La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

8.18.2016

E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA?




E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA? 

Se “a lei pune os funcionários públicos e os titulares de cargos políticos, que, no exercício das suas funções ou por causa delas, solicitarem ou aceitarem, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhes seja devida” (conforme afirma NARCISO MACHADO, juiz desembargador jubilado, no artigo de opinião A lei e ética como limites da acção política, constante do jornal Público nº 9620, do XXVII ano, de 18 de Agosto de 2016), então é, no mínimo, absurdo que ao abrigo dos usos e costumes tal não aconteça, em Portugal, com a regularidade e frequência necessárias e suficientes para sairmos dos lugares cimeiros do ranking dos países mais corruptos da Europa. Principalmente porque a “autorização legisladora” nacional, de acordo com a ordem (constitucional) vigente recai e está centrada na Assembleia da República e no Governo, o que indicia, consequentemente, que foram os políticos, instituições e altos funcionários do Estado, no exercício democrático de que estavam imbuídos, que legislaram para os poderes executivos, igualmente democráticos, e em usufruto de um direito que lhes foi outorgado/consagrado, aplicarem na prática da governancia, quer institucional, quer governativa.  

Ou seja, em abono da verdade, ou à luz da sensatez, consciência cívica e ética de um Estado de Direito, que aconselha que sejam exatamente os políticos e funcionários públicos os primeiros a cumprir as leis, não somente para não perderem a autoridade moral que lhes concede o direito (merecido) de as imporem aos demais, mas também para emitirem um sinal de transparência e honestidade democrática aos paisanos do establishment, sociedade civil e tecido económico/empresarial, fazendo a pedagogia do exemplo, eis que são incontornavelmente estes a fugir à lei, a fintar a justiça, a ludibriar as intenções do legislador, fazendo da ordem jurídica letra morta. 

O caso voltou a ser verificável hoje, na proposta administrativa governamental para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), em que das 19 personalidades que a integravam, só 11 foram aceitadas pela entidade reguladora para o fim em causa, o Banco Central Europeu (BCE), ou, mais rigorosamente 10,5 – uma vez que o próprio presidente da CGD se encontra em estado de exceção, acumulando à presidência do Conselho Administrativo da Caixa também a presidência da Comissão Executiva da mesma CGD, o que nos sugere haver já em ascensão uma nova estirpe de “donos disto tudo”. Digamos que tivemos sorte desta vez, porquanto fomos obrigados a cumprir a nossa lei, não porque fosse vontade expressa dos responsáveis nacionais, mas porque a Europa tutela neste capítulo da área financeira, o que nos deixa com a pulga atrás da orelha, pois se não fosse o BCE a interpretar e aplicar a lei, certamente esta seria cilindrada pelos célebres usos e costumes da tradição do, não obstante ela, a lei, “na terra do bom viver, faz-se como se vê fazer”, filosofia nascida do igualmente tradicional “uma das mãos lava a outra, e com as duas lava-se a cara”, e da cumplicidade pacóvia do “tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei”, tão ao gosto dos brexistas à portuguesa. 

É caso para dizermos que, felizmente, ainda vivemos em democracia e ainda integramos a UE – União Europeia… Que remédio! 

Joaquim Castanho

8.04.2016

ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO




ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO… 
Aguarelas de poesia e Encontro de poetas 2015/16
Coletânea – Edição de Autor

“Que tenho sereias que se despem de peixe
 Assim, na exata latitude de teu ser…”
In Joaquim Castanho
IÇADO (OURIÇO) DO MAR 
(Página 106)

Da explícita (ou implícita) simbiose que há entre a pintura e a poesia, nasceu um projeto que se configurou numa sequência de ações, eventos ou exposições, e que, finalmente, sob a coordenação de David Marques, revisão gráfica de Teresa Carvalho e patrocínio direto da Câmara Municipal de Torres Vedras e Junta de Freguesia Santa Maria, São Pedro e Matacães, se traduziu na edição de um livro de 298 páginas onde se reúnem e integram as colaborações a propósito de cerca de meia centena de poetas, dez pintores e algumas outras participações avulso, cujo resultado global é valorativamente superior à soma das partes, não só pelo seu contributo para a cultura do lugar, como também para a poesia, a língua portuguesa, a palavra escrita ou dita enquanto veículo de valores identitários e filosóficos, instrumento de marketing territorial, expoente de criatividade e estesia, ou elo de ligação entre gentes, localidades e regiões. 

