La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

3.18.2010

Camisola Nova Para Enredos Velhos




"O filme é uma música que chega até nós através da vista."
Élie Faure

Sim, desta vez é que eu mudo para a social democracia, porque agora sim tenho um partido onde posso ser eleito para depois governar sem oposição interna (e externa), o que é um verdadeiro filão de boas ideias para implantar a ditadura com que sempre sonhei, tornar-me o salvador da minha espécie e ídolo garantido das demais, mesmo da pátria (dissolvente), se a tanto vierem a mim os bravos de antanho rejuvenescidos, sim, cantando e rindo, levados pela bruma no nevoeiro da memória.
Porque o que de melhor e mais atractivo tem a nossa democracia, são estas mudanças de alterne que nos facultam os seus partidos, porquanto um deles, e dos maiores, consegue ser tudo quanto há nos compêndios de história – e de anatomia do Estado – ao mesmo tempo, o PSD, que na Assembleia da República é anarquista, abstendo-se frequentemente na votação dos itens fundamentais à governância, estalinista no Congresso onde aprova regras sintomáticas de amputação da liberdade de expressão, criando de si uma espécie de Estado dentro do Estado (Mafia), cujos estatutos não contemplam a Constituição da República nem se lhe sujeitam, no parlamento europeu em que é democrático e denuncia a falta de liberdade de imprensa nacional, no poder local onde ostraciza quem não usa na lapela o seu distintivo, coloca nas televisões e demais órgãos de comunicação os seus comentadores com pronunciada quota na bolsa das audiências, como se fossem produtos de mercado com marca registada, é revolucionário nas lutas sindicais e de classe profissional, sendo o principal agitador nas contendas entre profs e ministério da educação, veste a opa de sacristia na oposição aos casamentos entre pessoas do mesmo género e aplaude o Papa de velinha em punho e desfile (procissão) a favor dos desfavorecidos, das crianças que satisfizeram a santificada líbido dos dez clérigos portugueses entre 2003 e 2007, dos quais seis em 2007, que foram os que a Santa Madre Igreja não conseguiu desmentir e, portanto, não teve outro remédio senão assumir, deixando a ênfase para o facto de serem provavelmente muitos mais, mas que os seviciados não tiveram coragem de denunciar, por não haver como provar onde e como sofreram esses abusos, ou serem de tão boas famílias que o comer e calar é sempre preferível ao vir-se a saber entre os vizinhos e compadres.
Ora, o filme é o seguinte: se o Convento pôs o carrilhão a badalar a instância da regra que obsta à crítica, então vai daí, eu vou inscrever-me como militante no PSD, pagar as quotas, coisa e tal, pois a profissão de político é de carreira segura, nada de precariedade nem "lay-offs", garantindo a postura e o singrar na vida, porquanto sempre se podem fazer as asneiras que se fizerem, desde que isso suceda durante o período de defeso à crítica, ninguém porá a boca no trombone nem vaiará a lide dos contratados e eleitos na peluda de mandato, podendo cada um guardar para o fim a mariolice maior, abotoamento ou dissipação que sejam, que se antes das eleições não se pode falar depois delas muito menos vale a pena fazê-lo. O que é música para os meus ouvidos, reconhecida invariavelmente por toda a assistência, cansada claro está, de lhe andarem constantemente a mostrar como, onde e por quem foram enganadas e enganados (os votantes) nas eleições anteriores.
Estão a ver o filme? Depois venham cá com essa de me acusarem de eu andar sempre a mudar de camisa, a ver se não lhes respondo, que é bem preferível isso, que andar de roupa suja, a meter nojo aos demais, como muitos por aí andam fazendo... Venham, venham, que cá os espero, para vos brindar com um andar novo, enquanto o Chaplin esfrega um olho no dez pràs duas que a encomendinha demora!

