La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.28.2009

Teses da Indolência e da Incontestação



1. (Alegre)Missiva Aberta à Navegação Insustentável:



"Imaginem um número, dupliquem-no, tripliquem-no,
elevem-no ao quadrado, e apaguem-no."

Mac Neice


Um verso branco ou solto é aquele que, sujeitando-se às demais leis rítmicas, carece unicamente de rima, ou tendo-a, não a assume como necessária na estrutura do poema. Se colarmos um dístico ou parelha (estrofe de dois versos em arte maior ou arte menor), a um aiku (Haicai ou Haiku, poema japonês de três versos que normalmente contém um número total fixo de sílabas, em regra dezassete ou dezanove, que se sustenta de alusões – referência geralmente breve, acidental, em certos casos indirecta a factos, pessoas, circunstâncias supostamente conhecidas do leitor, embora que esporadicamente obscuros ou até dele desconhecidos, actos, cópulas, mistérios e confissões, com a finalidade de introduzir no discurso um manancial de experiência e de saberes que transcende em muito aquilo que nele efectivamente se diz –, gradações – crescendos ou decrescendos silogísticos conforme é intenção de produzir clímaxes ou anticlímaxes de interpenetração idiomática –, e comparações – também reconhecidas por contrastes, analogias ou contrapontos, cujo método consiste em aproximar, pondo assim em evidência, duas ou mais pessoas, ideias ou circunstâncias, palavras ou actos, insinuações ou imagens, com vista a fazer notar e reproduzir as semelhanças ou dessemelhanças entre elas –, conseguimos normalmente um poema, classificado por alguns de estilo livre e outros de feitura naïf (ingénuo), segundo a simpatia que têm para com a pureza ou corrupção, norma ou desvio, da técnica poética, e conforme o grau de sofisticação (requinte, subtileza, filigrana) que lhe atribuam.
É, porém, um recurso comum aos poetas que ainda têm dificuldades em trabalhar os seus poemas com as ferramentas próprias da arte (rima, ritmo, medida, encadeamento e estrutura formal) mas precisam de brilhar ocasionalmente entre ambientes leigos na matéria. É o pão com manteiga dos limitados de recursos. O sal e tomate dos cozinheiros pouco escrupulosos. O atalho breve para o êxito rápido dos preguiçosos e apressados. O conduto de uma inveja ansiosa.
No entanto, e curiosamente, esta atitude dos autores que forçam a sua voz não trabalhada a tomar como suas as tonalidades alheias e, por conseguinte, falsas, é sobremaneira prejudicial a eles mesmos mais do que aos leitores e autores usurpados, imitados, plagiados ou roubados, pois que se os primeiros até sentem igual prazer no usufruto dos poemas e se não inquirem usualmente das suas origens, gozo que os últimos jamais terão, além daquele júbilo momentâneo, restrito ao êxito pontual do instante de apresentação, amostra, exibição, exposição ou espectáculo, visto que a partir de então se sujeitam a existir com o credo na boca, a viver constantemente no medo de virem a ser desmascarados, descobertos, apanhados, ou postos em causa na praça pública e denunciados por fraude de originalidade, génio e talento, que de entre todos os crimes humanos é o mais hediondo, condenável e vergonhoso, porquanto – com franqueza! – até no roubar se mostraram medíocres.
Normalmente entende-se por experiência pessoal o inventário dos grandes erros que cometemos durante o nosso (breve) tempo de vida, mas em consequência dos quais não chegámos a perecer (totalmente), ou não obstante estes, sobrevivemo-lhes e durámos o suficiente para os podermos contar. De onde se depreende haver na realidade apenas dois tipos de pessoas: os contistas e os tiranos. Os amigos e os inimigos do homem. Os transparentes e os embusteiros. Os criadores e os criminosos. Os que amam e os que fazem de quase tudo, incluindo os nomes e datas ou sentimentos mais insignificantes, uma causa fundamental, uma batalha bairrista ou uma afirmação da identidade nacional. Porque é sempre pela perversão da palavra que começa a perversão dos humanos, tal como em Sade aconteceu, em que os actos de violência são precedidos imediatamente pela obscenidade, o verbo como ovo que recebe o sémen para simplesmente gritar não se sabe bem o quê nem que raiva, porquanto é a palavra que dá o sinal: violado o primeiro tabu todos os outros desaparecem. Posto que é ela quem veicula a degradação (física e moral), para atribuir-se ao acto que se lhe segue importância ínfima e de somenos face à derrocada inicial.
