La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

12.28.2009

Teses da Indolência e da Incontestação



1. (Alegre)Missiva Aberta à Navegação Insustentável:



"Imaginem um número, dupliquem-no, tripliquem-no,
elevem-no ao quadrado, e apaguem-no."

Mac Neice


Um verso branco ou solto é aquele que, sujeitando-se às demais leis rítmicas, carece unicamente de rima, ou tendo-a, não a assume como necessária na estrutura do poema. Se colarmos um dístico ou parelha (estrofe de dois versos em arte maior ou arte menor), a um aiku (Haicai ou Haiku, poema japonês de três versos que normalmente contém um número total fixo de sílabas, em regra dezassete ou dezanove, que se sustenta de alusões – referência geralmente breve, acidental, em certos casos indirecta a factos, pessoas, circunstâncias supostamente conhecidas do leitor, embora que esporadicamente obscuros ou até dele desconhecidos, actos, cópulas, mistérios e confissões, com a finalidade de introduzir no discurso um manancial de experiência e de saberes que transcende em muito aquilo que nele efectivamente se diz –, gradações – crescendos ou decrescendos silogísticos conforme é intenção de produzir clímaxes ou anticlímaxes de interpenetração idiomática –, e comparações – também reconhecidas por contrastes, analogias ou contrapontos, cujo método consiste em aproximar, pondo assim em evidência, duas ou mais pessoas, ideias ou circunstâncias, palavras ou actos, insinuações ou imagens, com vista a fazer notar e reproduzir as semelhanças ou dessemelhanças entre elas –, conseguimos normalmente um poema, classificado por alguns de estilo livre e outros de feitura naïf (ingénuo), segundo a simpatia que têm para com a pureza ou corrupção, norma ou desvio, da técnica poética, e conforme o grau de sofisticação (requinte, subtileza, filigrana) que lhe atribuam.
É, porém, um recurso comum aos poetas que ainda têm dificuldades em trabalhar os seus poemas com as ferramentas próprias da arte (rima, ritmo, medida, encadeamento e estrutura formal) mas precisam de brilhar ocasionalmente entre ambientes leigos na matéria. É o pão com manteiga dos limitados de recursos. O sal e tomate dos cozinheiros pouco escrupulosos. O atalho breve para o êxito rápido dos preguiçosos e apressados. O conduto de uma inveja ansiosa.
No entanto, e curiosamente, esta atitude dos autores que forçam a sua voz não trabalhada a tomar como suas as tonalidades alheias e, por conseguinte, falsas, é sobremaneira prejudicial a eles mesmos mais do que aos leitores e autores usurpados, imitados, plagiados ou roubados, pois que se os primeiros até sentem igual prazer no usufruto dos poemas e se não inquirem usualmente das suas origens, gozo que os últimos jamais terão, além daquele júbilo momentâneo, restrito ao êxito pontual do instante de apresentação, amostra, exibição, exposição ou espectáculo, visto que a partir de então se sujeitam a existir com o credo na boca, a viver constantemente no medo de virem a ser desmascarados, descobertos, apanhados, ou postos em causa na praça pública e denunciados por fraude de originalidade, génio e talento, que de entre todos os crimes humanos é o mais hediondo, condenável e vergonhoso, porquanto – com franqueza! – até no roubar se mostraram medíocres.
Normalmente entende-se por experiência pessoal o inventário dos grandes erros que cometemos durante o nosso (breve) tempo de vida, mas em consequência dos quais não chegámos a perecer (totalmente), ou não obstante estes, sobrevivemo-lhes e durámos o suficiente para os podermos contar. De onde se depreende haver na realidade apenas dois tipos de pessoas: os contistas e os tiranos. Os amigos e os inimigos do homem. Os transparentes e os embusteiros. Os criadores e os criminosos. Os que amam e os que fazem de quase tudo, incluindo os nomes e datas ou sentimentos mais insignificantes, uma causa fundamental, uma batalha bairrista ou uma afirmação da identidade nacional. Porque é sempre pela perversão da palavra que começa a perversão dos humanos, tal como em Sade aconteceu, em que os actos de violência são precedidos imediatamente pela obscenidade, o verbo como ovo que recebe o sémen para simplesmente gritar não se sabe bem o quê nem que raiva, porquanto é a palavra que dá o sinal: violado o primeiro tabu todos os outros desaparecem. Posto que é ela quem veicula a degradação (física e moral), para atribuir-se ao acto que se lhe segue importância ínfima e de somenos face à derrocada inicial.
Ora, assim sendo, legítimo será perguntarmo-nos agora que é feito do “bandeirinhas” do Euro 2004 e que angariou já mais uns biliões de euros de défice ao país, pagáveis com compra de licenças de emissão de CO2 para fins industriais, pesqueiros e agrícolas? Porque se gastaram tantos dinheiros em estádios, campanhas de marketing e publicidade, caravanas e buzinões, e se esqueceram de comprar equipamentos escolares, fecharam Centros de Saúde e Maternidades, comprometeu a eficácia, qualidade e rapidez no atendimento aos casos de emergência médica, não se apetrecharam as regiões mais sujeitas a invernias de um número suficiente de limpa-neves para que se evitem horas de frialdade aos automobilistas surpreendidos por nevões e tempestades? A quem tentam enganar com o óbvio renovar de dispendiosas expectativas para este Mundial na África do Sul? Porque deram o toque de Mírdias ao Magalhães fazendo "batota" na concessão de feitura e sabotagem na distribuição? Ou lá só porque é possível orar a São Bartolomeu em presença colonial acham que isso trará a benção milagreira para transformar o Cabo da Tormentas em Boa Esperança? Onde estão os planos autárquicos e de protecção civil de prevenção incendiária, onde param as estratégias de prevenção de intempéries, sobretudo para o Litoral Oeste, que vai ser uma das zonas mais sensíveis às alterações climáticas? Aquilo que designamos por cultura paradense portuguesa não passa de um modo embrionário típico de pensar, de ser, de agir e de estar entre ou perante os outros, a natureza, os animais, as plantas e o futuro, cujo registo é marcante para Casal Parado, lugar onde à custa de nada acontecer de positivo tudo é possível, incluindo quanto houver de negativo, como para o ambiente e momento que em realidade nos habituámos a viver. Se vou ao médico por causa de uma alergia, e este me receita umas cápsulas e uma pomada, mas que quando os vou comprar à farmácia, a farmacêutica me mente dizendo que não tem a pomada mas tem um creme igual e que me faz o mesmo efeito, simplesmente porque prefere vender o creme, que não tem qualquer desconto para o utente dos Serviços Médicos e Sociais/Caixa de Previdência, pois é artigo de luxo e não medicamento, à eficaz pomada, quiçá menos onerosa e ainda com desconto, obrigando-me a gastar 20 euros por medicamentos que me ficariam tão-só por 5, diferença essa que ainda por cima vai ser usada contra mim, pois é pessoa com jeep em vez de simples carro, quando nem tem utilidade para lhe dar, visto que não possui propriedades rústicas e anda sempre sozinha, e que provavelmente em casa nem o lixo separa, mas que andou que nem uma doida a buzinar para baixo e para cima só porque a equipa portuguesa marcou melhor um pénalti que a inglesa, então tenho toda a legitimidade para denunciar esse comportamento, essa conduta, fazê-lo se possível em Casal Parado, punindo a personagem que tal ignomínia praticou, podendo até matá-la de cancro na pele, considerando que tal como cá também para lá do lá se se quer exercer o poder deve-se possuir irremediavelmente as chaves/ferramentas que lhe dão acesso: os órgãos de comunicação, o ensino, as editoras, a excepção da impunidade, a justiça e as regras da economia – enfim, numa palavra, a palavra, a cultura. Porque não há poder sem estas, nem esta sem aquelas.
Para se poderem ver coisas novas até nas antiquíssimas e ancestrais se criou o romance (poema da burguesia do séc. XIX) e/ou novela cor-de-rosa, de ficção científica, de terror, religiosa ou de milagres, thriller, western, diário (de bordo e psicologista), aventura, histórico, realista, geográfico ou de viagens, de tese, policial, de auto-ajuda, social e de inspiração profética, bem como a poesia, toda ela que essencialmente é ver (poesis picture est – sentenciou Horácio), mas um ver resultante de um olhar interior, simultaneamente studium e punctum, só esporadicamente corroborado pelo registo dos olhos, tela, fotografia, fotograma, periscópio íntimo e intransmissível de catapultar a distância entre as fissuras do ser, coisa impensável e impossível de fazer com o grito, o arremedo do verbo insano de quem confunde o vir-se com o ver-se, e iguala a arte lírica ao rachar lanha. Principalmente porque nada existe mais poético que a verdade (e só a verdade), assim determinando que quanto maior ela for mais verdadeiro o poema também será (Novalis), pondo exigência de justeza no item das condutas, pelo que teremos obrigação de dizer brutalmente a brutalidade, fastidiosamente o tédio fastidioso, com fatalidade descrever o que fatal nos for, tristemente a melancolia triste, prazenteiramente a beleza do prazer, e arrebatados, convictos, o entusiasmo do corpo quando se entrega e converte em palavra, herança que legaram à nossa língua gregos e romanos da Ibéria ocupada como seduzida, casa do verbo e do modo, cuja universalidade se deve não a um hipotético cosmopolitismo, e antes sim à fundura, solidez e transparência das suas raízes, do que resulta ser essencial que para se fazer uma boa poesia é imprescindível ser-se óptimo como sujeito, mulher ou homem, cidadãos pelo menos, considerando que ao poema nunca conseguiremos dar tudo aquilo que somos, mas somente uma parte e, às vezes, calha ser a menor de nós, ou a que mais carece de qualificada espontaneidade.
