La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

11.17.2012


A TRAGÉDIA DUM DRAMA (SOCIAL)


"Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos pela sala, tornou a sentar-se e disse:
– Dou-lhe uma notícia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.
– Um drama! – exclamou o bacharel.
– Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. O serviço militar não foi remédio que me curasse, foi um paliativo. A doença regressou com força dos primeiros tempos. Já agora não há outro remédio senão deixá-la e ir simplesmente ajudando a natureza."
In JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS, A Chinela Turca

É mentira que a democracia em Portugal foi arrumada e enlatada pela direita. Eram poucos, estavam arredados dos meandros do poder e da finança, e não tinham a mínima credibilidade pública. Durante as duas décadas posteriores ao 25 A, a direita não passou de uma anedota que se contava nas tascas do populacho, andando de Ponço para Pilatos com as calças na mão e na mira dos variados subsídios detonados por inúmeros programas político-económicos em promoção. E, enquanto isso, a esquerda das ocupações foi-se capitalizando, enriquecendo, substituindo-a. Mas não só, porquanto uma e outra, a direita de direita e a direita de esquerda, para garantir a sua sustentabilidade, movimentaram-se no sentido de se instalarem nos corredores do poder, tornando-se exímios na técnica do puxar dos cordelinhos, fazendo disso profissão e credo: consumando o suprassumo do funcionalismo público.
Foi bom enquanto durou, contudo está nas vascas da agonia...     
Alguns dos funcionários das secções de higiene e ambiente das municipalidades ainda vigentes são de esquerda, e destes, não raros são até comunistas, e bastantes os envolvidos nas lides sindicais. Outros são de direita, com os afetos políticos determinados pelos oradores dos púlpitos paroquiais, que não ligam à política nem se querem comprometer com nenhum partido, embora votem sempre naquele que está mais próximo dos ideias do Caetano que ouviu as trindades lá pràs bandas do Carmo. Parecem opostos, contrários, todavia entre uns e outros não há a mínima diferença, pois que tanto os revolucionários como conservadores, fazem exatamente o mesmo com os lixos: depositam o papel e os plásticos no lixo geral, sempre e ostensivamente, e apenas o vidro vai prò vidrão, não porque a reciclagem do vidro lhes fale à consciência e responsabilidade quanto à melhoria do futuro, mas sim porque o vidro pode ser aproveitado para fazer mais garrafas onde meter o líquido de sua eleição – a boa pinga nacional. Não mexem um dedo sem lucrarem com isso, porém quando lhes acenam com o copo cheio nunca dizem que não. São devotos, por votos, convictos e concordados, e sempre capazes de votar em qualquer promessa que lhes encha o vasilhame. Que é igual a dizer que também eles nasceram prò drama, mas o seu negócio é a tragédia!
A par deles, a fina flor de Portalegre virou, de um momento para o outro, maioritariamente, senão na totalidade, revolucionária: eram fãs do fado e das sevilhanas, sobretudo nas noitadas de regabofe, mas agora dão o cu e dez tostões pelas novas versões das cantigas do Zeca, do Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanhais e António Variações. E as guitarradas do Paredes! Não há nenhum que não trauteie Os Vampiros, o Maria Albertina Como Foste Nessa, o Somos Filhos da Madrugada, e etc., com sublinhada legenda do «isto sim, que é música!» que acompanha as grandes epopeias e inolvidáveis momentos épicos. Enfim, ao verem-se metidos no mesmo saco dos sacrifícios e apertadas medidas de austeridade – logo eles, que tão bem se deram com a velha como com a nova senhora! –, e subtraídos em mordomias que tinham por seguras e vitalícias, tentam açular as hostes plebeias para os confrontos com o poder governamental, na esperança de que este retroceda na poda do aparelho de Estado e seus galhos funcionais, voltando a admiti-los na lista das despesas e gastos desnecessários à nação.
Os amanuenses do regime, tal como o personagem  do conto de Joaquim Maria Machado de Assis, Lopo Alves, sempre lhes correu no sangue essa dramática febre de viver à custa do esforço alheio, e nem mesmo quando tiveram que andar de mãos dadas com o Movimento das Forças Armadas servindo no PREC, lhes passou totalmente. Pelo contrário, se tornou aguda e crónica. Contudo, agora, com a reforma à vista, estão prontos para tudo, incluindo agravar o drama de suas e demais existências, preferindo a este género manso o seu descendente direto para assustar as gentes: a tragédia.
Estão por tudo, e não temem nada, que nunca haverá TROIKA que os tolha e intimide... E que outra coisa seria de esperar dos hermínios destemidos e bravos lusitanos?   

10.30.2012


ZÉ-PENDETE, O CULTIVADOR DE RESSENTIMENTOS

“Um perito é aquele que sabe cada vez mais a respeito de cada vez menos.”
                                                                                 N. BUTLER

No tempo dos bons e dos maus [também] havia bons que eram maus e maus que eram bons; mas Zé-Pendente sempre fora um assim-assim desde pequenino. Politicamente correto umas vezes, chico-esperto outras, nunca se opunha nem cumpria, que a meio das vontades tinha a sua no mais coisa, menos coisa, com que se ia safando no dia-a-dia. Porém, em dada altura, em que quase todos se formaram também tirou a formatura, outorgando-se digno de chapelada e demais tratos que a populaça a partir de então lhe concedeu.
Hoje, é licenciado, embora faça exatamente a mesmas coisas que antes fazia – e de igual maneira. Tem as mesmas atitudes perante a vida, a natureza, os animais, as leis, a ética e os alheios, de que se apropria avidamente sempre que a oportunidade lhe é propícia. Continua a dizer «há des» em vez de «hás de» e «trazi-os» em vez de «trá-los», agora com mais segurança e convicção, é óbvio, dado ter em mão um diploma que lhe garante o direito de errar sem admoestação, que é para tanto que servem os melhores como os piores canudos.
Da ingratidão conhece o termo, que aplica apodando quem quer ou que lhe não acate os desplantes e dislates, porém nunca a prática, já que desconsidera veementemente sempre que pode quem lhe fez quase todos trabalhos, sobretudo aqueles em que teve uma nota exemplar ou acima da mediania. É autoconvencido a pontos de achar que toda a gente o admira e dele gosta superlativamente, embora não reconheça o mínimo valor a ninguém que não vista melhor que ele, tenha um carro de superior cilindrada e casa mais afamada e farta. Todavia, tem qualidades, raras, diga-se a propósito: sabe quase todas as frases que devem empregar-se para parecer inteligente quando solicitado a dar sua opinião, como "a questão não entra por aí", "sim, é bonito", "não fica bem", "condiz com o programado", entre outras de igual quilate, que vai aplicando aqui e ali, disseminando o culto da sagacidade arguta e vivaz que sobremaneira desfruta entre nabos e nabiças de suas intimidades cúmplices. Valha a verdade!