Ora, assim sendo, legítimo será perguntarmo-nos agora que é feito do “bandeirinhas” do Euro 2004 e que angariou já mais uns biliões de euros de défice ao país, pagáveis com compra de licenças de emissão de CO2 para fins industriais, pesqueiros e agrícolas? Porque se gastaram tantos dinheiros em estádios, campanhas de marketing e publicidade, caravanas e buzinões, e se esqueceram de comprar equipamentos escolares, fecharam Centros de Saúde e Maternidades, comprometeu a eficácia, qualidade e rapidez no atendimento aos casos de emergência médica, não se apetrecharam as regiões mais sujeitas a invernias de um número suficiente de limpa-neves para que se evitem horas de frialdade aos automobilistas surpreendidos por nevões e tempestades? A quem tentam enganar com o óbvio renovar de dispendiosas expectativas para este Mundial na África do Sul? Porque deram o toque de Mírdias ao Magalhães fazendo "batota" na concessão de feitura e sabotagem na distribuição? Ou lá só porque é possível orar a São Bartolomeu em presença colonial acham que isso trará a benção milagreira para transformar o Cabo da Tormentas em Boa Esperança? Onde estão os planos autárquicos e de protecção civil de prevenção incendiária, onde param as estratégias de prevenção de intempéries, sobretudo para o Litoral Oeste, que vai ser uma das zonas mais sensíveis às alterações climáticas? Aquilo que designamos por cultura paradense portuguesa não passa de um modo embrionário típico de pensar, de ser, de agir e de estar entre ou perante os outros, a natureza, os animais, as plantas e o futuro, cujo registo é marcante para Casal Parado, lugar onde à custa de nada acontecer de positivo tudo é possível, incluindo quanto houver de negativo, como para o ambiente e momento que em realidade nos habituámos a viver. Se vou ao médico por causa de uma alergia, e este me receita umas cápsulas e uma pomada, mas que quando os vou comprar à farmácia, a farmacêutica me mente dizendo que não tem a pomada mas tem um creme igual e que me faz o mesmo efeito, simplesmente porque prefere vender o creme, que não tem qualquer desconto para o utente dos Serviços Médicos e Sociais/Caixa de Previdência, pois é artigo de luxo e não medicamento, à eficaz pomada, quiçá menos onerosa e ainda com desconto, obrigando-me a gastar 20 euros por medicamentos que me ficariam tão-só por 5, diferença essa que ainda por cima vai ser usada contra mim, pois é pessoa com jeep em vez de simples carro, quando nem tem utilidade para lhe dar, visto que não possui propriedades rústicas e anda sempre sozinha, e que provavelmente em casa nem o lixo separa, mas que andou que nem uma doida a buzinar para baixo e para cima só porque a equipa portuguesa marcou melhor um pénalti que a inglesa, então tenho toda a legitimidade para denunciar esse comportamento, essa conduta, fazê-lo se possível em Casal Parado, punindo a personagem que tal ignomínia praticou, podendo até matá-la de cancro na pele, considerando que tal como cá também para lá do lá se se quer exercer o poder deve-se possuir irremediavelmente as chaves/ferramentas que lhe dão acesso: os órgãos de comunicação, o ensino, as editoras, a excepção da impunidade, a justiça e as regras da economia – enfim, numa palavra, a palavra, a cultura. Porque não há poder sem estas, nem esta sem aquelas.
Para se poderem ver coisas novas até nas antiquíssimas e ancestrais se criou o romance (poema da burguesia do séc. XIX) e/ou novela cor-de-rosa, de ficção científica, de terror, religiosa ou de milagres, thriller, western, diário (de bordo e psicologista), aventura, histórico, realista, geográfico ou de viagens, de tese, policial, de auto-ajuda, social e de inspiração profética, bem como a poesia, toda ela que essencialmente é ver (poesis picture est – sentenciou Horácio), mas um ver resultante de um olhar interior, simultaneamente studium e punctum, só esporadicamente corroborado pelo registo dos olhos, tela, fotografia, fotograma, periscópio íntimo e intransmissível de catapultar a distância entre as fissuras do ser, coisa impensável e impossível de fazer com o grito, o arremedo do verbo insano de quem confunde o vir-se com o ver-se, e iguala a arte lírica ao rachar lanha. Principalmente porque nada existe mais poético que a verdade (e só a verdade), assim determinando que quanto maior ela for mais verdadeiro o poema também será (Novalis), pondo exigência de justeza no item das condutas, pelo que teremos obrigação de dizer brutalmente a brutalidade, fastidiosamente o tédio fastidioso, com fatalidade descrever o que fatal nos for, tristemente a melancolia triste, prazenteiramente a beleza do prazer, e arrebatados, convictos, o entusiasmo do corpo quando se entrega e converte em palavra, herança que legaram à nossa língua gregos e romanos da Ibéria ocupada como seduzida, casa do verbo e do modo, cuja universalidade se deve não a um hipotético cosmopolitismo, e antes sim à fundura, solidez e transparência das suas raízes, do que resulta ser essencial que para se fazer uma boa poesia é imprescindível ser-se óptimo como sujeito, mulher ou homem, cidadãos pelo menos, considerando que ao poema nunca conseguiremos dar tudo aquilo que somos, mas somente uma parte e, às vezes, calha ser a menor de nós, ou a que mais carece de qualificada espontaneidade.