3.13.2010

Torcer o Rabo à Porca

A bem da nação, os deputados aprovaram, ontem, sexta-feira 12.03.2010, recorrendo à abstenção, o catecismo da actividade governamental até à próxima rectificação orçamental, adiando-a mas não evitando-a, que ninguém lhe paga para fazerem aquilo que podem e unicamente quanto querem, garantindo mais um ano sem fumeiro às famílias votantes deste nosso torrão à beira da Europa enguitado, como paio de toucinho, que a carne é para exportação e quem está habituado a gorduras não deve alterar dietas alimentares, pois as mudanças drásticas acarretam esforço de adaptação suplementar e onerosas dificuldades de (di)gestão.
Torcer o rabo à porca sem tirar as mãos dos bolsos é tarefa para crânios geniais, apenas comparáveis aos dos mentores do popular faz força que eu impo com que, no tempo da outra senhora, a luta de classes se instituía por esses pousios fora, no amanho de mais um subsidiozinho para comprar um jeep novo, montar apartamento para a Severa do dia ou pagar a estadia em Coimbra ao rebento, até ele se doutorar em fados e vinho verde, salvo-seja!, que para tamanha exigência, dificilmente haverá curso com currículo e nobreza de conteúdos que honestamente a substancie...
As imagens são interfaces, plataformas de ligação, intersecção entre conjuntos de conceitos antagónicos, "placas-giratórias entre a realidade e o imaginário" (Edgar Morin, 1956), consequentes da necessidade de comunicar, considerando que na qualidade do dizível há muitas coisas que não lhe cabem dentro, por ser um universo onde há tudo quanto já foi descoberto (dizível), ideias, sentimentos, sonhos, teorias, sinais, medos e prenúncios, divindades, percepções sensoriais e extra-sensoriais, mais tudo aquilo quanto ainda não foi descoberto, visto, sentido, analisado, impossível e inaudito, que no entanto também carecem de ser transmitidas, comunicadas, partilhadas, desbravadas, para assim se tornarem posse humana, elementos preciosos do património cultural da humanidade que, à face da Terra, é de todos os seres, o homem, o único ser capaz de realizar, gerir e manter a memória da vida, como se lhe fosse o mais fiel, diligente e íntegro dos súbditos e servidores, o fac-símile e croquis que melhor a representa, lhe esboça as intenções, pese embora por caminhos bastante controversos, de notória inversão de sentidos, confundidos, parecendo avançar quando deveras regride, recuar se o progresso se manifesta e, até, atolado em estagnação se o choco e a meditação congeminam o passo seguinte.
Por exemplo, o governo português, ressuscitado da panaceia do socialismo democrático, está condenado a governar Portugal, não porque o Orçamento de Estado (OE) e o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) rectifiquem o direito que lhe foi outorgado pelas eleições, nem pela intenção objectiva que pretendem subscrever – recuperar a economia e consolidar as contas públicas –, mas por a oposição directa e mais próxima (o PSD) andar em ponderação constante, e esta lhe indicar que não está ainda preparado para avançar com determinação e sentido de Estado, porquanto não tem oficiais competentes e habilitados para a função, nem PEC alternativo e muito menos esboço de OE sob linhas mestras eficientes, susceptíveis de agilizar a economia e garantirem nela uma sustentabilidade sofrível a curto prazo. Ainda não chocaram convenientemente o que querem fazer, nem a estratégia para o conseguir, porque também ainda não sabem aquilo que deveras querem, uma vez que aquilo que queriam deixou de ser possível de sustentar no mundo actual, cujas fundações apodreceram arrastando o modelo em que assentavam, e o novo paradigma (globalização e sustentabilidade) ainda não se revelou suficientemente maleável à