Acabei agora mesmo de tomar café com ele... Esteve todo o tempo em que estivemos juntos com aquele ligeiro semblante de quem está mas não está, tipo cumprindo uma missão, coisa que fez com a exatidão que correspondia ao seu interesse, pois precisava de um slogan para uma ação de promoção de uma atividade em que estava empenhado; pediu-me que lho arranjasse – Mas sem ser em verso, que não gosto de slogans a rimar –, exigiu.
– Então, fá-lo tu – respondi-lhe. – Quem sabe tão bem o que quer, muito abalizado está para o fazer.
Amuou. Sei que não vai voltar a falar-me a não ser na presença de terceiros, em consideração aos que se sinta obrigado, ou que volte a precisar de meus préstimos. E que dirá cobras e lagartos acerca de mim, se alguém lhe pedir parecer ou calhar em conversa. É assim que se ganham inimigos nesta vida!    

8.29.2012


PREFÁCIO 


Sou um autor de ficção científica e um historiador. A combinação não é tão invulgar como parece – para citar só alguns exemplos, Barabara Hambly, Katherine Kurtz, Judith Tarr, Susan Shwartz e John F. Carr usaram o que estudaram no colégio para dar profundidade e autenticidade aos mundos que criaram. No meu caso a ligação entre as duas coisas é ainda mais estreita. Se não fosse um leitor de ficção científica, provavelmente nunca teria acabado por ser um estudioso de história bizantina. Andava no liceu quando li LEST DARKNESS FALL, o clássico de L. Sprague du Camp, em que ele lançava um arqueólogo moderno na Itália do século sexto. Comecei a tentar descobrir quanto era inventado e quanto era real, e fui apanhado. O resto, de várias maneiras, é história.
Este livro, portanto, assenta fortemente no meu fundo académico. Passa-se no começo do século catorze de um mundo alternativo em que Maomé, em vez de fundar o islão, se convertera ao cristianismo numa missão comercial no interior da Síria. Em consequência, a grande exploração árabe dos séculos sétimo e oitavo, que no nosso espalhou o islamismo desde o Atlântico até às fronteiras da China, nunca aconteceu. O Império Romano (a que na sua forma medieval, oriental, damos o nome de Império Bizantino) nunca perdeu a Síria, a Palestina, o Egito, e o Norte de África para os invasores, nunca teve de lutar pela sua sobrevivência na Ásia Menor ou de defender Constantinopla num sítio que, se perdido, teria levado o Império a cair em ruínas.
Libertado dessa desesperada pressão do Leste, o Império teria tido uma intervenção mais ativa na europa Ocidental do que teve no nosso universo. Através dos séculos retomaria a Espanha aos visigodos, a Itália aos lombardos, a maior parte do sul de França aos francos. Para os estados ocidentais que mantinham a sua liberdade, Constantinopla seria tão invejável quanto temível.
A leste, a história da Pérsia, a antiga rival de Roma, também diferia muito do seu destino no nosso mundo. Sem as invasões árabes a deitá-la por terra, continuaria a ser a outra grande potência no mundo a oeste da China, a única nação que poderia tratar o Império como igual. Por vezes os dois estados entrechocar-se-iam abertamente; com maior frequência manobrariam para ganhar uma vantagem ali, para fomentar problemas nas que o outro ali tinha. Cada um de sua parte, continuaria a sonhar e a trabalhar para a vitória final que nenhum deles alguma vez vira. 
Tal seria o mundo de Basil Argyros, soldado e agente do Império. Um mundo talvez mais conservador do que o nosso, pelo menos no sentido de ter mudado menos drasticamente desde os tempos clássicos. Mas nenhum mundo, como Argyros sabia (nem sequer para meu conforto), se mantém sempre o mesmo.
Uma nota final na cronologia: os bizantinos não usavam muito frequentemente a Incarnação como o ponto de partida para a sua era. O ETOS KOSMOU (ano do mundo) corria de 1 de setembro a 31 de agosto e era contado da Criação, que os estudiosos bizantinos datavam de 1 de setembro de 5509 a.C. Portanto, o etos kosmou 6814, o ano em que esta história começa, decorre de 1 de setembro de 1305 a 31 de agosto de 1306.

In HARRY TURTLEDOVE, Agente de Bizâncio, título original Agent of Bizantium, trad. Eurico da Fonseca, col. Argonauta, Edição «Livros do Brasil» Lisboa. Dois volumes.

6.10.2012


UM PONTO DE VISTA...