Da mesma forma que as cordas vocais, a boca, o palato, a faringe, a língua, são instrumentos da fala, assim a voz é o instrumento, a ferramenta, o suporte, por excelência das Línguas, sobretudo daquelas que assentam a sua génese no Génesis (“ao princípio era o verbo”, versículo bíblico deveras propalado por quem sabe que do Livro dos livros nem tudo é divino) da oralidade, bem como o romance/novela de tese O ESCRIBA E AS BONECAS – porquanto nele/a se tenta sustentar uma causa ou ideal, por meio de argumentos definidos pelas personagens, em situações concretas, com o que despertam o ódio ou a admiração pública – é o instrumento doutrinário do autor posto ao serviço (propaganda e marketing) dum local, duma terra, mundo ou universo particular denominado Casal Parado, território percorrido a cavalo, com os seus quatro andamentos típicos (: piafé, passo, trote e galope), cujas fronteiras estarão delimitadas a Norte pelo romance realista (aquele que pretende retratar a vida tal e qual como é e se apresenta no quotidiano, através da descrição de ambientes locais, costumes, pronúncias, factos contemporâneos, sob um ideal de objectividade, na medida em que nasceu de uma circunstância factual, a Sul pela novela social (ou aquela que procura desvendar/descobrir a situação e reacções típicas de um grupo – de risco, ao caso –, classe social ou geração, pondo o ênfase no facto de os indivíduos, sem excepção, não serem mais que a amostra nuclear do colectivo – família, clã, tribo, aldeia, região, país – a que pertencem), a Este pelo romance policial (onde se conta e faz reportagem de como aconteceu um crime, se aproveitam tensões e perigos para provocar a tensão contínua do leitor, e se castigam os culpados) e a Oeste a novela cor-de-rosa (na medida em que transforma dois personagens particulares desconhecidos em amigos íntimos por via da reunião entre o sexo e a morte), onde o background da experiência literária do autor – literária, e não de vida, note-se bem! – e a sua filosofia de existência, demonstrando inconfundivelmente, e uma vez mais!, que a arte é um instrumento posto ao dispor do homem para este se aperfeiçoar, e não uma actividade disfuncional, inútil, estéril, para o exercício misógino e masturbativo das palavras que não vai além, ou mais almeja, do que a satisfação de quem a executa. Com ou sem vocação, mestria, honestidade e empenho. Independentemente de acreditar ou não que a ciência (tese) é cultura, ou que a cultura inclui (ou se traduz) igualmente na ordenação científica do discurso, suas experiências (figurações, configurações, hipóteses e conclusões). E vê na pergunta da farmacêutica a alegoria perfeita para a nossa actualidade, reconhecendo que entre a pomada e o creme (regionalização e descentralização, sociedade de conhecimento e sociedade de consumo, Casal Parado e Portugal, vocação consciente e voz não trabalhada, poesia e poesia naïf, café e chicória) se erige uma diferença abismal, tal como a que se reconhece e existe entre o óptimo/(bem) e o assim-assim, conforme pudemos detectar no postal ilustrado (crónica pequena) que conforma a inocência, a maldade e a macaquice, e de que resulta um poema para o Fait-Divers literário, sem outro intento além do agrupamento de sons característicos da balbúcie infantil. O que é fácil de ver, se não se aprendeu – como não aprendi... – em qualquer manual, ou por meios que insistem em classificar de não-académicos e "maus" saberes-fazer, que não se resumem às peripécias medíocres do país da cocanha, do marketing literário motivado, nem ao clima de terror cultural e chantagem emocional com que algumas pessoas “amigas” me acenam, dando-me a conhecer que ainda só dispõem dum pensamento hieróglifo (mas que o põem ao meu dispor se as elogiar ou der os recados que elas querem dar, temendo todavia fazê-lo, por questões de vassalagem, hipocrisia ou tão-só cobardia pessoal), que precede a noção e uso de alfabeto, ou a faculdade de pensar por palavras, e não por sentimentos, simpatias e emoções como se limitam a fazer, exemplificando de como vai o pau à racha, quando querem rachar a lenha por invejarem o fogo alheio.
Por outro lado, quando ensaiam a tese que a minha poesia é sinal de carência afectiva ou de que sou complexado em relação à minha idade, condição física, estatuto social, etc., não só estão a prejudicar a acessibilidade a Casal Parado, como a esquecerem que um dos argumentos que usam para não estabelecerem comigo uma relação de igualdade, uma comunhão passível de gerar entendimento, ou intimidade mais próxima e eficaz, positiva e criativa, é precisamente esse – o da diferença de idades, a diferença de rendimentos, a diferença física ou da diferença da linguagem, classificada de rebuscada ou esotérica, a seu ver – e, por arrastamento, a prejudicar-me materialmente (limitando propositadamente os lucros da minha obra, através do afunilamento da audiência) bem como a diminuir as vantagens competitivas da Instituição (serviço/empresa/estabelecimento comercial ou industrial, órgão de comunicação social: rádio/TV/jornal) com que trabalham e deviam defender com interesse e afinco nas vossas actividades, programas, espectáculos, entrevistas, visto que em termos editoriais (excepto se o objectivo informativo da idade/fortuna pessoal/capacidade atlética, for o de arranjar-me casamento, o que para melhor eficácia se devia também acrescentar o dia de aniversário e o clube predilecto, o grupo sanguíneo e que sou solteiro, cordial, educado, de esmerada formação, alegre, simpático, comunicativo, socialmente empenhado e escrupuloso acima da média, e não obstante de nariz curto – mas com umas ventas bastante alçadas e empertigadas), visto que só duas idades interessam real e objectivamente: se o autor está vivo ou morto, capaz ou incapaz de dar autógrafos e conferências de promoção do seu produto.
Aliás, casamento esse que, suponho, aliviaria e evitaria entrar naquela “situação que abominam” tanto, e tão constrangedora é, considerando como são sempre tão imaginosas e criativas as apreciações críticas para beneficiar (elogiar) os amigos dos meus inimigos, e denegrir-me ou apoucar os meus amigos, bem como os amigos destes, mesmo quando não está mais nada em causa além de simples poemas, elipses ou haicais, por quanto é evidente que os meus estão impreterivelmente eivados de desclassificadas qualidades e intencionalidades suspeitas, perversas e obscenas, mas que os dos outros, embora não valham mais que as ecolalias e lengalengas infantis, são sempre lindos, maravilhosos e insuspeitos, enfim, o supra-sumo da criatividade poética.
Ah, e escusam de suspirar de júbilo por terem chegado ao fim do sermão, pois não acaba aqui, mas continua logo que tenha tempo, coisa que, se preciso for inventarei ou roubarei ao sono, dado que muito ficou por dizer, nomeadamente acerca das intervenções na política nacional, em prol de uma democracia participativa e da cidadania, que é o que falta cumprir de Portugal depois de Abril, uma vez que da democracia representativa corporativista já tivemos um século de cumprimento, com expoente máximo no período ditatorial, pela "benévola" mão de António de Oliveira Salazar, que foi quem implantou o Estado Corporativo e o serviu à nação com o acompanhamento do Fado, Fátima e Futebol por que muitos (saudosos) "suspiram 'inda bem não", arrotando postas de pescada parlamentar como quem petisca Iscas Com Elas nas tascas da Rua de S. Bento, que é perto e sempre a subir até ao Rato, largo propício a arraiais e romarias matemáticas, aptidões para a magia do número, eleitoral que seja, que podemos imaginar, duplicar, triplicar, quadruplicar e, depois, apagar com um governo esponja, sugadouro contínuo para dar sumiço à riqueza (PIB) nacional com projectos "conventuais e beneditinos", sem préstimo nem reflexos directos na sustentabilidade social, económica, demográfica, urbana, ambiental e natural. Isso, projectos que promovem a insustentabilidade nacional como o de um aeroporto intercontinental a escassos quilómetros da capital do país... Mesmo que ela se chame Casal Parado, por exemplo!
É por demais óbvio que à comunicação social "vigente" o assunto da sustentabilidade não tem a mínima importância, é certo, por quanto é o seu contrário, a insustentabilidade, o principal filão noticioso de momento, e aquele que lhe promete as cachas mais promissoras e exacerbadas; todavia, DEDS cá, DEDS lá, era bom para os utentes dessas "catástrofes" saberem que alguém além deles, não só está preocupado em saber o estado do mundo e onde elas acontecem, quantas vítimas provocam, mas igualmente em repará-lo. É fabuloso saber os ondes, quens, quandos e comos, mas e os porquês porque os escondem? E já a propósito do porquê: será que estão à espera de milagres ou é mais de uma prendinha do Pai Natal?

