La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

5.31.2008

A Lavadeira, do Eurico


Das lavadeiras que as águas dos tempos devolvem à cidade...

Não sei quem era o Eurico portalegrense, nem tampouco o que fazia, mas o que é certo, é que ao tempo a que pertence, Maio ou Junho de 1898, um tal Eurico aqui havia, sentindo coita e dano por um biscoito, com que uma lavadeira chamada Maria molhava o pano, e pior, além de lho molhar também lho torcia, espanejava e batia, com vigor tamanho que lhe escurecia e abalava a musa, punha negrume na tusa, obrigando-o a ensaboá-la com poesia, num suplemento cultural e literário de A Plebe, tão vetusto e plural, que igualmente aí se tecia, a notável biografia, do Barão de Machial.

Eis a pérola:

A LAVADEIRA

A lympha mirando
Que branda deslisa
Batida da brisa
Tão fria,

Na margem do rio
Tão junto à corrente
Que tens tu na mente,
Maria?

Fitando a areia
D'um branco doirado
De rosto inclinado
Na mão,

Que ideias o peito
Te vem embalar
Fazendo o pulsar
Em vão?

Não sabes, Maria,
Que negro desgosto
A côr faz do rosto
Perder?

Afasta, bem longe,
Tão fundo scismar
Que faz definhar,
Morrer.

Junho de 98.
EURICO

5.30.2008

Evan Hunter

Há capas que dizem quase tanto como os livros que dentro de si guardam


(continua)

5.29.2008

Um Filho do Circo, de John Irving

Um Filho do Circo
John Irving
Trad. Eduardo Saló
622 Páginas

Um médico indiano de ascendência persa, uma das minorias étnicas da Índia, formado na austríaca Viena e com residência no Canadá, apaixonado pelo circo, após adoptar um dos gémeos de produção independente de uma estrela (apagada) de cinema de Hollywood, dados à luz durante uma rodagem por Bombay, resolver dedicar-se ao guionismo cinematográfico, com o fim explícito de criar um papel para o já crescido menino, que se transfigura assim num actor e detective ímpar. Como se não bastasse, este médico é também membro de um clube elitista onde, por incúria do destino e dos deuses trombudos, um serial killer, que inspirou e se inspirou no script do seu mais famoso filme, decide atingir o clímax da sua carreira de assassino, que afinal é uma assassina, graças à operação de mudança de sexo efectuada na Londres da permissividade, envolvendo todas as personagens numa inquietação sherlockiana só possível numa Índia extraordinariamente irónica.


Os gémeos desconhecem a existência um do outro. E se um virou padre, vocação que descobriu no combate à sua (homos)sexualidade latente, o outro entregou-se a uma carreira de galã mundano, enquanto o representante da internacional comunidade médica indiana se esforçava plenipotencialmente na prática de todas as operações, com excepção das ortopédicas, que eram a sua especialidade.

Mais do que um retrato ironicamente colorido da Índia, onde tanta gente existe que qualquer excentricidade se torna banal e corriqueira, este livro é um compêndio humorístico para a compreensão de um mundo em vias de extinção, da sociedade do rótulo, da marca registada, da indiferença a todo o custo, dos grandes feitos, do vedetismo e do idealismo exacerbado, de que o ano 80 foi tão-só o princípio do fim. E é aqui, sobretudo neste contexto, que o circo ganha foros de metáfora, num jeito de hipérbole ridicularizadora, enunciativa de todas as extravagâncias espectaculares, assumindo e desempenhando, na narrativa, o papel principal: o de transmitir a ousadia do sonho e da esperança a todos os extraviados da normalidade. Essencialmente porque, parando ele, a realidade também. E a ficção. Além de qualquer equívoco que exista entre ambas.

5.28.2008

Nove e a Morte São Dez


Nove e a Morte São Dez
Cárter Dickson
Trad. Catarina Rocha Lima
224 Páginas

Com um exemplar da família dos Crimes em Quarto Fechado, Carter Dickson, ou John Dickson Carr, que vem a dar no mesmo indivíduo, estabelece uma trama detectivesca, a descambar para a de espionagem, onde a confusão e número são parentes próximos senão os principais personagens, ou protagonistas. E é precisamente a definição do número – esta coisa dos números quando se metem nas letras dá sempre enredos bicudos, capicuas de obradura, diremos… –, quem vai forjando as diversas confusões. Primeiro, é a do quantitativo dos passageiros do paquete – outra!... – que transporta material de guerra, tipo cargueiro, em que, conforme o título, seriam nove, mas só aparecem oito, que afinal são sete quando parecem dez. (Ou não?... Bom: o melhor é mesmo ficar por aqui, e contar apenas pelos dedos!)
Em seguida são os detectives. Que começam por ser um, mas passam a dois, depois três, quatro, quando a deusa do génio resolve beneficiar o mais velho que, por sinal, é também o mais experiente e sagaz. Após o que vêm os crimes… Que parecem três ou quatro, mas afinal são só dois, e ao último de pouca conta, em que mal se dá por ele.
No entanto, o que é igualmente verdade, se considerarmos bem, o grande talento dos “jogadores” reside mais no embaralhar das cartas do que na destreza ou pose ao virá-las. E é exactamente nesses dois pontos – baralhar e virar – que o autor mais nos surpreende, atirando-nos para um daqueles remates magistrais somente possíveis no género policial, devolvendo-nos o óbvio assassino, depois de o termos rejeitado sem qualquer relutância (e por isso mesmo: por ser demasiado óbvio). Preparados, cozinhados, postos no lume brando de uma narrativa em que nada daquilo que parece é, deixamo-nos enredar e não “vemos” como é isso o que o autor precisamente quer, para que ele, antecipando-se-nos, prove definitivamente que naquela história quem manda é ele, fazendo exactamente o contrário do que esperávamos, demonstrando-nos, enfim, pelo menos uma vez, e em termo de q.b., que aquilo que parece também pode muito bem ser. Aliás, felicidade que nos reconforta e estimula a autoconfiança, dá prazer neste namoro narciso entre nós mesmos e as nossas faculdades, que o faz raiar outro género: o cor-de-rosa!