O pseudónimo Luzia é uma espécie de autor exterior ao universo confessional da narrativa, distanciado, no intuito de absorver e relatar a (peculiar) aventura interior humana, mas nunca tanto que impeça, ou venha a impedir que seja continuamente confundida com o autor implícito (Luísa Grande) para, assim, elevar, esclarecer, conseguir, a máxima objetividade textual dentro da (inevitável) subjetividade intrínseca ao género lírico e intimista cultivado pelos parnasianos. As cartas, as observações quotidianas, a experiência de vida, a infância que Luzia quer servir/mostrar ao leitor, são as mesmas que Luísa Grande viveu, experienciou, teve, e quiçá terá registado nos seus diários; Luzia foi buscá-los, deu-lhe a redação que entendeu, embutiu-os quase como flashbacks no texto que estava a redigir/compor ao momento e consoante a estrutura que lhe definira. Os seus melhores textos sobre Portalegre provavelmente foram escritos no Funchal – e vice-versa. Também as confissões mais custosas e profundas de Luísa foram feitas por Luzia – e vice-versa.
Nos romances epistolares Luzia mete-se também de fora (de si) e quem executa as missivas é uma ou várias personagens, e à vez, contando-nos algo que está inequivocamente à distância de todos, do leitor, do escritor, do pseudónimo e de alguns personagens, embora lhes pertença igualmente – e por inteiro. E nesta atitude é mais que óbvia a intenção artística e literária (exploração do labirinto original, em espiral que parte dela, ou o escrever concêntrico de pedrinha que cai na água de Proust, originando um número infinito de ondas circulares em volta desse momento) de Luísa Grande, declarada sobretudo com a criação do pseudónimo Luzia, que outra não é senão si mesma, em que tudo o que esta publicou/editou é inegavelmente arte e artifício, perfilando uma obra literária – e de excelência!
Todos os seus livros enfermam de uma notória mestria (intencional) bocacciana e quase barroca (no discurso), que está sempre fora do discurso normal e ordinário, corrente e comum, logo a-literário da lusofonia do seu tempo, e até europeu, recorrendo frequentemente ao entalhe, ao embutido, ao palimpsesto do recuado em sua vida como no discurso literário nacional, para atualizar a compreensão do presente – que então era ainda futuro – mas que já estava enunciado (no passado) no estilo, retórica e conteúdo das prédicas/sermões do Padre Afonso Lopes Vieira.
Luzia não é só um pseudónimo; também é um narrador, compilador, organizador, fazedor de livros ou coleções de textos com um fio narrativo a ligá-los entre si. Compila cartas, bilhetes-postais, crónicas avulsas, relatos de vivências e lugares, retratos de tipos sociais e de pessoas reais/irreais, de pontos de vista, de quotidianos, e autentifica-os sob a autoridade de uma personagem precisa, Luísa Grande, atribuindo-lhes conforme as exigências da narrativa, um lugar, um papel e estatuto próprio e explícito naquela determinada narrativa. Portalegre, Funchal, Pau, Paris, Ribeira de Nisa, Lisboa, não são apenas sítios ou terras por onde passou, mas pontos de vista identificáveis e inequívocos. São marcos de uma biografia que Luzia usou para dar verosimilhança e verdade ao seu discurso, e isto, repito-o com um propósito implícito de criar outra realidade que, como diria Eça de Queiroz seria o manto diáfano da fantasia sobre a realidade primeira e original que era a intenção literária e criativa de Luísa Grande. Ou seja, Luzia, para garantir mais credibilidade à sua postura e papel chega a usar retalhos de um suposto e hipotético diário (Jornal) de Luísa Grande, sua criadora e a quem deve a maternidade direta, traindo-a com confissões incontáveis, talvez abusando da sua confiança, demonstrando assim como esta criação ganhara vida e vontade próprias, tomando as rédeas não só do seu destino, mas também do de ambas. Porque se nós (leitores) sabemos da existência de uma é pela criação da outra – e vice-versa. 
Todo o artista é um contrabandista. Luzia é a transportadora de conhecimentos, de conceitos e de estéticas, ao serviço de três mundos distintos, cruzando-lhe as fronteiras: o mundo ideal (dos valores humanos, da natureza e das formas puras ou inocentes, das infância mágicas e felizes); o mundo real (da escrita e do leitor, do momento histórico e ambiente político, urbano, campesino, ilhéu, social); e do mundo imaginário e literário ocidental, nosso ancestral como de Luísa Grande pejado de fadas e alquimistas, de sábios e romances, de Quixotes e Sharazades, de Cervantes e Mil e Uma Noites – com as características inovadoras inerentes à afirmação da mulher no tempo e sociedade, no empenho artístico e literário, sobretudo de inspiração francófona. Mas também anglo-saxónica via Shaskespeare.
Há, portanto, já uma polifonia propositada e intencional na escrita de Luzia, que surge muito depois de duas outras experiências – igualmente intencionais e propositadas – de criação de pseudónimos (Sónia e Lady Baterffly), e que traduzem uma lírica polifónica, porquanto é só o autor a falar, sim, mas com diversas vozes, pronuncias e máscaras. É como uma caixa que tem outra caixa dentro que tem outra caixa dentro que tem outra caixa, assim por diante, até ao infinito... Luzia é o duplicado ao espelho de Luísa Grande, que também foi Gracinha, logo Sónia, logo Lady B., logo Guida, logo todas as personagens/remetentes epistolares das cartas e viagens feitas e por fazer mas contadas (narradas).
Aquilo que Luísa Grande faz é o mesmo que Fernando Pessoa fez com os heterónimos, Jorge Luís Borges com os seus heróis, ou José Maria do Reis Pereira com José Régio: inventou-se a si mesma como outra, e sentaram-se as duas frente a frente, metendo um espelho enorme ao seu lado direito em frente a outro igual ao seu lado esquerdo, refletindo ambas até ao infinito. É nesse jogo de espelhos, em que as duas (se) escrevem, que elas jogam também escrevendo cada uma acerca da outra. Luísa escreve acerca de Luzia que escreve sobre Luísa que inventa Luzia escrevendo, até cada uma delas já estar a escrever o leitor que escreve outro leitor de tempo diferente ao seu que escreve como tu ou como eu... Que, afinal, também vemos o mesmo pôr-do-sol lilás ou o mesmo mar, ou o mesmo Jardim (do Mar) que ela viu... Então o autor morre? Sim, exatamente; senão como renasceria continuamente? O autor morre e a sua alma multiplica-se, transforma-se numa máquina de criar que se transforma numa máquina de ver (ou ler), e desse texto renasce para voltar a transformar-se em alma (Psique, borboleta, mariposa) máquina de voar numa cadeia de transformações ou metamorfoses – como diria Kafka, cujo nome significa «gralha das torres». Ou ave que repete continuamente as mesmas frases, as mesma imagens, as mesmas metáforas, o mesmo refrão...
Assim, à pergunta: será a obra de Luísa Grande meritória do estatuto de obra imprescindível no painel da literatura nacional e europeia? Só há uma resposta: sem qualquer dúvida.   
         