sua sede de poder, de benefício do individualismo e geração de fortunas. Isto é, ainda não descobriu a maneira de utilizar a solução dos problemas nacionais (crise, défice e dívida), sem os agravar irreversivelmente, para satisfazer a necessidade de lucro que os seus investidores políticos (militantes) consideram justo e plausível com o esforço (envolvimento) que prevêem e estão dispostos a "contribuir", a pagar, quer na propaganda do boca-a-boca nas praças de mercantilidade nacional, quer na congregação do tecido empresarial, financeiro e religioso. Enfim, estão em palpos de aranha, enleados pela teia que eles próprios teceram, sem ver uma saída airosa da crise e défice que durante tantos anos os beneficiou e – eles alimentaram com as suas opções político-ecnómicas do depois de nós o dilúvio, ou insustentáveis – controlaram para exclusivo proveito.
Rafael Bordalo Pinheiro sempre caracterizou a política económica como a porca que amamentava os bacorinhos da pátria, e desta imagem, costumava minha avó servir-se para me dar lições de economia(doméstica), dizendo que quando as receitas (tetas) não chegam para as despesas (bácoros), então não há porca que aguente, ficando os bacorinhos excedentários sujeitos a amamentação por biberão, caso o dono os queira salvar, pois caso contrário, não só morreriam, como enfraqueceriam a porca a ponto de não produzir leite suficiente para alimentar os que tinham lugar nas suas tetas, e a que normalmente se chama OE; e tanto fazia sobrecarregar a gorpelha do Zé-Povinho com mais impostos, como não, que se a porca estivesse chupada a ponto de já não conseguir comer a lavadura que este lhe desse, a breve trecho os viria a rejeitar se se quisesse salvar, ou então sucumbiria perante a fraqueza e trauma (culpa) que a perdida resiliência lhe imporia.
Com a abstenção do PP e PSD o parlamento torceu o rabo à porca, a fim de a obrigar a estar quieta e permitir que os bacorinhos com assento à mesa do orçamento pudessem alimentar-se com desfaçatez e diligência , esquecendo que o bicho já tinha o rabo torcido naturalmente, quer dizer, encaracolado de nascença, coisa que à sua espécie assiste desde o princípio dos princípios bíblicos, e sabendo que ao menor alívio da pressão sobre ela, esta se levantará sacudindo-se, expulsando quem a suga como quem a segura (manieta) e a faz amochar. E a abstenção parlamentar sempre foi um fazer sem fazer, autorizar sem convicção, um trabalhar com as mãos nos bolsos, de engraxar os sapatos sem se importar com o cuspinho que o engraxador vai gastando no ofício, logo, muito pouco duradouro no brilho que lhe advirá, opaco no polimento e fosco na tecitura, de onde – Deus queira que me engane... –, o amanho servirá de nada, por as solas estarem a dar o berro e o cabedal já não aguentar consertos de costura e ponto firme. Ou seja, no que para quem é bacalhau (abstenção) basta, está inerente uma estranha forma de considerar os portugueses, a cuja leitura com certeza estarão atentos, as suas condições de vida, o seu presente, o seu futuro, a sua esperança, bem como daqueles para os quais vão construindo um país, do qual, se acham mais ou menos espoliados.
Precisamente deputados e forças políticas que andaram a vociferar contra a abstenção nas eleições passadas, ei-los agora a praticar aquilo que condenavam nos demais, como se anarquia fosse o seu reino, a sua ordem, código disciplinar, demonstrando que quanto for denominado terrorismo nos nossos adversários, é sempre o supra-sumo de excelência, o alto expoente da nossa inteligência e patriotismo: deixa arder, que mais tarde vais ter que me contratar para apagar a crise, e nessa altura vou exigir pagamento em dobrado. E isto sim, será defender os elevados interesses da nação!

