La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

6.02.2013

GENTE INFELIZ SEM LÁGRIMAS

Ao contrário do que possa parecer, todos nós nos separamos da razão que nos assiste diversas vezes ao dia, o que fará um número incontável ao ano, sem que nenhuma delas esteja relacionada com o merecido descanso, no sono, no sonho, na alienação, no delírio, na bebedeira, na lua, no que se lixe e no desligar para pôr as baterias à carga: é sobretudo quando pomos os nossos interesses pessoais e narcisismo à frente de tudo o mais, quando deixamos de olhar a meios para nos valorizarmos, que aí desconsideramos quantos se encontrem na trajetória prossecutiva do amor-próprio, seja quem for, principalmente os mais desvalidos. Até mesmo quando contamos inofensivas e inocentes anedotas para fazer sala ou desopilar a família, que incidem sobre alguém de todos conhecido, tipo social ou estado de ânimo que os carateriza.

Por exemplo, é comum pelas festividades, no Natal ou Páscoa, nos serões das (melhores) famílias, haver sempre alguém que conta uma historieta aos mais novos, jocosa mas não indecente, como convém, e sucede ser quase sempre a mesma – a dos puns. Tenho a certeza que já todos e todas a ouviram, pelo menos uma vez…

É assim: “Naqueles tempos a vida não era o que é hoje, não havia internet, cinema, televisão, e as pessoas entretinham-se conforme podiam. Quer dizer, rádio e televisão havia, que nós tivemos logo que apareceu, tanto ele como ela. Mas as famílias com menos posses, vai lá vai!
Ora, a seguir às férias de Natal, no primeiro dia de aulas, o professor Tadinho, que foi aqui mestre-escola um rol de anos, prà’i uns 40, perguntava-nos invariavelmente como tínhamos passado a noite da Consoada. De entre nós, uns diziam que tinham ceado, ido à missa do galo, desembrulhado os presentes, e que tinha recebido isto ou aquilo, brinquedos, vestuário, material prà escola, etc., etc. Outros, que tinham ceado, dado graças a Deus, jogado às cartas e ouvido música. Diversos que tinham ficado à lareira a comerem filhós, azevias e rabanadas, feito freiras de milho, a que hoje chamam pipocas, etc. Aqueloutros que assado, e que frito e cozido. Até que o stôr Tadinho, vendo que o Lelinho não tinha participado da aula, quis entrosá-lo no convívio, inquirindo-o: – E tu, Lelinho, também festejaste o Natal?
– Festejei sim, stôr. Lá em casa somos todos cristãos…  – respondeu ele.
– Então, o que é que fizeste, home?
– Ora, jantámos, e ficámos todos à braseira.
– Só, isso? Não fizeram mais nada? Não viram televisão? Não trocaram prendas?
– Não, stôr. Só isso, mas também nos divertimos…
– Sim… Como?
– O meu pai dava puns, e a gente ria-se e batia palmas.”
Suponho que a anedota tem séculos e desconfio que vai ser repetida milénios fora, com as devidas atualizações e enquadramentos históricos regenerados, onde os mais pobres hão de servir para alegrar o são convívio das “imaculadas” famílias.  

É por isso que penso que o romance de João de Mello intitulado Gente Feliz Com Lágrimas não carateriza minimamente a maneira de ser anexa à portugalidade. Porque quer os que têm motivos para rir, quer os que não têm razões para festejar, todos e todas o fazem mesmo jeito, todos o celebram de igual modo, dando risadas, fazendo foguetórios, arruadas, caravanas, por dá cá aquela vitória ou reivindicação. E que os que o fazem são bastante infelizes, como as universidades e institutos que lhes terçaram o retrato ou levaram a exame – quer dizer, fizeram os questionários –, tornando por demais evidente que a personalidade típica portuguesa, não é a dessa gente feliz mas chorona, e sim antes a da gente infeliz sem verter uma lágrima, uma lamentação, um arreganho de renúncia e contrariedade. Até nos lamentos e manifestações, que é onde mais gritam e esbracejam, nomeadamente slogans políticos e palavras de ordem… Mas chorar, nunca; exceto no fado, é claro. Que aí sim, é um mar delas… de lágrimas, digo eu!

Arquivo do blog

A pessoa entre as sombras de ser