12.05.2009

Variações em Dois


Retrato do Zé com moldura gitana (em salero bordalesco)

O café, pela hora da bica d'almoço, período de tráfego e ponta tradicional da restauração provinciana, estava à pinha – só para meter uma bucha com metáfora de referência natural a tão cosmopolita ambiente – quando o Zé Lello entrou a gingar na farpela garrida, num multicolorido de alto a baixo de fazer inveja às bandeiras de inspiração românica e anglo-saxónica todas juntas. Passou pela mesa das burras, salvo seja que esses animaizinhos não merecem semelhante comparação!, e empertigou-se para elas, erguendo a peitaça de peru afoito em marés natalícias, que nesse ínterim abriam a boca com um Óóóh redondinho recheado de espantado escândalo. Cruzou olhares concupiscentes com a do canto das sáficas donzelas, senão cúmplices, pelo menos gulosos, aliciando as diferenças. Até que por fim assentou a hegemonia patriarcal e partilhou o hálito de alho e tintol carrascanho, que lhe ficara da bacalhauzada portuga que afiambrara na tasca do El Campeador, com o Zé Bordalo, sobrinho-neto do Zé Povinho que andou na desforra de espalhar manguitos por esse mundo fora, a que deram o nome de diáspora, vejam só!, e nesse preciso momento, cofiava a barba de sete dias e uma semana, numa postura gestual de mandar os circunstantes àquela parte, num toma que é de bronze muito bem disfarçado, para não ofender demasiado a requintada clientela do estaminé, e a quem não fazia incómodo nenhum a presença de etnias à sua mesa, desde que contribuíssem com a sua parte nas despesas gerais.
«Oh, dianho! Olha, que vens bonito... e folclórico. Onde é o casamento?» atalhou o Bordalo, assim a modos que a afeiçoar-lhe o passou-bem da chegada.
«Ná; desta erraste» retorquiu-lhe o Lello batendo as palmas em jeito de passo-doble a citar o papillon engomadinho do Torna Levas, empregado de mesa d'há muito. «Desta vez não é casamento. Já se não usa. Hoje vou mas é a um divórcio, tiradinho de fresco com copo-d'agua e regabofe com DJ em tenda de lona e bar aberto até de madrugada, e bebida à descrição sem amolar vintém. Vai ser duro!»
«Eh, lá! Isso é moda cigana e só de vós outros?! É que não m'alembra festa assim na minha gente... Não é costume! Boda, ainda vá que vá... Agora divórcio? Hum!...»
«É pois» adiantou o Lello, dando uma sorrateira ajeitadela nas vísceras e partes, que se lhe entalam com os apetrechos e atafais da indumentária. « É o divórcio dos meus sogros. Ele é transmontano e ela algarvia; e isto agora não anda nada bom pràs origens separadas com muitas viagens pelo meio...»
«Toma tento Zéi! 'Tão não vês que 'tás a incomodar o sr. Inginheiro?!» é que, o Lello, dado a iluminuras, para ilustrar o gesto na legenda do separamento das origens, abrira os braços em Cristo Rei de estar na cruz, para equilibrar-se dos senões e não despencar sobre Almada, e teve vai-que-não-vai para tocar com a beata no fatinho novo d'O Cliente da mesa do lado, prestes a queimar-lho. E ao Bordalo deu-lhe dó, aind'assim!...
Porque, lá pelo fato – salvo seja!, em grafismo de Acordo Ortográfico – de ele estar todo vivaço e celtibero, isso não era razão de suma valia pra chamuscar o cinzentíssimo fatito do sr. engenheiro: alegria, alegria, aleluia, aleluia, mas factos à parte. Ò não?
Quando se amensendara, o Zé Bordalo, não lhe atenteara bem na fatiota, por mor do sucessexo que desencadeara a sua arribação entradiça, mas depois dos efeitos secundários se esvaírem no terceário situacionista, pudera-lhe apreciar os panos e acessórios com mais ólhós. Os colarinhos da camisa em seda da Índia são púrpura, metade do tronco e manga direita é azul celeste, a outra metade e respectiva manga em vermelho vivo, os punhos em dourado, o bolsinho do tabaco em preto gaivota, e a barriguinha, à esquerda da abotoadura a verde-pirilampo, enquando o lado contrário anda pelo laranja-eléctrico. A segurar as calças, um cinto de pele de lagarto enfeitado com escamas de dragão azedo, e fivela de unha d'águia.
Também elas, as calças, bonitas de se verem, a saltar a Ribeira, com bainhas da Foz, douradas, para condizer com a marialvice dos punhos, mostrando a meia de lã aos losangos amarelos, verdes, pretos e lilases, no mais puro e inclinado xadrez, suportados pelos sapatinhos em verde-gaio com pompons turquesa e prata nas presilhas. Desde a cintura até aos joelhos são em castanho-sobreiro de casca mansa; e as pernas, a canha, é amarelo-torrado, e preta-azeviche a destra, com os bolsos, também de cada cor, a fim de não destoar da Copenhaga num clima que se adivinha movediço, com rosinha prò bolso dos trocos e azul-bebé no da navalha (e isqueiro).
Enquanto isso, o Zé Lello abufava no café que o chicória do Torna Levas trouxera a escaldar, para o sorver aos golinhos e com assobio de vapor a entrar na barra, mas o outro, Bordalo seja louvado!, enviesava os mirantes ao céu num soslaio meditativo, que pelo semblante embevecido e compungido, não era garantido se seria o de quem estava a contabilizar as cores, se o de quem estava a bradar a Deus que lhe explicasse tamanho milagre.
(Recapitulemos.)
Até que se não conteve mais, e disparou à torna-baldia, para atazanar o Lello: «Bebe lá o cafézinho, que agora é que está bom. Mas... antes d'abalares, ainda me há-des explicar cá uma coisa.»
O da folclórica figura fez «hum-hum» e amandou-lhe a última e derradeira seringadela na chávena, escorripichando até ao sucre final a água escura, escorou novo paivante nos beiços peganhosos do melaço, ateou-lhe mecha, que acendeu num Oscar de se lhe esfregar o olho, e deu sossego à ansiedade do tertúlio seu companha nas safras colegiais.
«E que coisa é essa? Vamos lá!»
«É a vestimenta. É isso o próprio prà cerimónia? Um divórcio...»
«Exactamente. É ela mesma toda assim, que é única. Um divórcio tem de ser feito com afianço e garantia: não tem lugar para cópias, clónes nem adultérios. É uma coisa séria!»
«Nãm t'intendo!»
«Mas é do mais facílimo. O divórcio dos meus sogros mete gente por todo o lado, que eles sempre foram muito viageiros. Desde as sucatas de Aveiro até às sombras de sueca do Príncipe Real, com finalmentes à mistura. Por exemplo, a minha cunhada já é de Lisboa e está descasada de um gajo de Loulé que quer assentar praça em Rabo de Peixe. E como agora vem aí outra vez essa calda bordalenga da regionalização, eu não quero cá desavenças, e vesti-me prò contento de todos. Assim, que é de pano!»
«A regionalização, dizes tu, é que te levou a esse estréfe-néfe? É boa!»
«Está claro que foi. Os colarinhos são de Braga, o tronco vai prò centro, fazendo destrinça entre litoral e interior, a cinta no Vale do Tejo e calças no Alentejo e Algarves. As peúgas estão conforme a CPLP e as botas têm África do Sul na alma, com o mundial nas solas. E ôspois?»
«Tem jeito, sim senhora... Isso é um divórcio prà unidade! Como é que na Assembleia da República ainda se não lembraram disso? Escusavam de passar vergonhas, como as que passaram na sessão de Sexta... Bem como evitavam de que pensássemos que a única esperança que nos resta anda pelo folclore do futebol, onde as expectativas de não virmos a tornar-nos na sesta rota do costume, são iguais às de sempre...»
«Ora vês tu: eu sabia que compreenderias!»
E levantou-se de um tiro, depositando uma mão-cheia de trocos sobre o tampo da mesa, para saldar o défice. Cento e dez cêntimos, nem mais um tuste, que a vida não está para gorjas!

