La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.28.2008

Ainda Somos Humanos

Resolução da Assembleia da República n.º 24/2008
Divulgação às futuras gerações dos combates pela liberdade na resistência à ditadura e pela democracia
A Assembleia da República resolve, nos termos e para
os efeitos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo que crie condições efectivas, incluindo financeiras, que tornem possível a concretização dos projectos das autarquias e da sociedade civil, nas suas variadas formas de organização, designadamente:
1) Apoio a programas de musealização, como a criação de um museu da liberdade e da resistência, cuja sede deve situar-se no centro histórico de Lisboa (antiga instalação da Cadeia do Aljube), enquanto pólo aglutinador que venha a configurar uma rede de núcleos museológicos, podendo aproveitar-se outros edifícios que sejam historicamente identificados como relevantes na resistência à ditadura a par da valorização e apoio ao Museu da Resistência instalado na Fortaleza de Peniche. O Museu da Liberdade e da Resistência deve constituir-se como importante centro dinamizador, em articulação com escolas e com universidades e outras instituições e organizações que já hoje desenvolvem relevante e valiosa actividade na recolha de documentação e outro material com valor museológico, da investigação e da divulgação da memória da resistência à ditadura;
2) Constituição de um roteiro nacional da liberdade e da resistência, através dos lugares e de edifícios símbolo considerados de interesse nacional, no âmbito da resistência e da luta pela liberdade, incluindo, naturalmente, aqueles que são referências importantes na vitória da Revolução de 25 de Abril de 1974, e, se possível, a adopção de medidas de preservação e seu aproveitamento, nos casos mais adequados, como espaços de conservação, investigação e divulgação da memória histórica;
3) Promoção e apoio, junto das autarquias, das organizações e instituições de carácter local e regional, de uma política de constituição de roteiros de âmbito local e regional como importante elemento constituinte da memória no plano local, que promova a investigação, o reconhecimento e a divulgação dos factos e protagonistas locais da resistência e dos combates cívicos pela liberdade e pelos direitos humanos. Esta acção pode concretizar-se quer na toponímia quer na referenciação de espaços e edifícios, em obras de arte, em espaços públicos, em publicações, em eventos e em actividades orientadas para as escolas;
4) Concretização e desenvolvimento de uma política de organização e tratamento de arquivos com base no Instituto de Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, aproveitando o trabalho muito positivo que já vem sendo desenvolvido, promovendo a coordenação com outros arquivos e centros de documentação com actividade relevante nesta área, afectando os recursos à sua concretização;
5) Apoio a programas de investigação em história, sociologia, economia e áreas afins dedicados ao período do Estado Novo de modo a disponibilizar aos investigadores interessados recursos e meios de apoio para os seus projectos noquadro dos programas de estímulo à investigação científica;
6) Recomendação para que o órgão competente promova, ao nível do ensino, incluindo ao nível dos programas curriculares, os valores da democracia e da liberdade através do conhecimento da nossa história contemporânea, com referência ao período da ditadura, ao seu derrube em 25 de Abril de 1974 e ao processo de consolidação do regime democrático, como contributos que permitam não só uma melhor compreensão da nossa história e identidade enquanto país livre e soberano mas também para a formação de uma cidadania mais responsável e esclarecida;
7) Edificação, em articulação com o município de Lisboa, de um memorial em Lisboa que, como monumento público e de modo permanente, exprima a homenagem e o reconhecimento nacionais ao combate cívico e à resistência em prol da liberdade e da democracia;
8) Devem igualmente ser apoiadas, nomeadamente em articulação com as autarquias locais e com a sociedade civil, nas suas variadas formas de organização, as iniciativas memorialísticas noutros locais do território nacional que exprimam a homenagem e o reconhecimento ao combate cívico e à resistência em prol da liberdade e da democracia;
9) Desenvolvimento de uma política de cooperação, no quadro das relações entre Estados soberanos, com os Estados surgidos das ex-colónias portuguesas, para preservação do património de luta comum pela liberdade, nomeadamente o campo de concentração do Tarrafal.

Aprovada em 6 de Junho de 2008.