5.20.2012


Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, sessão do Grupo de Leitura READCOM de Portalegre, na Biblioteca Municipal sobre obra de Jorge Luis Borges 


O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano, entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a obra Ficções, que estará na mesa das operações analíticas, dia 28 de Maio de 2012, pelas 18 horas.

ODISSEIA, LIVRO VIGÉSIMO TERCEIRO


Já com a espada de ferro executou
O devido trabalho da vingança
E com ásperos dardos e a lança
O sangue do perverso espalhou.

A despeito de um deus e de seus mares
A seu reino e rainha voltou Ulisses
A despeito de um deus e dos difíceis
Ventos e do estrépito de Ares.

Já no amor do compartilhado leito
Dorme a clara rainha sobre o peito
Do seu rei, mas onde está o homem

Que nos dias e noites da separação
Errava pelo mundo como um cão
E dizia que Ninguém era o seu nome.

(Jorge Luis Borges)

Quem for aficionado destas andanças, e quiser participar, será bem acolhido e não dará por mal-empregado o seu tempo; essa, lhe afianço! :D

LANÇAMENTO DA REVISTA PLÁTANO nº 5, dia 23 de Maio de 2012, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre

 Sob a iniciativa do coordenador e responsável editorial, Mário Casa Nova Martins, a revista PLÁTANO, revista de arte e crítica de Portalegre, nasceu em má maré mas tem-se aguentado. Tanto assim que já vai no nº 5, e surge num momento histórico algo anorético para a carteira da maioria. A adivinhar pela capa e colaborações, propondo uma grelha eclética e diversificada. Vai ser apresentada ao público, dia 23 de Maio, pelas 16 horas, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre. Talvez não seja uma oportunidade a desperdiçar para quem, depois de um almoço de feriado a meio da semana, esteja recetivo às novidades e iniciativas que a sociedade civil portalegrense vai pautando, sem outra aspiração além da participação ativa no seu tempo e território… Que tal?  

4.30.2012



CANTO DE JARDIM


Há, no fundo deste velho jardim, um canto que faz as minhas delícias. Ensombrado pelas árvores dos quintais vizinhos, tem qualquer coisa de misterioso como os bosques… A erva cresce entre o musgo. Aqui e ali, surge, na sua haste delgada, uma papoila vermelha. Contra o muro vivem, exuberantes, a hera, o alegra-campo e, onde pode surpreender um raio de sol, debruça-se, miudinha, clara, uma roseira de toucar. No inverno, cheira a violetas, a terra húmida. Na primavera, tem um perfume especial de erva fresca, de folhas tenras. O rouxinol, que ama o mistério e a sombra, escolheu este canto do jardim, para nele exalar as suas lágrimas musicais, as suas harmoniosas queixas… Se eu tivesse a voz do rouxinol, era ali que chorava, que me queixava também… 

Portalegre, junho 1922.


In LUZIA, Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 37. Lisboa, 1936  

4.16.2012

LUZIA, escritora portalegrense

AQUI VENHO CONTAR-TE AS MINHAS AVENTURAS (E DESVENTURAS)



"Os homens fizeram as leis deste mundo, tudo a seu gosto. Eles são os senhores. Quando mesmo tenham menos talento, menos dotes do que nós, podem aspirar à Glória, ao Poder, a tudo. Nós, a nada. Para sermos alguma, é preciso ficarmos sempre simples mulheres.


Ne soyons rien pour rester quelque chose."

In FELICIANO SOARES, Luzia – Espectadora das Comédias do Mundo, citando Luzia, num excerto de Lições da Vida.

OS QUE SE DIVERTEM e RINDO E CHORANDO ainda não podem ser consideradas obras elucidativas da originalidade literária de Luzia, porquanto o não são, mas sim como exercícios de estilo exemplares onde a autora giza, delineia, aponta e estabelece os pressupostos gerais do seu discurso, que assim é sujeito a uma depuração contínua através da repetição exaustiva, até este se transformar no diamante lapidado cuja mestria de excecional ficionista é observável em ALMAS E TERRAS POR ONDE EU PASSEI, A ÚLTIMA ROSA DE VERÃO e DIAS QUE JÁ LÀ VÂO, que esses são, pois, indubitavelmente livros da sua inconfundível maturidade literária e peças únicas e raras da genialidade da literatura portuguesa de todos os séculos.

Os diálogos, os sketchs, as cartas de Gracinha, por exemplo, os retratos do pitoresc
o cotidiano, os tipos da fauna social elitista lisboeta, que inicialmente evidenciam uma notória influência idealista, sobretudo nos rasgos de denunciada candura de ingénuo teor platónico, em que o masculino e o feminino se encontram destrinçando as essências do amor e da amizade, a natureza da solidão ou da mundanidade solitária, não escondem a sua típica expressão de tentativas socializadas de uma escrita que, marcada pelas desilusões da vida ou do confronto com a realidade, se vai aperfeiçoar, refinando evoluindo a passos largos para outros diálogos a que a distância, a vagabundagem entre lugares e épocas, e seu concomitante isolamento emprestaram um timbre de monólogos – diálogos de si para consigo – mais ou menos quixotescos, mas indubitavelmente cerzidos com as linhas de uma teia de pessoa a braços com a originalidade solitária que a orfandade tornou única, entretecida e escorando-a vida fora, é certo, embora acrescentando sempre novas modalidades ao orfanato original (materno e paterno), das quais, a últimas, até a tornou órfã de si mesma, com a perda de vista, que não só a amputou da observação dos outros e do mundo, como a impediu igualmente de se ver entre eles e nesse mundo, num isolamento infinitamente ímpar a que só a memória – enfim, preclara no Jornal ou Diário – permitiu aquela ligação essencial à vida e ao ser humano sem a qual a pessoa deixa de existir, nomeadamente para o seu autor ou criador, desde que espelhada (narrada) pelo discurso de um pseudónimo.