11.25.2009

Nas Alfândegas da Fé






As Três Tentações do Seguidor

1. Teoria

"Os intentos de incluir o público – ou o leitor – no processo de criação de uma ficção são bastante vastos. À parte o já mencionado Julio Cortázar, pratica-os MarioVargas Llosa (quando quer que os leitores das suas novelas supram a verdade do que em A Casa Verde, por exemplo, possa ter sucedido com a Casa Verde e as personagens a ela vinculadas), William Burroughs (quando pede que as sequências fold-in sejam encaixadas umas nas outras pelos leitores) e aquele escritor inglês, B. S. Johnson, de cujo romance The Unfortunates disse Stanley Reynolds no New Statesman (21.2.19: «[his] new novel, done up is a box, chapters loose, you can chuffle them about, get the story then, I suppose» – p 264; pratica-os o próprio Onetti em O Estaleiro (quando oferece ao leitor desenlaces do romance) e em A Vida Breve (na qual chegamos a uma sequência durante cuja leitura tive a forte impressão de que os personagens estavam a inventar o autor), e praticam-nos também aqueles autores que usam a segunda pessoa do plural ao descrever alguma acção – como se fosse o leitor quem actua. O escritor alemão Peter Chotjewitz leva ad absurdum estes propósitos quando pede que o leitor escreva alguns capítulos do seu romance Auf dem Bärenaug.
(...) Onetti consegui, pois, e magistralmente, tornar-nos com esta novela "cúmplices" de uma actividade algo vergonhosa e humilhante."
Do Posfácio de O Leitor como Protagonista do Romance
ao livro Os Adeuses, de Juan Carlos Onetti

Por mim, reconheço que o personagem que mais comigo colabora, o que melhor reflecte e pensa o enredo em que está metido, é sem sombra de dúvida o leitor/a, uma vezes difuso e indistinto, digamos abstracto, outras identificado e vincadamente caracterizado, formatado e visível, conhecido e atuado, a quem trato por tu por mor de muito convívio e intimidade, com quem privo não obstante a distância quilométrica e cronológica que nos separa, porquanto estamos os dois no mesmo barco, remando com idêntico esforço e sentido, direcção essa plenamente assumida por ambos, já que queremos saber o fim da história com igual curiosidade e estamos em pé de igualdade a propósito do seu desenrolar. Nem eu nem quem lê, sabe como vai continuar e muito menos acabar. Principalmente porque aquilo que ansiamos é estarmos presentes quando ela acontece, e isso nunca se faz fora dela, nunca evolui afastado da escrita, que é simultaneamente leitura, rescrita como releitura, considerando que a compreensão de uma se faz no momento da outra e vice-versa.
Se me dirijo a ti para me certificar que esse algo que partilhamos, a escrita, está a ser lida pelos dois, é porque ao ler-me estou a ficar no teu lugar que, curiosamente também não prescindes de te colocar na minha posição, rescrevendo e realizando os conteúdos, revelando-os, por assim dizer, como se de uma invenção própria, logo inequivocamente tua, esses significados e significantes deveras fossem. É legítimo fazê-lo? Estão salvaguardados os direitos de autor neste processo? Claro que sim, pois que é por demais evidente que se eles são o que são, na forma e estilo que se apresentam, nos géneros e correntes escolhidos, nas selecções imediatas como nas repensadas, nas revisões contínuas como na fixação definitiva, são-no porque ambos concorremos para que assim chegassem a ser e não tomassem diferentes desenlaces.
Até finais do século passado, isto acontecia mas não tinha registo físico constatável, ou imediatamente visível. Acontecia como simbiose intelectual, comunhão desafecta fomentada por diversos desencontros, alguns dos quais, bastante atreitos à cisão, sobretudo o temporal, sucedendo que não raras vezes o afastamento cronológico entre a escrita e leitura, ia ao ponto de, embora feitos na mesma língua, a evolução lexical verificada determinar que a palavra escrita tinha um significado mas a lida, por o ter sido em tempos diferentes e em virtude de progressão semântica, apresentar um sentido e um significado absolutamente contrário àquele com que foi inicialmente grafada. Actualmente, graças à unidade espácio-temporal do suporte electrónico, esse registo além de verificável é inegável como incontornável. Escrevo e alguém responde, não só lê o que escrevo, mas reage aos seus conteúdos e ao meu acto, participa deles, altera-os e exige desfechos, estabiliza parâmetros de concordância como de divergência, a que é impossível refractarmo-nos. Não só através de comentários, mas também de exemplos; não só por apontamentos à margem, mas igualmente por especificações de sentido e significado interno, de esclarecimento e desvio quanto à interpretação ou análise deste ou daquele constructo teórico; não só por justaposição como pela elipse concernente ao entendimento (circunstancial) mútuo desse algo em causa, motivo, objectivo, estratégia, significado e único habitante da intercepção em que estamos; não só como o terá feito Camilo Castelo Branco, dirigindo-se amiúde directamente às suas leitoras através do narrador – interposta pessoa, convenhamos – fazendo dele apenas um recurso veicular, caminho e meio de fazer chegar a sua missiva à musa do momento, mas também como patamar de descanso nessa subida de comunicar que é a escrita, ou qualquer outra linguagem pela qual nos façamos entender – e nos entendamos de facto –, em que quem pensa apela às companhias de jornada naquele «mas onde ia eu?!» cuja resposta, auxilia no retomar do ponto, sim senhora, todavia mais importância tem pela virtude de permitir aferir, avaliar, medir, constatar, a qualidade do “ouvinte” e o seu grau de atenção, o interesse da palestra, ou mesmo o índice de arrebatamento anexo (complementar) à fantasia (exposta).
Ou seja, aquela mentirinha de raposa matreira do escrever parta a gaveta, para evitar confundir as parras caídas por uvas (que só os cães poderiam tragar), tão atreita aos fazedores de casos sem audiência nem reconhecimento público, deixou de ser o refúgio que facultava a manutenção da auto-estima e narcisismo autoral, considerando que essa gaveta apenas servia para estimular, espevitar, acicatar a curiosidade dos que frequentavam o móvel – alguns maledicentes, dirão traste –, principalmente da mulher-a-dias, que nunca a deixava tal e qual como a encontrara, para que o seu senhor ficasse a saber da “violação” e interesse correspondido, anteriormente rígida, fixa e invertebrada, é agora uma janela de proximidade com exterior, virada para os quatro cantos do mundo, incluindo os do lado de dentro, como uma coutada para aficionados do mister, aficcionados da mesma espécie cinegética, onde se caça sem limites de defeso, claridade diurna, características do cordão (e sua corrente), bem como da qualidade e empenho dos cães (fiéis recursos estilísticos), e que, embora de livre acesso e generalizada frequência, por escancarada estar a todos e todas, não deixa de ser a coutada que só não está vedada aos éticos da estirpe, precisamente aqueles que respeitam as matrizes e as presas, não atirando sobre qualquer ideia e em qualquer circunstância, ferindo-a apenas para depois ir morrer longe, onde apodrecerá certamente sem a mínima serventia para ninguém.




2. Ponto de Vista




No Outono, las niñas
Enquanto caminham
Apanham, folhinhas!


Em Portugal conseguiu-se o inaudito: o que é deveras condenável, não são os crimes de corrupção, os subornos, o tráfico de influências – é a fuga ao segredo de justiça.
Vamos lá a ver se a gente se entende!
Face à tamanha diatribe e hedionda questão da fuga de informação, os crimes praticados parecem ser lana caprina, coisas de somenos e comezinhas, sem qualquer significado para a ética e cidadania nacional. Era isso que esperava da democracia quem lutou (e morreu) por ela? É esse o seu rumo para a transparência, enquadramento constitucional e aprofundamento progressivo do sistema? Tem jeito!
Assim sendo, a desvirtuação sistemática portuguesa dá ao desvio, à corruptela, foros de realidade e atribui à falácia vínculos de veracidade irrefutável, o que, no mínimo, é uma forma de adulterar o sentido de justiça e de autenticidade da sociedade e da “nação” portuguesa, com as dignas aspas para “bem” dela, (res)salvando o que ainda houver para salvar, quando da honra da rés (pública) falamos.
Todavia, a piada vai mais longe…
Tão longe que chega perto, onde os clérigos são atreitos a fugir com as garotas paroquianas mais fogosas e desenxovalhas, ao contrário daqueles outros que pedem perdão, depois de se terem afastado dos garotos dos orfanatos irlandeses com quem se teriam alambazado em romano regabofe, pelo menos a acreditar nas crónicas do Ovídio Nasão, para não falar já dos que traficam armas e influências, pedem pròs pobres e enchem a mula, alinhavam identidades insuspeitas para os seus missionários, ou refugiados, e congeminam revoluções anti-Magalhães.
Tão longe que para encontrar políticos honestos, sem vínculo às mafias e demais suseranias do suborno e da corrupção, é mais fácil encontrar agulhas em palheiro, sobretudo depois da seca e da escassez de pasto prà criação.
Tão longe, que o tradutor de O Idiota, do Fedor Dostoievski, anda a proclamar que não se devem fazer julgamentos na praça pública, mas esquece que quando algum cidadão ou cidadã quer ver o seu problema resolvido, tem que recorrer ao Nós Por Cá, da SIC, pois caso contrário, atiram-lho pràs calendas portuguesas, havendo até já quem proponha dar um subsídio e comenda à Conceição Lino, por serviços prestado à pátria e à cidadania, e atribuir-se à estação televisiva a verba orçada para os aumentos da função pública, nos próximos dez anos, a ver se eles passam a trabalhar em vez de complicar a vida às pessoas comuns, que têm de produzir o seu sustento, mais os impostos correspondentes para facultar o sustento desses funcionários.
Mas tão longe, que a oposição parlamentar de pilhéria em pilhéria lá vai governando o país, obrigando o Estado a pagar juros de mora aos particulares e fornecedores, quando este se atrasa no pagamento das contas e não respeita os compromissos assumidos, adiando para 2011 a entrada em vigor do Código Contributivo da Segurança Social, bem como reduzir e extinguir o Pagamento Especial Por Conta.
Tudo coisas é claro, que os contadeiros de pilhérias vão largando ao giroflé-giroflá da galhofa política, como quem está cá de passagem ou veio ver a Bola, e esta coisa da sociedade da comunicação e informação não vale mais atenção do que o relato de um jogo de matrecos, ou de bisca lambida na associação recreativa de Rabo de Peixe... E que acham que A Face Oculta é mais um comezinho livro sobre parapsicologia e espiritismo, bruxos e feitiçarias, adivinhação e mensagens do Além, do famoso e apaniguado cientista Oscar Gonzáles-Quevedo.
Leva jeito...Oh, se leva!