Da mesma forma que as cordas vocais, a boca, o palato, a faringe, a língua, são instrumentos da fala, assim a voz é o instrumento, a ferramenta, o suporte, por excelência das Línguas, sobretudo daquelas que assentam a sua génese no Génesis (“ao princípio era o verbo”, versículo bíblico deveras propalado por quem sabe que do Livro dos livros nem tudo é divino) da oralidade, bem como o romance/novela de tese O ESCRIBA E AS BONECAS – porquanto nele/a se tenta sustentar uma causa ou ideal, por meio de argumentos definidos pelas personagens, em situações concretas, com o que despertam o ódio ou a admiração pública – é o instrumento doutrinário do autor posto ao serviço (propaganda e marketing) dum local, duma terra, mundo ou universo particular denominado Casal Parado, território percorrido a cavalo, com os seus quatro andamentos típicos (: piafé, passo, trote e galope), cujas fronteiras estarão delimitadas a Norte pelo romance realista (aquele que pretende retratar a vida tal e qual como é e se apresenta no quotidiano, através da descrição de ambientes locais, costumes, pronúncias, factos contemporâneos, sob um ideal de objectividade, na medida em que nasceu de uma circunstância factual, a Sul pela novela social (ou aquela que procura desvendar/descobrir a situação e reacções típicas de um grupo – de risco, ao caso –, classe social ou geração, pondo o ênfase no facto de os indivíduos, sem excepção, não serem mais que a amostra nuclear do colectivo – família, clã, tribo, aldeia, região, país – a que pertencem), a Este pelo romance policial (onde se conta e faz reportagem de como aconteceu um crime, se aproveitam tensões e perigos para provocar a tensão contínua do leitor, e se castigam os culpados) e a Oeste a novela cor-de-rosa (na medida em que transforma dois personagens particulares desconhecidos em amigos íntimos por via da reunião entre o sexo e a morte), onde o background da experiência literária do autor – literária, e não de vida, note-se bem! – e a sua filosofia de existência, demonstrando inconfundivelmente, e uma vez mais!, que a arte é um instrumento posto ao dispor do homem para este se aperfeiçoar, e não uma actividade disfuncional, inútil, estéril, para o exercício misógino e masturbativo das palavras que não vai além, ou mais almeja, do que a satisfação de quem a executa. Com ou sem vocação, mestria, honestidade e empenho. Independentemente de acreditar ou não que a ciência (tese) é cultura, ou que a cultura inclui (ou se traduz) igualmente na ordenação científica do discurso, suas experiências (figurações, configurações, hipóteses e conclusões). E vê na pergunta da farmacêutica a alegoria perfeita para a nossa actualidade, reconhecendo que entre a pomada e o creme (regionalização e descentralização, sociedade de conhecimento e sociedade de consumo, Casal Parado e Portugal, vocação consciente e voz não trabalhada, poesia e poesia naïf, café e chicória) se erige uma diferença abismal, tal como a que se reconhece e existe entre o óptimo/(bem) e o assim-assim, conforme pudemos detectar no postal ilustrado (crónica pequena) que conforma a inocência, a maldade e a macaquice, e de que resulta um poema para o Fait-Divers literário, sem outro intento além do agrupamento de sons característicos da balbúcie infantil. O que é fácil de ver, se não se aprendeu – como não aprendi... – em qualquer manual, ou por meios que insistem em classificar de não-académicos e "maus" saberes-fazer, que não se resumem às peripécias medíocres do país da cocanha, do marketing literário motivado, nem ao clima de terror cultural e chantagem emocional com que algumas pessoas “amigas” me acenam, dando-me a conhecer que ainda só dispõem dum pensamento hieróglifo (mas que o põem ao meu dispor se as elogiar ou der os recados que elas querem dar, temendo todavia fazê-lo, por questões de vassalagem, hipocrisia ou tão-só cobardia pessoal), que precede a noção e uso de alfabeto, ou a faculdade de pensar por palavras, e não por sentimentos, simpatias e emoções como se limitam a fazer, exemplificando de como vai o pau à racha, quando querem rachar a lenha por invejarem o fogo alheio.