Estruturado em VII Capítulos (Resumo biográfico dos poetas, Resumo biográfico dos pintores Aguarelas poéticas, O olhar interpretativo/poético sobre Aguarelas do Encontro Internacional de Aguarelistas 2015 – Santa Cruz, Olhar poético sobre o Município de Torres Vedras, Tema livre – De asas ao vento, Avaliação poética do Encontro de Poetas e O olhar interpretativo/poético sobre a Exposição “Aguarelas com Poesia”, de 19 de março a 2 de abril de 2016, integrada no Encontro de Poetas), tem o grande mérito de trazer para a ribalta do momento alguns poetas e algumas poetisas já nossos conhecidos, como igualmente muitos outros de que dificilmente ouviríamos falar ou, mais grave ainda, desconheceríamos o poetar, não fora esta oportunidade, como o são Abílio Manuel Carreira Santos, Ana Matias, Ana Rosa Pinto, António Alberto Teixeira Santos (Alberto Cuddel), António José Rebocho Arranhado Portela, António Manuel Esteves Henriques, António Matos Lopes Belo, Augusto Manuel Molarinho Andrade, Áurea Maria Justo, Carla Tavares, Carlos Cardoso Luís, Carlos Manuel Fernandes, David António Fonseca Marques, Elisa Pereira, Emanuel Lomelino, Florinda Timóteo Miguel Dias, Francisco de Assis Machado da Cunha (Frassino Machado), Hélder Neto, Helena Rocha Pereira, Joaquim Maria Castanho, Joaquim Ramos Pereira, Jorge Paulino-Pereira, José Alves Merello, José António Carreira Santos, José António de Jesus Gomes Adriano, José Vicente Faria, Liska Azevedo, Lucília Maria Barros Galhardo de Carvalho, Manuel Filipe Carvalho de Almeida, Maria Aline Mamede Rocha, Maria da Conceição Marques, Maria do Pilar Santos, Maria do Sameiro Matos, Maria Emília Lopes, Maria Graça Melo, Maria João Pedro, Maria Manuela Reis Frade, Maria Sousa, Marta Roml, Nicol Carmen Peceli, Olívia Maria de Andrade Guapo Ribeiro Faria, Renato Manuel Valadeiro, Rosa Martins e Vítor-Luís Grilo. Enfim, uma longa lista que corresponde a outros tantos poemas feitos com balizas determinadas e sob inspiração particular que, de uma forma ou de outra, nuns mais acentuadamente que noutros, se vão pouco a pouco libertando dos pomos pontuais motivadores para ingressar na esfera dos universais valorativos.  

Joaquim Maria Castanho 

4.06.2016

POUSO, de MARILU FAGUNDES




POUSO

"Entranhas da terra mãe / Abraçadas às filhas com afinco", as palavras/os signos e os seus referentes, concorrem para a preterição final: dizer através da negação do dito, revelando-lhe o avesso, as costuras. Não é fragilidade alguma, não é uma confidência ou lamento, não é uma carência de inspiração, não é um faz de conta, não é um truque de prestidigitação, não é uma afetação de estilo, não é um maneirismo palimpsestuoso: é a exposição (assumida) do timbre lúdico e mágico da poesia, essa pretensa coisa abstrata que apenas acontece quando a condição material sine qua non se concretiza, se mostra nas suas múltiplas facetas, particularidades que preenchem o vazio que lhes está reservado no cantinho estético-ético pluriforme e polissémico, que é apanágio instaurado e instituído no topo da pauta de valores, caraterísticas e potencialidades da espécie humana (a espiritualidade), da qual cada, uma ou um de nós, é humilde exemplar, sobretudo por que sensíveis ao reconhecimento do espanto, da dúvida e da comoção (JASPERS). 

A preterição (figura de retórica pela qual se declara não dizer, não fazer, não demonstrar/mostrar algo, mas que a própria declaração já encerra em si mesma), é uma arma que nunca é vã ou abusiva; é um anseio feito conquista. É um silêncio que se nota só quando é quebrado, por algo que estala, por exemplo, que cai, que pintalga, que eclode, que ecoa. É o traço meigo de cada passo a sublinhar o movimento no estático e parado espaço. 

Portanto, Marilu Gonçalves Fagundes (MF), entra na casa da poesia pela porta dos fundos (a folha branca), perante o espanto ao testemunhar o pouso das folhas e pétalas que sucumbiram aos elementos da natureza, microcosmos e reduções moleculares das estações do ano que buscam o abrigo do chão, a quietude, o refúgio final que as há de transformar pelo abraço maternal da fertilidade em partes íntimas (entranhas) da terra mãe, da qual se ergueram uma vez já à procura dos sublimes e etéreos cumes. Entra com muitas reticências, com estrofes pejadas de dúvidas, experiências que não se acomodaram às afirmadas e perentórias certezas, ou que não se satisfazem com a pré-interpretação do constado, do constatado, seja cheiro ou sabor, tato ou emoção. Porquê? Porque entra comovida com o que vê, com o arrastar do dia (ou da vida), com a compreensão (sorriso de mãe-terra quando repara nas ações dos filhos e filhas) das peripécias das estações nele, e de como o vão colorindo conforme a apetência elementar da ecosfera. E fá-lo por nós, para nos dizer que não é insensato ou indecoroso frequentar a beleza suprema (da poesia, do sublime, do ideal, do mágico arrebatamento, do êxtase) pela porta da experiência, da perceção, do material, da constatação pura e dura, do factual e reconhecido (fora de nós). Além de nós. Enfim, da metáfora... palavra, folha, flor, que nos atira para fora e a nós regressa depois num valor acrescentado insofismável, ilógico, que inebria (embriaga) inevitavelmente. Obrigado, minha amiga, pela compartilha dessa emoção e sentimento superior a que maeuticamente me conduziu (também). Ou por me ter feito perder o pé... Cair... Pousar... E ainda que não tenha feito sido declaradamente essa a sua intenção... _/|\_ Namastê _/|\_     
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4.05.2016

FEIXE HELICOIDAL



FEIXE HELICOIDAL 

Considero infinitos os voos... 
Não há céu que os segure, limite. 
Apenas porque nascem de teus olhos
E da magia que o sorriso transmite. 

