La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

7.30.2008

Culpas Velhas

Velhas São as Culpadas Culpas


Foi há intermináveis páginas, tantas e quantas, que já mal me lembravam... Contudo, assim que constatei pelas notícias, que andavam a circular e cirandar por algumas bibliotecas públicas da nossa interioridade diversos contadores de histórias, espalhando, difundindo e contaminando bastas dezenas de criancinhas deste torrão caprichoso com o vírus da palavra lúdica, espevitei e espetei as orelhas, pus-me de atalaia e não pude conter-me de sábia indignação: «Olha, lá andam outra vez os adultos a lixar a vida aos mais pequenos! E para seu bem, formação e prazer, dizem eles», como me disseram a mim, sempre que se dispunham a enfiar-me o barrete, pensei eu.
A razão é firme, forte, experimentada e poderosa. É que foi precisamente por aí, pelo continuado ouvir de histórias e lendas que a minha avó me contava à noitinha, quase diariamente, à lareira, se de Inverno, no pátio do Monte, em caso de Verão, sentados ambos à fresca do serão, ela na cadeira de bunho, eu no botaréu da porta, com sessões especiais e encores nas quintas-feiras e domingos, que era quando meu avô Malhadinhas, se demorava na boémia das touradas televisivas ou no jogo do Truco, que calhou ela injectar-me o vício da literatura, como quem me aplica um programa de arranque para a vida, mas que se torna imprescindível e urgente no desfrutar de cada dia, pelo que, sucedendo largá-lo esporadicamente por terapias de choque e desconsolo, ei-lo de retorno cada vez mais incisivo e premente nas recaídas, numa espécie de desgraça sem a qual a existência não teria o menor sentido, excluindo-me continuamente dos círculos sociais e esferas gregárias do meu tempo, faz perder amigos e ganhar inimigos, empobreceu financeiramente mas empoleirou no sonho, como quem pratica trapézio suspenso do nada, ou daquilo que sendo alguma coisa, tem por única consistência a crença em mim mesmo, coisa tão fiável e segura como a auto-estima dos autistas e bipolares que bradam à Lua roucos, rotos, loucos e descontentes nos socalcos da sua depressão, erigindo castelos fantasmas onde anseiam encarcerar e agrilhoar seus íntimos e inventados medos. Hêin!? Diz o quê? Pois foi! Provavelmente transferindo-me o seu gosto pelas diabruras mágicas da palavra que faz história, ou da história pejada de palavras saltimbancas, como uma vingança subtil e sublime, forjada no desacerto do mundo, coisa nela nascida por mor de uma paixão não consumada por um escritor do seu tempo, que a deixou casar com um marialva, sem minimamente o ter impedido, contrariado, rogado que o não fizesse, desânimo que nenhuma mulher perdoa, nem que de tal advenha o mais feliz e próspero dos casamentos, o que não foi o caso, pois aos oito dias consumados lhe foram dadas a provar as ordens de quem mandava nos casais "perfeitos" com respectivo enxerto em corno de cabra, outro senso, adiantarão, mas que eu sublinho com manguito, porquanto me não esqueço de que isso de fazerem coisas para o nosso bem, sem que a gente tenha pedido ou encomendado o feito, nunca me cheirou lá muito são, dando ares de vingança, como essa, exactamente, de andar a repetir às inocentes e imberbes criancinhas, sequiosas de aventura e sonho, as patacoadas moralistas e lamechas dos contadores de casos, obrigando-os a hipotecar a alma e empenhar o futuro em troca de duas ou três larachas, numa hora de arrebatado deleite, êxtase mágico e quieta retouça. Ou seja, se alguém pensa que os estão a favorecer, a apetrechá-los de algo útil para as suas profissões ou felicidade, bem estar e realização pessoal futuros, tirem daí a ideia, pois é uma declarada mentira. Estão, isso sim, a armadilhá-los de ansiedade e insatisfação, e a tramá-los, e a metê-los numa fona, numa frustrante e iludória caminhada, qual carreira irreversível para inaptidão crónica,

(continua, amanhém!)