5.27.2008

À Beira do Abismo

À Beira do Abismo
Título original: The Big Sleep
Raymond Chandler
Trad. Baptista de Carvalho
Capa de Rosa Duarte
230 Páginas

Nos livros de Raymond Chandler, mesmo quando se estão a retratar as situações mais complexas e difíceis, há sempre um bom pedaço de perna que se pode apreciar, um whisky que não sabe a remédio pràs lombrigas e cigarros que ardem com notória e aromática desenvoltura. E pelo enquadramento narrativo quem bitola é o modelo do puzzle. É a Philip Marlowe quem cabe juntar as peças, colocando cada una en su sitio, a fim de que possamos usufruir do quadro geral. Por vezes transcende-se, e faculta-nos uma réstea da sua filosofia de vida, qual visco machista, sexista, de bem-parecido, de modo a permitir-nos a colagem, unindo as franjas soltas e nos desentediarmos até ao final. Não lhe conhecemos defeitos de maior, além do ser honesto e desconfiado com as mulheres. Até porque, ao que consta, sabia muito bem como elas mordem.
Enfim, elas são capazes de tudo. Ou quase. E quando o fazem, se se lhes oferece a outra face, então não perdoam e dão dobrado, quer na força, quer na determinação, como nas intenções e motivos. Só que nunca o fazem por mal, mas por fraqueza. Como Ph. Marlowe reconhece, já que é para isso que existe e lhe pagam principescamente. Neste volume, dito registo, cabe-lhe salvar a honra das filhas de um homem que se atreveu a ser pai, pela primeira vez, aos cinquenta anos, e que, apenas por via dessa destemida ousadia, tudo merece, do quanto de mal lhe acontece, ou bate à porta. Consegui-lo vai acarretar-lhe dissabores incalculáveis. Dificuldades supremas. No entanto, quando se assume um compromisso com roupa lavada de corte exigente e costura aprumada, escanhoado a preceito e, ainda por cima, sóbrio, com alguém cuja assinatura, em cheque, pode ir, na boa, acompanhada de uma cifra da ordem dos quatro milhões, então ele cumpre-se como um brioso profissional que não falha (para garantir o seu quinhão). Nem que a mais bela se dispa!
Nota biográfica: Raymond Chandler nasceu em Chicago, filho de pai americano e mãe irlandesa, mas ambos pertencentes à seita dos Quakers. Foi cedo para Inglaterra, onde cursou o Colégio Dulwich, mas completou a sua educação em França e na Alemanha. Depois desempenhou uma miríade de profissões, como professor, revisor gráfico, poeta, escritor, ensaísta, soldado de infantaria, num regimento canadiano, argumentista, guionista, contabilista, piloto, etc., fixando residência na Califórnia, a partir de 1919. Este mesmo romance, conforme quase todos da sua lavra, foi alvo de adaptação cinematográfica, cujos intérpretes principais terão sido, nada mais nada menos, do que Humphrey Bogart e Laurence Bacall.

5.26.2008

Fundação, de Isaac Asimov

Fundação
Isasc Asimov
Trad. J. Santos Tavares

Após a descoberta da Psico-História, o Império Galáctico encontra-se à beira de uma ruptura irremediável e que pode atingir um grau definitivo e derradeiro. Em vista disso, Trantor, o planeta-nação sede, decide exportar a sua comunidade universitária para dos planetas desabitados nos extremos opostos da Galáxia: Terminus e Fundação. Neste último, que foi delineado como o refúgio científico, ou meio pelo qual a ciência e cultura do Império (moribundo) seriam preservadas, através dos séculos de barbárie, então começados, estabelecendo-se para isso, como estratégia de relacionamento entre os planetas-nações circunvizinhos, uma atitude missionária do conhecimento, formando aquilo que poderemos denominar, de autêntica Religião da Ciência. Pelo que será no seu seio que se fundamentarão as bases do II Império, numa aposta desesperada – mas decidida – para garantir a sobrevivência da humanidade e o equilíbrio do universo.
Contudo, essa tentativa nem sempre é convenientemente entendida por todas as nações dos confins, entre as miríades de estrelas mais, ou menos, acesas no azul da razão imperial. Há reacções pouco positivas que obrigam os principais protagonistas a chegar a vias de facto. E num desses confrontos (Anacreonte versus Fundação) se exemplifica sobremaneira como, no futuro, Atenas pode voltar a vencer Roma, opondo a subtileza das artes, do conhecimento, da técnica e da inteligência, à força embrutecida dos exércitos. Indo mesmo muito além (do modelo histórico), instituindo uma nova ordem, assente no ecletismo dos seus mestres e propagandistas, fomentando o mercantilismo inter-estelar, investindo na civilização para daí colher significativos lucros, igualmente legítimos, porquanto eclodem do conhecimento semeado.

5.20.2008

John Dickson Carr versus Carter Dickson


Diz, ou melhor, disse John Dickson Carr acerca de si próprio, como entrada, aperitivo, para a edição portuguesa do Lord of Sorcerers, que a Colecção O Escaravelho de Ouro, em tradução de M. da Motta Cardoso, e capa de Rosa Duarte, publicou em 6º número, como Aviso Sinistro, em 1950, serem duas as personagens fulcrais na sua obra: o Dr. Gildeon Fell – para os livros assinados com o seu verdadeiro nome – e Sir Henry Merrivale, ou mais simplesmente H. M., que pontificaria nas obras de Carter Dickson, o seu "alter ego". O que faz com que sejam as personagens principais (os protagonistas) a estabelecerem a diferença fundamental entre dois nomes de génese idêntica e para o mesmo género (o policial), onde os estilos comuns a ambos se cruzam numa titulagem igualmente próxima (v.g., O Barbeiro Cego, O Enigma da Virgem de Ferro, O Sinal do Morto, O Oito de Espadas – de John Dickson Carr; ou Desafio à Polícia, Os Crimes da Viúva Vermelha, 5 Caixas = Morte, Desafio ao Leitor, A Morte de Uma Dama, Crime no Jardim Zoológico, Repouso Mortal, A Flecha Assassina, Crime e Frustração, Nove e a Morte São Dez – de Carter Dickson) que, além daqueles cujas capas se apresentam aqui, se incluem na sua vasta bibliografia (com tradução portuguesa), salvo aquelas excepções mais ou menos encafuadas e desaparecidas nos recantos fundos dos tempos ou nas escondidas prateleiras das mais esconsas alfarrabarias.
Nascido em 1898, em Uniontown, Pennsylvania, EUA, acompanha com oito anos o pai a Washington, onde este se veio depois a instalar após a eleição para membro do Congresso, oportunidade que lhe facultou o despertar para os clássicos (Shakespeare e Tennyson), convive com outros congressistas, colegas de seu pai, entre os quais Thomas Heflin, Pat Harrison e Claude Kitchen, guardando desse tempo, como uma das suas melhores recordações, o facto de o presidente Woodrow Wilson o ter tratado pelo seu nome verdadeiro e completo – John Dickson Carr –, depois de o ter ouvido dizer versos do Child Harold, de Lord Byron.
Aos catorze anos já escrevia contos policiais, recheados de crimes, tão hediondos quão inverosímeis, sanguinolentos e de impenetráveis mistérios, até para ele próprio insolúveis, que foram repetidamente rejeitados pelos jornais e revistas da época. Mas o seu primeiro livro com honras de prelo e letra de forma, foi, todavia, um romance histórico, de capa e espada, em 1920, data a partir da qual se iniciou uma prolífera e criadora actividade de escrita, no género policial, cuja primeira obras foi o It Walkes by Night, em jeito de homenagem sincera a todos os polícias que conhecera como pelos seus "silenciosos mas magníficos esforços na luta contra o crime". Enfim, um exemplo de gratidão.