3. O Mestre Zé

A bem dizer, um escritor, qualquer escritor que seja, à parte do sítio, do tempo e do modo que o formataram, as ideias com que conviveu e privou, os radicalismos que sustentou, os ambientes que frequentou, ou antes, as experiências sociais que o condicionaram, além das habilitações literárias e leituras que cometeu – sim, porque isso da leitura é ainda um crime de nefastas consequências! –, dizia eu, qualquer escritor não passa nunca de um – mais um... – contadeiro de pilhérias. Tece e destece enredos, volteia entre surpresas do acaso, aglutina e atalha congeminações, aventura-se nos labirintos do inconsciente, colectivo como pessoal, até que um dia a necessidade lhe aguça o engenho, coisa nenhuma!, lhe afia a língua e ele dá com ela nos dentes, confessando a quantos o querem ouvir, sem a mínima selecção de qualidade desses ouvidores, como foi que entrou e saiu de tal ou de tais imbróglios, e que estava lá, é um afianço, uma certeza de que ninguém de boa fé desconfia, uma garantia de créditos, por avulso e atacado, pois caso não tivesse estado, há pormenores, minuduências, picuinhices, que jamais alguém notaria se para elas o dito não alertasse, não chamasse a atenção, não reconhecesse valia narrativa ou condição de fábula... E isso é uma escritura para o acto de contar, que apenas assenta por medida em quem viu, sentiu a marca do acontecido (do claramente visto, como referiu o nosso distinto épico), ao gravar-se-lhe a fogo na fria película da memória, ainda que corroída pelas gelatinas peganhosas da motivação, a que não raras vezes se deve essa espécie de alucinações, esse género de visões inconcebíveis, que ora realçam como fundem, ora avivam umas como apagam outras, adulterando-lhe a factualidade, como sumindo-lhe a nitidez, qual lixívia pura caindo em mancha, ou mácula do despropósito e desbotado, do branco linho no diáfano manto da realidade (do Zé Maria, por exemplo). Seja: Ora, Eça!

















(Continua amanhã)

Como ontem e sempre, ámen!




Tenho uma comunicação muito grave
a fazer a Vossas Excelências
pior que o meu estado de saúde
é a corrupção nas altas esferas

eu já andava apreensivo
com as notícias nas gazetas
o que almoça um director-geral
quem ateia fogos nas florestas

(e aqui chegado vão-me permitir
que abra um curtíssimo parêntesis
não acredito que esses incendiários
sejam todos doentes da cabeça

mas enfim de que há-de viver
a nossa pobre e triste imprensa
quando se atrasa o cometa Halley
e o Entrudo é um longo bocejo)

neste particular não invento nada
fala-se de escândalo nos gabinetes
a verdade é que algumas histórias
são simplesmente de estarrecer


haveria mesmo ignóbeis luvas
e outras espórtulas
financeiras
indignas de um país virtuoso
enquanto Estado de Direito

façam Vossas Excelências a fineza
de acreditar que não exagero
por alegada oposição ao regime
ou propensão para o devaneio

é claro que noutra oportunidade
avançarei com pormenores concretos
por agora limito-me a alertar
reservando os nomes dessa gente



Fernando Assis Pacheco, in Desversos (1990)

11.14.2009

Os Contadeiros de Pilhérias

"Para ti Camões

Que tão raros poetas houvera
País triste em qualquer era
Que tiveram como heroína
Esta pátria ou a sua sina,
Ficaram escritos em padrões
Como Os Lusíadas de Camões,
Verbo dessa poesia sem igual
Gravada na História de Portugal
Já vindos dos séculos de Além,
Que ainda se cantam hoje porém
E se cantarão sempre, com altivez
Enquanto no mundo houver um português!"

Poema de Leonardo Cardoso, poeta portalegrense nascido em Castelo de Vide


Antigamente, quando andava nas comezinhas andanças da croniquice labrosca da comunicação social regional, os pingentes mafiosos dos cafés que frequentava, normalmente imbuídos de enormes e fortes doses da dor de corno com que açucaravam o leite de formiga pingado a cuspinho, que caracterizava o seu consumo habitual nesses estabelecimentos, costumavam-me criticar as crónicas por três motivos: porque tinham algumas gralhas, porque desancavam as políticas das governâncias centrais como locais, e, principalmente, porque eram minhas, coisa que por si era já sintoma de abuso e pouca vergonha tida, desplante e descaramento, demonstrados por quem, na vida, mais não tinha nem fizera nada além de ler (e escrever).
Caso grave e perdido, não restam dúvidas nenhumas, sobretudo agora, em que finalmente há censura em Portugal, porquanto neste suposto concerto judicial veneziano, com baile de máscaras e golpes palacianos dos Casanovas da actualidade, também conhecido por Face Oculta – e era preciso, pergunta-se, tapar aquilo que há muito se perdeu? –, há duetos impedidos de cantar, embora bem saiba quem os ouviu na privacidade do banho (de surdina siciliana), que são mui prendados no barítono e afinados no solfejo político: Sócrates e Vara.
Ora, naquele tempo como agora, salvo seja!, os temas que aventava no auge da preocupante cidadania, eram as vacas loucas e a gripe das aves – hoje é o H1N1 –, a falta de emprego – hoje é o desemprego, os despedimentos e a crise –, o envelhecimento populacional nos burgos – hoje é a falta de gente nova nas cidades e excesso de reformados, com a agravante insustentabilidade do sistema de segurança social–, as baixas reformas/pensões e as inconsequências do rendimento mínimo garantido – hoje é o degradante aumento de 1,25% e o rendimento mínimo que só deve ser atribuído a quem cumpra os mínimos da sociabilidade.
Quer dizer, mudaram-se as moscas mas a coisa está como estava, mais UE menos UE, e todos nos esquecemos que, como terá afirmado o Sr. Dr. Mário Soares presidente da República a propósito dos desmandos governamentais do Sr. Dr. Cavaco Silva, então primeiro-ministro desta deslavada pátria, «a oposição é tão essencial quanto o exercício do poder», todavia, eu que nunca fui uma coisa nem outra, que jamais exerci o poder como nunca estive nas manifestações dos profs contra as avaliações, aquilo que vejo e ouço, não é mais que uns andarem constantemente a lamuriarem-se por lhe andarem a fazer aquilo que eles fizeram aos demais. Antes das eleições eram as escutas na presidência o desaforo de todos os desaforos; agora, são as escutas aos membros do governo: afinal, se quem não deve não teme, onde é que está o problema? Se eu andar com valdevinos e bandidos me aplicam a regra do "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és", que mal é que faz o representante máximo de um órgão de soberania andar na cavaqueira e privar com um suspeito de abotoanço e/ou de subornos?
A bem dizer, temos que dar o dito por não dito ao dito Sr. Dr. Mário Soares, uma vez que em Portugal não há governos nem oposições, pois que é uma pátria cuja sina é ficar sempre na mesma, onde anda sempre metade a pregar pilhérias à outra metade vencida, e os jornalistas, os opinion makers e similares, se resumem enfim a relatar as pilhérias que os socialista fazem aos sociais-democratas ou vice-versa. E eu devia seguir o exemplo, dizendo agora mal de quem disse noutro tempo mal de mim, porque amor com amor se paga, dando-lhes a beber o veneno que sobre mim destilaram, não fosse este jeito de rir que me ficou, por mor, de a tanta pilhéria assistir: votaram neles, agora auguentem-se – só para citar, com passe-doble madeirense, o nosso desbravador navegante Mestre João (das Ilhas).

