La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

1.30.2012

LUZIA, uma escritora que amava a sua terra, mas ela nunca lhe reconheceu a sua arte e personalidade...

CARTAS DE UMA VAGABUNDA
a LUZIA

Que belas cartas! Que suaves linhas!
São «Vagabundas», boa amiga? Qual!
Todas se voltam para Portugal,
Como voltam de longe as andorinhas.

Ora, tão altas, como as estrelinhas,
Em viva nebulosa espiritual;
Ora soluços de água; ou roseiral;
Ou sol cantando entre a seara e as vinhas.

Senhora de Lourdes e de França
Acaso entende a nossa língua? Alcança
Que falam dela? Talvez não, talvez…


Mande-lhe as “Cartas”, Santo António é luso
E lhe dirá: – «Deixai, que eu vos traduzo…
Que pena não saberdes português!»

ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA

1.13.2012

LUZIA, uma escritora portalegrense que os portalegrenses quase desconhecem...

Ribeira Formosa – 6 de Outubro

Aqui estou enfim, saboreando as apetitosas migas, esquecendo a civilização e fazendo as pazes com a vida. Não sei se a Joanninha anda de bem com ela… Eu andava de mal há muito tempo. Os homens – que é como quem diz também as mulheres… – tinham-nos indisposto.
Estas árvores, esta divina solidão, no abençoado silêncio, a saudade mais viva «das queridas vozes que se calaram» e… tantas outras coisas deliciosamente indefinidas, estão-nos reconciliando.
Por amor da beleza da terra perdoo a fealdade do coração dos homens – pode sempre acrescentar mulheres, que, entre os dois…
E pela doçura de tudo o que fica, esqueço a amargura de tudo o que passa. Não será duas vezes o mesmo coração em que pus o meu desejo, a minha esperança, mas daqui a muitos anos, se eu voltar, as mesmas sombras discretas me acolherão e, como agora, a terra me sorrirá pacificadora e linda.
Il fait bon… Sirvo-me da doce expressão francesa porque não encontro nenhuma em português que diga tanto. Il fait bon… As manhãs são azuis, luminosas. Não há uma nuvem no céu. De tarde toda a quinta fica banhada em luz cor-de-rosa, a luz dos incomparáveis poentes alentejanos.
Passo o dia na mais vergonhosa ociosidade. Nem sequer leio. Ando em lua-de-mel com este campo, que é o meu. Outro pode deslumbrar os meus olhos, outro posso eu achar mais bonito, porém só a este eu chamo meu… E sabe decerto, Joanninha, que infinita ternura encerra tão pequenina palavra!
Há entre o Alentejo e a minha pessoa mil afinidades. Já reparou quanto influe na nossa maneira de ser a paisagem em que nascemos?
Conheço à légua o alfacinha autêntico que, no colo da ama, frequentava já a Rua do Ouro, subia o Chiado e adormecia ao som dos pregões plangentes…
Conheço o minhoto, conheço o algarvio, conheço o beirão. Todos têm a sua marca inconfundível, mas nenhum é tanto da sua província como o alentejano e nenhum quer tanto à sua província. Corra ele o vasto mundo, passe anos sem a ver… Nunca a esquece. Nunca consegue desenraizar-se. Em toda a parte se acha estranho, tem a nostalgia das longas, desoladas planícies, onde a vista se perde, das charnecas áridas onde só desabrocha a flor da Xara, pequenina rosa selvagem, que se desfolha ao menor contato e dos campos de oliveiras de prata e dos campos de sobreiros com os velhos troncos ensanguentados, e da tristeza que tudo isso exala, tristeza-saudade, ansiosa e vaga; um não sei quê me encanta e faz mal…
A quinta da Ribeira Formosa foi cuidada e linda há… mil anos, quando aqui passei parte da minha alegre e endiabrada infância. Hoje é quase um bosque abandonado que o calor e a seca deste verão ardentíssimo devastaram ainda. Não há uma flor. Muitas árvores morreram. Já não cantam as alegres levadas. Calaram-se as fontes. Na ribeira corre apenas um manso fio de água, mas, à sombra dos pinheiros, está-se bem ainda. O olival conserva o seu bonito loiro cendrado. A vinha enfeita-se de tons vermelhos e quentes.
Demoro-me aqui até quinze ou vinte. Depois vamos para a cidade. Em princípios de novembro estarei em Lisboa.
Hei de ve-la muito. Hei de… Hei de…
Deliciosa coisa fazer planos, embora eles se desmoronem como os castelos de cartas que Therezinha constrói ao meu lado.
In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora. Lisboa, 1923

1.09.2012

E viva a língua portuguesa de torna-viagem!