Nada receio; nenhuma espera cansa. 
Que ver-te não é fim ou sequer meio, 
Mas entretecer vida numa trança. 

Joaquim Castanho 

4.04.2016

ETERNA, poema de MARILU FAGUNDES




A ETERNA VIA

A poesia é eterna; porém, composta. Múltipla. Versátil. Plural e reincidente. Trajeto radical entre a infelicidade suprema e a máxima perfeição.  

Por conseguinte, e por isso mesmo, só sobreviverá em plena autenticidade e evidência incontestável, não raras vezes recorrendo a parcerias com as demais artes para conseguir a visibilidade que lhe é essencial – a música, o teatro, a pintura, a prosa, a fotografia, o cinema, a paisagística, a arquitetura, a decoração urbana, o design, etc. –, para existir continuamente no agora, pelo que os poetas e poetisas e seus respetivos poemas (concretos, materiais), tendem a reconhecer-lhe a soberania e, humildes e dedicados, se resumem a meros acompanhantes, veículos, discípulos, de sua ordenada magistralidade, competência e estatuto. Simples partes elementares de um todo, relativamente essenciais, é claro, e que dele comungam com idêntica relatividade, estabelecendo essa cumplicidade relativa que assiste aos namoros de longa data, e em que os membros do par apenas parecem espontâneos quando vão de mãos dadas, posto que se separados ninguém os reconhece por si, ou só como «namorado de fulana» ou «namorada de fulano», pelo função e objeto ou vice-versa, idílio irrevogável em que nem sempre as famílias de ambas as partes estão de acordo, quais "capuletos e montesquios", seja pelos credos e correntes que professam, seja pelos pergaminhos ancestrais sob que advogam. Principalmente porque nela nunca houve, não há, nem haverá qualquer neutralidade; somente conexão – ou dos sentidos, ideias, ideais, sentimentos, emoções, formas, formatos e técnicas que se ligam a outros (diferentemente ou similarmente) que por sua vez a outros se vão ligar, e estes aos seguintes, numa cadeia de sucessivas uniões onde fortalecem os traços distintivos, rumo à conjugação infinita (e perfeita), ou de espécimes que se enfileiram numa determinada linha e atravessam tempos diversos servindo de elos dum enredo (encadeado) de susbstancial importância história e estética.

O seu teor diz o verbo, mas também o faz; no que se concretiza tão revolucionária como normalizadora, tão legisladora quanto julgadora, tão agente e operadora, como disseminadora e propagandista, conforme se socorre de versos ou de slogans. Construtos ou fragmentos. Se nessa trajetória ou percurso existencial, caminha de mãos dadas com o poeta/a poetisa congeminando construtos, em pura abstração, cavaqueira, confidência, má-língua motivacional (profetismo), bisbilhotice íntima, assiste ao fenecer (expirar de validade, prazo de duração) de sua companhia sem a mínima comoção ou objeção e contrariedade; mas se, pelo contrário, preenchem o espaço-quando do percurso comum com detalhados reparos para diante como para trás, como para os lado, para cima ou para baixo, notando e anotando preciosidades, pedrinhas, perfumes, borboletas (almas), partículas processuais e discursivas, floreados e acessórios (de cosmética) para teorias e projetos (globais, sociais, ideais, empresariais, familiares, individuais), então não passam de fragmentos, painéis, peças de um puzzle maior. Marilu Gonçalves Fagundes (MF), porém tem a subtileza de servir a poesia exatamente entre os dois modelos semânticos, e equidistante caminha sem atender ao "tempo ou hora", "flores, céu e sol" "de mãos dadas" com a poesia, confidenciando-lhe suas "dores" e "pensamentos", "tempestades" e "sonhos", num sublime choro de adeus, despedindo-se da magia do presente em pequenas missivas, bilhetes, lembranças de mútua aventura e caminhada, que lhe oferece, como pedaços de si própria. Neles irá sempre (e factualmente) também ela... Não são rosas nem milagres o que oferece, mas poemas... E assim, quando um dia já não puder caminhar a seu lado, e a poesia prosseguir seu rumo via à eternidade absoluta, se Ela, A Poesia, conceder o palimpsesto de renovar-se noutros agoras, aí a poetisa, juntamente com a pessoa e arte que cultiva e cultivou continuará a viver. Mas não para prazer próprio, tal como hoje o já faz, mas para deleite de todas e todos nós que a lemos e apreciamos, em consequência de suas partilhas. Obrigado, minha amiga _/|\_ Namastê _/|\_                         
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3.29.2016