10.27.2009

Dos Seguidores da Estrela


Ismail Kadaré


"É preciso esconder a profundidade[JC1] ",
escreveu Hofmannsthal. "Onde? À superfície."
[JC2]


O albanês Ismail Kadaré, batendo na recta final a sua mais directa e colossal concorrência (Milan Kundera, Ian McEwan e AntonioTabucchi), venceu – quer dizer: ganhou – o Prémio de Letras Príncipe das Astúrias, laureado esse, precisamente, que depois do Nobel é o mais importante galardão literário no actual universo das línguas românicas, trazendo para a ribalta o subgénero da literatura política e pondo na ordem do dia aquela faceta da ficção que mais se preocupa – e até intervém nela! – com a realidade sócio-económica, religiosa e institucional, das pátrias, das regiões ou dos continentes, com uma trintena de novelas escritas, maioritariamente (ainda) na Albânia e sobre o sistema político albanês que era tão comunista, mas tão comunista, que levou a República Popular da Albânia a abandonar o Pacto de Varsóvia, numa época em que seria impensável e imprevisível o desfalecimento deste, que aliás culminou consequentemente com a derradeira queda do Muro de Berlim, que vinculava a divisão europeia conforme os postulados da Guerra Fria, porque – como terá afirmado o camarada Mehemet Shehu, [JC3] no seu discurso à Assembleia Popular, no dia 12 de Setembro de 1968, denunciando o conluio sovieto-americano e as ignóbeis manobras do social-imperialismo russo – «a União Soviética se convertera na principal força da contra-revolução internacional[JC4]
Isto é,
[1] não obstante referirem-se à literatura como uma arte em vias de extinção, excepto quando dela se pode partir para produções multimédia, o que ninguém pode duvidar é que ainda há alguns prémios que a põem na ordem do dia e nos noticiários, não por aquilo que ela é, senão veja-se o exemplo de Caim, de José Saramago, e da polémica e melindres religiosos que suscitou, e Ismail com o seu O Acidente revelou a fragilidade da crise, somando à apetência literária dos escaparates a qualidade de uma escrita da qual nos arredámos desde Ferreira de Castro[JC5] , que teve a virtude de escrever sobre política, sem fazer política, que é um dos tais abacaxis que suscita enredos maiores que o enredo da narrativa propriamente dita, a que não se pode fugir (impunemente), embora tenha exercido o cargo de deputado da Assembleia Popular de Tirana, entre 1970 e 1982, exactamente oito anos antes de ter obtido o asilo político em Paris, em Outubro de 1990, onde vive desde então em vizinhança com a Sorbone e o Jardim do Luxemburgo, resistindo assim até aos 54 anos a uma dose excessiva de ditadura, que fulminaria qualquer intelectual por mais light que fosse, mas não só, acrescentando-lhe mais 20 anos de resistência à democracia que, como todos sabemos, também não nenhuma pêra doce, sobretudo para quem pretende usar algum do tutano que lhe preenche a caixa dos pirolitos.
Com fama de taciturno insociável, trajando a sempiterna gabardina castanha, é, porém, um tímido sobrevivente à desilusão e motivo de esperança ante o mistério repressivo do estalinismo de segunda geração, incansável revisor da sua própria obra, que revisita e altera regularmente, sobretudo nas edições de língua albanesa, revendo continuamente as suas novelas sob a exigente bitola de um critério literário, para quem a literatura se convertera numa segunda pátria, jamais se isolou e despojou do contexto sócio-político nem do mundo que o rodeia, mas a quem democracia francesa nem a ditadura albanesa modificaram a sua maneira de escrever,
de escritor de pedra que cinzela as palavras[JC6] , e que afirma de a sua arte ser uma arte mágica[JC7] , conscien­te das suas inequívocas origens ou proveniência balcânica, sabe contudo e por isso mesmo que nunca deixarão de descortinar conotações políticas em cada uma das suas palavras, novelas ou obra, por mais que insista em glosar outras demandas que vão para lá do confronto ideológico, bem como da rotulagem que lhe aplicaram antes e depois do seu exílio em Paris.
Expatriado dessa Albânia que em pouco tempo sofreu três períodos históricos totalitários de graves consequências no inconsciente colectivo (:o império otomano, a ocupação nazi-mussoliniana e o regime comunista de Enver Hoxha), e desenraizado, senão suspeito de ligações "subterrâneas" à ditadura que o expulsara,
nessa França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, [JC8] que também sabe ser madrasta e apenas mãe para quem, a fala sem sotaque, e fluentemente a escreve, é porém a sua criação a prova incontestável do que ele mesmo afirma, reiterando em entrevista a Ruben Amón[JC9] , que «não há boa literatura que provenha da felicidade e bonomia. É a dor, o sofrimento e até o drama que nos inspiram e atraem. Não para nos deleitarmos com o mal e o pranto, mas sim para superá-los através da palavra compartilhada», como decorrerá noutras artes, e com outros criadores, nos quais se não verifica uma sublimação do mal mas antes uma exorcização superadora, coisa quiçá diferentérrima, que nos impõe a evidência de não haver no mundo, desde a inovação da escrita, qualquer grande obra literária com final simplesmente feliz sem cheirar/tresandar a lamechismo hipócrita.
Participou e fez parte das principais instituições políticas albanesas, tendo até sido deputado, e esteve à frente da União de Escritores, assim como beneficiou – pelo menos da fama ninguém o livra, consequência da sua ligação e amizade com o
escritor Bashkim Shehu [JC10] – da protecção pessoal do ditador, sem nunca deixar de ser um escritor não alinhado com as directrizes do Partido, que não era dissidente nem porta-voz do regime, um tipo em que se não podia confiar, porque escrevia e pensava livremente, coisa perigosa!, sem se ater à cartilha do realismo socialista, nem às necessidades de propaganda do Partido do Trabalho, esfumando-se e diluindo-se sorrateiramente entre ódios e campanhas difamatórias, deveras profícuas e eficazes, na cosmopolita Tirana, estabelecendo uma relação de amor-ódio tanto com os seus conterrâneos comunistas como com a burguesia albanesa exilada, agradando e desagradando a gregos e troianos por igual medida, numa devastação sintomática do exacerbado corporativismo do século passado.
Muçulmano que bebe álcool e como carne de porco, sensível e adepto do aconchego familiar, admirador de Esquilo, Cervantes, Dante e Shakespeare, como a quase totalidade dos intelectuais europeus ou ocidentais, sofisticado e perfeccionista, detentor de um estilo depurado, ruminante, que intenta a cada revisão lapidar os seus textos sem, contudo, deixar perder qualquer particularidade essencial da sua “profunda originalidade” anterior, margens intertextuais muito próximas do veio de Joyce com características falkinianas (mas sem remorsos), cinéfilo e cuja imagética raia, não raramente, embora seja mais notória em alguns títulos que noutros, a tecitura do argumento fílmico, tanto que, aliás, inspirou diversas adaptações cinematográficas, como O General do Exército Morto (
filme de Luciano Tovoli, com Marcello Mastroianni e Anouk Aimée), Abril Quebrado (filme de Walter Salles, com conversão da trama para ambiente brasileiro) e Uma Questão de Loucura (aguasdeceniza.blogspot.com/2009_03_01_archive...) é, porém, indubitável que a alma da sua escrita – ou dinâmica, para quem sente pejo em atribuir alma a criações não viventes, no sentido restrito do termo –, porque toda a sua obra gira à volta da fascinante e terrível história do seu país, sendo de natureza política, onde palpita a constante aspiração a um outro mundo melhor em condições e respeito pelos Direitos Humanos, está enraizada na ancestralidade hermética da sua cidade natal – a misteriosa Gjirokastrta.
Precisamente a mesma em que Enver Hoxha nascera, e exactamente na mesma rua, embora em datas díspares, berço comum a Ismail, plano de fundo que terá influenciado a que um dos personagens (negras) marcantes de várias novelas fosse o ditador, como no caso de
O Sucessor[L11] , O Concerto [L12] e O Grande Inverno[L13] , onde, como nos demais livros reflecte sobre as dificuldades com que um escritor se depara dentro de uma prisão livre semelhante a qualquer país do género da Albânia desde 1940 a 1990, pelo menos.

O PALÁCIO DOS SONHOS

Narrativa alegórica de inspiração kafkiana, em que o poder ditatorial, não satisfeito por controlar ferreamente as mentes e mentalidades dos súbditos do império, destina e tem um palácio, composto por diversas oficinas, departamentos e arquivos, para investigar os sonhos desses súbditos, último reduto da liberdade individual, a fim de catalogá-los conforme a sua carga contestária e grau de perigosidade.
"Permaneceu assim uns momentos, dubitativo, enquanto a caneta lhe ia pesando na mão, até que já baixada, ela pousou no papel e, em vez da palavra Albânia, inscreveu: Lá longe." – página 179.

TRÊS CANTOS FÚNEBRES

Pequena narrativa que incide sobre os paradoxos de uma região reclamada por sérvios e albaneses, e que foi conquistada pelos turcos no século XIV.

A PIRÂMIDE

(Primeiro parágrafo de A Pirâmide:)
«Quando numa manhã de fim de Outono, o novo faraó, Quéops, que subira ao trono apenas há alguns meses, fez saber que renunciaria a mandar construir a sua pirâmide, os que o ouviram, o astrólogo do palácio, alguns ministros mais próximos, o velho conselheiro Ouserkaf e o grande sacerdote Hemiounou, que desempenhava também o papel de arquitecto-mor do Egipto, sentiram-se perplexos como lhes tivessem anunciado uma catástrofe.»
Todavia, a pirâmide, que cabia a cada faraó, como era tradição, subiu até ao céu, cheia de segredos e labirintos, como se supunha, e os operários (sobreviventes) que nela trabalharam e congeminaram as laboriosas passagens intransponíveis às forças do mal, diligentes e compenetrados da grandeza maior da sua missão, e a que foram chamados, assim que dela saíram, por terminada estar, encontraram então a (merecida?) recompensa na ponta das armas dos soldados que os esperavam no exterior. Do que aliás, curiosidades regimentais se dirá serem, se imagina ser o fim almejado para quem suspeita que a justiça divina assenta de luva e tem o seu veículo de excelência naquele que possui o ceptro do poder faraónico…


O Acidente, do albanês Kadaré sob inspiração albigense, provençal e cavalheiresca: http://www.elcultural.es/version_papel/LETRAS/26021/El_accidente