Os diálogos são a matriz do discurso luziano. É neles que Luísa inicialmente regi
sta o seu testemunho e observações acerca da vida, das coisas, das ideias, da natureza e do mundo. É neles que ensaia e reflete os seus relacionamentos e afetos, pelo menos enquanto há alguma relação de proximidade e convívio entre si e as pessoas representadas, a que supostamente dá outra nome que não o da sua realidade. Mas essa proximidade, como aliás todas as proximidades, é efémera, breve, limitada, passageira... Portanto, ocasiona que Luísa (ou Luzia) sinta necessidade de prolongar o contato mesmo para além da proximidade, quando a distância a separa delas e se torna incontornável. Como? Escrevendo cartas, se se dirige a uma só pessoa, que Luzia transforma em personagem, ou crónicas, artigos, quadros, bilhetes-postais, quando se quer dirigir a várias, díspares e diversas mas que podemos referir como uma só pessoa coletiva, o destinatário, leitores e leitoras, alvo preferencial de todas as escritas.

Recordemos a este propósito O ESTILO EPISTOLAR DE GRACINHA, que integra OS QUE SE DIVERTEM.

"Lisboa – Março de 1920.

Minha querida Ritinha

Aqui venho contar-te as minhas aventuras, nesta grande capital.
Isto vai por cá uma trapalhada, uma desordem que ninguém se entende!
Na rua andam esquadrões de cavalaria, a correr atrás da gente e diz que é por causa das bombas, que atiram os civis da construção, que são os que querem dar vivas à Rússia e o sr. Batista, que é um gordo, que leva tudo à valent
ona, não quer que eles dêem vivas e eles então deitam bombas, que caem em cima dos cavalos e essa é que é a minha aflição, que já ontem ficou um ferido numa patinha.
E além da questão social, que é o perigo bolchevista de virarem o mundo de pernas para o ar, acontecem todos os dias coisas esquisitas.
Esta manhã, a mãe, que tem aquele génio que não gosta de incomodar os seus criados, quanto mais os alheios, mandou-me entregar uma carta à tia Thereza, que mora aqui defronte, numa casa cor-de-rosa, que tem um jardim e muitas trepadeiras. Eu então pus o chapéu da quinta, aquele que é todo cheio de papoulas encarnadas e
fui entregar a carta...
Depois, como a manhã estava tão bonita que até a cidade parecia um campo, apeteceu-me passear na rua. Então um senhor de uma certa idade, com um ar assim muito respeitável e muito bem vestido, com luvas cor de canário e umas botas que luziam que nem um espelho, começou a seguir-me...
Eu parava, ele parava, eu apressava o passo, ele apressava o passo e eu sempre a voltar-me para trás a ver se ele vinha e quanto mais eu me voltava, mais ele se aproximava, até que veio ao pé de mim e disse-me:
– Permite que a acompanhe?
Eu antes queria ir só, para poder parar à minha vontade a ver as coisas, que é muito divertida uma rua de manhã; há as varinas, que são as que apregoam a pescada, numa voz muito bonita, mas tão triste que até parece que vão chorar e o tio Jorge diz que é por causa da melancolia nacional; e as mulheres da hortaliça, que são as que vendem os legumes; e o homem do azeite doce; mas a mãe recomenda-me se
mpre que seja atenciosa com as pessoas de idade, porque pode acontecer que a gente envelheça um dia e então eu respondi: – Se não lhe dá muito incómodo...
O senhor até se fez vermelho e exclamou: – A menina bem vê que nisso está a minha ventura!...
E depois disse muitas coisas, sempre com todo respeito... Chamou-me flor, jóia, que se eu correspondesse ao seu afeto, a sua generosidade igualaria os meus encantos...
E subimos e descemos umas poucas de vezes a rua. E como eu ando muito depressa, o senhor já assoprava de cansado. E perguntou-me onde vivia e eu disse-lhe que não era de Lisboa e ele perguntou-me se eu gostava de Lisboa e eu respondi: assi
m, assim, e ele aconselhou-me que viesse para cá, porque aqui tinha mais futuro, podia colocar-me melhor e que prometia a sua proteção e que me punha uma casa, se fosse da minha vontade... E depois, como eu já estava farta de correr, rua abaixo, rua acima, e o homem parecia que deitava os bofes pela boca, vim para casa e, já se vê, à porta disse-lhe: – Se V. Exa. quer entrar...
O senhor respondeu: – O quê, será possível tanta ventura? – Mas depois, pôs-se a olhar muito desconfiado para o jardim, para a casa e perguntou ao guarda-portão: – Quem mora aqui? – E quando o guarda-portão lhe disse o nome da tia Maria do Céu, o senhor tirou o chapéu, com um gesto muito comprido, quase até aos pés, e tão vermelho que até imaginei que o sangue ia espirrar-lhe pelo nariz, disse: – Perdão, minha senhora. Foi um lamentável equívoco!
Depois, ao almoço, a mãe ralhou comigo por eu me ter demorado tanto e então eu contei que tinha andado com aquele senhor e que não o podia deixar assim de repente, que era uma desfeita, e a tia Maria do Céu disse:
– Bem-feito, que eu já te recomendei tantas vezes que não deixes a pequena sai
r só...
E a tias Mariquinhas, que é a que doirou o tio Paulo quando casou pela conveniência – chama-se casar pela conveniência quando uma mulher é assim um estafermo e tem automóveis e oiro e então casamento de amor é casar com um pelintra e ir viver na cabana do Pinheiro –, mas então a tia Mariquinhas resmungou: – A mim nunca me seguem... – E o tio Jorge disse, assim entre dentes: – Pudera... E o tio Paulo disse que o senhor era o Sátiro... E depois todos riram...
E, depois, eu e a minha mãe fomos a casa da senhora triste, chamada Josefina, que estava pondo rosas brancas dentro de copos e a cara dela estava assim tão branca como as rosas e como a gente está habituada à tia Maria do Céu, que põe aquela
s pomadas encarnadas nas bochechas, até fazia aflição e parecia que ela não tinha pinga de sangue e que ia morrer ali mesmo, com as mãos a mexer nas rosas...
E estava lá um homem muito alto, muito trigueiro, com uns olhos claros que não dizem com a cara escura, mas, ao mesmo tempo, se alguém lhos tirasse, eu pedia que os pusessem lá outra vez, porque apesar de não dizerem, ficam-lhe bem, e que já deve ter idade porque tem o cabelo a embranquecer nas fontes, mas quando ri, parece que não é, e então ninguém sabe se é... E a mãe disse para eu o chamar tio Pedro...
E depois, a mãe e a Josefina começaram a falar de quando andavam num convento, que a República deitou ao chão e duma cerca, onde havia rosinhas de todo o ano e duma capelinha, onde punham lírios, e de mais coisas, e riam com os olhos cheios de lágrimas, que até me lembrou aquela trapalhada do mês de abril, quando chove e faz sol ao mesmo tempo...
E eu cá estava a olhar para o tio Pedro, porque me faz uma confusão a
queles olhos azuis naquela cara que parecia assim quando as pessoas andaram no campo, sem chapéu, e então ficaram todas queimadas e assim uma espécie de doiradas... E depois, o tio Pedro disse à mãe e à Josefina:
– Falem à sua vontade e não se importem connosco, que nós também temos muito que conversar...
E não fez como os outros, que falam só em coisas que não me interessam, nem entendo, perguntou-me primeiro de que eu gostava, e eu então disse que gostava de cães e de cabras e de cavalos, e de pessoas que têm infelicidades, e de campos, e de águas, e de ouvir histórias de terras onde se vai por mar...
E ele então contou-me que tinha corrido muitas terras dessa qualidade, quand
o era oficial de marinha e que agora já não era, porque a República embirrava com ele ou ele é que embirrava com a República, porque a República tinha indisciplinado a marinha, ou a marinha tinha indisciplinado a República, isso é que eu já não me lembro bem como foi, e que tinha estado no Japão, onde há mulheres iguais às das jarras chinesas, mas verdadeiras, que andam e comem arroz e as cigarras sempre a cantar e as cerejeiras sempre em flor... E tudo muito poético... E depois, na Índia onde há leões bravos, sem ser em jaulas como os do Jardim Zoológico...
E quando ele falava, eu não podia tirar os olhos daquela claridade azul, que são os olhos dele – felizmente que é costume cá de Lisboa a gente pasmar uns para os outros, senão o tio Pedro havia de achar esquisito, mas é verdade que ele também olhava para mim, assim muito terno, como a dizer aos meus olhos: – Não façam cerimónia... Deixem-se ficar...