Morte Dupla, de Dorothy Sayers

Morte Dupla
Dorothy Sayers e Outros
Trad. Eduardo Saló
228 Páginas

Dos sete autores policiais que colaboraram neste volume, cuja ideia coube a James Drawbell, editor do Sunday Chronicle, secundado nas responsabilidades por William Lees, editor do Allied Newspapers, apenas dois são realmente conhecidos do grande público português: David Hume e Dorothy Sayers. O primeiro desde mil novecentos e cinquenta e qualquer coisa, com a publicação entre nós de Os Mortos Não Discutem e Sinistra Partida!, este datado de 1953, traduzido por Mário Domingues, para a Colecção Máscara, da Editorial Dois Continentes; a segunda, pelo menos desde que se estreou na Colecção Vampiro, da Livros do Brasil, em 1949, com Qual dos Cinco, a que se seguiram Crime Perfeito, O Mistério do Bellona Clube, O Crime Exige Propaganda, Intriga e Veneno, O Gato de Diamantes, Quem Matou o Almirante e As Férias do Carrasco. E que, aliás, vem também a ser publicada pelas Edições70, na Colecção Alibi, nas parcerias A "Caixa", com Agatha Christie, e Por Detrás do Biombo, novamente com Agatha Christie e uns quantos outros escritores.
Todavia, este aparente anonimato dos restantes colaboradores, evidencia-se sobremaneira circunstancial, à medida que viramos páginas e dobramos capítulos, complementados com rodapés e notas elucidativas, que nos guiam, por assim dizer, aos bastidores da escrita, aos camarins da palavra criativa, e nos fazem enredar numa trama elaborada a várias mãos, diferentes percepções, mas sem nunca perder a unidade harmónica do fio discursivo, do enredo, e sobre o qual, sem dúvida, caso o não soubéssemos antecipadamente, ou não estivesse identificada, nos seria bastante difícil afiançar a sua díspar autoridade, jogo de muitos espelhos, embora orquestrados por um olho que tudo vê para melhor ligar as peças do puzzle.
Em a Morte Dupla, todas as regras do policial são respeitadas; o que não impede, porém, de manter o mistério e a expectativa até ao fim. Os crimes, o móbil, a arma, a lógica, a morfologia dos personagens, o suporte social, o quadro paisagístico, o enquadramento interpessoal, são factos descritos com minúcia e eficácia, e que colocam em pé de igualdade o leitor, o polícia e os autores, dos quais apenas um pode ser o Deus ex machina, para melhor alinhar os naipes e dirigir o concerto. Lê-lo é reconhecer que nem sempre a escrita é obrigatoriamente uma actividade solitária, mas antes se pode assemelhar, quer no toque e entoações, quer nos cenários e adereços, quer nos libretos e intervalos (prò chá), a uma opereta magnificamente interpretada como dirigida. Na linha de Quem Matou o Almirante, onde Dorothy contracena com Chesterton, John Rhode, Aghata Christie, Henry Wade, Anthony Berkeley e Freeman Wills Crofts – único que se mantém agora na equipa –, Sayers faz contraponto (arte de combinar melodias, ou de pôr em jogo, uns contra o os outros, temas ou enredos, personagens, de carácter oposto ou complementar) neste número, além de com o último e o já nomeado Hume, ainda com John Chancellor, Valentine Williams, F. Tennyson Jesse e Anthony Armostrong, todos arrolados no "London Dectetive Club", que é quem dá o mote e delineia uma narrativa deveras cativante. Aliás, fosse o caso de lhe darmos estrelas, o céu era dela!

5.15.2008

Duas Preciosidades

O Homem da Montanha

Dino Buzzati


Trad. de Rosália Braacamp


Capa de António Domingues


Colecção Os Livros das Três Abelhas


Publicações Europa-América, 1960

A Confidência Imperfeita

André Gide

Trad. António Ramos Rosa

Capa de Infante do Carmo

Colecção Miniatura

Livros do Brasil

Pequenas Maravilhas

Um Mundo Perdido
Henri Bosco



Colecção Biblioteca dos Rapazes


da Portugália Editora


Capa de João Câmara Leme


Trad. de Maria Helena da Costa Dias



Segunda página

9 Novelas de Antecipação Americanas


Trad. de Rafael Alberty


Capa de Miguel Flávio


Colecção COR de Bolso (nº 12)


Edição de Estúdios COR - 1964

E em terceiro lugar...

O Corredor
Jean Reverzy
Trad. de José Manuel Calafate
Capa de Infante do Carmo
Colecção O Livro de Bolso
Portugália Editora



Mundo Marciano, de Ray Bradbury

O Mundo Marciano
Ray Bradbury

Trad. Fernando de Castro Ferro
248 páginas


No poema A Invenção do Amor, de Daniel Filipe, um dos perseguidos apaixonados lia, ao momento, as Crónicas Marcianas, quando foi sequestrado pela urgência da dita "invenção", instante a partir do qual a sua vida sofreu uma transformação de 180 graus. Não havia no texto, como em rodapé, ou nota suplementar, qualquer referência quanto à autoria das Crónicas, mas mesmo assim lá desencantei o livro nas prateleiras amarfanhadas de uma biblioteca pública. Foi precisamente esse o meu primeiro contacto com Ray Bradbury. Por cunha, é certo, e sob a influência indesejável de um poeta, como, ao que parece, todos são quando se fala de literatura, pois nunca aconselham esses monos e pincéis chatos e cinzentões que aqueles que raramente lêem, ou quando o fazem, fazem-no com motivações "superiores" políticas ou moralistas bastante definidas e intencionais, costumam aconselhar, todavia com esforçada regularidade. Segui-se-lhe depois O País de Outubro, A Última Cidade de Marte, As Vozes de Marte, Fahrenheit 451, etc.
Porém, confesso que, talvez devido ao discurso um tanto atabalhoado e surrealista, o relacionamento inicial não primou pela facilidade amistosa, antes pelo contrário, pelo arrinca-finca da adolescência do "tu estás-te a armar em parvo, mas eu dou-te a volta". Digamos que, ao invés da sugestão romanesca do poema, que não acatei de maneira nenhuma, insurgi-me, blasfemei contra a sua narcótica marcíice, declarei-me ferrenho adepto de Vénus, chamei-lhe aqueles nomes feios típicos de quem anda a ajustar contas com a existência, pu-lo de quarentena nas minhas preferências de leitura. É que, mesmo na FC da fantasia e à semelhança das demais coisas sob as quais floresce a vida, exigia-me compreensão para o aprazível saboreio da sua escrita: primeiro estranha-se, em seguida tolera-se, depois gosta-se, e, finalmente, repete-se (gulosamente e com exaustiva sofreguidão). Até que nos viciamos na ementa e precisamos dum esforço sobrenatural para mudar de "prato".
Convém, contudo, salientar que a "surrealidade fantástica" do discurso de Ray Bradbury, é o supra-sumo de toda a sua obra. Não só porque usufrui de uma linguagem eivada de abundantes sinestesias e prosopopeias, polvilhadas de referências aos tempos do p.b. (preto e branco, para aqueles a quem ainda custa decifrar os enigmas que têm por separador o elo de um ponto final – e escusam de me perguntar o que é que isto significa, que também não sei!), num ritmo de lengalenga juvenil, repetitiva, insistente, aproveitando-lhe os nós aliterantes – provavelmente, uma peculiaridade mais fácil de reconhecer no inglês de origem, coisa a que sempre fui adverso –, mas também porque com ela consegue montar um universo significativo tão díspar do comum, que lhe dá a volta pelo contrário, e nos parece igual ao linguajar de todos os dias, formando em cada livro uma extensa prolepse figurativa (descrição de um acontecimento esperado como se ele já tivesse acontecido), assaz prometedora para a compreensão da realidade, enquanto espaço-quando sócio-cultural, que se insinua e nos dita que "amanhã é já ontem", e que, em realidade, nos pede que concordemos em discordar, pelo menos aqueles que se consideram humanos e resistentes, que não entregam os seus foguetões para que os governos façam as guerras atómicas, em ou por pura diversão, não atiram a toalha ao chão perante as contrariedades da globalização, nem se limitam a ser mais uma alucinação sensorial de entidades (supostamente) superiores.
Enfim, que se forma na constante e contínua fuga ao contexto, apontando sucessivos planos e plataformas numa progressão aos socalcos, de patim para patim, de nível para nível de entendimento, características de uma estrutura narrativa a que não podem ser alheias influências de Edgar Allan Poe, Garrett, Lord Byron, Sthendal, no contraponto intertextual, numa aberta, frontal e declarada oposição, quer ao atomismo individualista, quer ao realismo, como demonstrações confessionais de uma fraqueza, duma fragilidade, duma infinitesimal pequenez que só os grandes homens são capazes de em si mesmos verem, de admitirem, e que os leva a combater a ansiedade daí resultante, numa obra com a radicalidade da postura futurista, romântica e de terroristas fantásticos, armados até aos dentes com palavras-bombas, suicidas da memória, kamikazes da imaginação, mercenários da arte. Em resumo, e em apenas duas palavras, marcianos da Terra – ou, terráqueos de Marte!