Este Acidente é o registo de uma, mais uma, etapa na trajectória histórica desse país periférico, denominado pelo autor como o marco de linda ou limítrofe desse outro "grande país que dá pelo nome de Europa", que é a Albânia, terra sofrida e tiranizada, que após séculos de romanização (pouco contemplativa) foi ocupada pelo império otomano até 1912, data da sua independência, que afinal pouco veio a durar, dado ter sofrido a patada protectora, paternalista, do Pacto de Varsóvia em 1955, sob a égide da Lei número 2063, de 28 de Maio de 1955, consequente à ratificação do pacto de amizade, colaboração e ajuda mútua, firmado em 14 de Maio desse ano, em Varsóvia, entre a República Popular da Bulgária, a República Popular da Hungria, a República Democrata Alemã, a República Popular da Polónia, a República Popular da Roménia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a República Socialista Checoslovaca.
Nessa diatribe histórica de um povo em luta constante, de séculos e séculos, eis que na contemporaneidade vai ter que continuar a travá-la, primeiro contra a URSS e depois contra a China, e finalmente, contra si mesma, contra o seu próprio regime, encarnado no ditador Enver Hoxha, o momento preciso em que se situa o fulcro de toda a acção deste romance, aquele acidente invulgar que vai alterar o curso da História, é certo, que é quando Besfort Y e Romena St., ele e ela albaneses a viverem na Europa Central, se apaixonam, provocando o impensável, senão trágico desfecho, de um processo cívico na dialéctica do cronos, o embate brutal do amor, que não tem nada de épico nem heróico, mas antes pelo contrario envereda pela ternura e afectos domésticos do comezinho quotidiano. Eis o travo quixotesco desta grande novela de cavalaria que é a História (de uma nação por exemplo). "O curioso impertinente" que vai sufragar o amor para lá do erotismo, seja ele em versão lesbiana – com Liza Bloom –, seja ele conforme a natureza dos géneros e índole guerreira, dominadora, de um(a) sobre o/a outro(a), pleno de capitulações e vitórias, as mais delas com enormes doses de perversidade tirânica, em multifacetados registos, desde a narração omnisciente às elipses incendiárias (insights), ao relato fragmentado ou ao discorrer introspectivo e filosófico, pois tudo vale para a reconstrução dessa fatalidade trágica que é o amor, num mundo que apenas conhece a guerra, o detonar do afecto e ternura entre personagens que deviam ser acérrimos oponentes e inimigos fatais.

(Abril Despedaçado
Os tambores da chuva
[O castelo])
[1] Ilustrações: Capa dos livros O Acidente, O Palácio dos Sonhos e A Pirâmide, cartão O Leitor e fotografia de Kadaré

[JC1] Enquanto oximoro, ou oximóron, resulta plenamente e até nos esquecemos que uma das características essenciais daquilo que é profundo é estar já de si inacessível à vista, oculto nos altos fundos.

[JC2] A citação reporta-me a Oscar Wild, embora não me lembre bem em que livro a encontrei, se no prefácio de O Declínio da Mentira, se no de O Crime de Lord Arthur Savile, se no De Profundis, ou outro qualquer, posto que certo é não ser dele mas lhe andar ligada por motivos mais ou menos obscuros.

[JC3] Mão direita do ditador Enver Hoxha.

[JC4] Cadernos Horizonte Vermelho nº 6, A Albânia Abandona o Pacto de Varsóvia, edição de Isabel Barreira, em Lisboa, Outubro de 1976.

[JC5] Por exemplo, A Curva da Estrada

[JC6] Como terão sido diversos escritores portugueses, entre os quais podemos sem sombra de dúvida mencionar Aquilino Ribeiro, Miguel Torga ou, mais recentemente, Eugénio de Andrade.

[JC7] «La literatura es mágica. (...) Mi literatura es mágica, essencialmente mágica», in El Cultural, de 23.10.2009.

[JC8] Valores ideais da Revolução Francesa.

[JC9] www.elcultural.es

[JC10] Filho de Enver Hoxha.

[L11]Reportagem sobre a morte, nomeadamente o suicídio, que foi o que sucedeu a Mehmet Shehu

[L12]Tema demarcadamente ligado à coreografia política

[L13]Cujo tema principal assenta na ruptura da Albânia com a União Soviética (1961), com a Yoguslávia (1948) e com a China (1978).

10.21.2009

Sopa de ainda-não-já

"Os nomes penetram-nos até aos ossos"
Ernest Hemingway, in The Garden of Eden
Histeron Proteron*

Disse, salvo erro, Claudio Magris, no seu Um Outro Mar, que "quem palreia de direitos são os escravos, [pois] quem é livre tem deveres", e embora já me não lembre a propósito do quê ele terá proferido tal boutade, com que finalidade e acerca de que assunto, o que é certo é que o lamiré, ao caso, traz à baila os desmandos e convulsões consignados à atitude social de determinados grupos profissionais e económicos, reivindicativos se acrescentará, tão característicos do período que ora atravessamos, deste caldo pós-eleitoral em que engrossa a nossa democracia e a torna numa espécie de sopa de ainda-não-já que é o conduto típico de quem não sabe muito bem o que quer, como e porque o quer, além de desconhecer absolutamente que fazer para o conseguir. Ou seja, se antes das eleições estávamos mal, não melhorámos nada depois delas, mas pelo contrário, a crise agudizou-se e ficámos com menos meios para a combater, agravámos a senilidade do modelo político e económico, porquanto se tornou também mais incomportável e frágil a capacidade de resposta neoliberal perante as adversidades do quotidiano de um país já por si atreito a um sem-número de handicaps inerentes ao seu processo de desenvolvimento.
Se inicialmente não havia qualquer oposição ao governo, agora é o governo que faz oposição à oposição, isto é, há um partido por cujo programa foi votado nas últimas legislativas, que não pode executar esse programa porque precisa do voto favorável de grande parte da dita oposição, que foi precisamente votada (mandatada) para cumprir os seus programas, e não o do partido a quem cabe formar governo, pondo o devido ênfase no debate negocial do "ora agora mandas tu, ora agora mando eu, ora agora mandas tu mais eu" que era uma modinha que se ouvia no tempo da outra senhora, e se depurou mais tarde com "o vira das cadeiras", provando sobremaneira que Portugal mantém a tradição de ser ingovernável desde os tempos do hermínio Viriato, que deu água pela barba aos romanos quando quiseram governar este quadradinho de terra à beira-mar plantado, e os levou a garantir que somos "um punhado de gente que não se governa, nem se deixa governar", logo, sem remédio nem conserto para as (in)congruências do Tratado (também ele eivado desta peculiar deformidade) de Lisboa. Bem-feita: Arranjassem-lhe outro nome!



* Histeron Proteron – Expressão grega composta por duas palavras que significam «posterior» e «anterior», servindo isso precisamente para designar, numa figura de linguagem em que se diz primeiro aquilo que, logicamente, se deveria dizer de depois (p.e. criado e nascido, o trovão e o relâmpago), que vai a carreta à frente dos bois, que é forma proverbial que o povo português encontrou de dizer que anda ao contrário quem não sabe para onde quer ir.

10.13.2009

Ágora, filme de Amenábar




A Régua de Lesbos:
Hipatia de Alexandria já é filme de Alexandro!

"Se o Direito não pode ser maniqueu, pintando o mundo a preto e
branco sem qualquer matiz intermédio, também não pode ser meias-
-tintas, baralhando o bem e o mal lavando as mãos do sangue dos justos,
vítimas dos bandidos ou vítimas de uma justiça injusta. Se o Direito não
pode ser mole e céptico, também não pode esquecer a clemência, a suavidade, a inteligência. (...) ora, como nada é rigorosamente igual, há
sempre que adaptar a justiça, que torná-la como a régua de Lesbos, afeiçoável ao objecto a medir. Nada repugna mais à justiça que o metro-­
-padrão de Sèvres, rígido, de platina, feito pelo totalitarismo do Terror
para impor ao mundo a sua medida – ainda por cima geometricamente
errada –,"
como disse Paulo Ferreira da Cunha, in Princípios de Direito.