7.22.2008

Olho Neles, de Margarida Oliveira

Olho Neles


Margarida Oliveira

134 Páginas






Embora exista uma enorme diferença entre pessoas e personagens, porquanto as pessoas sejam reais e vivam concretamente, com dignidade e integridade respeitáveis, em liberdade e livre-arbítrio, mas as personagens se vejam apenas confinadas ao universo estético, no caso da literatura ao condomínio da artificialidade criativa, em que o enredo, o conteúdo e estrutura narrativa as justifica, o que é certo, é que há formas tão legítimas das pessoas viverem as personagens como das personagens reviverem as pessoas, pelo que se umas saíram das outras, estas só serão totalmente compreendidas e respeitadas se criadas elas mesmas a partir delas próprias. É aqui que reside, portanto, o núcleo fulcral, da literatura viva...
Dito isto, o livro que ora aqui vai, cuja autora não é famosa nem tem nome reconhecido nos anais do palimpsesto nacional ou universal, não é filha do Jet Set intelectual nem pivot de proa em qualquer canal televisivo, não é nenhum exemplar da literatura de supermercado, mas antes o produto de uma genuína intenção de escrita sob as desacomodadas páginas da transparência. E fala de emoções, de sentimentos, de arrelias e contratempos quotidianos, de quem vive na província, mas não abdica do seu direito de viver, nem atira com a toalha ao chão, a não ser por motivos de força maior, doença mortífera se dirá, por exemplo, para destrinçar entre as demais doenças terríveis, por serem algumas terrivelmente dolorosas, mas outras, além da dor insuportável, serem também terrivelmente mortíferas, porque incuráveis, sem todavia enveredar pelas sinuosas falésias da pieguice, da lamechice saloia e provinciana, a narradora, homónima da autora, e provavelmente seu alter-ego, descreve a saga de uma família perante a morte anunciada da figura paterna, vítima de um temor cancerígeno, cujo nome empertigado do glossário patológico, só por si mesmo nos corta o fôlego, como se anunciássemos a entrada em cena de um aristocrata do crime com firma e brasão: Glioblastoma Multiforme de IV Grau.