5.13.2008

Mary Anne, de Daphne du Maurier

Mary Anne
Daphne du Maurier
Trad. Maria Irene Daun e Lorena
424 páginas

Mulher e escritora inglesa que atravessou quase todo o século passado (1907-1989), Daphne du Maurier é sobejamente conhecida entre nós, não só como acontece no resto do mundo, pelo reconhecimento natural do seu estilo, peculiarmente atraente, fácil e objectivo, isto é, que vai direito aos assuntos que quer escamotear, sem chicoelinas nem maneirismos, mas também porque a quase totalidade da sua obra – contos, romances, memórias, biografia – foi intencionalmente traduzida para português, de cá como de lá do Atlântico, onde títulos como Rebeca, O Outro Eu, A Sorrir Também se Vence, Os Pássaros e os Outros Contos Macabros, A Pousada da Jamaica, Prima Raquel, Voo do Falcão e a Casa da Praia, se tornaram familiares aos leitores, incluindo os mais escrupulosos, como a cinéfilos, uma vez que destes derivaram outras tantas adaptações cinematográficas, que o circuito comercial nos facultou. Mas é da história "verídica" da sua trisavó, Mary Anne Clarke, ou de quanto verídico ainda se podia coar das narrativas familiares, sobretudo acerca de uma pessoa que terá falecido em Bolonha, a 21de Junho, de 1852, logo há mais de um século e passado pelo crivo de duas gerações distintas, que a autora foi buscar o enredo e motivos descritivos deste romance, extraordinário sem dúvida, onde o retrato do tempo se cruza com um ambiente de sedução e sexo, tendo a alcova por antecâmara do poder cortesão, num intrincado de escândalos da alta sociedade, de corrupção e vitalidade das ruas londrinas, com uma pícara heroína não menos corrupta, não menos arrivista e, principalmente, também não menos torcidinha e credível.
Mulher bem dotada fisicamente, quer dizer, senhora de encantos vários, além de possuidora de uns angelicais olhos azuis, pois então, que escondem o frio calculismo da sua dona, nariz arrebitado e cabelo castanho-claro, o que mais arrebatava, ou electrizava quem com ela deparava, em Mary Anne, era porém o seu sorriso, que parecia troçar indiscriminadamente tanto de quem gostava como de quem desprezava, confundindo para reinar e reinando seduzindo, enredando pela dúbia teia, as vítimas da sua atenção. Sacrificada, oprimida, pobre, oriunda do sopé social e pouco escrupulosa, decidiu pôr a sua beleza ao serviço da sua libertação, numa carreira ambiciosa, e como trampolim ideal que lhe facilite a ascensão desenfreada. Só que depois não consegue parar e lança-se, graças ao seu desmedido amor pelo dinheiro, ou poder que dele advém, num ciclo de ousadias perigosas e nada honestas, que culminam no vender de comissões militares, tráfico esse que deu origem a mais um escândalo que, na época, correu mundo e abalou o país, além do que obrigou o Duque, o aristocrata da sua garantia, a responder perante o parlamento, assim como ameaçou fazer ruir a sua fortuna pessoal. Aliás, fenómenos de outros tempos, embora pouco estranhos aos actuais, o que, indubitavelmente, empresta a este romance a sua validade clássica, como um direito de estilo... e género.

5.12.2008

poetasportuguesesdoseculo21: sara costa

poetasportuguesesdoseculo21: sara costa

António Botto: Real e Imaginário

António Botto: Real e Imaginário
António Augusto Sales
256 Páginas

Canção Mutilada

A tarde cai amaciando a terra,
E enchendo-a de miragens tentadoras
Enquanto o sol,
Nos últimos alentos,
Se prende nos galhos de um arbusto
Que, ressequido, à beira de uma ermida,
Parece o próprio símbolo da Vida.

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,
Pisam o pó e as pedras dos caminhos
– Como bandeiras humanas
Movidas pelo infortúnio,
Sem alegria, sórdidos, curvados
Mas enormes no seu frémito de luta!

Ah!, nem a morte quer os homens
Quando eles são desgraçados!
As estrelas lá, no alto,
Riscam cintilantes brilhos.

E em bandos –
Os maltrapilhos,
Silenciosos e ateus,
Zombam do Amor
E até de Deus!
A miséria
Quando atola
O homem nos seus negros labirintos,
Dá-lhe, também, a loucura
Dos mais trágicos instintos...

Agora, neste momento,
A noite –
É uma imensa realidade...

E eu julguei ver a Justiça
Afundar-se na penumbra
Da sua inútil realidade.