O PÁSSARO EXÓTICO E A ABELHINHA SALOIA

Em egípcio, gato diz-se «miau». Ora, a novidade!... Isso, até os nossos bebés gatinhantes sabem! Afinal, não é essa a onomatopeia que mais usam para o chamar? Ao gato – digo eu!
Não há dia nenhum que não aconteça algo imprevisível a quem anda ao deus-dará. Ora lhe calha implicarem-lhe com os costumes, ora com as expressões, como com as companhias. O certo é desagradar a muitos, ser indiferente para alguns, tolerado pelos demais, e estimado pela família (mais chegada, ou dos que diretamente de si dependem). Porém, isso não aquenta nem arrefenta quem tem o brio e autoestima levantados ao pulso da cegueira de quem não sabe que, como reitera a voz popular, é bem pior do a que de quem não vê.
Não havendo a mínima razão para gostarmos de nós, sobretudo pelo que de inconfessável acerca de nós mesmos sabemos, desde as observações escatológicas aos erros e vergonhas inauditas, tentamos enlamear os nossos vizinhos com a peçonha de nosso existir, e vai daí que esfregamos trampa por todas as frontarias mais ou menos imaculadas com que nos deparamos. Se nos acertam, nem damos importância ao ocorrido, só para disfarçar e afastar o mau-cheiro. Erguemos as trombas ao céu, e desancamos quem se intrometa entre nós e a ideia que fazemos de nós próprios.
E se quando aprendemos a falar e escrever era suposto estarmos a prestar um enorme serviço à nação e à língua portuguesa, o que por ora salta à vista é que podemos limpar as ventas ao serviço que lhe prestámos. Porque há bestas pra tudo, e a língua não fica de fora. Os puristas do galaico são os maiores e afamados, sobretudo quando se insurgem contra o acordo ortográfico apenas porque se acham os herdeiros diretos da faladura lusitana… E pensam ao litro: isto é – se falam de vinho, duma zurrapa qualquer que foi ao Brasil, Angola, Guiné, Timor ou Moçambique, mas ninguém comprou e teve que voltar, dizem que ganhou qualidade superior tornando-o num torna-viagem de estalar os beiços e dar aos gorgomilos; agora se foi o léxico, a ortografia e gramática da língua pátria que foi aos mesmíssimos lugares distantes e voltou com novas expressões, aperfeiçoada nas fonéticas e valorizada na polissemia, com roupa nova na ortografia e sem maneirismos afetados nas gramáticas, então é um «aqui d’el rei» de achincalhar as repúblicas.
É óbvio que os puristas da língua são os mesmos que quando vão a encontros internacionais, em vez de falar o bom dialeto lusitano se travestem de poliglotas assumidos discursando no inglês de vender pentes e broches, acusando os chefes de Estado dos países de língua oficial portuguesa de não saberem inglês se se dirigem aos presentes em português, como já aconteceu com o Lula da Silva que numa Cimeira Internacional falou português e o nosso político representante da nação usou o inglês técnico dum curso intensivo de fim-de-semana… Mas isso não conta pra nada. Os brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, timorenses, goenses, são-tomenses, sentem orgulho em falar e escrever em português, cultivando o idioma dentro e fora de seus países, apetrechando-o de novos termos com cruzamentos indígenas e demais “procriações” alheias aos estrageirismos academicistas e cagofónicos habituais.
Portanto, a coisa está clara e óbvia. O acordo ortográfico veio pra ficar depois de muito jogar lama contra a parede de 170 milhões de falantes por três ou quatro gatos-pingados do negócio da palavra e criação literária. E agora, se querem ser lidos apenas têm que escrever de forma a que nós os entendamos, e não sintamos vontade de atirar os pasquins borda-fora logo ao primeiro parágrafo. Se não, miau!...
Coisa que tanto os nossos bebés como os eruditos egípcios sabem fazer com conhecimento do significado próprio, sobretudo quando reconhecem que aqui há gato escondido com a garrafa de fora…

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A pessoa entre as sombras de ser