Aos sessenta anos, Jorge, pai de Margarida, Marco, Gustavo e Catarina, homem simples e trabalhador, emancipado e autónomo, consciente e responsável, que não bebe nem fuma, não é estróina nem anda na rambóia, extremado esposo e socialista ferrenho, agricultor, apicultor, comerciante, administrativo da EDP, biscateiro de bricolagens domésticas, pintor de pratos e azulejos, "pai" de neto, porquanto como seu avô desempenhou, na sua formação, também o papel de entidade masculina que a superintende, passa, num só golpe de asa do destino, a ter a sua vida dependente do ténue fio da esperança, das idas e vindas ao IPO, das avaliações dos exames e prognósticos cuja terminologia não domina, de medicamentos a que, quando não produzem o efeito desejado, apenas se pode redobrar a dose, de uma família antes forte e segura, mas agora seriamente fragilizada pelo choque da perda tutelar, porto de abrigo e farol de navegação sempre que alguma intempérie lhe agitava as águas do quotidiano. Longe da Anatomia de Gray ou das séries onde a ficção se alinha pela bitola das Salas de Urgência, aqui o lema para quem anseia vencer, é que primeiro tem que resistir. Resistir às contrariedades e adversidades de um Sistema Nacional de Saúde centralizado, esgarçado de acessos e hiperdepenente de serviços exteriores, desde o transporte de doentes às acções e agentes complementares de diagnóstico. Resistir ao desgaste anímico e biológico que a doença gera e o tratamento exagera, porque além dos seus efeitos secundários obriga ao corte definitivo com as teias de equilíbrio e sociabilidade anteriores. Resistir às facilidades, das quais, a mais comum e sedutora, é desistir para não sobrecarregar a família com o incómodo fardo da sua existência. Mas sobretudo resistir ao temor e angústia que a incerteza pelo dia de amanhã alcantila no zénite das horas sempre que os sessenta minutos do percurso se cumprem, abrindo novo labirinto onde tão-só a dúvida serve de corda de Ariadne. Resistir para além dos limites quando até já a palavra resistência ganhou o significado de mais dor e maior sofrimento. E desilusão.
Portanto, como qualquer família não é apenas o somatório dos indivíduos que lhe pertencem e usam os mesmos apelidos, mas essencialmente um espírito e dinâmica que os reúne e congrega, naquela que é maior ousadia das espécies, que é a de pretender eternizar a vida, arregaçar as mangas perante os dissabores é, não só uma maneira de principiar a contorná-los, como igualmente uma forma de consolidar esse espírito agregando os seus componentes à volta de uma vontade comum: salvar aquele que se encontra mais aflito. Salvá-lo da doença, salvá-lo da morte, salvá-lo de si, salvá-lo do pessimismo, salvá-lo da imagem com que os outros o pintam, salvá-lo do tempo e seus efeitos perniciosos, aquiescer-lhe a memória e garantir-lhe a sobrevivência do sonho, mas já sem a ilusória paleta de cores com que se matizam as ilusões. E isso não é fácil... Pelo contrário. É que além das dificuldades adjacentes ao estado de saúde, há ainda distâncias e adaptações a transpor, bloqueios de comunicação a sanar, expectativas que tropeçam na realidade, insuficiências farmacológicas, científicas, sociais e económicas, complementares a essa interioridade típica dos ambientes interiores, nomeadamente nisenses, onde se desenrola a grande fatia da acção, como em Portalegre ou Beira Baixa e Vale do Tejo que lhe tocam de resvés.
Daí que este livro, como exemplo daquilo que é a literatura viva, aquela que nos obriga a contar as histórias nas quais somos os primeiros envolvidos, nelas nos vemos reflectidos e nelas queremos entrar até inomináveis consequências, mesmo quando para isso não vislumbramos razão alguma, ou havendo-a, nos seja ela, de todo em todo, desconhecida, embora nem sempre a pertinácia do conteúdo esteja acompanhada da exigência técnica que lhe subjaza, sobretudo na transcrição dos diálogos ou na escolha de termos, onde a sinonímia se faz por proximidade e não assertivamente, se evidencie nos dias de hoje, uma obra imperdível para todos os que não pautem a sua conduta pelos ditames da esquizofrenia social e o autismo personalista. Enfim, que entendam a arte, neste caso a literatura, como uma excelsa forma de informar, formar, socializar, dar prazer e entrosar cada vez mais o ser humano nas relações com outros seres humanos, com os demais seres vivos e o ambiente, com as coisas e o conhecimento, com a natureza e as ideias, com as emoções e sentimentos que nos entrelaçam com o Universo, que se quer inequivocamente equilibrado. Porque ele, este livro, contribui a cada página mais e mais, positivamente mais, para o seu equilíbrio e harmonia – e quem dá o que pode, a mais não é obrigado!

7.18.2008

Aprenda a Viver Com os Seus Genes

Aprenda a Viver Com os Seus Genes
Dean Hamer e Peter Copeland
Trad. J. Santos Tavares

O assunto principal deste livro é o temperamento, entendido ele como parte fixa da personalidade, da qual à faceta adquirida se chamará carácter, e que aqui se exclui sobremaneira, porquanto os genes não se compram nem se vendem, não se alugam nem por diploma, e somente se alteram, ou mudam, para ser mais preciso, sobretudo e através do erro – e por repetição. Composição temática fundamentada nas "descobertas" da genética e da psicofisiologia dos finais do século passado, pretende apetrechar-nos com as bases sólidas que nos facilitem entender a genética actual, bem como o chegarmos ao conhecimento de nós mesmos pela via mais segura, a multidisciplinar, onde a nossa entidade é revelada não só em termos biológicos, mas contemplando igualmente as vertentes do relacionamento com os outros, o ambiente, a química e o tempo.
Os homens, por desconhecerem quem deveras são, passam normalmente a sua existência a fazer disparates (racionais) e patetices (sexistas); e as mulheres, confundem masculinização com liberdade afirmativa, imitando-os, seguindo-lhes as pegadas, para nunca lhe ficarem atrás. Por conseguinte, independentemente dos exercícios (sociais) de afirmação, quer por parte uns, quer por parte de outras, do que se fala neste livro, é da igualdade genérica que se fundamenta na história da espécie, para melhorar e optimizar o seu comum viver, ajudando-os a conduzirem-se, uma vez que, tal como é de grande utilidade o conhecimento do Código da Estrada para circular em vias de dois sentidos, também e para maior êxito, quando nos conduzimos conscientes, responsáveis e emancipados na Vida, convém que lhes conheçamos aprofundadamente os Códigos. As determinações genéticas. Os programas com carácter definitivo.
Pelo que se justifica a sua leitura, principalmente porque se faz nele eco de um leque temático absorvente e aliciante, que vai desde o instinto emocional (Raízes Genéticas e Personalidade), às motivações (Subir na Vida), às preocupações (Ver Sombriamente a Vida), à ira (Agressão, Crime e Violência), aos vícios (Álcool, Tabaco e Abuso de Drogas), até à fome (Peso e Vício de Comer), ao envelhecimento (Relógio Biológico) e a organização do temperamento (Clonagem e a Futura Política da Personalidade), passando pelos supra-sumos da existência humana que são o sexo, o afecto, as paixões (Homens e Mulheres Apaixonados) e o pensamento (Herança), numa linguagem fácil e acessível para todos, mas onde se não descuram o rigor e a concisão.