E então estávamos todos muito bem...
Mas nisto chegou a tia Thereza, que mais parecia um tufão e disse: – Viva a bela sociedade! – E depois, nunca mais se calou, muito excitada, por causa da carestia dos géneros, que são os objetos e outras coisas, e que ninguém devia furar a greve dos consumidores e que até era patriótico, e que então ela, parta não furar a greve, só tinha mandado fazer três pares de sapatos, e para aproveitar uma renda, que tinha em casa, ia comprar seis metros de cetim e para aproveitar o forro do casaco, ia encomendar um tailleur de que não precisava, mas era só por causa da economia do forro e para fazer pirraça ao comércio, e que assim é que todos deviam imitá-la.
E agora tenho que deixar-te, porque a mãe diz que estou sempre a escrevinhar e que faz ideia das tolices que aqui vão, porque ainda escrevo pior do que falo.
E então recebe muitas saudades que manda a
Gracinha

Março, 1920. "


AQUI VENHO CONTAR-TE AS MINHAS AVENTURAS é como uma fórmula universal que atira o leitor para fora do texto. A partir daqui fica-se a saber que vamos contatar com grandes e inimagináveis odisseias, impensáveis peregrinações, descobertas ímpares, viagens fantásticas – maravilhosas, horrendas, fabulosas, oníricas ou profundamente humanas e dolorosas –, como a arriscadas e sublimes missões, além das demais demandas que ao espírito humano é propiciado desfrutar e sofrer, sejam elas à volta de casa, rua abaixo, rua acima, como em toda a costa mediterrânea ou na rota das especiarias, ao fundo do mar como às cidades invisíveis de Marco polo, à Utopia como à Ribeira Formosa, à Cidade do Sol como à Serra de Portalegre, a Pau como ao Jardim do Mar, à Rua Direita ou ao Chiado, à Ibéria quixotesca como à Paris da moda e das fadas dos bulevares, à familiar Rua do Lá Vai Um como a Cascais da elite e da aristocracia. E Luzia fá-lo como quem vagabundeia, sobretudo na língua e literatura portuguesa, ora acompanhando Almeida Garrett em viagens à nossa terra, ora encetando outras rotas com Fernão Mendes Pinto e o tio Pedro, D. Quixote, Cândido (ou Pangloss de Voltaire), o mercador de Veneza, o Amadis de Gaula, Jacinto da Cidade e as Serras, a Menina e Moça de Bernardim, os infernos de Dante e da neurastenia, a loucura de Erasmo de Roterdão ou a dos convivas de Hameau e do Colégio das Salesas; todavia sob o testemunho, ilustração e o relato que Luísa Grande terá esboçada anteriormente no seu diário de bordo, qual capitão-de-fragata que ao deus-dará da vida, ora se perde como se encontra na busca dos tempos perdidos desenhados como dias passados e que já lá vão na correnteza dessa água que é sempre outra dum rio inalterável: o tempo.

Por isso as suas epístolas são mais que simples cartas entre personagens ou entre narradora e seus parceiros de espaço-quando: são recados, balizas, aditamentos ao futuro de um passado ancestral que ambas (Luísa/Luzia) herdaram, povoado por homens e mulheres de autenticidade inegável como a seres fabulosos de não menos e inegável pertinência e atualidade. Porque foram sobretudo eles que atravessaram o tempo e os tempos (passado, presente e futuro), divertindo-se e jogando, livres e intocáveis, enquanto a elas só estiveram reservadas a dor e as rezas, o assinar cheques e escrituras, letras a pagar e penhoras, sem mais nada de seu além do sonho e da fantasia, da imaginação das fadas e das deusas – quer dizer, estátuas – do jardim da quinta alentejana (Vénus e Minerva), a quem a primeira terá ainda feito uma visita ao Jardim do Mar para salvar a sua protegida do exílio e da solidão avassaladora, nesse primeiro inverno que passou na Ilha.