VOO ININTERRUPTO, a propósito de poema de MARILU FAGUNDES




VOO ININTERRUPTO 

Com a frugalidade estoica dos momentos heroicos, Marilu Gonçalves Fagundes (MF) compartilhou connosco um poema completo, de apenas dois versos, é certo, mas que nunca poderá ser considerado um epitáfio, que seria um fragmento hiperbolizado de qualquer existência que atingira o definitivo termo, numa sinédoque em trânsito, ou pleno voo, de quem dá voz a uma pena, não a da dor, não a do fado, não a do lamento, não a do naufrágio, não a da compaixão, não a da culpa e do remorso, não a do choro carpideiro, mas a pluma branca e imaculada da escrita, e que, despegada, solta, exilada e carecendo de vida e significados próprios, visíveis, efetivos, eficazes, determinados e suficientes, é, todavia, além de parte elementar de um todo, seja ele corpo, ave, organismo, instituição, clã, tribo, grémio, sociedade, povo, estandarte, símbolo, voz, de gente mas, também, quiçá de rua, bairro, clube, distrito, cidade, município, região, geração, arquipélago, nação, continente, globo, constelação, galáxia, ou tão-só unidade de expressão, título de representação ou porta-voz de dialeto, língua, género literário e sigla de teoria existencial, a que não satisfaz a simples exposição da ideia, do enunciado poético, ou da sentença estético-moral, e antes nos interroga... Viver é pertencer a um todo, querer o que ele quer, amar como e quando ele ama, em que pugnar, pelejar, criar, voar, por ele, é igualmente fazê-lo por si mesmo, ou por si mesma, pena sendo. 

Enquanto fiz parte de um organismo vivo, vivi; logo, cumpri a função inerente à minha natureza – amei. Estive acoplada e fui sangue do mesmo sangue, aqueci, elevei, revesti, abracei, cuidei e oxigenei quem disso dependia para seguir em frente em suas travessias e aventuras; depois, desligada da tutela de meu ser, solta por qualquer motivo, e em queda pelo firmamento azul, voando suspensa pelo paraquedas formado por dois versos, praticando asa delta ou parapent, nada mais me resta do que ser metáfora, coisa que significa algo que está fora de si, que a expande ou restringe, conforme os universos que cruza, os buracos negros em que se afunda ou os ideais a que se eleva. Na melhor das hipóteses, outra ave, com voo e existência mais rasteira, me tomará no bico para atapetar o seu ninho, ou aterrarei num canto de jardim onde uma criança me pegará para ser parte do diadema que está a fazer, ou me afiará em bico para escrever num pergaminho intemporal, ou sua mãe me molhará em mercurocromo para lhe pintalgar os arranhões; mas, seja como for, aconteça o que acontecer, serei instante em movimento perene, ininterrupto, cuja prova prima facie, não fora a poesia, o arquétipo, o símbolo, a imagem, o ícone, teria o irremediável desfecho das folhas inanimadas que somente regressam à vida depois de se terem transformado em húmus. 

Porque a poesia suspende o momento. É o seu detalhe, o pormenor, a fatia cristalizada, que o traduzirá para a língua de cada qual que intente olhá-lo, vê-lo, percebê-lo, identificar-se nele (no original ou sob tradução que, literalmente, significa traição). Mas sejamos francos: essa pluma, esse ser branco a pairar, a vogar, no azul do cosmos alguma vez tocará o solo? Hummm... Creio que Ícaro (e Zenão) anda por perto... E ela, tão abruptamente quieta, deve estar a esperá-lo, tal e qual a poesia, que mantém os sonhos da humanidade a sobrevoar céus e oceanos...  Sempre a cair, mas sem nunca aterrarem, perderem sua natureza astral e humana.
Obrigado por no-lo lembrar desta ímpar forma, minha amiga _/|\_ Namastê _/|\_  
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3.28.2016

O FIO DE MARILU, acerca de um poema de Marilu Fagundes




O FIO DE MARILU 

As pessoas pensam para encontrar soluções – seguem o fio do pensamento, como soe dizer-se... – plausíveis, de resolução satisfatória e propiciadora de estabilidade para a agitação (expetativa) ou tédio (ausência de expetativa) das águas em que navegam, desde que seja líquido e racional (transparente e objetivo) o meio filosófico-social a que foram acomodadas, pelo que lançam âncoras que as escorem ao presente, as abasteçam de passado e lhe incutam esperança no futuro, mas, principalmente, lhe preencham o imaginário, que é um tempo ao mesmo tempo dentro e fora do tempo, sem princípio nem fim, ainda que recheado de fins e princípios (valores), participante e interessado por quota-parte, ações e juros no presente, passado e futuro de cada vivente, irremediavelmente alicerçado por absurdos e abstrações, possuindo todavia direito de manipulação justificado pela teoria de vida do indivíduo, das linhas de comando existencial dos seres humanos, suportadas nos ideais que estes últimos teceram – e com os quais entreteceram – a primeira, isto é, a sua teoria de vida, que, felizmente ou infelizmente, quem sabe!, é a única coisa mais importante que a própria vida para cada ser vivo, independentemente do grau de qualidade e duração que desse todo eterno lhe caiba como parcela. E fazem-no com alma toda e inteira, uma vez que há coisas que não dá para fazermos pela metade, que ou fazemos em entrega total ou é o mesmo que se não as fizéssemos, pois que se intentamos de outro modo nunca observaremos qualquer resultado ou satisfação, conhecimento ou vivência e, ainda que empenhadamente, com afinco e abnegação o façamos, as mais das vezes nada alcançamos do almejado ou tão-só atingimos coisas adversas e diversas daquelas que foram o escopo de nosso pensamento.