7.15.2008

NA FRONTEIRA DO UNIVERSO: EM BUSCA DO FIM DA IDADE DAS TREVAS

O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a Ciência Viva, realiza no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45 A) a conferência – NA FRONTEIRA DO UNIVERSO: EM BUSCA DO FIM DA IDADE DAS TREVAS – que terá lugar no dia 16 de Julho (quarta-feira), às 18h00, e será proferida pelo Prof. Doutor José Manuel Afonso, do Observatório Astronómico de Lisboa. Teria muito gosto em que estivesse presente nesta iniciativa.

Após milhares de anos a estudar o céu, numa história que é tão velha como o próprio Homem, encontramo-nos hoje prestes a assistir a uma revolução no conhecimento. Pela primeira vez, o Homem prepara-se para observar o nascimento da primeira luz do Universo, e finalmente compreender como se deu a formação das primeiras estruturas do Cosmos. Sabemos que pouco após o Big Bang, uma escuridão fundamental se terá instalado. Sabemos também que hoje o Universo é rico em luz, sendo as estrelas uma das suas origens.

Como se deu a transição da "Idade das Trevas" para a "Idade da Luz"? Quais foram os primeiros faróis do grande oceano cósmico? Utilizando uma nova geração de telescópios e de instrumentação astronómica, com capacidades nunca antes havidas, pensamos estar perto de os revelar.

Nesta conferência se apresentará a forma como a Astronomia se dirige, inexoravelmente, para a revelação que marcará uma época, discutindo os obstáculos que existem e como se espera que sejam ultrapassados nos anos mais próximos.

(Nota:
José Afonso nasceu a 13 de Dezembro de 1974, em Lisboa.
Graus e Prémios académicos
• 2002 Ph.D in Astrophysics, Universidade de Londres;
• 2000 Prémio Valerie Myerscough da Universidade de Londres;
• 1998 Mestrado em Astronomia e Astrofísica, Universidade de Lisboa;
• 1997 Distinção no Programa Gulbenkian de Estímulo à Investigação;
• 1996 Prémio do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa;
• 1996 Licenciatura em Física, Universidade de Lisboa;
Posição actual
Investigador Auxiliar, Observatório Astronómico de Lisboa
Área de Investigação Principal
Formação e evolução de galáxias.
Actividades de interesse científico ou académico
• Autor de mais de trinta artigos em revistas científicas com referee.
• Investigador Principal ou co-Investigador em mais de vinte propostas para tempo de observação em observatórios internacionais, totalizando cerca de mil horas de tempo de observação concedido.
• Presidente do European Science Advisory Committee para o projecto ALMA.
• Coordenação de projectos de investigação internacionais em astronomia.
• Avaliador de projectos de investigação: PPARC (UK), XMM-Newton (ESA).
• Avaliador de publicações científicas em duas revistas da especialidade, The Astrophysical Journal (2006/2007) e Journal of Astronomy and Astrophysics (2005/2007).)