3.09.2010

KISS, KISS


"Os deuses atraem com promessas aqueles que querem destruir."
C. Connoly

É preciso ter descaramento e ser muito cínico – para não lhe chamar outra coisa mais apropriada e consentânea ao momento histórico que atravessamos –, para esbanjar mais de 300 mil € numa missa, por sinal bem menos atractiva do que as do padre Borga e sem qualquer perspectiva de milagre em vista, ou sem este estar claramente agendado (e garantido) no programa do evento, a não ser daqueles que logicamente derivam da dança da chuva, que já os pré-históricos peles-vermelhas praticavam, exactamente num momento em que a chuva é de todas as coisas a que nos sobra e não nos faz falta absolutamente para nada, nem para encher o Alqueva que já está a transbordar pròs Guadianas da nossa secura, mas pelo contrário, apenas nos vai fazer apodrecer mais os nabos, sujeitos esses que se encontram presentemente aboborados e adormecidos no lodo dos dias, graças, se calhar, à modorra orçamental sob o anticiclone do PEC nacional, coisa que promete para os próximos quatro anos, embora tenhamos que resignar-nos a tê-lo como a Alcina Lameiro tem o plano astrológico, cujos vaticínios dos seus signos orientam mas não determinam, isto é, não servem, nem têm préstimo absolutamente para nada, ou ao negócio das visitas presidenciais típicas e sintomáticas de uma campanha eleitoral, não só evidente como exagerada por essas Andorras fora da nossa portugalidade, dando uma amostra internacional daquilo que por cá se passa, fazendo batota de campanha eleitoral, dando já os primeiros passos com fotografias de família à mocidade portuguesa, com meninos e meninas a abanar a bandeirinha, inda'ssim não venha algum pateta alegre disposto a abichar o voto dos portugas que andam lá por fora a disseminar a lusitanidade.
Ora, se atentarmos nos últimos acontecimentos da política patriótica, este PEC, independentemente do diálogo – agora chamam isto à discussão! – que possa suscitar aos partidos e parceiros sociais, sob o fito de o pôr em prática, é tão bom, mas tão bom, que até o PSD é metade a favor, metade contra: pelo lado da estabilidade, acha um exagero, e pelo do crescimento, nem lho nota – o que é caso para dizer, que com PEC's deste quilate o Sócrates não precisa de inimigos para coisa nenhuma, porquanto as linhas mestras kamikaze, não só cortarão 11 milhões de € na despesa, como rebentarão com a economia nacional, incluindo a hipótese de descolarmos do fundo da tabela no campeonato do desenvolvimento europeu, de tal forma, que no relatório/plano da saúde nacional, se na física ainda estamos dentro da validade, na saúde mental estamos pior que em 2005, em que consoante a taxa de suicídio, depressão, morbilidade e estuporice, já estávamos com os pés prà cova há muito tempo, cujas origens remontam ao D. Fernando de tão triste e vã memória.
Enfim, a única certeza de recuperação das contas do Estado, em termos de combate ao défice, é aquela que qualquer velhote com as calças na mão e à rasca com contabilidade doméstica faria: venderia/privatizava os amarelos para pagar/reduzir os Juros/encargos com a dívida– isto é, os seguros da CGD, a REN, a EDP, a GALP, a TAP, etc., e tudo o mais que alguém quisesse comprar, e só não meteria no pacote a própria esposa, porque enviuvara há muito. Para mais, ao novo Aeroporto, precisamente na altura em que o tráfego aéreo está a dar o peido-mestre, não só pelas questões dos combustíveis e catástrofes ambientais, derivadas do aquecimento global versus alterações climáticas, mas também porque é um risco de lesa nacionalidade ter aeroportos intercontinentais tão próximos de uma capital de país macrocéfalo, como é o nosso, é dada luz verde – salvo seja, que na realidade é mesmo anti-verde –, para a sua construção. O que, se houvesse um Instituto da Sustentabilidade em Portugal, por si só, eram duas razões mais que suficientes para chumbar o PEC; mas não há, sobretudo, porque os portugueses continuam a existir à margem das responsabilidades sociais e cognitivas, em alegres carnavalidades do depois de nós o dilúvio, cumprindo, e dando continuidade, cada partido no poder, à política da terra queimada que o anterior começara, para evitar que a subida das águas oceânicas nos submirjam, pois deixaremos de existir muito antes desse colapso natural.
O que é pena, visto haver até portugueses que vão tendo e criando filhos, como se eles tivessem acesa a esperança de vir a fazer o mesmo, dando futuro a outras tantas gerações, como as que sucederam dos berçários de Guimarães, que os afonsinos amamentaram e embalaram tão corajosamente contra guerras e perigos esforçados. Nenhum PEC devia dar passos maiores que as pernas, coisa que este não reconhece, estando muito aquém da simplicidade aconselhada neste tipo de documentos fundamentais à governação (e à legislatura). Se apresenta linhas, estão difusas e enleadas; se pretende soluções, apenas agrava problemas. Logo, em vez de esperança, entoa o Adeus, até depois do apaniguado e nacional cancionetismo de sempre, das despedidas com muitos e babosos beijinhos... num KISS, KISS, bastante católico, de dar missas e ministrar cultos por 300 mil €, como se todos estivéssemos a nadar em fartura, apenas porque o Papa resolveu fazer turismo pelo Mar da Palha. Ou, se calhar, a congregação católica já conhecia desde há muito o PEC que saiu só ontem, e quis antecipá-lo ilustrando-o com os seus eventos... é um ideia!
Portanto, KISS, KISS, para ambos... (De Keep it simple, stupid!, não confundam.)

3.05.2010

Até aos Intés da Alma (que nos contempla)