Escrever é falar, é pensar por imagens (gráficas). Grafemas (unidades mínimas, não suscetíveis de divisão, de um sistema de signos ou alfabeto) e fonemas (unidades mínimas de som articulável) unem-se formando noemas (ideias, figuras que dão a entender serem outra coisa para além daquela que na realidade são) com sentido (sememas, ou compostos de semas, que por sua vez são elementos conceituais mínimos, microestruturas de conteúdo decifrável, em semântica, com traços distintivos comparáveis aos fonemas) literário, ou seja, que se desviam da sua compreensão habitual e corrente, literal e ordinária, ingressando assim em classes genéricas mais latas como a literatura (o teatro, o ensaio, a prosa e a poesia), ou a ciência, a filosofia, a arte, a religião, a comunicação, etc. 

Portanto, Marilu Gonçalves Fagundes (MF), ao leme deste barco escrito, embora não descrito, é mais do que ela. É um coração pulsante, o da língua lusobrasileira, teimoso e que nunca aprendeu com as experiências por que passou, sobretudo as falhadas, as tropelias, os trambolhões, as desventuras, as desilusões, vagueações sem rumo, a ficar quedo e sossegado, mas insiste em voltar a sofrer, a bater, a viajar nos poemas elegendo-os tanto seu mal (perdição) como supremo bem, batendo as asas freneticamente como um minúsculo beija-flor (colibri) ante a sua beleza, animando, ativando e impondo seu ritmo de dicção na fertilização da alma, cuja morada humana é justamente – mas não só – o peito. 

E para quê? Para atravessar a tempestade e o sol a pino, rumo à imensidão do alto mar, à intensa plenitude das águas e da vida, onde se possa abastecer desse fio sútil e delicado, sensível e mágico, que lhe permita sair de todos os labirintos e inspirações, máquinas de percurso, armadilhas existenciais, exercícios de libertação, buracos negros, eclipses de alma, assim como oferecê-lo àqueles que ama e se encontrem perante difíceis, senão impossíveis empreitadas, como se encontrava Teseu quando Ariadne lhe deu o novelo de fio com o qual pôde, depois de matar o Minotauro, buscar com êxito a saída do labirinto em que se metera. Obrigado, minha amiga, por ter feito e partilhado este poema no alto mar do universo webiano, porquanto também eu, depois de o ter lido e apreciado, fiquei mais apto a regressar dos enleados silvados da interpretação em que me vou metendo de quando em quando... _/|\_ Namastê _/|\_                  
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3.26.2016

MÍSTICA, de MARILU FAGUNDES




MÍSTICA 

Olhar para cima, sobretudo de noite, que é quando se vê melhor nessa direção do que em qualquer outra, sempre foi um acelerador da vontade de conhecimento em homens e mulheres, desde os primórdios da humanidade – senão antes. E desse aspirar mais alto, nesse buscar infinitos, vimo-la... 

E "ela", a que ora contemplamos, é precisamente a mesma lua que há dez milénios atrás, pelo menos!, outros homens e mulheres em simultâneo com outros milhares de homens e mulheres, espalhados pelas mais diferentes regiões do globo, quiçá do interior de suas cavernas, o que faz dela o mais antigo monumento da Terra e indesmentível peça do património cultural do mundo, tal como se nos depara atualmente e a História do ocidente advoga, a do oriente corrobora, a do norte não enjeita e a do sul subscreve. Gerações e impérios tiveram-na como princípio fundamental. E da sua observação nasceu o primeiro calendário credível, consensual e estatuído para além das esferas microssociais – de que ainda restam os dias da semana, o sistema de contagem hexagonal, os 13 meses lunares de 28 dias, exceto um que era de 29, o sistema do zodíaco, que tinha 13 signos, e do qual só um se perdeu atualmente, o signo de Ofiúcio. O seu esplendor iluminou travessias, caçadas, conquistas, orgias, celebrações, rituais, fugas, florestas, mares e amantes. Inspirou artes, ciências, religiões, economias, golpes de Estado, eventos desportivos, festivais (de música, folclore, dionisíacos, gastronómicos e panegíricos). Sofreu eclipses, desconfianças, excomunhões, invasões e maledicências. Deliciou homens e mulheres, velhos e velhas, adolescentes e crianças. E arrebatou, aprisionou, enfeitiçou alquimistas, poetas e poetisas. 