(Poema de António Botto, que encerra o livro de contos Imagens do Alentejo, de Henriques Zarco, nº 2 da Colecção Amanhã, edição da Imprensa Artística, Lda., em 1936. )

António Botto era homossexual assumido, gay praticante e maricas confesso, não obstante ser casado com uma inteligente e linda senhora. Aliás, o primeiro de uma plêiade de "travestidos" sexuais que ainda hoje prolifera no universo das artes e letras nacionais, europeias ou mundiais, e em grande parte tem feito delas o ninho das tendências marginais. No entanto, é inegável que também era um genial poeta, um extraordinário fabulador e maravilhoso contista, um exemplar dramaturgo, um tradutor sofrível, um letrista respeitável, e um espectacular fadista, arrebatado declamador e convicto versejador, quer no dizer pausado, quer no improviso. Escritor de canções, colaborador dos jornais, boémio e dandy da Alfama bairrista da primeira metade do século passado, que se vangloriava de ser o primeiro pederasta lusitano com reconhecimento oficial, chegando mesmo a mandar imprimir cartões de visita com tal "classificação", foi por muitos considerado o Frederico García Lorca português, mas sem a morte, embora não menos trágica, nem iguais preocupações, na vertente sócio-política, que as do celebérrimo granadino da Geração de 27. E nesta obra se tenta situar, definir, o espaço-quando por que o circunvagou, a que pertenceu, assim como especificar-lhe a faceta e perfil, os relacionamentos, as paixões, fraquezas, limitações e obra, sem cair nas vulgaridades e clichés que tantas vezes entorpecem o género biográfico.
Companheiro de tertúlia e protegido de Fernando Pessoa, conhecido de Régio e amigo de Vilarett e Beatriz Costa, "disse" poemas e declamou como mais ninguém (daquele tempo), aproveitando as nuanças da voz, o efeito das inflexões, a musicalidade do ritmo, num jeito próprio que fez escola, sem que jamais se sentisse incomodado pelo facto de, na Lisboa do seu dia a dia, as pessoas continuarem descalças, cultivando e conservando hábitos, tão socializados, educados e ribeirinhos, como o de estender a roupa encharcada à janela, gotejando torrencialmente sobre os transeuntes, ou de escarrar para a rua sem sequer averiguar se alguém vai a passar nesse ínterim. Espírito de irreverente quadrilheiro, pregoeiro de boatos e vingativo nos desamores, praticou o exercício da má-língua tão vorazmente que o baptizaram de A Serpente, tal era argúcia e mordacidade de sua feminidade venenosa, consolidando o cosmopolitismo de Álvaro de Campos, e o que levou "alguns" a considerarem-no, de certo modo e justificadamente, também mais um, ou outro heterónimo do poeta da Mensagem, na medida em que Pessoa se reviu e realizou igualmente na poesia dele, além de na vida que a ela correspondeu. Enfim um contista que escreveu sonetos nos guardanapos das mesas de café, cantou o fado nas tascas severinas e marialvas, solitário frequentador do Martinho da Arcada, visitou diariamente as capelinhas livreiras do Chiado (Bertrand, Sá da Costa e Portugal), e que borboleteando vagueou entre as prostitutas e gigolôs, as bailarinas, pintores, escritores, jornalistas, actores e demais refugiados, na capital, do provincianismo e moral do seu tempo.

5.10.2008

Crisfal, de Cristóvão Falcão

CRISFAL
Cristóvão Falcão

Será ainda possível o arrebatamento estético pela linha do exotismo regional? E que espécie de exotismo resistirá depois que a globalização pôs o mundo todo à nossa disposição? Ali, à exacta distância de um clique? É – responderei –, pese embora o termos que procurá-lo em dois tempos (im)possíveis: no passado ou, mais esforçadamente, no futuro. Que quem o quiser no amanhã, outro remédio não tem, senão descobri-lo na literatura de antecipação, a ficção científica. E quem o preferir pretérito, há-de recorrer às matrizes originais, subterradas no passado, como na Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, ou na Crisfal, de Cristóvão Falcão, por exemplos... Mas, do que não poderá esquecer-se, é que a Odisseia do Homem se faz na procura de si mesmo, o que significa que a adivinhação do futuro só resulta quando fecha o círculo, e mais não é do que uma outra forma, ou retoma da ancestralidade!
Se então optou pela primeira, saiba que vai ficar a cada parágrafo em suspenso, enleado, enredado numa trama de frases e mistérios, sentimentos esculpidos em renda macia, capaz de lhe desenterrar emoções profundas e ideias iniciais, da estirpe das que com que já muitas vezes se deparou mas desconhecia de onde lhe nasceram. E tudo isso, numa linguagem cujo vocabulário e hieróglifos sentimentais, mesmo quando os termos são assaz estranhos ao linguajar corrente, por desconhecidos ou arcaicos, com a musicalidade da natureza e das paisagens deste torrão das fraldas ibéricas, onde as campainhas dos rebanhos e os címbalos dos ventos se repercutem. Tanto, que é como se nos viessem de dentro, do nosso inconsciente recôndito, precisamente daquele ponto de intercepção em que o individual toca o colectivo, se lhe entrelaça, e forja a etimologia da cultura. Não só porque invoca a génese da nossa língua, mas também porque transmite aquela singela sensação de quem está alfim de regresso ao seio materno, onde todos os regatos se cristalizam no deleite das horas.
Depois, como a irremediabilidade característica que assiste ao inevitável, constatar-se-á que o discurso literário actual nasceu da narrativa oral, e que a nossa história antes de escrita foi falada até nos fadar naquilo que somos. De quanto nele é possível observarmos o palimpsesto da oralidade, de tal modo, que apetece lê-lo em voz alta só para nos ouvirmos dizendo-a, à medida que a vamos vivendo. Cair na magia da palavra dita, sussurrada ao canto da lareira, sob o dançar fantasmagórico das sombras que as chamas activam e despertam. Que era como se refazia o sonho, se transmitia a moral, os costumes e as ideias, se compunha a noção de beleza e de liberdade, dando-lhe por cercadura os lintéis da vontade, dos valores, da honra, afecto e glória. Porque era com eles, que as gentes edificavam as portas prà vida, com que os homens eram esculpidos, talhados, determinados, programados, no heroísmo de sobreviverem sendo felizes. E fieis. Principalmente fiéis, ao seu amor, ou à sua rainha – deusa, dirão alguns, a quem a veia mística ainda não fez perder o tino.
Porque das éclogas se conta pouco, quando foi muito o seu cantar, neste recanto onde o pastoreio se fez, sobretudo, com rebanhos do sonhar. E, "no que toca à substância das ideias, ao temperamento", afiança Rodrigues Lapa, "aquela espécie de pudor que se nota nas éclogas de Bernardim Ribeiro, deu lugar, no Crisfal, a uma sensualidade picante, dum realismo por vezes atrevido. Em meio dos seus queixumes e desfalecimentos, sentimos que Crisfal é um homem que luta e sabe gozar a vida." Alguém de Portus Alacer...
Ficando, adianta ele no seu prefácio, "pois demonstrado, sem sombra de dúvida, a nosso ver, que foi Cristóvão Falcão de Sousa, fidalgo de Portalegre, o autor da écloga Crisfal e da carta em verso. As outras hipóteses apresentadas, em torno da questão, não têm fundamento, uma, de Patrocínio Ribeiro, formulada em 1917, pretendeu ver no poema uma composição de Luís de Camões, e no entrecho a narração dos amores de Jorge Silva pela infanta D. Maria. É um produto daquela imaginação delirante, que estraga muitas vezes o crítico em Portugal. A outra, apresentada em 1940 pelo professor António José Saraiva, supõe o Crisfal como composto por Bernardim Ribeiro, em torno dos amores de Cristóvão Falcão. Além de tudo quanto se tem dito sobre as circunstâncias da vida e particularismos de estilo, não é razoável figurarmos um homem como Bernardim, já velho, torturado pelo seu drama pessoal, de que só sabia falar, metido a celebrante de amores escandalosos de um rapaz. Isto admitindo mesmo que Bernardim Ribeiro estivesse em estado mental de o fazer, o que era duvidoso."
Por mim, confesso-me suficientemente elucidado. Quanto aos demais, experimentem lê-los, a ambos, e depois avaliem sobre a justeza desta paternidade!