O Presidente da Assembleia da República

Jaime Gama

6.27.2008

A Refeição Ganha

Há rios e Rios; uns correm, outros, fazem correr...
Naquele tempo, ainda o tempo era o que era. Embora prenúncio de Primavera (marcelista) que não passou de Outono, as alterações climáticas apenas se faziam sentir no aquecimento interno dos ambientes políticos. Sabíamos sempre em que estação estávamos, e se chovia, ventava ou nevava com frio de caramelo, então não havia dúvida nenhuma e estávamos no Inverno (do nosso descontentamento, dizem alguns... maldizentes); agora, se sentíamos o ar a estralejar lentejoulas, havia aquele calor abafado e seco, que nos impede o correr ligeiro na retouça das férias (grandes), isso significava que o Verão viera – e para durar. Entrementes, amenizadas as têmperas, ao aprazível florido das plantas ou chilrear tagarela do passaredo, o cabriolar da criação e o esgaravatar cacarejante das aves de chão com ninhada, ensinando aos pio-pios como se tratava de vida, o óbvio tornava-se certeza, porque Primavera, enquanto se o assim-assim da queda das folhas coloria de amarelo-torrado o pátio do recreio, estava nas ventas que era Outono. Não falhava.
Mas aos três anos, o feitiço das nuvens negras intempestou-me e assombrou-me a existência. Poliomielite, disseram os médicos; paralisia infantil, repetiram os chegados. E baralhado, durante um ano, fiquei eu no tem-te-se-não-cais, que ao passamento desta para melhor costuma assistir para assisar nos infortúnios. Todavia, safei-me. Choques eléctricos, xaropes pastosos, medo de andar, urinar com destempero, gritaria no condomínio, peninha dos adultos e incompetentes. Os meus avós é que não estiveram pelos ajustes, e puseram um basta na salganhada. Havia de crescer e andar, que muito pode uma vontade feita de duas!
Portanto, à volta do Maio dos meus quatro anos, a coisa deu-se. Hábito do bom tempo, depois de estendido um pano da azeitona e, sobre este, uma manta de trapos, debaixo da figueira, ao lado do forno, logo à entrada do pátio do monte onde moravam – Tapada da Casa lhe chamavam –, enquanto o meu avô ensinava, no cocuruto de uma oliveira, aos pombos de puxo o sobe e desce de ganhar a vida, por não andar, em cima da manta me punha minha avó para brincar, recomendando ao Rio, um cão de pêlo áspero e esbranquiçado, cuja raça nunca soube, embora me palpite rafeiro alentejano cruzado com podengo:
– Guarda-o aí!
E ele guardava. Quer dizer: fazia isso e aturava-me as heresias, os puxões de orelhas, as sacudidelas e arrepanhar do pêlo, com que o recompensava pelo desempenho e cumprimento da ordem. E com mestria. Sabedoria animal, a quem causa espécie, não sair uma pessoa do lugar onde a põem...
Ora, naquela manhã, em que provavelmente mais de trinta patifarias lhe tivera feito, que ele aguentara sem um estremeção de ira ou dor, nos seus olhos grandes, cor de mel de rosmaninho, quando lhe finquei a mão direita no dorso, aproveitou o Rio para acabar-me com a mandriice, levantando-se do chão e levanto-me com ele, iniciando caminhada lenta mas determinada, que, passo a passo, apenas acabaria no centro do pátio, circular, com mais ou menos setenta metros de diâmetro, após o que, ladrando eufórico a sua vitória, cabriolou em redor de mim, desafiando-me para a retouça, até que minha avó reparou na aventura do raid, foi à esquina do forno, e gritou para o meu avô «Joaquim, anda cá ver isto!!...»
E ele "veio". Não me lembro ao certo da sua expressão, só que conhecendo-o eu de outros quinhentos, deve ter sido a mesma que inúmeras vezes repetira vida fora, e nele vira. Punhos fechados, aperrados, com o polegar apertado pelos dedos de encontro à palma mão, prontos a esmurrarem o destino, os braços descaídos ao longo do corpo, e ordenou:
– Porra, mulher: dá de comer àquele cão, que hoje merece ementa de doutor!
Ela deu. É que, para contrariá-lo, eram preciso muitos. E o Rio sabia-o, pois fora ele, quem o ensinara a caçar. Então, arrefinfou-lhe cinco ladradelas valentes, de contentamento, talvez a lembrar a minha avó, de que há ordens que não se esquecem facilmente. O pior foi que passados oito dias, já não parava em raminho verde, porquanto é comum acontecer-nos, se algo é temido, depois de perdido o medo, radicalizarmos, e não queremos outra coisa… Mas de que falava eu?...

6.23.2008

Mar Santo, de Branquinho da Fonseca

Mar Santo
Branquinho da Fonseca
160 Páginas

"Aqui, q'ando não há pêxe, há bailhe, pra enganar..."

"Vestidos com as camisas de quadrados de várias cores, ceroulas de fazenda idêntica, atadas em baixo, no tornozelo, na cabeça um barrete preto, comprido, tombado para trás, as costas contra o bojo do barco, empurravam-no para a praia. E a pesada embarcação deslizava sobre as grossas pranchas de madeira – os panais –, que lhe iam atravessando na frente. Um rapazito, "o velho da terra", corria em volta com uma bola de sebo na mão, a esfregar a quilha do batel. Soprava um vento fresco, carregado de maresia, dum cheiro de algas e de sal, que dilatava o peito."

Desta obra, ilustrada ao lado pela capa da 1ª Edição (popular) – sim, digo bem: popular, pois que dela terão havido três primeiras tiragens: uma excepcional, em papel pluma, de cinco exemplares, numerados de I a V, que ficara fora do mercado; outra de 50 exemplares, cada um deles numerados de 1 a 50; e esta, a dita cuja, para venda ao público, datada de 14 de Junho de 1952, sem referência à quantidade de tiragem, impressa na Editora Gráfica Portuguesa, em Lisboa – se disse que foi a entrada na maturidade literária do autor, não só porque ele a faz, executa, entre os seus 45 e 47 anos, mas também porque é o seu segundo romance, depois de ter experimentado as primícias da poesia, do teatro, da tradução e do conto, sob o pseudónimo de António Madeira, uso comum dos literatos da época, não por moda mas para evitar dissabores de natureza política, e principalmente porque é aquele onde melhor se nota o corte do cordão umbilical com a doutrina da Presença, revista da qual foi igualmente fundador, como José Régio, a quem o dedica, quer ao poeta, quer ao amigo. E (António) Branquinho da Fonseca (Mortágua 04.05.1905; Cascais/Malveira 16.05.1974) licenciou-se em Coimbra, na Faculdade de Direito, foi Conservador do Registo Civil de Cascais, Conservador do Museu-Biblioteca de Cascais e Director dos serviços de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, a única verdadeira escola de literatura que o povo português teve no século passado, embora não tendo a fama e notabilidade de outros intérpretes do Segundo Modernismo, como Vitorino Nemésio

(Continua)

6.21.2008

A Vida do Prazenteiro Mestre-Escola Maria Wutz em Aventhal

A Vida do Prazenteiro Mestre-Escola Maria Wutz em Aventhal
Jean Paul
Tradução, Notas e Posfácio de Fernanda Gil Costa
82 Páginas

“um romance é uma biografia enobrecida

"Mesmo em troca de uma pensão vitalícia o chantre seria incapaz de imaginar uma casa, na terra inteira, em que nesse instante não fosse domingo e não houvesse sol e alegria. Impossível!"