Tanto Gigélia Hirondina, quer eu, não havíamos planeado qualquer encontro. Demais a mais, estávamos nas férias do Natal. E, se durante as aulas era uma constante sem compromisso o vermo-nos (e ouvirmo-nos), em Casal Parado, ou nos transportes públicos, quando regressávamos no autocarro da Câmara Municipal que presta serviço à cultura e transbordo de estudantes no concelho, naquela manhã de Dezembro, que nem parecia do recém-nascido Inverno, dado o tempo primaveril que se fazia sentir, nenhum de nós pressentia ou sequer imaginava que iríamos ver-nos, assim, frente a frente, com um daqueles sorrisos felizes que tudo prometem e oferecem dobrado com expoente dez: mas foi o que sucedeu. Às onze horas, exactamente onze horas, sem mais coisa, menos coisa, e ninguém na rua que pudesse reparar em nós.
Saído da Av. dos Serafins, eu descia a Rua da Igreja, que ela subia, de saco de plástico amarelo do supermercado com mercearias, produtos alimentares em conserva ou outros empacotados para igual fim, na mão esquerda, enquanto com a destra, polegar e indicador em pinça, puxava e esticava a pastilha elástica cuja extremidade prendia com os dentes. Antes de nos cruzarmos, parámo-nos, estancámo-nos, a dois palmos de distância, defronte para a porta lateral da igreja, que por sinal se encontrava aberta, mas de onde não soava qualquer ruído ou vestígios de presença humana (ou sequer divina, não obstante a proximidade do local de culto que emprestava o seu nome à rua). Cuspiu a pastilha, deixando-a pendular por instantes, e jogou-a para o meio da rua com um piparote. Sorrimos. A presença dela preenchia-me duma vitalidade surpreendentemente excelsa em sensualidade e confiança. Mas a ela, bastante mais nova do que eu, pois fizera dezasseis anos no 14 de Novembro p.p., data de elevado expoente cabalístico – 14.11.2016 –, enquanto eu navegava já pelos trinta de cavado alto mar, a minha aparição desencadeara outros sintomas (fraqueza nas pernas, esvaimento, perda de equilíbrio, tropeçar nas falas, necessidade impulsiva e imperiosa de me tocar, salivar constante, intenso suar de mãos e tremura nos gestos), pese embora que a doença fosse a mesma.
E porque estava linda, disse-lho, enquanto em simultâneo recitava no íntimo, com palavras mudas, o poema A CERTEZA DO AMOR, espécie de oração em verso que nunca deve ser dito, nem recitado, na presença de terceiros, posto que a voz alta lhe mata e retira todos os sortilégios:

“ Tu não precisas de mim
Nem eu preciso de ti.
Eu não sou a tua aspirina
Nem tu és a minha.
Tu não existes para me absolver das culpas,
Nem eu para resolver os teus problemas.
Nenhum de nós é a poção mágica
Soluto eficaz para as mágoas
Ou satisfação das necessidades do outro.
Nem das carências. Ou da solidão.
Tampouco ao equilíbrio ou a auto-estima.


Mas quando falamos de tesão,
Autêntica, de explodir até ao fim do mundo,
Então, tudo se complica;
E aí, penso,
Ninguém ma dá como tu.”