5.09.2008

Auto da Alma, de Gil Vicente

Embora com edição nacional, este livrinho foi comprado (em primeira mão) n’A ALENTEJANA, Livraria-Papelaria, situada na Rua 19 de Junho, 17 a 21, em Portalegre, propriedade de Maximiliano Andrade Ratto, e servia de apoio ao estudo do teatro vicentino que, à época, era de leitura (interpretação e análise) obrigatória para os cursos liceais (e técnicos: industrial e comercial). Trabalho exímio, preciso e exaustivo, complementado por um glossário essencial, de autoria de autores portalegrenses, foi, com apenas 69 páginas, um dos livros incontornáveis para quem cursou outras letras, além das primeiras, na altura – décadas de 1950/60.

5.08.2008

Despeço-me da Terra da Alegria

Despeço-me da Terra da Alegria
Ruy Belo

O prefácio na edição é de outro poeta, João Miguel Fernandes Jorge – autor de livros como à Beira do Mar de Junho, Porto Batel, Actus Tragicus ou Direito de Mentir, entre outros, dos quais podemos destacar Os Poucos Poderes, de colaboração com Jorge Guerra e Ruy Belo –, e assinado da Consolação, pelo S. Martinho, de 1978. E de Ruy Belo se disse quanto havia a dizer nos mais diversos suportes e mass media. Contudo vem a propósito relembrá-lo, e à sua poesia, lendo-a como nomeando-a, que sendo diferentes uma coisa e outra, porém muito têm de igual, não nos meios mas nos fins, que é a melhor homenagem que se pode fazer aos poetas, vivos como defuntos, e assim se vão da lei da morte libertando. Mais ainda: nela, edição digo, é acrescentada à de 77, da Inova, o então inédito Enganos e Desencontros, que sem dúvida é o mais perfeito exemplo e característico do estilo, pejado de trocadilhos e andanças figurativas, com que o autor nos prendou. Que neste se dá por inteiro o jeito de poetar de quem teve por único desporto a versificação, ou trocou os tempos e as estações por três ou quatro palavras.
E quando se diz "característico do estilo" quer afirmar-se que, em Enganos e Desencontros, mais do que em qualquer outro poema seu, se notam a extensão significativa dos encavalgamentos, os versos longos e livres, a rima interna, a aliteração insistente e predominante, que nos impõem um ritmo de leitura, uma fluência, uma cadência oral, muito próximas da ecolalia e da lengalenga, mas sem os seus aspectos fastidiosos, exaustivos, monótonos e infantis desta espécie de composições, nem o seu carácter ligeiro e falho de profundidade e sentido humanitários, em que as palavras perdem consistência semântica e mais se valorizam pela convergência fonética e rítmica. Como, por exemplo, se nota no excerto

Que alguém ampare o que for que em nós espere
que alguma coisa dure antes de ir-
se embora ó morna urna eterna e nocturna

ávida e lêveda dúvida lívida mas tórrida
parássemos e víssemos e velhíssemos nos embrulhássemos num
sensual servil lençol sob o docel azul e mole
A área da matéria é vária e etérea
o átrio é pétreo e vítreo
mas a larva ou a erva que sirva pra que a água ferva
que a vida a não absorva nem a ponha turva
que o debate debite azeite por quem opte e lute

onde o efeito da aliteração, em vez de aliviar a carga do significado, porém a multiplica, a reforça, a intensifica, estabelecendo novas linhas de continuidade ou cumplicidades entre o autor e o leitor, a arte e o objectivo dela, a linguagem e a comunicação, as formas e os conteúdos, sempre renováveis a cada verso, a cada estrofe, a cada parágrafo, a cada nova interrogação que, afinal sempre outra a si mesma se repete. Porque é essa a essência fulcral da poesia de Ruy Belo: a insistente tentativa de responder à sempiterna pergunta "o que é o amor?"
"
que já há quatro séculos se entoa
hão-de rasgar a noite portuguesa
as raparigas de lisboa
e eu hei-de voar ao vento do momento
Dizias qualquer coisa? Esta manhã? Perfeitamente
"

5.07.2008

Sem Papas na Língua

Sem Papas na Língua
Beatriz Costa


Beatriz Costa privou com pessoas da estirpe de Aquilino Ribeiro, Almada Negreiros, Vieira da Silva e Arpad, Ribeirinho e Vasco Santana, Zélia Gatai e Jorge Amado, Cármen Miranda e demais etecoetras de igual nomeada, que para os citar a todos tornaria esta peça num grande pincel, tipo Páginas Amarelas do Jet Set intelectual da época. E viveu cada momento da sua carreira com entrega ímpar e profissionalismo extremo. Cortou amarras, rasgou fronteiras e estabeleceu novos horizontes para a representação, quer teatral, cinematográfica, como da revista à portuguesa, que é uma espécie de cozido com todos e todas as artes do espectáculo. Mas sobretudo, foi a mulher que assumiu a sua sexualidade sem preconceitos nem tabus, negando a hipocrisia da (in)fidelidade, do amor a horas e por contado, e se não deixou alguma vez usar pela ingenuidade das paixões. Enfim, fez há setenta anos o que hoje é comum e banal entre os rapazes e raparigas que se libertam das dependências sexistas, dos caminhos feitos por caridade, e preferem rasgar no solo comunitário o “Erasmos” dos seus próprios trilhos. E é precisamente esta a principal causa da sua representação aqui.
Com apenas 1,58 metros de altura foi uma das maiores mulheres do seu tempo, que não só em Portugal se souberam afirmar, e sem nunca descambar no facilitismo de conveniência, nem hipotecar a sua dignidade. De resposta pronta e acutilante sentido crítico, mordacidade saloia e humor frontal, cruzou as parangonas dos dois hemisférios com a mesma naturalidade com que comeu a fava-rica em Lisboa ou abraçou a paternidade mafrense (da Malveira). Esteve à beira de ser violada com cinco anos de idade e, aos nove, já sabia tudo sobre a vida, ou mais particularmente, de como ela se iniciava e o que era preciso fazer-se para detoná-la. Cursou na Sorbone e não pode tirar a carta de condução por não ter diploma comprovativo de como sabia ler e escrever. Nunca se deu – ou cedeu!... – à política, como também nunca pactuou com o poder. Foi chamada por Carmona e Salazar, e privou com Vargas. No entanto, jamais esqueceu a sua ascendência humilde e tudo quanto fez foi para reabilitar o seu povo. Principalmente quando o retratava nos seus quadros, o imitava e reflectia, no seu pitoresco e rusticidade, sem que alguma vez sequer os visados não se rissem com isso, não lhe repetissem a pilhéria, ou não lhe devotassem ainda mais admiração e ternura. Acarinhada como filha de pobre, nunca teve casa própria, vivendo sempre em hotéis e pensões, cujos serviçais tomou por família, e que a serviram com orgulho e esmero.
Se foi amargurada, ou lhe pesou o fardo em demasia, disso não saberemos, que aos que a prejudicaram perdoou, para os que a exploraram foi generosa, e para os que a traíram foi justa e sem mágoas ressequidas, que o que havia a dizer sempre o fez na hora e sem mandar recado por ninguém. Não foi como escritora que redigiu estas memórias – e confessa-o. Foi como pessoa que não quer incorrer no mais brutal dos pecados: o esquecimento. Esquecimento dos outros, esquecimento de si, esquecimento dos factos e esquecimento das ideias ou criações. Daí que ao lê-lo cada um de nós seja confrontado com uma surpreendente simplicidade narrativa, e de meter inveja a qualquer escritor. Sobretudo dos que aspiram a “falar” com o coração nas mãos e a caneta na alma, ou por alma. Cuja tinta é o sangue dos seus. Um relembrar para quem já leu, e um alvitre para os que ainda o não fizeram, recordando-lhes como estão dentro de tempo para o poderem fazer. É uma biografia alinhavada em crónicas, num jeito leve e temperado, popular, divertido – como aliás a sua autora, mulher de referência na vida e no espectáculo, grande na alma e enorme no talento. E essas estão sempre actuais, por que exemplares, também souberam crescer imprescindíveis.

