restantes quatro vêm em seu socorro, e determinam pôr fim (preencher) ao buraco negro existente na sua existência – com ressalvadas escusas pela impertinência da redundância. Foi o que aconteceu (ou acontece) sumariamente, na minha opinião, que nunca poderá valer por outra coisa além de conjectura, em A Minha Tia é Uma Baleia, quando Tara, pertencente a uma família, em cujos membros têm o nome sempre começado por t, Tony, o pai, Tânia, a mãe, e Tara, a filha, formando a trindade molecular (ou ordem) da sociedade a que o tempo sem contemplações ditou a prescrição, porque inapta, entrecruzando os relacionamentos desta, notoriamente disfuncional, com a da sua prima Ana, absolutamente discernível e funcional, residente no Cabo do Bacalhau, istmo terreno de onde se pode vislumbrar a Europa, e tudo o que esta representa, para facilitar a operação de salvamento, não só das baleias que deram à costa porque tinham o seu sistema de orientação baralhado, mas também, dela, Tara, que está sendo vítima de violentação sexual por parte de seu pai (incesto), recorrendo à ajuda de uma bióloga (a biologia é a ciência da vida...) especializada em acostamentos e que terá, na sua formação, sofrido iguais sevícias, nos danos, embora que apenas de pedófilas características, uma vez que o agressor era amigo da família e não membro dela.
Numa escrita sem afectadas pretensões, nem floreados barroquismos mas descomprometida, onde a narradora contrapõe com o seu inverso, a prima, duas crianças entre os dez e treze anos, cuja paleta metafórica deriva do multicolorido semiótico universal (verde, vermelho e laranja) das emoções à cor fixa da neurose, Ana e Tara respectivamente, que vagueiam pelas dunas entre dois mundos distintos, tão distintos quão o são o medieval ternário (1+1=1=3) e o moderno binário (1+1=2=10), em que, onde a dependência afectiva e material das crianças é ou não aproveitada egoísta ou perversamente pelos adultos de suas relações, e obrigou uma delas a deixar de ser mais uma criança de sete anos a quem foi amputado o direito de construir castelos de areia com telhados de conchas, túneis subterrâneos e autênticas arvorezinhas à volta dos fossos. Escrita onde se entrecruzam ou entretecem, em ponto décimal, porque abre os seus cinco principais temas à duplicidade de leituras – a lenda de Goody Hallet, o mito das sereias (e sirenas), a arqueologia dos afectos, do conhecimento e da família, o incesto e/ou pedofília universais, a Europa simbólica e o Continente-Estado real, da nossa actualidade – na procura da catarse, que, à falta de melhor antídoto para o veneno existencial dos recalcamentos gerados nas relações ambíguas e nocivas ao desenvolvimento da personalidade, ainda continua, desde a psicanálise, hipnose, narcoanálise (Pentotal ou soro da verdade) e o psicodrama (Mário Moreno), ainda continua, dizia-se, a ser a melhor e mais rentável solução para reacertar a visão que cada um tem de si mesmo, com a do indivíduo que realmente é, se não estivesse sob a influência sensorial e emocional do diferencial correlativo em que se baseia e fundamenta a neurose.
Isto é, transforma uma obra literária noutra tesoura (X) capaz de cortar (interromper) o ciclo de multiplicação dos Filipes (amigos dos cavalos, súbditos da aristocracia marialva) violentados, que em adultos serão os transportadores (cocheiros) de outras crianças que submeterão às mesmas sevícias que eles tiveram, posto que é suficiente para gerar a catarse, aumentando para cinco o número de métodos de a conseguir – psicanálise, hipnose, narcoanálise, psicodrama e literatura – além de facultar às famílias um meio de, sem esquecer os recursos da diversão e da pedagogia, escamotear o medo que alimenta o secretismo das relações intergeracionais, onde se geram as taras psicológicas e as perversões sexuais. Abolindo essas divisões da caixilharia editorial barroca, templária e inicial, de que há literaturas para estádios mentais e etários (infantil, juvenil, adulto e idoso), que infantilizam a humanidade, e esclarecendo definitivamente que se existe alguma definição valorativa e dirigida, porque intencional, da literatura, ela está na linha daquilo que serve, se é a vida ou a morte, a arte ou a perversão, o concerto e harmonia social ou a pornografia, enfim, facultam o conhecimento ou o seu contrário – a ignorância.
Porque é preciso calar o silêncio, matar as bruxas que geram o medo e petrificam os "lábios" de quem expõe os seus segredos, salvar todas as baleias em perigo de extinção, sobretudo as suas crias, sejam elas golfinhos, sereias, boca-de-panela ou gigantescas baleias do Mar do Norte que engolem garrafas para gritar ao mundo a sua mensagem de agonia, e espalham o seu sangue vermelho nos oceanos da modernidade. T-shirt das águas e atmosfera no dorso da Terra... Porque também ele quer dizer Stop. E Stop é para parar!
Porque a literatura pode ser o Albatroz IV que devolve as baleias ao mar...

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A pessoa entre as sombras de ser