Poderá também assistir em directo através do site: http://live.fccn.pt/fcg/ e enviar as suas questões ( fronteiradaciencia@gulbenkian.pt ) que o orador responderá no final da sessão. Outras informações relativas a esta iniciativa estão disponíveis no site www.gulbenkian.pt/fronteiradaciencia .

7.10.2008

Tempestades Épicas


Tempestades Épicas
Vergílio, Ovídio, Homero, Camões e Ariosto
Organização, introdução e elaboração de fichas de
Fernando Lemos
140 Páginas

A antologia ora apresentada nasce da actividade didascálica – e perdoe-se o palavrão pelo bem que sabe!... –, assim como pretende responder às necessidades de estudo, ou cognitivas, que circunstanciam as unidades curriculares de Cultura Clássica e Latim. A didascália, conforme todos sabeis e eu também (não), era, além da instrução que os actores gregos recebiam dos poetas, também o comentário, a anotação ou a crítica de peça teatral, nos meandros da latinidade. E, porque as tempestades já não são aquilo que eram, pode mesmo esta colectânea ser considerada um instrumento de trabalho, para quem se queira aperceber dos efeitos que elas tiveram, ou produziram, nas narrativas da ancestralidade. Além de facilitar a compreensão da catástrofe e da perseguição como patamares incontornáveis da escrita imaginativa, sobretudo aquela que apela para a natureza épica das culturas ocidentais, instrui qualquer um, alertando-o, para as características funcionais do travelling literário, ou aquele recurso estilístico que, através da descrição pormenorizada, de uma cavalgada desenfreada, do vogar desgorvernado de um barco em alto e tempestuoso mar, de uma pessoa ou de um grupo face à fúria dos elementos da natureza, nos leva não só a assistir-lhes como a participar "envolvidos" nelas.
Grosso modo, da mesma forma que actualmente não há filme nenhum, de acção se tratando, quer seja de guerra, espionagem, aventura, policial, western, histórico, onde pelo menos uma perseguição não seja por nós acompanhada demoradamente, ao vê-lo, e há-as para todos os gostos, desde as que se fazem de patins em linha, moto de água ou nave espacial, a pé ou em asa delta, também na Antiguidade, como é observável nos modelos clássicos, não haveria obra que não espelhasse esse tipo de acontecimentos, nomeadamente das tempestades, a fim de sublinhar a trágica condição humana, face às obscuras, imprevisíveis, avassaladoras e indomináveis forças da natureza e do destino – ou dos deuses.
São, porém, de salientar duas características peculiares desta edição. A primeira, é que além de cada tradução ser acompanhada do texto em versão do original com óptima mancha gráfica, a encadernação em capa mole, numeração estrófica e basto espaço de margem para anotações, assim como a anexação de um conjunto de fichas de trabalho, permite fácil manuseamento e uma leitura activa, sob a perspectiva da funcionalidade didáctica-pedagógica do livro; e a segunda, é que não obstante o recorte do excerto no episódio trágico, tarefa assaz trabalhosa, se manteve dele o cunho da rigorosa essencialidade, da precisão semântica, da economia textual, que não deturpa nem prejudica a compreensão da situação traduzida, quer no exemplo grego (Odisseia, de Homero, pelos padres E. Dias Palmeira e M. Alves Correia), quer do latim (Eneida, de Vergílio, por Franco Barreto, e Metamorfoses, de Ovídio, por Paulo Farmhouse Alberto), ou mesmo do italiano, como é o caso de Orlando Furioso, de Ariosto, cuja tradução pertence a Xavier da Cunha.
A contribuição portuguesa, retirada de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, se é que ainda há alguém que desconheça a sua autoridade, reporta-nos para o Canto VI, que transcreve quase totalmente, exceptuando as últimas sete estrofes, onde, somos salvos da tormenta, por interferência feminina, embora que conjugada na intencionalidade divina, pois é Vénus quem aplaca os tumultuosos ventos, e que, não obstante algumas rupturas de culto provocadas pela cristandade (patriarcal e antropocêntrica), sempre por nós foi celebrada por bem-vista, benquista e benfazeja. Ainda hoje!