5.03.2008

Herbert Read - A Filosofia da Arte Moderna





A Filosofia da Arte Moderna
Herbert Read
Título original: The Philosophy of Modern Art
Tradução de Maria José Miranda
1ª Edição: Londres, 1952
Editora Ulisseia


"(...) nos perguntamos pelo significado e natureza da existência. (...) Mas na liberdade da resposta está a poesia; a arte é a afirmação, a aceitação e a intensificação da vida." (Pagina 112, Ensaio V, Realismo e Abstracção na Arte Moderna)

As questões que se levantam à (filosofia da) arte, são hoje as mesmas que se levantavam em 1952, data da primeira edição do livro? Para onde caminha a arte moderna? Para a arte contemporânea. E muita da problemática envolvente nela, que a caracteriza e conforma, também transita, pois os seus principais problemas são comuns em ambas.
D
aqui, talvez, a justificação utilitária da leitura da presente obra. Isto é: na medida em que alguns problemas com que a arte moderna se confrontou (da ordem dos factores económicos e movimentos sociais; consequências das primeira e segunda Guerras Mundiais; o protectorado do Estado Mecenas e/ou a ausência dessa circunstância; a filosofia enquanto motivadora e destinatária da actividade criativa e artística; o problema da liberdade do artista perante o significado e natureza da existência; as correlações directas e indirectas entre as tipologias psicossomáticas e as correntes teórico-estéticas; etc.) são exactamente os mesmos e assumem uma correspondência imediata com os da arte contemporânea, embora esta se veja eivada de novos problemas derivados da variedade de suportes e veículos, como na sua estrita funcionalidade, utilidade e recursos técnicos, é igualmente premente e encontra-se em "elevada" actualidade um debate colectivo que insira a arte (pintura, escultura, literatura, fotografia, cinema, etc.) no discurso filosófico, não só para definição e enunciação das diferentes formas de beleza, ou de como ela se processa e manifesta, assuntos em que é prolífera a estética, nem pela confrontação e efeitos dos recursos técnicos disponíveis, campo convencional da crítica, mas sim no sentido de compreender dialecticamente como a evolução do pensamento reverteu a favor, ou a desfavor da arte, do conhecimento e da formação cívica, ou participação democrática e grau de cidadania, na medida em que detonou e disponibilizou novas teorias e conjecturas, conceitos e enquadramentos, a que os artistas recorreram como base de sustentação estrutural e semântica para as suas obras, e ainda recorrem, independentemente dos públicos alvo ou materiais que as suportem, as divulguem ou as elejam nos rankings nominativos para o primeiro quartel deste século (e milénio).
Por outro lado, a ideia que a "arte é o laboratório das filosofias", já na Era Moderna a arte usufruía de tal estatuto – aliás evidente, por exemplo, na aceitação do Freudismo no Cubismo e Surrealismo de Pablo Picasso, em pintura; ou nos Existencialismos, quer de Jean-Paul Sartre como no de Albert Camus, que foram sobejamente ensaiados e experimentados nos seus romances ou peças de teatro; ou os excessos de Marx e Hegel vislumbráveis nos Neo-Realismos português e europeu – por quanto a sua anuência popular derivava directamente do modo como participava na sociedade, nela era reconhecida, e se processava de acordo com os maquinismos de empatia-identificação-transferência comuns ao que hoje, grosso modo, é usual definir-se como parâmetros de funcionalidade e utilidade essenciais ao produto artístico.
Herbert Read executa, com propósito e conhecimento de causa, o salto exemplar de uma teoria da sensibilidade para uma teoria do conhecimento, através da interpretação e análise da arte, e consequente descodificação semiótica, o que, por analogia, se estende às naturezas ambientais e humanas, arqueologias profundas da sociedade da comunicação, para cimentar, recorrendo ao cariz antológico dos ensaios críticos subjectivos sobre estética (Estética – século XVIII, Baumgarten, 1750, fundamentada nos alicerces etimológicos aisthanesthai, perceber pelos sentidos, aisthètikos, que é dotado de sensibilidade, e aisthesis, sensação ou sensibilidade, que teve por objectivos e objecto a identificação das motivações, a avaliação, a análise, a descrição e interpretação das reacções particulares, como do grau de satisfação e gozo provocados pela percepção imediata mas total dos objectos naturais ou artificiais apreendidos como signos desligados, logo distantes e separados do mundo de consumo e/ou isolados do seu eventual valor de uso), que abarcam no seu todo temas díspares e contraditórios como Realismo e Abstracção, Surrealismo e Romantismo, Simbolismo e Expressionismo (5º e 6º Ensaios) e ensaios biográficos, opiniosos, em que escamoteia a relação criador-obra, pondo ênfase em exemplos dessas mesmas correntes (7º Ensaio, sobrePaul Gaugin; 8º Ensaio, sobre Pablo Picasso, de quem é a gravura de capa, na edição portuguesa; 9º Ensaio, Paul Klee; 10º Ensaio, Paul Nash; 11º Ensaio, Henry Moore; e 12º Ensaio, Bem Nicholson), para nos elucidar que considera a filosofia, não como uma atitude de resignação serena face aos caminhos da existência, mas sim um saber racional (tácito, explícito e sistemático) radical, que incide sobre a totalidade do real e dá deste uma explicação última. Espécie de ferramenta de socialização e participação activa nas sociedades. E da sociedade.
Tal como o autor afirma no prefácio, o método adoptado "pode chamar-se de filosófico porque é a afirmação de um juízo de valor", logo uma estética ilustrativa da ética, e ainda porque a abordagem em termos de realização de contrários, posto que "em dialética a tese e antítese são factos objectivos, e a necessidade de solução ou síntese vem da existência de uma contradição real (página 123, 6º Ensaio), de que resultam fórmulas de acutilância bastante abrangentes, lúcidas e enunciativas como Realismo x Abstracção = Surrealismo (Ensaio V), ou Romantismo x Classicismo = Surrealismo Humanista (Ensaio VI), matematicamente capazes de nos proporcionar compreender as divergências e convergências comuns entre esses três modelos típicos de ordem, proporção, simetria, equilíbrio e harmonia, que caracterizam a unidade artística, por oposição à unidade boçal dos objectos (ou produtos) não artísticos de relativo valor de consumo e uso.