Por outro lado, quando ensaiam a tese que a minha poesia é sinal de carência afectiva ou de que sou complexado em relação à minha idade, condição física, estatuto social, etc., não só estão a prejudicar a acessibilidade a Casal Parado, como a esquecerem que um dos argumentos que usam para não estabelecerem comigo uma relação de igualdade, uma comunhão passível de gerar entendimento, ou intimidade mais próxima e eficaz, positiva e criativa, é precisamente esse – o da diferença de idades, a diferença de rendimentos, a diferença física ou da diferença da linguagem, classificada de rebuscada ou esotérica, a seu ver – e, por arrastamento, a prejudicar-me materialmente (limitando propositadamente os lucros da minha obra, através do afunilamento da audiência) bem como a diminuir as vantagens competitivas da Instituição (serviço/empresa/estabelecimento comercial ou industrial, órgão de comunicação social: rádio/TV/jornal) com que trabalham e deviam defender com interesse e afinco nas vossas actividades, programas, espectáculos, entrevistas, visto que em termos editoriais (excepto se o objectivo informativo da idade/fortuna pessoal/capacidade atlética, for o de arranjar-me casamento, o que para melhor eficácia se devia também acrescentar o dia de aniversário e o clube predilecto, o grupo sanguíneo e que sou solteiro, cordial, educado, de esmerada formação, alegre, simpático, comunicativo, socialmente empenhado e escrupuloso acima da média, e não obstante de nariz curto – mas com umas ventas bastante alçadas e empertigadas), visto que só duas idades interessam real e objectivamente: se o autor está vivo ou morto, capaz ou incapaz de dar autógrafos e conferências de promoção do seu produto.
Aliás, casamento esse que, suponho, aliviaria e evitaria entrar naquela “situação que abominam” tanto, e tão constrangedora é, considerando como são sempre tão imaginosas e criativas as apreciações críticas para beneficiar (elogiar) os amigos dos meus inimigos, e denegrir-me ou apoucar os meus amigos, bem como os amigos destes, mesmo quando não está mais nada em causa além de simples poemas, elipses ou haicais, por quanto é evidente que os meus estão impreterivelmente eivados de desclassificadas qualidades e intencionalidades suspeitas, perversas e obscenas, mas que os dos outros, embora não valham mais que as ecolalias e lengalengas infantis, são sempre lindos, maravilhosos e insuspeitos, enfim, o supra-sumo da criatividade poética.
Ah, e escusam de suspirar de júbilo por terem chegado ao fim do sermão, pois não acaba aqui, mas continua logo que tenha tempo, coisa que, se preciso for inventarei ou roubarei ao sono, dado que muito ficou por dizer, nomeadamente acerca das intervenções na política nacional, em prol de uma democracia participativa e da cidadania, que é o que falta cumprir de Portugal depois de Abril, uma vez que da democracia representativa corporativista já tivemos um século de cumprimento, com expoente máximo no período ditatorial, pela "benévola" mão de António de Oliveira Salazar, que foi quem implantou o Estado Corporativo e o serviu à nação com o acompanhamento do Fado, Fátima e Futebol por que muitos (saudosos) "suspiram 'inda bem não", arrotando postas de pescada parlamentar como quem petisca Iscas Com Elas nas tascas da Rua de S. Bento, que é perto e sempre a subir até ao Rato, largo propício a arraiais e romarias matemáticas, aptidões para a magia do número, eleitoral que seja, que podemos imaginar, duplicar, triplicar, quadruplicar e, depois, apagar com um governo esponja, sugadouro contínuo para dar sumiço à riqueza (PIB) nacional com projectos "conventuais e beneditinos", sem préstimo nem reflexos directos na sustentabilidade social, económica, demográfica, urbana, ambiental e natural. Isso, projectos que promovem a insustentabilidade nacional como o de um aeroporto intercontinental a escassos quilómetros da capital do país... Mesmo que ela se chame Casal Parado, por exemplo!