Passou, quem? Luísa Grande ou Luzia? Tanto faz... Enquanto uma escrevia a outra vivia, sim as aventuras que somente aos homens estavam reservadas a serem vividas, pelo menos a dar fé no que nos resta depreender de suas Lições de Vida. Porque o que conta em literatura é a intenção literária e estética da linguagem, do discurso, da poética e da narrativa, pois tudo o mais são tão-só palavras, todas elas muito bem esclarecidas e alinhadas como podemos constatar em qualquer dicionário, ou as construções frásicas de podemos encontrar muito mais perfeitas, explícitas e exímias noutras tantas gramáticas – mas apenas palavras. E dessa intenção está a obra de Luzia repleta, até nos espaços entre elas, as palavras, e alinhadas muito para lá de suas linhas... Sim, nas entrelinhas que se cruzam connosco e com o nosso tempo em ponto cruz de maiores tapeçarias!


Portalegre, 15 de abril de 2012

4.08.2012

Convite para todos e todas a participar em Momentos de Poesia


JOAQUIM CASTANHO E LÍDIA GODINHO em MOMENTOS DE POESIA

Conforme tem sido habitual, de algum tempo a esta parte, acontecem Momentos de Poesia todos os meses na Biblioteca Municipal de Portalegre, mais precisamente ao segundo Sábado de cada mês, pelas 16 horas, sob a generalizada coordenação de Deolinda Milhano.

Para essas sessões, segundo também o que normalmente tem acontecido, são convidados alguns autores portalegrenses – mas não só –, poetas – maioritariamente, mas não só – para participar e assim prestar seu contributo, lendo ou declamando os seus textos, de acordo com a livre escolha e estilo de cada um, e no formato que melhor lhes convém.

Desta feita, calhou a sorte, no próximo Sábado, dia 14 de abril de 2012, a Joaquim Castanho, escritor natural de Portalegre, que terá iniciado a sua atividade literária exatamente com o género poético, e que conta já com um considerável número de títulos originais e inéditos, entre os quais quatro de poesia ( EUCLASIA, CAPAS NEGRAS, FAIT-DIVERS e O ESCRIBALISTA E SEUS ESCRIBALISMO PRETÉRITO).

Todavia, não será somente por isso que esta edição de MOMENTOS DE POESIA se antevê como uma sessão extraordinária... Antes sim pelo formato e pela preciosa colaboração que Joaquim Castanho irá ter – a de sua amiga de longa data LÍDIA GODINHO, também ela natural deste distrito, embora atualmente a residir em Lisboa e a trabalhar na Amadora, que conhece a sua poesia como mais ninguém e desde os tempos de estudante nesta cidade, onde frequentou o ensino secundário e superior.

Ou seja, além do universo poético e habitat inequívoco de sentimentos e emoções, memórias e metáforas, registos ideológicos e apontamentos do quotidiano, se vai nela ter igualmente oportunidade de constatar o efeito direto desse outro grande afeto que é a AMIZADE, e de como ele transforma os sons, as imagens e as palavras, em exemplos vivos de pronúncia humana, cujo timbre e ritmo é indubitavelmente o do mútuo reconhecimento e apreço, uma "musicalidade" quase perdida nos dias de hoje mas tão necessária como urgente neles.

Portanto, o convite aqui fica a todas e todos que queiram testemunhar essa simbiose das falas apenas, possível numa língua em que o sotaque alentejano arrasta consigo fiapos da alma lusitana, que se hão de entretecer numa malha de afetos vincadamente universais com que se se subscrevem todos os reencontros humanos – a ternura, a empatia e a amizade.

Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema!

1.30.2012

LUZIA, uma escritora que amava a sua terra, mas ela nunca lhe reconheceu a sua arte e personalidade...

CARTAS DE UMA VAGABUNDA
a LUZIA

Que belas cartas! Que suaves linhas!
São «Vagabundas», boa amiga? Qual!
Todas se voltam para Portugal,
Como voltam de longe as andorinhas.

Ora, tão altas, como as estrelinhas,
Em viva nebulosa espiritual;
Ora soluços de água; ou roseiral;
Ou sol cantando entre a seara e as vinhas.

Senhora de Lourdes e de França
Acaso entende a nossa língua? Alcança
Que falam dela? Talvez não, talvez…


Mande-lhe as “Cartas”, Santo António é luso
E lhe dirá: – «Deixai, que eu vos traduzo…
Que pena não saberdes português!»

ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA

1.13.2012

LUZIA, uma escritora portalegrense que os portalegrenses quase desconhecem...