Quem de me dera a mim saber o que são "sílfides transparentes" para as poder convocar a fim de nos permitirem acompanhar a corrente de emoções, sob as quais baterá o coração de cada um, que se arriscar a ler este livro. Sobretudo porque falar de Jean Paul, aquele que foi considerado por muitos o Jean-Jacques Rousseau alemão, embora aqui me lembre melhor do Cândido, de Voltaire, como contraponto, é reportarmo-nos ao Weimar do século XVIII, berço daquele peculiar romantismo que resvalou para os nossos Herculano e Garrett através de Madame Stäel e Henrich Heine. Pseudónimo, aparecido em 1792, de Johan Paul Friedrich Richter (1763-1825), primeiro filho de um mestre-escola, que privou ou conviveu de perto com Goeth, Schiller, Novalis, Tieck, Hegel, Hoffman e Cruzer, além de autor de vasta obra, cujos títulos como Die Unsichtbare Loge (1793), Hesperus (1795), Quintus Fixlein e Siebenkäs (1796/97), Titan (4 volumes, 1800/01/02/03), FlegeljahreVerdes Anos – e Vorschule der ÄsthetikPropedêutica da Estética – (1804), e Komet (em 1820), nos inspiram tanto respeito como curiosidade, não só foi o ídolo das leitoras "femininas" da época como fez transpirar de inveja todos os escritores e leitores, transitando para as preferências feministas dos séculos seguintes.
Mas acima de tudo é nomearmos um escritor que, não obstante as atribulações da vida, quer no campo financeiro, quer no sentimental, veio a falecer cego oito anos depois de ter recebido o título de Doutor, em Heidelberg, e nunca se deixou abater pelo meio totalitário, rústico, subserviente e traumatizante, para, em escritos maioritariamente autobiográficos com tendências para a transfiguração, se manifestar o genial reflector da visão ironicamente idealizada do seu Maria Wutz, que se apaixonou por tudo quanto parecesse uma mulher, como era comum aos homens joviais da sua espécie, talvez porque o seu amor se mantinha entre dois extremos e participava de ambos, "tal como o seio é o laço e o produto mestiço dos encantos platónicos e dos epicuristas", de ainda hoje em dia.
Em A Vida do Prazenteiro Mestre-Escola Maria Wutz em Aventhal, a que a Colibri anexa além da bibliografia e quadro cronológico, também um posfácio da tradutora, conta-se a história singular de um homem apagado, possuidor de uma orquestra de aves engaioladas, passarinheiro portanto, inventor copista de obras-primas que, não tendo dinheiro para comprar os livros cujos títulos tanto o arrebatavam, na feira do livro anual da sua aldeola, os inventava de sua lavra imaginando o que poderiam ser, em manuscritos preciosos à luz dos quais os originais se supunham plágios mal feitos, tornando-o o único proprietário de uma autêntica biblioteca de manuscritos inéditos como nunca houvera desde Alexandria.
Afinal, o drama de todos quantos, tendo vidinha pueril e fútil, se recorrem da fantasia para tornarem a sua mísera existência numa experiência extraordinária e sublime, porquanto consta que Maria Wutz, não só contraíra o "vício da leitura", mas tão afectado ficara, que lhe adviera igualmente o " vício da escrita" que, ao tempo, era sobremaneira mais condenável que o primeiro, mais blasfemo e repugnante, e o entretecera de regras e postulados, ou reflectidos parágrafos da arte de ser feliz, que como sabeis, e podereis constatar diariamente, é outro vício incorrigível e pernicioso de que os mais diversos poderes, ou instituições, tentam "salvar" a humanidade. E tudo isso coisas assaz odiosas já naquelas eras, anos de mil e setecentos e troca o passo, onde não haveria carestia de combustíveis que nos assombrassem o dia a dia, nem buzinões e greves dos camioneiros, ou derrotas das queridas e patrióticas selecções de futebol, como agora há.
Pois perante o optimismo do prazenteiro Wutz, também Maria e por sinal, que aliás se revelou bastante cedo, ainda ele seria estudante interno num albergue de praças e praxes monastéricas, nomeadamente as dos votos de obediência, pobreza e castidade, tão familiares ao universo estudantil da tradição de então como actual, o mundo, à porfia, tudo fez, e o que não pode fazer inventou, para lhe infernizar a vida. Inclusive fê-lo vítima do flagelo da paixão, que vira as existências mais singelas do avesso e não se compadece minimamente com a necessidade de sossego das almas contemplativas à deriva pelos bucolismos rurais e provincianos. E as torna contumazes para regozijo da justiça (quiçá divina) impoluta e vingativa de quantos apenas entendem que só há uma forma de se ser humano: à sua semelhança e ordem. E em cacifos devidamente compartimentarizados!