É por demais óbvio que à comunicação social "vigente" o assunto da sustentabilidade não tem a mínima importância, é certo, por quanto é o seu contrário, a insustentabilidade, o principal filão noticioso de momento, e aquele que lhe promete as cachas mais promissoras e exacerbadas; todavia, DEDS cá, DEDS lá, era bom para os utentes dessas "catástrofes" saberem que alguém além deles, não só está preocupado em saber o estado do mundo e onde elas acontecem, quantas vítimas provocam, mas igualmente em repará-lo. É fabuloso saber os ondes, quens, quandos e comos, mas e os porquês porque os escondem? E já a propósito do porquê: será que estão à espera de milagres ou é mais de uma prendinha do Pai Natal?

12.05.2009

Variações em Dois


Retrato do Zé com moldura gitana (em salero bordalesco)

O café, pela hora da bica d'almoço, período de tráfego e ponta tradicional da restauração provinciana, estava à pinha – só para meter uma bucha com metáfora de referência natural a tão cosmopolita ambiente – quando o Zé Lello entrou a gingar na farpela garrida, num multicolorido de alto a baixo de fazer inveja às bandeiras de inspiração românica e anglo-saxónica todas juntas. Passou pela mesa das burras, salvo seja que esses animaizinhos não merecem semelhante comparação!, e empertigou-se para elas, erguendo a peitaça de peru afoito em marés natalícias, que nesse ínterim abriam a boca com um Óóóh redondinho recheado de espantado escândalo. Cruzou olhares concupiscentes com a do canto das sáficas donzelas, senão cúmplices, pelo menos gulosos, aliciando as diferenças. Até que por fim assentou a hegemonia patriarcal e partilhou o hálito de alho e tintol carrascanho, que lhe ficara da bacalhauzada portuga que afiambrara na tasca do El Campeador, com o Zé Bordalo, sobrinho-neto do Zé Povinho que andou na desforra de espalhar manguitos por esse mundo fora, a que deram o nome de diáspora, vejam só!, e nesse preciso momento, cofiava a barba de sete dias e uma semana, numa postura gestual de mandar os circunstantes àquela parte, num toma que é de bronze muito bem disfarçado, para não ofender demasiado a requintada clientela do estaminé, e a quem não fazia incómodo nenhum a presença de etnias à sua mesa, desde que contribuíssem com a sua parte nas despesas gerais.
«Oh, dianho! Olha, que vens bonito... e folclórico. Onde é o casamento?» atalhou o Bordalo, assim a modos que a afeiçoar-lhe o passou-bem da chegada.
«Ná; desta erraste» retorquiu-lhe o Lello batendo as palmas em jeito de passo-doble a citar o papillon engomadinho do Torna Levas, empregado de mesa d'há muito. «Desta vez não é casamento. Já se não usa. Hoje vou mas é a um divórcio, tiradinho de fresco com copo-d'agua e regabofe com DJ em tenda de lona e bar aberto até de madrugada, e bebida à descrição sem amolar vintém. Vai ser duro!»
«Eh, lá! Isso é moda cigana e só de vós outros?! É que não m'alembra festa assim na minha gente... Não é costume! Boda, ainda vá que vá... Agora divórcio? Hum!...»
«É pois» adiantou o Lello, dando uma sorrateira ajeitadela nas vísceras e partes, que se lhe entalam com os apetrechos e atafais da indumentária. « É o divórcio dos meus sogros. Ele é transmontano e ela algarvia; e isto agora não anda nada bom pràs origens separadas com muitas viagens pelo meio...»
«Toma tento Zéi! 'Tão não vês que 'tás a incomodar o sr. Inginheiro?!» é que, o Lello, dado a iluminuras, para ilustrar o gesto na legenda do separamento das origens, abrira os braços em Cristo Rei de estar na cruz, para equilibrar-se dos senões e não despencar sobre Almada, e teve vai-que-não-vai para tocar com a beata no fatinho novo d'O Cliente da mesa do lado, prestes a queimar-lho. E ao Bordalo deu-lhe dó, aind'assim!...
Porque, lá pelo fato – salvo seja!, em grafismo de Acordo Ortográfico – de ele estar todo vivaço e celtibero, isso não era razão de suma valia pra chamuscar o cinzentíssimo fatito do sr. engenheiro: alegria, alegria, aleluia, aleluia, mas factos à parte. Ò não?