Talvez por isso, quando ontem "ela" desfilou na passerelle celestial destilando poesia e luz platinada de seus adereços, qualquer intenção de descrevê-la, desvendá-la, desnudá-la, fosse um gesto demasiado pecaminoso, até para quem de olhar inocente e sagrada reserva a contemplasse. Lhe assistisse passo a passo à sua iluminada dança sobre as águas da feminilidade eterna. E, sem dúvida, que o seria... Portanto, Marilu Gonçalves Fagundes (MF), tal como uma borboleta faz ao aflorar cada flor para depois a abandonar deixando-a tão intocada, tão imaculada e tão maravilhosa quanto antes era, ou o sábio passeia pela aldeia, apenas lhe respirou os detalhes. Posto que um só, por mais ínfimo e sútil que seja, já é ousadia indescritível e indizível capaz de fazer corar o aedo menos ingénuo. E foi essa compunção, essa reverência, respeito, devoção, que MF partilhou connosco... E fê-lo magistralmente!              

Obrigado _/|\_ 

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CULTIVAR A VISÃO, a propósito de um poema de MARILU FAGUNDES




CULTIVAR A VISÃO...  

"Amo tudo o que vejo" enuncia (e decreta fundamentalmente) a poetisa, logo à partida, de forma inequívoca. Marilu Fagundes (MF) diz-nos que ama tudo o que vê, e não que vê tudo o que ama, que, por sinal, até pode ser visto "mesmo [que] distante e imprevisto". Ela não tolera, não integra; ela inclui o que vê no seu universo de afetos. Ver é compreender, é amar. É entender por que uma coisa é uma coisa e não outra coisa qualquer. Compreender os filhos porque se amam, reconhecer algo porque se aprecia, identificar na multidão alguém de quem se gosta, é circunstância viável para os demais seres vivos, e temos exemplos ilustrativos disso em todos os reinos e espécies, havendo até animais que são capazes de matar ou de morrer para defender os que amam, nomeadamente os seus pares ou crias, justificando-lhes assim a existência e a importância (material ou imaterial) que lhe concedem. Assimilar, "transformar-se o amador na cousa amada" (Camões), cumprir, realizar, o conhecimento dela fazendo-a interior a si próprio, é experiência frequente e acessível a estádios mentais pré-formais, como o da criança numa fase egocêntrica nos primeiros anos de sua vida. Ver, identificar, selecionar isto e aquilo porque se está ligado afetivamente a isso, porque se gosta disso, é discriminar positivamente; mas MF não discrimina, inclui o que vê; identifica, corporiza, concretiza, ama – gosta. Parte de si para a coisa, para o outro, para o elemento da natureza, vendo-o; logo, caminhando ao seu encontro. Reconhecendo-lhe importância, revelando-o. 

A diferença é nítida, é evidente. A poetisa não faz gracinha, não ilude, não exige que as palavras sejam outra coisa que não elas mesmas, não as amputa de seus referentes, não propagandeia, não escreve como se fosse, não faz género, não evangeliza, não persuade, nem advoga; não: entra (até) pelo imprevisto, (como) pelo natural, e concretiza-os na sua plenitude elementar – o sol, o vento, a maresia, o luar. Concretiza-os até ao abstrato; até a suavidade, até o mistério, até o silêncio, até a saudade, tornando-os ímpares, particulares, próprios e imediatos na areia, nas águas do mar, na fala, no teu olhar. Porque são eles a baliza, a moldura, os estritos limites de ampliação, para essa paisagem tão próxima, tão a ver-se, tanto, tanto, que também nos é comum, como o céu infinito, a vastidão do mar, os assobios do vento, a aspiração universal da harmonia – a paz.        

Então, ver é amar; é semente. E poderia ser de outro modo, se é o único olhar que planta futuros? E que caminha fazendo caminhos novos? Ver é o único caminho que abre sendas para o espírito, sim... voos! Vertigens. Incluindo a de abraçar, abarcar, ver. Amar.

Obrigado minha amiga, por esta visão – (rana, em tupi). Por esta saga que flana vaporosa enquanto nos desbrava o chão in... culto (da poesia).
  
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FLORES, por MARILU FAGUNDES




FLORES 

Nascer, crescer, procriar e morrer, são as quatro linhas de contínuo para o entrançado DNA da vida, cuja trajetória mais lhe pertence do que a cada espécie de seres vivos que, grosso modo, mais não são do que outras tantas estratégias que ela, a vida, gizou para se tornar eterna, ainda que simples e natural. Cada espécie tem o seu tempo e modo próprio de o fazer, de o transmitir, de o cultivar. No reino vegetal, a flor, é o engalanado que todos os espécimens adotaram para ser os seus não despiciendos dramaturgos, os intérpretes essenciais à polinização desejável, ansiada e não raras vezes apoteótica. São a sua ode triunfal... E, exatamente por isso, em todas as épocas e socorrendo-se de uma infinidade de estilos e formatos possíveis, tão plausíveis como quaisquer outros, os poetas e poetisas desde os tempos sumérios e imemoriais, têm encontrado nelas motivos de inspiração, recursos de persuasão, oferendas preciosas, símbolos de beleza e de poder, atentos ouvintes e confidentes, espelhos de sentimentos e emoções, adereços de estilo, floreados da mecânica do verso, metáforas, sinédoques, animismos, prosopopeias, confluências cromáticas e exemplo de perfeição. Têm-se servido delas para demonstrarem a sua humanidade, umas vezes sublimando-as, outras racionalizando-as, imitando-as, projetando-as e transferindo para elas quanto de imortal a sua pena foi, é e será capaz. Como afirma a poetisa Marilu Gonçalves Fagundes, elas são "sonhos" livres, versos que falam e, simultaneamente, calam os doloridos "sons da cotovia", essa rara ave que é capaz de se atirar em voo picado, de peito aberto contra os espinhos, cravando-os no coração, e assim amputar a dor que nele lhe vai pela saudade de seu companheiro/companheira. São detalhes, são sussurros, são suspense, são celebração, são segredos, são versos, são gritos, são poesia. 