6.18.2008

O Homem Ilustrado



O Homem Ilustrado
Ray Bradbury
Trad. Eurico da Costa
216 Páginas

Os contos que compõem esta colectânea, embora se sucedam de forma inesperada e imprevista, ou cuja não é superintendida por nenhum encadeamento lógico, funcionam estruturalmente como flashbacks extraídos à experiência ilustrada de um homem tatuado com imagens tridimensionais. É no seu corpo/tela que elas se observam e se movem; e cada parte dele, cada centímetro de pele pergaminho, relata uma história inaudita e diferente. Ao narrador, a quem esse homem se junta para passar a solidão da noite, mais não compete que contar o que vê nele; mas o discurso é de Ray Bradbury, recheado de fantasmagorias marcianas – seja lá o que isso for e signifique –, prosopopeias, animismos, projecções irónicas, imagens e demais alucinações típicas do figurativo literário, que abastecem o universo da retórica inebriante surrealista, e nos conduz aos antípodas da estranheza, principalmente daquela que é logicamente possível em ficção científica. Contos lidos uns, imprevisíveis e esquisitos outros, mas fantasticamente credíveis todos, em sua tangente raiação com o impossível, são maioritariamente transpostos em Marte, que continua vermelho e ideal mesmo depois de todos os vaivéns que lhe conhecemos, e utópico sim, sobretudo para essa gente que aposta em manter aceso o direito ao sonho de serem felizes.

Ou seja, este autor, mesmo para os que já leram O País de Outubro, Vozes Marcianas, Crónicas Marcianas, Mundo Marciano, A Última Cidade de Marte, continua a sugerir-nos e sugestionar-nos as raízes quadradas dos círculos, autoriza-se a provar-nos como, ainda que a imaginação não tenha chegado ao poder, conforme era slogan dos terrenos e verdes anos revolucionários, os deuses devem e podem continuar a lutar, porquanto ao usufruí-la nos dará sempre a possibilidade de dele – do poder, digo eu –, prescindirmos com orgulho, com prazer e sem remorsos. Porque nos facultará igualmente outro poder que só muito dificilmente alguém poderoso terá acesso...

Sherlock Holmes Contra Jack, O Estripador

Sherlock Holmes Contra Jack, O Estripador
Ellery Queen
Trad. Eduardo Saló
192 Páginas

O plano de fundo que sustenta a presente obra, é das maiores confusões que já alguma vez a literatura engendrou: dois primos (Frederic Dannay e Manfred B. Lee – 1905-1982 –, ambos redactores publicitários, e não obstante tenham passado a vida a discutir), criaram de parceria um narrador-detective, a atender pelo chamamento de Elery Queen, que não só veio a tornar-se mais famoso que os seus criadores como a sobreviver-lhe, porquanto continuam a sair novelas suas, ou da outra parelha suplente (Manford Lepofsky e Manfred Bennington Lee – 1905-1971),sabe-se lá!, que, auxiliado por um playboy com o aristocrático e principesco nome de Grant Ames III, se insurge contra a autoridade de Sir Athur Conan Doyle e sus muchachos, nada mais, nada menos que Sherlock Holmes e Dr. Watson, para a identificação desmascaramento do cruel serial killer londrino, Jack, de cognome, O Estripador.
Imaginosamente – ou nem tanto – Ellery parte na peugada do sinistro assassino montado na pena do Dr. Watson, quando Grant Ames III lhe impinge um diário inédito do diligente e esforçado repórter ou principal testemunha da aventureira e celibatária existência de Holmes. Lançado o desafio, estabelecida a igualdade de oportunidades e de acessos aos dados, estala então uma corrida de "mano a mano e par a par", cujo desfecho tem como inequívoco e excepcional beneficiado o leitor, pois pode assistir, de camarote, ao desenrolar e desdobramento de duas mentes e lógicas de raciocínio tão diferentes, quer nas suas génese e formação, quer nos tempos, ritmos e habitats, quão eficazes na comum tarefa do arrebatamento – porque é sempre disso que se fala quando se fala de arte, sobretudo se de literatura (ainda que de cordel).

A Study in Terror, que também veio a ser o título original do filme que se lhe baseou, pelo Colombia, com John Neville, Anthony Quayle e Georgia Brown por protagonistas, teve a sua primeira edição em português, tanto quanto sei!, no ano de 1966, data que, curiosamente, coincide com a do lançamento em inglês, pela Casa Portuguesa (com certeza), em Edições de Bolso, cuja tutela editorial (suponho) cabia a Luís de Campos – esse mesmo e se calhar, a quem devemos O Estirpador de Lisboa, de 1984, e que terá provocado ferrenha celeuma e zunidor burburinho durante vários anos seguintes –, já então traduzido por Eduardo Saló. Mais tarde terá vindo a ser publicado pelas Edições 70, na Colecção Alibi, da qual é a figura de proa e número um. Mas, comparativamente, quer nos formato, quer na encadernação, poucas alterações sofreu, à excepção de pequenas diferenças na composição e justificação do texto, resultantes, provenientes e em consequência de erróneas interpretações em algumas "incoerências" da primeira grafia, que em nada vêm a prejudicar o produto global, e trabalho final, e antes lhe emprestam pontuais diversidades que, de acordo com o costume, são o peculiar sal do coleccionismo.