7.08.2008

O Poeta, de Michael Connelly

O Poeta
Michael Connelly
Trad. Eduardo Saló
480 Páginas

"A escrita exerce em mim o mesmo efeito que o conteúdo desse copo em ti. Se conseguir escrever sobre o caso, é porque o compreendo. Nada mais me interessa."

"Queria ser escritor e afinal tornei-me jornalista."

"Uma pessoa tenta reconstruir um puzzle em conformidade com o que tem na mente."

"– Vou escrever sobre o meu irmão – anunciei. (...) Depois disso tudo se alterou na minha vida."

"A morte é o meu negócio. É dela que vivo. Baseia-se nela a minha reputação profissional. Trato-a com a precisa paixão de um agente funerário – grave e consolador perante os enlutados e artesão eficiente com ela, quando estou só. Sempre achei que o segredo para me ocupar da morte consistia em a manter a uma distância prudente. É a regra de ouro. Não permitir que o seu alento me atinja a cara."

Sob o modelo narrativo das "bonecas russas", matrioscas, ou das caixinhas que têm uma caixinha dentro que têm outra caixinha, e por aí fora, até desvendar todas as peças do puzzle num quadro geral, este romance assenta, contudo, numa estrutura molecular poeniana, cujos pilares, ou formas essenciais (e explícitas) são: A Queda da Casa de Usher – conto que gira à volta da temática dos sepultados vivos, vítimas dos seus antecipados terrores – e da poesia do mesmo Edgar Allam, principalmente do poema País dos Sonhos, e no qual, aliás, vem a residir a chave do enigma policial, num enredo aos socalcos, em que, a cada nível, se tenta colocar o leitor "fora do espaço, fora do tempo", tornando-lhe as conclusões obsoletas na justa medida em que a elas chega, demonstrando uma vez mais que em poesia uma coisa é sempre outra, qual encadeado metafórico cujos limites não cabem na ideia que possamos ter de infinito, pois que, invariavelmente, logo que compreendemos algo, outro algo se realiza na nossa compreensão, ao contrário da Dicotomia de Zenão, onde para se alcançar um objectivo depois de percorrido metade do trajecto ainda faltará outro tanto, fazendo a demanda impossível, porquanto esta compreensão é heurística mas aberta, visto qualquer descoberta (ao entendimento) não ser mais que o impulso directo para nova descoberta.
Nele, um homem que vivia da morte, e mantinha a sua sanidade à custa de nunca se deixar envolver demasiado pela causa do seu ofício, vê-se, em resultado de um “aparente” suicídio, o do seu irmão gémeo, transformado de jornalista em detective, na peugada de um serial killer que matava polícias a investigar crimes pendentes, recentes, e relacionados com uma rede de pedofilia, assinando o seu acto com uma frase extraída de um dos poemas de Põe, pelo que se terá dado ao dossier o título de O Poeta. Alucinante na descrição, na pesquisa, no desenlear da trama, o seu desenvolvimento é porém capaz de surpreender-nos pela meticulosidade observadora, sempre ao virar de cada página, inculcando-nos como certeza a única que em literatura custou muito a conquistar: a do que aquilo que mais parece menos é. Ou, de que quem diz o que quer não ouve o que precisa!