«Estás maravilhosa, Gigélia. Deslumbrante. Arrebatadora!...» O que simplesmente era a verdade. Pura, diga-se. E incontestável.
Por consequência, reanimou o riso, estendendo-me a mão livre, que tomei entre as minhas e beijei, a fim de melhor sentir o sedoso morno de sua pele clara. E o que lhe dissera alcançara o peso do universo, numa irrefutável evidência – aliás óbvia, pois nunca menti a qualquer mulher ou rapariga, mesmo àquelas que se têm em cota de baixa consideração e auto-estima, ou na opinião, quer própria, quer pública, arbitrariamente se acham pouco atraentes e até feias; porque sempre disse o que sentia ao senti-lo e sob o efeito directo desse sentimento, que é a ternura que cada uma me inspirou. Foi alvo e veículo. E transmitiu. E irradiou.
Nisto ouvimos um "rugido Famel" de motor de motorizada a trabalhar, que, traduzido em esforço e aceleração, tudo indicava vir a subir na nossa direcção, proveniente da Estrada do Cemitério. Só que antes de ela aparecer na curva que antecede o cruzamento, já nós tínhamos entrado na igreja. Quando passou à porta, estávamos-lhe dentro e por detrás, juntinhos, acariciando-nos mutua e lentamente, os dedos a viajar esquecidos entre poros e polpas, embora a ânsia de nos tocarmos crescesse na multiplicada provocação do desespero. Para lá da porta ficaram todas as inibições que nos haviam contido, e mantido afastados durante os anteriores dois meses e meio de aulas, em que fôramos construindo o suplício da atracção: a diferença de idade e de estatuto, a moral, o pressuposto social, o respeito pela família, o medo das adivinhações e pensamentos alheios, ou os desencontros de horário. Mas ali éramos apenas os dois e Deus – que nem convocado fora, ou de presença líquida; e nada além tinha importância ou contava para nós, excepto nós mesmos, na parte de cada um por cada qual.
Afastámo-nos sensivelmente. Apenas o suficiente para nos contemplarmos. Mutuamente gulosos. Os olhos de Gigélia eram o mundo todo numa versão de “Para Sempre”, à Vergílio, timbrado de verde-escuro (garrafa) com salpicos castanhos. Podia-se viajar neles como à tona de um sonho. Estendermo-nos, alongarmo-nos no veludo cromático de um tapete oriental. Quis que ela o soubesse. Portanto, beijei-a nas pálpebras achocolatadas de málvica macieza. Suspirou. Num exílio profundo, a emergir lá dos recônditos esquifes e enseadas onde o sangue batia ritmado, em pulsar libertador, depois da sobressaltada atitude que havíamos tomado, da intensidade da intenção condimentada pelo pulsar da expectativa.
Descansámos de nós. Éramos cavalos demasiado selvagens para nos submetermos às rédeas comuns, mas frágeis, dos preconceitos e falsos moralismos. Alheios à hipocrisia do pudor e do pecado. Aliás, resolvidos, pelo salto instantâneo e inconsciente dos degraus que dão acesso ao local de culto, numa dobragem das tormentas pelo acabar dos limites.
E exactamente ali decidimos que tínhamos todo o tempo (e solidão) do cosmos, mais que bastos, e suficientes, para deixarmos fluir a vida dentro de nós à procura de si própria. Somos-lhe a estratégia superlativa, perfeita e completa, e complexa, sem sombra de método, indubitavelmente. Pelo menos tanto quanto o foram os nossos progenitores. E essa era uma certeza que conquistávamos por cada minuto somado ao desejo em ebulição. Pronto à erupção, ao eclodir. Sem pejo, nem sobressalto.
Os anéis castanhos laivados a ouro dos cabelos, desciam-lhe ao pescoço, emoldurando as faces róseas, os olhos oblíquos, o pequeno nariz de ponta arrebitada, os lábios de desenho assimétrico, mas carnudos ambos, de viva, polposa e cárnea cor. Estava celestial e magnífica, sem esquecer quanto da sorridente alvura de convergir no para lá do lá dos secretos mistérios do corpo que a alma não hesita em seguir e continuar, lhe emprestava um áureo esplendor (brilho), na luminosidade vítrea que emanava, da luz, muito mais do que dela recebia. A consciência bárbara de um céltico culto, na ritual profanação dos rígidos moldes dessa mais recente ancestralidade, a moral familiar cristã, sem nada de enigmático e imaculado das figuras medievais, mas o corpo em plenitude, que é a massa de que é feito tudo quanto é deveras sagrado, e audaz se insurge contra os limites, conquistando novos significados.
Depois daquela fuga para dentro, vagueámos na igreja, mãos dadas, o saco amarelo abandonado no desvão da porta. E vimos sem ver os quadros em cópia barata de obras famosas, a talha dourada do altar, as vestes exóticas das imagens, representando mulheres e homens canonizados, em celebração da misoginia, os cortinados de veludo grená pesados e opulentos, em seu ondulado de ostentação, numa retenção de desafio, de medida, de procura, ao quanto éramos capazes de esperar. De prolongar o instante, de estender o tempo, fazer dele um naco de matéria tão elástico e moldável como o barro de nossos corpos. Argila de conseguir figuras ao custo da esperança, qual hipoteca do aqui e agora, num vasto painel suportado pela certeza de que seria assim que enfrentaríamos a eternidade se acaso fôssemos a ela condenados. Porque a eternidade é a única tragédia a que o ser humano ainda não está sujeito, sendo nos filhos que descarregou o fardo desse anseio, numa garantia de perenizar a vida sem o oneroso tributo da libertação ao medo da morte.