Mas dizê-lo já não basta... É preciso vivê-lo. É preciso ser a própria poesia para que não soe remake duma toada já gasta. É preciso ter as pétalas a diluírem-se pelas veias e vasos até ao purpúreo aveludado e carmesim da sensualidade. É preciso ser mulher – e Marilu conseguiu-o: Parabéns, minha amiga!               

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3.21.2016

SE NÃO CHOVER VAI ESTAR UM LINDO DIA




SE NÃO CHOVER VAI ESTAR UM LINDO DIA 

Me decorrem do sangue as veias
Em marés de estro e luas cheias, 
Da raiz à sombra com que devora
Toda a luz – fulgor intransigente...
É o inverno que parte se o verão 
– Truz-truz – lhe bate à porta
Perguntando se há gente. 

Mas na casa do tempo nasceu Senão
Para quem a esperança é letra morta
E que, embora não desejado, 
Escancar'as folhas descuidado
Para o anfitrião que nunca esgota. 
– Truz-truz – é o verão a bater; 
Mas Senão não vai responder.  

Que o tempo ora perdido ora
Preenchido se ora também pede; 
E mesmo se o atiramos fora 
É sempre um Zenão que nos mede. 

Joaquim Castanho  

3.20.2016

ÍNTIMA REPÚBLICA




ÍNTIMA REPÚBLICA 

Pronta mas liberta a ordem vigente
Se amplifica original e certa, 
Quando à franja especial atente
Por correta, e de justo alerta, 
Tão de repente, que por si aperta, 
E limita o sentido do realmente. 
Tanto se estende como contrai. 
Tanto se preenche como s'esvai.
Tanto alicia pra sentidos novos
Como actualiza o ser dos povos. 
Que a ordem se orienta pla razão
E vontade de justiça no Direito, 
Plo que é vinculativa prà nação
E é república em nosso peito. 

Mas a lacuna oculta subsequente
Que a nosso criar on line abarca, 
Nem restringe se mau uso faz a parca
Gente do que é nobre e pertinente, 
Pondo em vão vida, feitos, esp'rança
De quem partilha e aos mais alcança. 

Joaquim Castanho  

3.14.2016

PINGA A PIPA, PIA O PINTO





PINGA A PIPA, PIA O PINTO

Lengalenga ajuizada
Tem pandeireta, bandolim, 
Tambor, violão, e a passada
De quem passeia plo jardim. 
E às vezes um violino
A fazer de bom cometa, 
Qu'arranha nosso destino
Onde nenhuma flor é certa. 
Serpenteia pla tradição
Que nem espiral, remoinho
Para moer mas sem pilão 
Nossas pedras do caminho. 

Lengalenga se dançada
Em correria pelo sertão, 
Traz alvoroço à criançada
Ou traz chuva prà criação; 
Nuns sítios parece nada, 
Noutros, brota vida do chão. 

Joaquim Castanho 

3.13.2016

TRATAR IGUAL O IGUAL / TRATAR DIFERENTE O DIFERENTE




TRATAR IGUAL O IGUAL
TRATAR DIFERENTE O DIFERENTE

Meia volta, volta e meia
O destino indica ao ser
A lei por que se enleia
Somente porque quis viver. 
Faz suas preces à lenda, 
Alinha deuses por poder, 
Abre sulcos numa senda
Pra dificultar percorrer. 
Acoita vis predicados, 
Admoesta o inocente, 
E sem olhar par'os lados
Fita passados de frente... 
Que é equidade assente
Tratar com modo vário
Tudo o que é diferente 
– E mente, e mente, e mente 
Quem disser o contrário. 

Joaquim Castanho

3.03.2016

PROPOSIÇÃO «LEGAL!»




A PROPOSIÇÃO «LEGAL!» 

Do pleito a lei remissiva tem
Numa ficção onde o prevê, 
Aquele olhar que é também 
Aquela descrença que o crê. 
É distinta mas não acaba. 
É um mas qu'outro mesmo vale. 
E sendo núcleo serve de aba
Prò dito restrito que o cale.

Entrementes finge outro ser
Sendo o exato clone de si, 
Que a palavra lei pode ter
Outra ca prenda agora aqui.