6.16.2008

Vergílio Ferreira, por Maria Joaquina Nobre Júlio

O Discurso de Vergílio Ferreira Como Questionação de Deus
Maria Joaquina Nobre Júlio
350 Páginas

Tese de doutoramento da autora, este livro enuncia uma perspectiva teológica de abordagem à obra de Vergílio Ferreira, perspectiva essa que, já em desuso nas análises literárias, ainda se justifica, e é mesmo a mais adequada, em determinados autores onde a presença de Deus, não só pela inquietação ou apaziguamento que lhes facultou, se fez veio ou filão de verve. Portanto, percorrendo todo o corpus literário daquele que, em língua portuguesa, para além de Aquilino Ribeiro, claro está, foi quem mais mereceria o Nobel – sem obstaculizar ao existente e na minha humildíssima opinião –, descobre, raspa, revela, escrutiniosamente, ou como por escrutínio, a questão essencialista do linguajar vergiliano, que é a de decidir se Deus existe ou não, como se estas fossem duas respostas que andassem continuamente a girar na tômbola, havendo tanto para o "sim" como para o "não" as mesmas probabilidades de sair, posto que em caso afirmativo, então quais seriam as suas relações com o Homem, inquietude contínua, obsessivamente testemunhada e bem presente em toda a sua obra, desde a Aparição numa Manhã Submersa, Até ao Fim e Para Sempre num Caminho Que Fica Longe de Vagão J na Conta-Corrente do Espaço Invisível feita pela Arte Tempo duma Carta ao Futuro, provando uma vez mais que todo e qualquer questionamento se reproduz em procura, que caprichosamente outra coisa não é, do que a antecâmara de um encontro (especial, se ansiado).
E fá-lo numa tentativa de reconstrução do percurso intelectual do pensador, entrando a autora em diálogo aberto e franco com o homem que gritou a sua dor ao céu aparentemente vazio, que clamou a sua fome de viver a um Deus descoroçoadamente mudo e impotente, vulgarmente ímpio, não desconhecido como o de Steinbeck, mas igualmente mágico e contundente, que ao negar-lhe as certezas o atira para a ficção, qual mentira inventada onde cabe também a verdade, por mais incompreensível e inacreditável que esta se revele.
Prefaciado por Manuel B. Costa Freitas, complementado pelas bibliografias de Vergílio, vergiliana e geral, precisamente compartimentadas, este trabalho garante-nos a particular mais-valia de ter sido lido pelo autor, bem como estimulado, e quem, ainda em vida, foi em grande parte responsável pela sua génese, tal qual como se esperava que fizesse uma Simone Weil portuguesa, igualmente testemunha de Deus, como marca radical da ambiguidade, sobretudo máscara e não apenas espelho, que facilita ao homem falar de si, dos seus medos e dos seus sonhos, das suas fraquezas e ousadias, encantos e desencantamentos, e concebido com a idade e mortalidade das demais coisas humanas, para melhor facilitar o propósito de reposicionar o leitor face à morte da fé, da trivialidade, do criancismo civilizacional.
E isto em dois passos distintos: primeiro pela análise do discurso romanesco de Ferreira e depois pela análise dos textos de reflexão explícita de Vergílio, ou sejam, os seus diários e ensaios. Numa demonstração inequívoca de como ler é compreender e compreender é criar (Camus), quer dizer, imaginar, sim imaginar para desconfundir, destrinçar as pretensas diferenças que se supõe existirem entre duas coisas iguais, apodadas de escrita literária e de escrita criativa, provocando por isso que nada sejam efectivamente, uma vez que ambas assumem como partes suas aquilo que somente a escrita imaginativa é: composições literárias baseadas na formação e expressão de conceitos e imagens mentais arquivadas na memória, sob a capacidade de recombinar experiências e observações anteriores para produzir/criar impressões novas com uma finalidade específica. Isto é, que os conceitos de escrita literária e de escrita criativa são redundantes e pleonásticos, pois tentam significar ambos os termos, na sua súmula, precisamente o mesmo, ou aquilo que a escrita imaginativa diz de si, e é, num só.
Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Escritores, em 1993, a autora faz uma abordagem notoriamente interdisciplinar, característica que está sobremaneira de acordo, e a que não é alheia, a sua formação em Filologia Românica (Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa) nem religiosa (com tese defendida em Teologia, na Universidade Pontifícia de Salamanca), actividade docente e de Leitora (em Bari, Faculdades deLetras), e que transbordou para o reconhecido mérito internacional que granjeou, nomeadamente ao ser-lhe atribuído ex-aequo o Prémio da Association Internationale pour la defense de la liberté religeuse, em 1980, mas indubitavelmente empresta notável credibilidade a este estudo, além da riqueza de conteúdo que constatamos regularmente na sua leitura, fazendo dele não o livro que faltava, mas o estudo que se impunha. E sem rebuços desvirgulantes!