Quando se amensendara, o Zé Bordalo, não lhe atenteara bem na fatiota, por mor do sucessexo que desencadeara a sua arribação entradiça, mas depois dos efeitos secundários se esvaírem no terceário situacionista, pudera-lhe apreciar os panos e acessórios com mais ólhós. Os colarinhos da camisa em seda da Índia são púrpura, metade do tronco e manga direita é azul celeste, a outra metade e respectiva manga em vermelho vivo, os punhos em dourado, o bolsinho do tabaco em preto gaivota, e a barriguinha, à esquerda da abotoadura a verde-pirilampo, enquando o lado contrário anda pelo laranja-eléctrico. A segurar as calças, um cinto de pele de lagarto enfeitado com escamas de dragão azedo, e fivela de unha d'águia.
Também elas, as calças, bonitas de se verem, a saltar a Ribeira, com bainhas da Foz, douradas, para condizer com a marialvice dos punhos, mostrando a meia de lã aos losangos amarelos, verdes, pretos e lilases, no mais puro e inclinado xadrez, suportados pelos sapatinhos em verde-gaio com pompons turquesa e prata nas presilhas. Desde a cintura até aos joelhos são em castanho-sobreiro de casca mansa; e as pernas, a canha, é amarelo-torrado, e preta-azeviche a destra, com os bolsos, também de cada cor, a fim de não destoar da Copenhaga num clima que se adivinha movediço, com rosinha prò bolso dos trocos e azul-bebé no da navalha (e isqueiro).
Enquanto isso, o Zé Lello abufava no café que o chicória do Torna Levas trouxera a escaldar, para o sorver aos golinhos e com assobio de vapor a entrar na barra, mas o outro, Bordalo seja louvado!, enviesava os mirantes ao céu num soslaio meditativo, que pelo semblante embevecido e compungido, não era garantido se seria o de quem estava a contabilizar as cores, se o de quem estava a bradar a Deus que lhe explicasse tamanho milagre.
(Recapitulemos.)
Até que se não conteve mais, e disparou à torna-baldia, para atazanar o Lello: «Bebe lá o cafézinho, que agora é que está bom. Mas... antes d'abalares, ainda me há-des explicar cá uma coisa.»
O da folclórica figura fez «hum-hum» e amandou-lhe a última e derradeira seringadela na chávena, escorripichando até ao sucre final a água escura, escorou novo paivante nos beiços peganhosos do melaço, ateou-lhe mecha, que acendeu num Oscar de se lhe esfregar o olho, e deu sossego à ansiedade do tertúlio seu companha nas safras colegiais.
«E que coisa é essa? Vamos lá!»
«É a vestimenta. É isso o próprio prà cerimónia? Um divórcio...»
«Exactamente. É ela mesma toda assim, que é única. Um divórcio tem de ser feito com afianço e garantia: não tem lugar para cópias, clónes nem adultérios. É uma coisa séria!»
«Nãm t'intendo!»
«Mas é do mais facílimo. O divórcio dos meus sogros mete gente por todo o lado, que eles sempre foram muito viageiros. Desde as sucatas de Aveiro até às sombras de sueca do Príncipe Real, com finalmentes à mistura. Por exemplo, a minha cunhada já é de Lisboa e está descasada de um gajo de Loulé que quer assentar praça em Rabo de Peixe. E como agora vem aí outra vez essa calda bordalenga da regionalização, eu não quero cá desavenças, e vesti-me prò contento de todos. Assim, que é de pano!»
«A regionalização, dizes tu, é que te levou a esse estréfe-néfe? É boa!»
«Está claro que foi. Os colarinhos são de Braga, o tronco vai prò centro, fazendo destrinça entre litoral e interior, a cinta no Vale do Tejo e calças no Alentejo e Algarves. As peúgas estão conforme a CPLP e as botas têm África do Sul na alma, com o mundial nas solas. E ôspois?»
«Tem jeito, sim senhora... Isso é um divórcio prà unidade! Como é que na Assembleia da República ainda se não lembraram disso? Escusavam de passar vergonhas, como as que passaram na sessão de Sexta... Bem como evitavam de que pensássemos que a única esperança que nos resta anda pelo folclore do futebol, onde as expectativas de não virmos a tornar-nos na sesta rota do costume, são iguais às de sempre...»
«Ora vês tu: eu sabia que compreenderias!»
E levantou-se de um tiro, depositando uma mão-cheia de trocos sobre o tampo da mesa, para saldar o défice. Cento e dez cêntimos, nem mais um tuste, que a vida não está para gorjas!

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