Ribeira Formosa – 6 de Outubro

Aqui estou enfim, saboreando as apetitosas migas, esquecendo a civilização e fazendo as pazes com a vida. Não sei se a Joanninha anda de bem com ela… Eu andava de mal há muito tempo. Os homens – que é como quem diz também as mulheres… – tinham-nos indisposto.
Estas árvores, esta divina solidão, no abençoado silêncio, a saudade mais viva «das queridas vozes que se calaram» e… tantas outras coisas deliciosamente indefinidas, estão-nos reconciliando.
Por amor da beleza da terra perdoo a fealdade do coração dos homens – pode sempre acrescentar mulheres, que, entre os dois…
E pela doçura de tudo o que fica, esqueço a amargura de tudo o que passa. Não será duas vezes o mesmo coração em que pus o meu desejo, a minha esperança, mas daqui a muitos anos, se eu voltar, as mesmas sombras discretas me acolherão e, como agora, a terra me sorrirá pacificadora e linda.
Il fait bon… Sirvo-me da doce expressão francesa porque não encontro nenhuma em português que diga tanto. Il fait bon… As manhãs são azuis, luminosas. Não há uma nuvem no céu. De tarde toda a quinta fica banhada em luz cor-de-rosa, a luz dos incomparáveis poentes alentejanos.
Passo o dia na mais vergonhosa ociosidade. Nem sequer leio. Ando em lua-de-mel com este campo, que é o meu. Outro pode deslumbrar os meus olhos, outro posso eu achar mais bonito, porém só a este eu chamo meu… E sabe decerto, Joanninha, que infinita ternura encerra tão pequenina palavra!
Há entre o Alentejo e a minha pessoa mil afinidades. Já reparou quanto influe na nossa maneira de ser a paisagem em que nascemos?
Conheço à légua o alfacinha autêntico que, no colo da ama, frequentava já a Rua do Ouro, subia o Chiado e adormecia ao som dos pregões plangentes…
Conheço o minhoto, conheço o algarvio, conheço o beirão. Todos têm a sua marca inconfundível, mas nenhum é tanto da sua província como o alentejano e nenhum quer tanto à sua província. Corra ele o vasto mundo, passe anos sem a ver… Nunca a esquece. Nunca consegue desenraizar-se. Em toda a parte se acha estranho, tem a nostalgia das longas, desoladas planícies, onde a vista se perde, das charnecas áridas onde só desabrocha a flor da Xara, pequenina rosa selvagem, que se desfolha ao menor contato e dos campos de oliveiras de prata e dos campos de sobreiros com os velhos troncos ensanguentados, e da tristeza que tudo isso exala, tristeza-saudade, ansiosa e vaga; um não sei quê me encanta e faz mal…
A quinta da Ribeira Formosa foi cuidada e linda há… mil anos, quando aqui passei parte da minha alegre e endiabrada infância. Hoje é quase um bosque abandonado que o calor e a seca deste verão ardentíssimo devastaram ainda. Não há uma flor. Muitas árvores morreram. Já não cantam as alegres levadas. Calaram-se as fontes. Na ribeira corre apenas um manso fio de água, mas, à sombra dos pinheiros, está-se bem ainda. O olival conserva o seu bonito loiro cendrado. A vinha enfeita-se de tons vermelhos e quentes.
Demoro-me aqui até quinze ou vinte. Depois vamos para a cidade. Em princípios de novembro estarei em Lisboa.
Hei de ve-la muito. Hei de… Hei de…
Deliciosa coisa fazer planos, embora eles se desmoronem como os castelos de cartas que Therezinha constrói ao meu lado.
In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora. Lisboa, 1923

1.09.2012

E viva a língua portuguesa de torna-viagem!

O PÁSSARO EXÓTICO E A ABELHINHA SALOIA

Em egípcio, gato diz-se «miau». Ora, a novidade!... Isso, até os nossos bebés gatinhantes sabem! Afinal, não é essa a onomatopeia que mais usam para o chamar? Ao gato – digo eu!
Não há dia nenhum que não aconteça algo imprevisível a quem anda ao deus-dará. Ora lhe calha implicarem-lhe com os costumes, ora com as expressões, como com as companhias. O certo é desagradar a muitos, ser indiferente para alguns, tolerado pelos demais, e estimado pela família (mais chegada, ou dos que diretamente de si dependem). Porém, isso não aquenta nem arrefenta quem tem o brio e autoestima levantados ao pulso da cegueira de quem não sabe que, como reitera a voz popular, é bem pior do a que de quem não vê.
Não havendo a mínima razão para gostarmos de nós, sobretudo pelo que de inconfessável acerca de nós mesmos sabemos, desde as observações escatológicas aos erros e vergonhas inauditas, tentamos enlamear os nossos vizinhos com a peçonha de nosso existir, e vai daí que esfregamos trampa por todas as frontarias mais ou menos imaculadas com que nos deparamos. Se nos acertam, nem damos importância ao ocorrido, só para disfarçar e afastar o mau-cheiro. Erguemos as trombas ao céu, e desancamos quem se intrometa entre nós e a ideia que fazemos de nós próprios.
E se quando aprendemos a falar e escrever era suposto estarmos a prestar um enorme serviço à nação e à língua portuguesa, o que por ora salta à vista é que podemos limpar as ventas ao serviço que lhe prestámos. Porque há bestas pra tudo, e a língua não fica de fora. Os puristas do galaico são os maiores e afamados, sobretudo quando se insurgem contra o acordo ortográfico apenas porque se acham os herdeiros diretos da faladura lusitana… E pensam ao litro: isto é – se falam de vinho, duma zurrapa qualquer que foi ao Brasil, Angola, Guiné, Timor ou Moçambique, mas ninguém comprou e teve que voltar, dizem que ganhou qualidade superior tornando-o num torna-viagem de estalar os beiços e dar aos gorgomilos; agora se foi o léxico, a ortografia e gramática da língua pátria que foi aos mesmíssimos lugares distantes e voltou com novas expressões, aperfeiçoada nas fonéticas e valorizada na polissemia, com roupa nova na ortografia e sem maneirismos afetados nas gramáticas, então é um «aqui d’el rei» de achincalhar as repúblicas.
É óbvio que os puristas da língua são os mesmos que quando vão a encontros internacionais, em vez de falar o bom dialeto lusitano se travestem de poliglotas assumidos discursando no inglês de vender pentes e broches, acusando os chefes de Estado dos países de língua oficial portuguesa de não saberem inglês se se dirigem aos presentes em português, como já aconteceu com o Lula da Silva que numa Cimeira Internacional falou português e o nosso político representante da nação usou o inglês técnico dum curso intensivo de fim-de-semana… Mas isso não conta pra nada. Os brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, timorenses, goenses, são-tomenses, sentem orgulho em falar e escrever em português, cultivando o idioma dentro e fora de seus países, apetrechando-o de novos termos com cruzamentos indígenas e demais “procriações” alheias aos estrageirismos academicistas e cagofónicos habituais.
Portanto, a coisa está clara e óbvia. O acordo ortográfico veio pra ficar depois de muito jogar lama contra a parede de 170 milhões de falantes por três ou quatro gatos-pingados do negócio da palavra e criação literária. E agora, se querem ser lidos apenas têm que escrever de forma a que nós os entendamos, e não sintamos vontade de atirar os pasquins borda-fora logo ao primeiro parágrafo. Se não, miau!...
Coisa que tanto os nossos bebés como os eruditos egípcios sabem fazer com conhecimento do significado próprio, sobretudo quando reconhecem que aqui há gato escondido com a garrafa de fora…

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