7.07.2008

Para as Minhas Filhas Com Amor, de Pearl S. Buck


Para as Minhas Filhas Com Amor
Pearl S. Buck
Trad. Virgínia Mota
248 Páginas

Embora tenham sido as mulheres quem, quer por motivo inspirador, quer como utilizador final do produto literário, quer por a ela, à arte literária, como às línguas que a veiculam terem dedicado grande parte da sua vida, como ao dever-se-lhes as maiores modificações dentro do discurso narrativo, e aqui estou a lembrar-me, por exemplo, de uma Carson McCullers, que neste capítulo é incontornável, o que é certo, é que se contam pelos dedos quantas foram laureadas com o Nobel da Literatura. Algumas delas, foram de tal forma importantes, que conseguiram arrebatá-lo, ao prémio, digo eu, de um universo literário fortemente sexista, no século mais masculinizado da história humana, o século passado, como Selma Lagerlöf, Gabriela Mistral ou Peral S. Buck.
To My Daughters With Love é, queiram ou não, os apaniguados defensores da cozinha de autor, ou aqueles que ainda sublinham que não obstante serem as mulheres quem mais tempo passa à volta dos tachos, os melhores e mais famosos mestres da culinária são cozinheiros, portanto homens, e não cozinheiras, ou mulheres, um manual de sobrevivência para todos quantos não queiram enfileirar nos exércitos intelectuais do econimicismo patriarcal, independentemente do grau de inspiração divina (logo, fundamental) que os suportem e sustentem.
Dele, aqui se transcreve parte do Prefácio da autora, já que nunca existirá outra maneira tão eficaz para revelar o que uma coisa é, do que dizer aquilo que dela pensa quem a fez:
"Abençoada eu, que possuo sete filhas. A mais velha conta mais dezoito anos do que a mais nova, e todas juntas perfazem o total de umas quatro décadas. Nenhuma se parece com qualquer das outras, e todas elas me proporcionaram uma experiência nova, me conduziram as estudar novos padrões de educação e dotaram a minha vida de sucessivos enriquecimentos. A mais velha, a única afinal que dei à luz, sofre de fenilcetunúria, deficiência essa que me lançou no mundo dos bioquímicos, dos pais e dos professores de crianças mentalmente atrasadas, e me deu a conhecer a coragem confrangedora dessas mesmas crianças diminuídas. A minha segunda filha, alta e bonita, trabalha com êxito no campo da terapêutica das doenças profissionais. Alargou-me os horizontes do espírito, orientando a minha atenção para os doentes mentais e para os velhos. A terceira, com seus cabelos pretos e olhos cor de violeta, conduziu-me ao delicioso mundo da maternidade, não só por meio dos seus cinco filhos, como igualmente por ensinar num infantário e num jardim-escola. As quatro mais novas são as minhas filhas da Terra: a mais velha, actualmente de vinte anos, alia, na sua ancestralidade, a Alemanha à América, e as três restantes, respectivamente de 16, 18 e 19 anos, enlaçam a Ásia e a América numa indissolúvel união. Todas elas encantam os olhos e tornam deliciosa a vida em comum no nosso lar. Até um problema que eventualmente surja pode constituir fonte de interesse e de entusiasmo."
Por conseguinte, nada haverá a acrescentar, da minha parte, que melhor explane o significado desta obra, pelo que outra coisa me não resta, além de finalizar com as frases da autora, no término do dito Prefácio: "Este livro é vosso, queridas filhas. Partilhem-no à vossa vontade com quantos o vierem a ler" – nos quais gostava que me incluíssem como irmão, e não como mais um contabilista que sabe fazer somas tão perfeitas cujo resultado, óbvio e certo, se traduz sempre num total errado (1+1=1); e sim como alguém que caminha lado a lado, mesmo quando não pode, ou não é capaz, e nas exigências do corridinho da vida, o vão deixando para trás.