O termo Moderno, que designa de modo assaz peculiar, uma sociedade cujas cultura e civilização são dominadas pelo saber e pela ideologia científica, em óbvia ruptura com o sistema de pensamento mítico dos povos primitivos e tradicionais, implica transformações profundas aos níveis técnico-económico, estrutural e político, que rasgam e dilaceram os padrões ideais. Sempre relativa, mesmo quando é determinante, a modernidade não exclui a primitividade, mas apenas tenta discipliná-la com resultados diversos e consoantes ao momento histórico, pois os níveis estéticos acordam perante os sectores das sociedades modernizadas, num esforço de aptidão por inadaptação, como foi o caso de Paul Gaugin, que sendo alguém da Era Moderna alcançou a modernidade pela revolta contra a civilização modernista, partindo para o Pacífico, para o calor e cor exuberantes, para a inocência e ingenuidade do exotismo, de cuja oposição a sua obra é a síntese óbvia e evidente, exemplo nítido de quem substituiu o amor de Deus pelo amor da Beleza, numa entrega total e missionária à arte, despojando-se assim de tudo quanto lhe era alheio, como as condicionantes familiares, económicas, religiosas e consumistas, que poderiam sustentá-la (ou absorvê-la).
Estávamos, então, na era "da arte pela arte"? E da ciência pela arte? E da filosofia pela arte? Ainda estamos. Como dizia Pablo Picasso (Ensaio VIII), "todos sabemos que a arte não é verdade", "é uma ficção que nos permite reconhecer a verdade – pelo menos a verdade como se apresenta à nossa compreensão." E isso comportou a inteireza da subjectividade relativamente acentuada da arte moderna: conforme o artista entendia o mundo, e a vida, assim os representava. Apetrechado de todos os conhecimentos teóricos e científicos da primeira metade do século passado, como bagagem de recurso, enfrentava a vida e extraía dela a sua sobrevivência, bem como a sua maneira muito peculiar de a redefinir. Simbolismo, cubismo, surrealismo, naturalismo, integralismo, expressionismo, impressionismo, neo-realismo, foram tão-só alguns exemplos dessa maneira de representação e dessa visão da vida, digamos filosofia, que por tantos outros personagens e interpretes dela se realizou, e nelas se acorrentaram, dos quais Paul Gaugin, Pablo Picasso, Paul Klee, Paul Nash, Henry Moore, Bem Nicholson, etc., foram expoentes radicais de execução, mas não os únicos praticantes. Uma arte sem maniqueismos, ou para além dos moralismos abjectos dos conceitos de bem e de mal, de certo e errado, feio e bonito, desejável e indesejável, útil e inútil, que apenas tinha por cenário testemunho dessa luta entre a vida e a morte da natureza, em toda a sua pujança primordial, a sua força impulsiva na necessidade de eclosão, sob os eixos dicotómicos do realismo/abstracção e surrealismo/romantismo, em exemplo do que então a sociedade era: uma autêntica confrontação entre a produção e o consumo. Entre o socialismo e o capitalismo. Entre materialismo e idealismo. Enfim, entre colectivismo e individualismo. E que na arte encontrava a sua síntese.
Em resumo: a arte moderna foi a antecipação, no tempo e modo, da sociedade de comunicação contemporânea. Quando a colisão entre os interesses essenciais entre a sociedade de produção e a sociedade de consumo se deram, esta confrontação antiética gerou uma nova maneira de assimilar as suas incompatibilidades: a arte, dita moderna, um meio termo entre o design industrial e o artesanato primitivo e secular, que os ultrapassava e suplantava graças à bagagem cognitiva e científica disponível, restos e vanguardas dessas sociedades. Uma espécie de loucura, mas uma loucura que se confirmou sã. Como onírica mas estabilizadora, de recompensa para o stress da competitividade múltipla (e colectiva). E, a não ser assim, como compreender o arrebatamento e êxtase face ao absurdo sortilégio transmitido frente a quadros de Dali, Picasso ou Klee? Ou a uma escultura de Henry Moore?
Todavia, Herbert Read, no conjunto dos textos, na generalidade dos capítulos, manifesta um ecletismo sintético bastante tendencioso, provavelmente como resultado da sua origem e formação inglesas, esquecendo, quiçá propositadamente, a herança renascentista dos abstracionistas, nomeadamente do dualismo platónico, de cuja representação o cubismo, integralismo e construtivismo são os mais radicais e puristas de todos os ismos da modernidade, pois que aquilo que visavam representar nos seus trabalhos – e disse bem, trabalhos, não me enganei, porque nenhuma obra de arte, embora algumas delas tenham sido feitas com muito prazer, é feita sem ele, e exige sacrificado trabalho para ser realizada –, era a sofisticada abstracção ao mundo sensível, aquele habitado por sombras deformadas da realidade profunda, dando-nos sugestões visuais subjectivas do mundo ideal, das formas puras precisas, puras essenciais, da geometria perfeita que cada coisa encerra pelo tapado exterior (dos sentidos) do seu estado bruto, enfim, os círculos, as esferas, os triângulos, os cubos, os cilindros, os quadrados, que mais não são do que as essências dos rostos, das colunas, das casas, das mesas, dos altares, dos frutos, das árvores, dos pratos, das bicicletas, das mulheres, dos animais, dos mitos, etc., numa panóplia infinita; ecletismo disciplinar esse, tão desenraizado da técnica, que melhor se prende aos efeitos do que às causas, obriga a entender mais a arte como fruto e resultado das características da sociedade, reiterando o que já havia afirmado em 1945, no seu livro Arte e Sociedade (Art and Society, Londres, 1945, Faber & Faber), do que da imperiosidade humana directa de moldar o mundo, estruturar a realidade conforme lhe é ditada – ao homem (sapiens) criador – pela sua necessidade de emitir uma mensagem, não uma qualquer e sim precisamente aquela, quase obsessiva, mas inevitavelmente um de dentro para fora pessoalíssimo que caracteriza o universo imagético dos mais diversos artistas. O que faz dele, no fundo, também um filósofo modernista, uma vez que está vocacionado, motivado, para apresentar uma visão da totalidade real fundamentada em "colagens" das diferentes disciplinas sociais e humanas da época, nomeadamente sociologia, antropologia, semiótica, literatura, economia, fisiologia, política, artes plásticas, por exemplo, e sem, com especificidade, em nenhuma delas se basear profundamente para analisar o produto artístico, detendo-se sobremaneira na sua interpretação.

















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