6.14.2008

Um Bilhete de Lotaria, de Júlio Verne


Um Bilhete de Lotaria
Júlio Verne

Trad. J. Lima da Costa
264 Páginas

A ficção de Júlio Verne não é apenas mais um registo literário de antecipação e ficção científica; é também, e principalmente, uma narrativa de costumes e tradições, um apanhado etnográfico, um relembrar do passado sob o pretexto do futuro, e uma reactualização dos valores humanos tão essenciais, quão comuns ao nosso tempo, como a família, a fidelidade, a fraternidade e a amizade, a responsabilidade e o compromisso, o trabalho e a sabedoria, a entre-ajuda e a partilha, a gratidão e a tenacidade, a fé e a esperança. (Que ainda continua verde, como sabeis!)
À parte disto, é inclusivamente, um autêntico tratado de psicologia infantil. Mas um manual muito especial, porquanto a terminologia, a linguagem em que se enuncia e expressa, o vocabulário que utiliza, obriga a uma leitura activa, de atenção contínua às prolepses e analepses, com bastantes retomadas de ponto e constantes consultas ao dicionário, tornando-a mais convidativa para os adultos, sobretudo àqueles que ainda se não esqueceram de ver o mundo pelos olhos de quem já foram, em anteriores gerações, porque a humanidade também o já foi, do que para a frugalidade juvenil, dos que preferem ir pela linha fora no prego a fundo, fruindo sim, mas sem a atenção nem o esmiuçar avaliador, por essas subtilezas e atrapalhações características do entendimento.
A acção desenrola-se na Noruega, num ambiente campesino de 1862, sob os auspícios do romance cor-de-rosa, em que o principal objectivo do escritor é voltar a juntar duas pessoas que o quotidiano separou, e a narrativa circula em torno de dois jovens, Hulda – de Hulda-a-Loura, e que a mitologia escandinava deixa errar como fada venturosa ao redor da lareira doméstica, lar – e Ole, o marinheiro seu noivo, que prometidos em casamento vêem os seus intentos frustrados, mercê de um "noticiado" naufrágio, precisamente na última viagem do rapaz e aquela que antecedia o momento da união matrimonial.
Na circunstância, Ole, ao saber-se em perigo, mete dentro de uma garrafa um bilhete de lotaria no verso do qual enuncia as suas expectativas e a situação trágica em que se encontra. Ao ser encontrado, este é entregue a Hulda, proporcionando algumas conjecturas e especulações. Até dissabores. Mas então, sendo ele fruto de um grande azar, vem depois propiciar a mais suprema das sortes – que eu não direi qual é, como é óbvio!... – num clímax perfeitamente legítimo. Mas tão legítimo, que mesmo aqueles que o lêem o sentem, e se comovem com ele. Juro!

6.12.2008

Grupo de Leitura READCOM, de Portalegre

O Estranho Caso do Cão Morto
Mark Haddon

A próxima sessão do Grupo de Leitura READCOM-IPP, de Portalegre, a realizar no lugar costumeiro, e à hora de sempre (18 horas), no dia 18 de Junho, excepcionalmente uma quarta-feira, incidirá sobre os temas Relacionamentos, Literatura de Transição e Ser Diferente, tendo por ponto de partida e motivo principal, o livro de Mark Haddon, O Estranho Caso do Cão Morto, o que, nem de propósito, é igualmente um híbrido multifacetado, oscilando continuamente entre o policial, o cor-de-rosa, o drama psicologista, a novela realista, Banda Desenhada e o romance de ficção científica, cuja actualidade e pertinência tem suscitado tanto interesse como pertinaz polémica, além de inúmeras edições em diversos idiomas.

No dizer do autor, em oportuna entrevista, uma criação que lhe surgiu inspirada pela "imagem de um cão morto trespassado por um garfo", ela mesma símile do típico "há cachorros quentes", dístico com que frequentemente se anunciam as denominadas iguarias gastronómicas, em alguns fast food, cujo alvo preferencial, de clientela, é a camada mais jovem da população, precisamente aquela que se encontra na transição entre a adolescência e a idade adulta, quando só procurava "uma boa imagem naquela primeira página", conforme afirma. Justificando de seguida quanto "para mim [ao caso, para ele, Mark Haddon], essa imagem é forte, prende o leitor e fica na cabeça. Apenas quando comecei a escrever o livro é que me apercebi que a imagem também era divertida. Mas só seria divertida, se fosse descrita pela voz que usei no livro. Primeiro veio o cão e depois a voz. Só depois de ter escrito algumas páginas é que me comecei a questionar: de quem é esta voz? Foi então que surgiu Christopher, na verdade, após já ter começado a escrever o livro." E Christopher Boone, de 15 anos, com síndrome de Asperger, uma forma de autismo, é o protagonista e narrador desta aventura, um dos géneros ainda não nomeados…

Portanto, sendo apenas um romance normalíssimo sobre invenções (visões) do quotidiano, é uma óptima oportunidade de nos apercebermos como evolui o processo criativo literário, sem contudo deixarmos de nos divertir com isso... Ou, pelo contrário, não será antes uma diversão que nos saiu pela culatra? Afiance-se, confirmem-no, e digam-no para aqui, que estaremos atentos e transmitiremos o vosso parecer aos demais membros do grupo!
Aliás, que mais poderemos dizer de um livro que tem mais capas do que o “atabefe” tem de nomes?

6.11.2008

Os Tambores dos Dragões


Os Tambores dos Dragões
(Dragondrums)
Anne McCaffrey
Trad. Eduardo Saló
256 Páginas

Depois de impressionar um lagarto de fogo, há que alimentá-lo, cuidá-lo e protegê-lo. Mas depois de crescido, é ele quem nos protege, pois está melhor adaptado, e familiarizado, com as circunstâncias ambientais, ou às variações e perigos do ecossistema. Em troca da alimentação e afecto despendidos na sua formação, executará todas as tarefas de que o incumbirmos, principalmente as relacionadas com a recolha e transmissão de informações. Eis as bases práticas da simbiose mantida entre os colonos terrestres e os autóctones do "Planeta dos Dragões".
Piemur é um jovem solista, soprano, que perdeu a aguda fineza da voz com a mudança de idade. Oriundo de um meio social e económico pouco esclarecido e referenciado, uma aldeia de pastores, que o individualiza e caracteriza, emprestando-lhe aquela rusticidade peculiar aos desfavorecidos mesmo quando dotados de talento, é porém senhor de extraordinárias faculdades, nomeadamente enorme tenacidade e memória, capacidade intelectiva e aptidão para o improviso, sobretudo nas situações mais difíceis, que o apetrecham e personalizam, embora também suscite inimizades entre os seus colegas do "Cume dos Tambores", para onde fora remetido, em consequência da sua recente inaptidão para soprano. Aprendiz de Harpista, depressa cativa as atenções dos seus superiores, sobretudo pela honestidade, diligência e sentido prático evidenciados. Tornando-se, assim, o seu aprendiz de confiança, ou aquele a quem podem entregar as missões mais subtis, exigentes e arrojadas.
Numa delas, em que, com o Harpista-chefe, lhe cumpre desmascarar a falta de escrúpulos de um senhor feudal, e qualquer semelhança com alguns autarcas nacionais é pura coincidência!, a sua ousadia e brio atiram-no para um mundo agreste e desconhecido, juntamente com um ovo de dragão de fogo rainha – por sinal os mais cobiçados –, prestes a eclodir. Sobrevier protegendo a cria, é a aventura que se lhe impõe; consegui-lo, o seu salvo-conduto para a maioridade.
E acompanhá-lo nela, saber se e como o faz, a missão irrevogável para qualquer leitor que se preze... 'bora tentá-lo!