7.04.2008

Mefisto, de Klaus Mann

Mefisto
Klaus Mann
Trad. Maria Assunção Pinto Correia
400 Páginas

"Obra maldita, romance incómodo, Mefisto é sem sombra de dúvida um dos títulos mais importantes da literatura alemã" do século passado, cujo autor, filho de outro jurássico e consagrado escritor, Thomas Mann, se suicidou em Cannes, a 21 de Maio de 1949, em resultado de várias "causas" e factores misteriosos, embora por demais estudados, conhecidos e vulgares no nosso tempo, por alguns "ainda" considerados estritamente pessoais, como a dependência das drogas duras e da homossexualidade, mas para outros de cariz vincadamente social, ideológico e político, como a crescente desilusão e pessimismo perante os rumos da Alemanha do pós-guerra e a Europa do Futuro.
Nascido em Munique, a 18 de Novembro de 1906, é na sequência da tomada do poder pelos nacional socialistas empurrado para o exílio, em 1933, pelo que sofreu destes, em retaliação, o retirarem-lhe a cidadania alemã em 1934. Atrás de si deixava uma intensa actividade de crítico teatral, muitos textos dramáticos, bastantes contos, e o relato de uma viagem feita pela América e Ásia, na companhia de sua irmã, Erika. Então, Klaus Mann transforma-se numa figura incontornável e central da literatura alemão fora do espaço geográfico da língua, da literatura exilada, e a sua errância pelas grandes cidades europeias, sob os pretexto e intuito de alertar para os perigos do fascismo, assume a militância e a natureza de uma missão de fé. Daí a sua prolífera e ecléctica actividade de vanguardista, que o leva a participar e estar presente em todos os locais onde o futuro da Europa se discuta, nomeadamente nos Congressos dos Escritores de Moscovo (1934) e de Paris (1935), ou onde quer que se travem combates pela liberdade e pela democracia, como o exemplificam as suas reportagens sobre a Guerra Civil de Espanha, em 1938.
Todavia, e não obstante os seus romances mais difundidos e famosos terem sido escritos em alemão – Sinfonia Patética (1935), Mefisto (1936) e O Vulcão (1939), naturalmente frutos do exílio, é em inglês, após se fixar nos Estados Unidos em 1937, que nos anos quarenta escreve as suas obras mais marcantes, do ponto de vista sociológico e estético, como a autobiografia The Turning-Post (1942) e o ensaio sobre Gide, André Gide And The Crisis of Modern Thought, de 1943, ano em adquire a nacionalidade americana. Participa então na campanha dos Aliados em Itália, de onde não resiste a visitar a sua Alemanha natal do pós-guerra, colaborando também, em 1945, com Rossellini, no guião do filme Paisà.
Mais do que um documento sobre uma época, a Alemanha nazi, Mefisto revela-se uma obra intemporal, que hoje, decorridos mais de setenta anos depois da sua primeira publicação, vem notificar e reacender a discussão acerca da (ir)responsabilidade e abdicação dos intelectuais da modernidade na formatação da realidade, transportando-a novamente para a ordem do dia, intensificando-lhe a dramática actualidade, como se pôde observar em obras de similar aspereza de que é exemplo Antes Que Anoiteça do cubano Reinaldo Arenas, aliás adaptado ao cinema por Julian Schnabel, tão badalado em certos meios que raia os foros do fundamentalismo.
Editado primeiramente em1936, em Amesterdão, é porém só em 1981, após um dos processos mais polémicos da Guerra Fria, que o título vem a lume na República Federal Alemã, porquanto o seu protagonista principal é o actor Hendrik Höfgen que, com a chegada de Hitler ao poder trava relações com a amante de Goering, sendo em consequência disso nomeado Director dos Teatros da Prússia, facto que lhe facilita a possibilidade de vir a desempenhar de novo o seu grande papel, o Mefisto, de Fausto. E nos atira para a provocação óbvia... Será Höfgen um retrato fiel do famoso actor Gustaf Gründgens, aliás seu cunhado, porque marido da sua irmã mais velha, Erika Mann, ou, por outro lado, terá querido Klaus Mann representar nele o intelectual típico que todas e quaisquer causas por interesses arrivistas, que ascende pactuando com o poder por mais indignidades que cometa, quer vendendo a alma ao diabo, como acomodando-se na sua cegueira? Será que em literatura, o dístico mural da prostituição é o salvo conduto para o êxito, obrigando-a por isso a falar sempre de outra coisa que não a realidade, e averbando todos os retratos como personagens-tipo, algemadas pelos compêndios da psicossociologia, a que o marketing ideológico anexa invariavelmente a etiqueta vendável do "toda e qualquer semelhança das personagens com pessoas reais é pura coincidência", para assim transfigurar em verdade, por preterição, algo que nunca o foi? Ou tudo isto não passa de mais um enfeite alegórico no folclore da fuga às responsabilidades autorais?
Responder-lhe é, no mínimo a prova de quanto a leitura pode consolidar o processo activo do pensamento, não como simples entretenimento ou ocupação do ócio, ou no capricho das inutilidades afectadas pela moda das ideias, mas sim capacitar-nos para com maior lucidez e disponibilidade ao mundo, também ditos mundos, pois nunca haverá apenas um a que pertençamos (afiançadamente), nos adaptarmos às exigências do nosso tempo. E civilização.

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A pessoa entre as sombras de ser