Hipatia, filósofa grega (370-415), ensinou, depois de aí se ter "formado", na Escola Neoplatónica de Alexandria, que está aqui ortografada com maiúsculas iniciais não por ter sido um estabelecimento de ensino mas sim uma modalidade de ensinança, onde teve também os seus discípulos, de entre os quais Sinésio de Cirene (370-413) foi o mais popular e reconhecido, enquanto ela morreu lapidada (apedrejada publicamente, coisa que Jesus Cristo impediu de ser feito a Maria Madalena por razões de conduta indesejável, nomeadamente a de exercício da prostituição, melhor referido no actual dialecto do politicamente correcto, no desempenho obreiro e profissional da indústria do sexo) por cristãos fanáticos que, não contentes e satisfeitos como o seu gesto hediondo, lhe queimaram igualmente, de seguida, toda a obra. Deste seu contemporâneo, Sinésio de Cirene (n. em Cirene – 370; f. em Ptolemaida – 413), e que foram colegas na "Escola Neoplatónicade Alexandria", oriundo de uma família pagã mas que se terá convertido ao cristianismo em 410, do que beneficiou consequentemente ter sido nomeado bispo de Ptolemaida, precisamente nesse ano, restam porém inúmeros textos e obras (hinos religiosos-filosóficos, epístolas, prédicas,etc.) que estão eivadas das suas ideias e tomadas de posição, incluindo diversas citações e incontáveis, embora que subtis, nomeios, ou referências, que não foram destruídos porquanto constituem uma reconhecida síntese do neoplatonismo cristão perdurantes na medieva e secular vaticanidade vigente desde as catacumbas romanas até aos nossos dias nos underground do poder cultural com alicerces fundados no totalitarismo e na tirania histórica.
Hipatia simboliza, de forma inequívoca e cristalina, a razão e a tolerância, e inevitavelmente o seu martírio, significará o contrário delas, o fenecido perecer destes valores, ou o que de mais desprezível podemos constatar no antropocentrismo monoteísta, enquanto expoentes máximos da loucura que sempre se abrigou no seio da "bem-intencionada e Santa Madre Igreja": o fanatismo e ignorância – o que, aliás, encontra o seu apogeu e supremo exemplo na destruição (queima das tabuinhas, pedras e fitas de papiro ou pergaminho?) da Biblioteca de Alexandria, essa mesma e acercada qual Carl Sagan terá afirmado se ela, a Biblioteca de Alexandria, "tivesse sobrevivido já teríamos [agora]colónias em Marte".


Ora, no filme Ágora (cujo trailer e demais informações estão disponíveis em http://www.elcultural.es/ ),de Alejandro Amenábar, que sem sombra de dúvida será outro Mar Adentro, enquanto filme de tese com vocação didáctica, traz a lume a pedagogia da sociabilidade harmoniosa, coisa tão grata a António Sérgio e à sua Educação Democrática como a João dos Santos na sua anti-hiperdirectividade, e institui, mais uma vez, depois de Popper, a sociedade aberta como item incontornável para a democratização do mundo, onde a sua governação tem que ser imperativamente feita pelos mais inteligentes e capazes, independentemente do seu credo, língua, género, cor ou aparência física, e enfim se denuncia como é fácil destruir algo que levou esforços e empenho milenares a construir, como se pode consumir e derreter pelo fogo, qualquer que ele seja, de artilharia como energia comburente, quer da paixão ardente e delirante dos antípodas, como da opressão preventiva a maiores males, e na evitação destes, apagando assim da face da Terra o trabalho de séculos e séculos, numa fracção de horas, e como na suposição de tentar o bem, pela parte de uns quantos, se acoitam os maiores crimes e criminosos, permitindo-lhes a prática do maior mal possível, que indubitavelmente é o de decepar-lhes a vida.
Astrónoma, geómetra, matemática, melómena, cientista, pensadora, poetae pedagoga, cuja cerne de sua essencialidade reside na miscegenação ontológica, que tem «en su escuela a personas de todas las religiones», e fez da vida, curta mas intensa, se dirá, uma constante e incansável busca intelectual, não obstante os seus dotes físicos, beleza, sensualidade e capacidade de sedução, e da sua riqueza pessoal, não viu porém que ao semear o seu brilho estava igualmente a incendiar as invejas, os sentimentos recalcados que se transmudariam em ressentimentos agressivos, e sofreu, por estar mais à mão da (in)justiça humana sob tutela da apropriação do divino, tudo aquilo que almejaram infligir à divindade pagã Vénus, a Arina solar (do feminismo heliocêntrico), com quem os talibans de outrora ainda não tinham saldado as contas nem satisfeito todas as vinganças obscurantistas, tal e qual como hoje em dia grande parte dos papistas mais papistas que o próprio Papa ainda não satisfizeram, e por se entretêm a infernizar e desdenhar quantos não lhe devotem culto, nem propagandeiem a ignorância e mediocridade como supra-sumo da cultura em que exercem seus misteres
.
Pelo que dele digo, não só que é um filme a não perder, mas também que é um tema que nos faltava há muito revelar, embora já estivesse de há muito referenciado no meu discurso, conforme o testemunha o poema constante em http://escribalista.blogspot.com/ intitulado Ângulos de Soprar as Areias Raras

10.02.2009

Onde param os Nulos?

Espionagem Científica...

Eis uma tradução de Alfredo Barroso, que reporta e traz "à tela do debate um dos aspectos mais importantes da espionagem contemporânea: a espionagem científica. É esse o assunto que Jacques Bergier nos vem expor numa obra solidamente documentada e de leitura apaixonante", e que, pese embora a persistente intenção de inúmeros, bastos e recomendados auspícios da nossa asfixiante provincianidade, jamais lhe serão reconhecidos demais méritos do que aqueles que cabem à mera ficção.
Há questões pertinentes entre os impertinentes da política que não passam com manobras de diversão presidenciais nem fait-divers entre órgãos de soberania... Principalmente porque é preciso cuidar do silêncio dos desafortunados políticos como se este fosse a sua maior fortuna; isto é, como disse alguém acerca de outrem, nos idos anais dos desaguisados entre Pessoa e Almada, o génio se revela de superior talento quando sobretudo reside em se não manifestar. É pela sua genial não-manifestação que encontra o grau superlativo nos subentendidos que lhe dão forma e justificam existência "superior". Como a liberdade na democracia madeirense, cujo élan e vigor expressivo se nota e regista acima de tudo nas evidências da sua amputação. Ou a libertação das mulheres que fugiam à opressão patriarcal casando, tão cedo quanto lhes permitisse a biologia, com um senhor mais velho e endinheirado que as sustentasse, controlasse até ao ínfimo pormenor, e no detalhe dos estilos, evitando que frequentassem leituras perigosas, que lhe endemonhiassem a alma e afogueassem o corpo, que por conseguinte sem censura eram banidas de suas casas e convívio, por medíocres e de cordel serem, popularuchas e intriguistas de vedado acesso, pelo menos, a acreditar na ficção romanesca de antes e depois de Camilo Castelo Branco.
Anteriormente à Lei da Paridade havia mais uma mulher que hoje em dia há, de acordo com os resultados eleitorais vigentes, na Assembleia da República, pelo que mais uma vez demonstrada fica a genialidade desta lei, cuja eficácia se revela categoricamente pela sua não-verificação, tal-qualmente o talento do Almada e o génio do Pessoa, que melhor se revelavam quanto pior se notavam. Ou seja, estamos quase lá, porquanto só falta mesmo, é bater a bota com a perdigota!
Por outro lado, tal como o boémio tunante que retorna a casa tanto mais cedo quanto mais tarde o faz, para quem o "de manhãzinha" não é hora de levantar mas de deitar, também nesta democracia maior é o democrata quanto maior for o número daqueles que impedir de o serem – democratas, digo eu!
Logo, se impedir que demais forças políticas disseminem a sua mensagem, propalem a sua Boa Nova, ainda que esta seja tão trotskista como a chuva que caiu há cem anos; se impedir que os eleitores sejam informados das propostas que os opositores reiteram; se produzir tantas incompreensões e equívocos que a nata das virtualidades ofusque totalmente a liquidez da realidade; se posar de boa figura entre os figurões e figurantes do alardeio fácil e insubstantivo; então, vencê-las-á inevitavelmente, na prontidão das urnas que se alentam no fúnebre encanto da pluralidade e tolerância, que são coisas que ficam muito bem ditas mas devem ser evitadas a todo o custo, não vá a democracia entretecê-las com as linhas do quotidiano. E principalmente, se além disso as denegrir com convicção e vigor melhor será a sua vitória e retumbante o êxito da operação "assalto ao poder", que é o supra-sumo da razoabilidade democrática, independentemente da agudização da crise e multiplicação de insustentabilidades várias, no agravamento das nossas condições e qualidade de vida.
Dirão daí que também estas são "suspeições absurdas e infundadas"? Então onde param as percentagens e o número de votos anulados? Porque se não disponibilizam eles para poderem ser analisados por quem quiser fazê-lo? Que ansiedade é que leva a esconder o rabo do gato esquecendo que o bichano vai todo à mostra? Sinceramente, não percebo, custa-me deveras a entender, como é que trinta e tal por cento dos votantes se deslocou aos locais de voto, precisamente para não votar, ou se enganarem inutilizando o seu voto, invalidando o seu gesto, num assinar de cruz um cheque que lhes há-de sair certamente da conta? Há assim tantos disléxicos políticos em Portugal que dêem para formar três partidos com direito a subvenção? Ou, por outra, há tantos eleitores disfuncionais que carece de aplicar Viagra político como vacina prà estirpe?
Ou não será esta polémica entre Sua Excelência, o presidente da República, e o pseudo-extinto governo socrático mais uma manobra de diversão ensaiada por ambos para desviar as atenções daquilo que é realmente sério, enfim, o elevado número de votos nulos, de entre os quais se adivinham figurar inúmeros propositadamente/intencionalmente/criativamente transformados de válidos em nulos à última hora, na “boca” das contagens?... Bom: se se chegar a saber isto, sem que ninguém o venha a dizer, comunicar, informar o pagante, não se acanhem… E depois, por exemplo, chamem-lhe espionagem!

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A pessoa entre as sombras de ser