6.05.2008

A Terra é Uma Boa Ideia, de James Blish


A Terra é Uma Boa Ideia
James Blish

Trad. Alexandre Tavares
2 Volumes: 192+192 Páginas

No futuro intergaláctico, ou mundo interestelar, as cidades itinerantes, para sobreviverem, têm que recorrer aos produtos e matérias-primas dos planetas, principalmente aos fármacos e combustíveis. Para os adquirirem, pagam-nos em dinheiro ou em trabalho. Estabelecem contratos com as sociedades hospedeiras. Se os não cumprem integralmente, então tornam-se proscritas. E passam a ser denominadas por cidades-vagabundas (que fugitivas da polícia aportam novos mundos ou são exploradas como mão-de-obra barata), ou cidades-piratas, por se abastecerem à custa das outras cidades e planetas, através do saque e da vigarice.
Mas ao espaço-quando universal, em que os homens e mulheres são quase eternos – graças aos antiágicos ou medicamentos antimorte – e as cidades voadoras, que milhares de anos envelheceu e desgastou, avizinha-se o caos e a crise estrutural e organizativa, facultando e permitindo a formação de selvas interestelares, aglomerados de cidades proscritas que, sob as dificuldades em satisfazer as necessidades básicas essenciais, ameaçam a ordem intergalática.
Amalfi, o presidente da câmara da cidade nómada de Nova Iorque, N.I., prevê o fim desse sistema político e económico, e após várias lutas, escaramuças, desaguisados governamentais e peripécias evasivas ao Estado Burocrático, com o fim de se sedentarizar e fixar alicerces definitivos, atraca no planeta MCI, ocupado por uma cidade-vagabunda oriunda de Vega, que escraviza os autóctones de origem terrestre. Consequentemente, liberta a população serva do jugo fundamentalista e feudal da cidade marginal opressora, fazendo-a levantar voo e autodestruir-se no espaço. Gratos, o povo aclama-o. Quer começar de novo, regressar ao ventre ancestral, a augusta e saudosa Terra.É a Terra que procura, mas MCI o que encontra. Pelo que os itinerantes racionalizam e sublimam a diferença, com afectuosa nostalgia, e fazem desse planeta o seu berço, a sua terra. Porque "a Terra é mais do que um pequeno planeta. A Terra não é um local. É uma ideia." Boa, por sinal. E duradoura. Ou sustentável, como soe afirmar-se, acerca de tudo e mais alguma coisa, principalmente por quem desconhece o que é que a sustentabilidade significa precisamente... e em abono do rigor sobrevivente.

6.03.2008

A Face Oculta de Kennedy

A Face Oculta de Kennedy
Seymour M. Hersh
Trad. Clarisse Tavares
469 Páginas.

Kennedy era sexista, mulherengo, vingativo, despótico, drogado, arrivista e (potencialmente) homicida. Fidel Castro, se JFK não tivesse sucumbido no atentado de Dallas, em 22 de Novembro de 1963, a mais negra sexta-feira americana, provavelmente ainda hoje estaria (por razões pessoais) sobre a mira dos “mafiosos” do presidente, que nunca lhe perdoou o fracasso da Baía dos Porcos/Operação Mangusto. E um homem que, a intervalos regulares de seis horas, dava a si mesmo injecções, mas que os mass media transformaram num mito, não só para os seus compatriotas, como também para uma das partes acinzentadas do mundo a preto e branco dos imperialismos.

Oriundo de uma família bem instalada no establishment, cujo lema era NÃO SE IRRITEM – DESFORREM-SE, capazes de tudo para atingirem os seus objectivos, ou de optarem pelo errado desde que conveniente e lucrativo, viciados em sexo e poder, racistas, que passaram mais de metade da vida a fazer dinheiro e outro tanto dela a ocultá-lo (do fisco), inculcaram-lhe na formação e crescimento que, como ele mais tarde vai admitir, confirmar e executar, a única teoria política prática e eficaz é a da perseguição da vitória, e que para esta se alcançar apenas são precisas três coisas fundamentais: a primeira, é dinheiro; a segunda, dinheiro; e, a terceira, mais dinheiro – que devem temperar-se com a falta de escrúpulos, quer em consegui-lo, quer em desbaratá-lo, como sempre acrescentava o patriarca e patrono familiar se a oportunidade se lhe deparava. Pelo que “o mais duradouro legado de John Kennedy como trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos não foi o mito de Camelot nem a trágica imagem de jovem e simpático líder, abatido no auge da sua carreira. Foi a guerra do Vietname, uma guerra que, na década após a sua morte, mataria muitos milhares de jovens que ele tinha inspirado, deixando ainda muito outros à beira da insurreição.”