Joaquim Castanho 

PROPOSIÇÃO – acto ou efeito de propor, expressão do juízo, primeira parte de um discurso ou de um poema onde se expõe o assunto que se vai tratar, asserção, princípio, máxima, expressão de um ou mais pensamentos por meio de palavras, oração (gramatical ou não).  

3.02.2016

OBTUSO RADICAL




OBTUSO RADICAL 

Alojado no cerne da derme
O verme discerne a cor, 
Pra que concerne aquele supor
Com que alterque e alterne 
(Uniforme e extreme) 
Seja com quem for! 

Joaquim Castanho 

2.25.2016

NO APERTO DA LEI




NO APERTO DA LEI 

Adoeceu-me a dor. 
Deu-lhe de repente. 
Ontem 'tava boa, 
Mas hoje 'tá doente. 

Adoeceu-me a dor... 
E num instante,
Não há que me doa 
Daqui em diante.

Milagre? Não sei... 
Remédio... Quem sabe! 
Se o amor é Lei,
A dor não lhe cabe.

Joaquim Castanho  

2.23.2016

DOCE FAINA




DOCE FAINA 

Na solidão de tuas correntes
Meu aconchego, meu naufrágio
Nos sentires por que sentes
Sou teu argonauta, e contágio.
Que a rima me trouxe à vela
Quando rumei só, sem medida, 
E pouco a pouco plas marés dela
Me ancorou à própria vida 
– Com gestos de rosa à bolina
Pleno vogar de espinho manso,
Abranda o ser que me inclina,
Alcança o ritmo no balanço. 


E assim, encantado por sereia
A cujos suspiros estremeço, 
Aliso teus cabelos de areia 
– Acúmulo os beijos que te peço. 

Joaquim Castanho 


2.20.2016

SONHO AZUL




SONHO AZUL 

Me desbasta a vida pouco a pouco
Como um respirar de brandura, 
Que percorrer o sonho é de louco 
– Tal água mole em pedra dura.
Intenso, por vezes, áspero até
Acelera o pensar se o penso
Carrega-me o desespero de fé. 

A sua estirpe torceu o mundo
Conduzindo-o bem para lá do lá, 
E deu-lhe um céu tão profundo
Que, se o chamarmos, ele virá. 
Forjou o voo imortal e ufano, 
Com que o mais simples animal
Se tornou racional – e humano. 

E assinou o espaço infinito
Com laivos de angelicais penas, 
No sussurro azul desse grito
De onde nascem todos os poemas. 

Joaquim Castanho 

2.19.2016

A GENICA DO POEMA




A GENICA DO POEMA 

Entre a pré-compreensão e a compreensão
Há um número infinito de poemas
Que escapam à nossa interpretação, 
Ocultos em subtemas de seus temas.
Uns, são oriundos do vocabulário; 
Outros, têm origem no inconsciente. 
Porém, todos são também seu contrário
Mesmo que o não tenhamos pertinente. 
Se lidos, as mais das vezes, tão-só são
Lineares encadeamentos de palavras; 
Mas ao ouvi-los mudam sempre a questão
E acrescentam à nossa vista outra visão, 
De que as metáforas também são escravas. 

Que na vida, nenhuma sílaba é serena... 
Este mesmo poema me disse a mim, hoje
Que o seu significado só vale a pena
Se ao temo-lo ao mesmo tempo nos foge!

Joaquim Castanho

2.08.2016




FÉ 

A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.

E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição). 

Creio que era um lírio, uma açucena... 

Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou  murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.» 

Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir. 

Joaquim Castanho 

REMANSO MATINAL por Joaquim Castanho




REMANSO MATINAL 

Espécie de silêncio, na fala
O vento murmura à água, 
Quanto a nossa luz exala
Doçura e plácida trégua. 
É a fidelidade eterna
Numa canção que mal se ouve;
Mas, como raiz viva, moderna
Só nossa sombra a promove. 

Porém, da manhã, um cicio
Sem lamento que a estorve, 
Pede ao momento seu brio  
De instante que a renove... 
que a renove... que a renove...
que a renove... que a renove...

E ele escuta. A água escreve.

Joaquim Castanho 

2.05.2016

POR QUE AMANHÃ É SÁBADO




POR QUE AMANHÃ É SÁBADO


Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais. 

Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia. 

Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida. 

Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto. 
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização. 

E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!  

Joaquim Castanho 

1.13.2016

BARTOLOMEU FILIPE




«Teniendo los principes de negociar con muchas y muy diversas personas, no menos necessario les es aprovechar-se de cautelas y astucias de los idiotas que de las letras y ciencia de los letrados, porque, como dicen, la mitad del año se vive con arte y engano, y la otra con engaño y arte. Para los negocios que penden de conciencia y justicia aporvechan los letrados, y para cobrar las rentas y tractar los negocios que pertenecen a la hacienda de la Republica los idiotas astutos... Los letrados son preplejos en resolverse en los negocios sobre que se consulta porque se les representan muchas dificuldades y muchos inconvenientes que los hacen llenos de respectos y imaginaciones que ningun provecho hacen.»
in BARTOLOMEU FILIPE (1584)

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