Enfim, um livro que saiu 30 anos atrasado e nos deixa a pensar no que poderíamos saber hoje das políticas e gestos governamentais de Bill Clinton e George W. Bush, se não tivéssemos que esperar outros tantos anos, até que os podres de ambos possam vir a lume, ser publicados e públicos, digamos, postos à disposição do processo histórico em curso, que é onde se avaliam, sem percepções motivadas nem simpatias/antipatias corporativistas, as acções dos homens e dos povos sobre o seu tempo e de como eles contribuíram (ou não) para consolidar o futuro.

6.02.2008

Memórias Eróticas de um Burguês

Memórias Eróticas de um Burguês
Anónimo
Trad. Maria Emília Feros Moura
Capa de Manuel Dias
464 Páginas

"A realidade é mais estranha que a ficção."
(Página 302)

"Uma mulher que queira conservar os seus segredos nunca deve dar a conhecer ao homem as datas dos seus períodos."
(Página 409)

"– Agrada-lhe descer à adega, Mr. S...?
Tratava-se de uma frase obscena, em calão, para as carícias com a língua aplicadas às partes privadas da mulher. "Descer até ela": por baixo da combinação ou da roupa da cama. Há uma outra frase: "praticar um pouco de fotografia", alusão ao desaparecimento da cabeça do operador debaixo do pano escuro da máquina. [Mas] a expressão mais recente utilizada pelos jovens parisienses é a de "descer à loja dos gelados."
(Página 177)

Etimologias à parte, interroguemo-nos agora, se será, ou não, possível, a um burguês ter memórias eróticas sem que lhe acrescente o travo da perversidade, do incesto e do pecado... Da depravação e do contra natura? Não. Não, porque durante séculos e séculos o erotismo foi uma transgressão; a maior, a mais animalesca e pecaminosa, conforme o ditaram os cânones da Santa Madre Igreja, profícua inventora de faltas graves e blasfemas. E a prova dessa constatação histórica, é este livro, que só pôde ser publicado sob o anonimato, em 1901, mas depois foi escorraçado de todas as bibliotecas públicas, queimado em muitas das privadas, ficando 50 anos a apurar, silenciosamente, nas catacumbas da moralidade europeia para, enfim, voltar ao prelo, sim ao prelo e escaparates, todavia por iniciativa e mãos de um "corajoso livreiro norte-americano". E que por essa data, princípios do século passado, incendiou os ânimos e atiçou os fundamentalismos moralistas londrinos contra si, não obstante essa Londres da modernidade, do progresso e do desenvolvimento, ser também o coração do espirito imperial colonialista e gérmen do capitalismo mundial.
Portanto, saber o que restou – e como restou – do erotismo de há cem anos para cá, compará-lo com o dos dias de hoje, sem descambar na pornografia sexista, gratuita, dos grandes planos e exageros de estilo, é um exercício de abstracção que pode tornar deveras útil a sua leitura, visto que comporta não só as vertentes descritivas como também as especulativas sobre o género, feita em termos epistolares, que favorece o "voiyeurismo" psicológico, recheado de triângulos orgíacos, ou de outras fórmulas do privado a mais que dois íntimos, que, enquanto modelo de escrita basilar do psicologismo literário é permitido ao leitor penetrar até ao mais recôndito emotivo (e animal) dos personagens ou protagonistas, forjando uma sensualidade indubitável e cúmplice, revelando (por dentro) quer os seus motivos, desejos, ciúmes, pulsões primárias, como a vontade de poder e queda na obscenidade. Aliás, mais que suficientes e necessárias para engalanar todas as mulheres, com um conjunto de máximas e frases feitas, e caracterizá-las genericamente como aquela espécie atreita à coqueteria e frugalidade de anilmalzinho interesseiro e estúpido, tão sumamente consumada como em nenhuma outra espécie das mais obtusas e maquiavélicas do universo. Enfim, um ser dotado de um corpo de onde pode retirar tudo o que a vida exige: sustento, prazer, poder, riqueza, estatuto social, segurança, conforto e eternidade. Pelo menos. E que o usa exactamente para tal.
Nele se conta a história de uma virgindade mitificada e sobrevalorizada, quer pelas latências circunstanciais, quer pelo espírito do autor que se pretende envolvido e testemunha dos amores pecaminosos entre uma filha e o amante de sua mãe, um fotógrafo debochado, fauno de suínas trombetadas, que sabia não ser o único a quem ela concedia os seus favores, caprichos e ternuras, no triénio (lectivo) de 1897/98/99, que é quando o relato termina, à semelhança do século que se fez velho, demonstrando mais uma vez aquilo que até a Bíblia sublinha, que é o facto de que nunca haverá maior tolo que um velho tolo.
Propondo-se mesmo como leal conselheiro e manual de boas práticas, adiantando inúmeros apontamentos úteis para qualquer intelectual que queira singrar na vida:
"«Se agir com naturalidade ninguém acreditará.» É uma atitude semelhante à da mulher que se atreve a dizer ao marido: «Sabes, querido, que o teu amigo acabou de ter relações comigo?» O cornudo desata a rir à gargalhada com a brincadeira indecente da mulher e a adúltera junta-se-lhe. Talvez vá ao ponto de contar ao amante a piada da mulher e rebentem os três a rir." (Página 303)
"Pedi-lhe que nunca deixasse de levara sério os romances, à excepção de narrativas de viagens e histórias policiais, porque os autores escrevem muito simplesmente factos da vida privada e à medida que lemos a prática permite-nos descobrir a verdade numa série de mentiras acumuladas numa história de amor com três volumes." (Página 391)
Mas a autenticidade de quanto aqui é afirmado, compete a cada um, que lê, decidir!...

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