Perante o encargo, ajoelhámos ambos sob o altar. Mas não para rezar ou proferir preces; tampouco no lado a lado de quem espera uma benção. Frente a frente, contemplando-nos em adoração secreta, apenas denunciada pelo olhar que irrequietamente insistia em sorrir, em procurar-se, em tocar-se através de feixes intencionalmente imateriais.
Por fora, o trânsito, esporadicamente vinha lembrar-nos que o mundo não acabava ali, onde começávamos e terminávamos, num todo completo pelos géneros do cosmos. Mas éramos indiferentes à lembrança, não lhe reconhecendo valor além do de um ruído de fundo, incómodo, em frequência mal sintonizada. Porque, como sabemos, a abstracção não é abstracta. Nunca o foi, nem nunca o poderá vir a ser. É uma presença que insiste para lá da irrealidade (física), a consumar a indiferença ao momento, tripudiando do instante precisamente como ele o faz, na fotografia, ao movimento.
Foi então que ouvimos passos próximos da porta por onde entráramos. Mas, em vez de nos levantarmos, ou aprestarmo-nos a sair do local onde nos encontrávamos, baixámo-nos, protegendo-nos com a mesa atoalhada dos ofícios, escondendo-nos e tornando-nos invisíveis para quem entrasse. Era a serviçal da limpeza, a mulher do sacristão, talvez, a chocalhar as chaves no bolso da bata preta, que, depois de levantar o balde com a esfregona à porta da sacristia, saiu levando-o e fechando a dita de seguida com duas voltas da chave, que nos soaram ao coração como um engrenado resfolgar libertador. Descontraímo-nos. Ficáramos trancados dentro, o que ao contrário de nos aprisionar, antes nos libertou ainda mais do mundo exterior, e do receio de sermos ali surpreendidos. Nada nos impediria assim de concretizarmos em acto, o que anteriormente apenas tínhamos concebido em fantasia e imaginação. Até àquele dia... Que importa o espaço que o corpo de cada um habita, se é à alma que compete a totalidade na expressão irredutível da plenitude? Do fortalecimento do ser? Da execução do divino? Do prazer de profanar os limites? De os romper e reduzir à sua infinita mediocridade?...
Gigélia Hirondina era arrebatadora em seu despertar para o iniciático universo do corpo, que se usufrui, tanto quanto maior for a sua capacidade de entrega. As pernas longas, afastadas, o dorso em arco de desferir solicitude, os pulsos sustendo-me as ancas, as mãos vincadas nas nádegas atraindo-me, os braços flectidos de imprimir-me em si mesma, o ventre procurando-me cego, mas imperioso. A boca sofreguindo-me o pescoço, o queixo; a boca cuja língua soletrava seu hálito de sede e tumescência, repleta de contradição e dissolvência, em frescura morna de uma realidade só comparável ao sonho das polpas exóticas, quando se nos desfazem no palato em sua degustação (atenta e aturada).
A tarde iniciava a cumprir-se. Ao sol que fora subindo ao cume do zénite, não tardaria a aliviar o esforço e começar a descida, qual roda de fogo em marcha travada sobre a linha imaginária do horizonte, procurando seu nadir de reclusão. Mas não sem que antes lançasse os seus raios multicolores sobre a penumbra do altar, através do vidro recortado do vitral na janela gótica da arcada, lá no alto onde ninguém encostaria os cotovelos por ter sido feita como um celestial varandim, onde somente seria permitido descansar o olhar. O que, para quem se sabe não ser o “único a olhar o céu”, estas palavras têm muito mais plenitude e sentido que simples e soletrados sons.
Sabíamos que a qualquer momento podia voltar a mulher da limpeza, mas nem assim receámos o quer que fosse, desde o sermos surpreendidos à falta de tempo. O importante é que estávamos juntos, unidos por uma força invisível e omnipotente que nos atraía cada vez mais e mais e mais para perto de nós, e obrigava a que nos tocássemos mutuamente, ao procurarmos em nós o outro lado de nós, a certeza sem esperança, nem hipotecas de tempo e de vida; que é na ausência das suas noções e consciências que se consolidam. É quando menos notamos a sua existência que ele mais rápido passa, o tempo (e ela, a vida). É a sua intensidade que no-la devolve em inconsciência. E ousadia. Que, enfim, a torna tanto mais fugaz, quanto maior nela é essa/sua audácia.
Esquecermo-nos dele era esquecermo-nos de nós; no entanto, a cada segundo que passava, contabilizado pela pele que se toca e percorre, era transformado, por uma multiplicação do desejo, na aspiração de outro segundo e ao dobro da mesma cútis. E a de Gigélia Hirondina é seda morna, macia e quente, rósea fermente de pronunciar êxtase e liberdade. Quem domina o grito que nos esvai? Quem o sabe proferir? Quem pode dizer que o veludo olímpico não tenha sido copiado da sua glória e textura? Quem?
Sob a ganga das calças sinto-lhe as pernas secas, mas esguias, musculadas, compridas, resistentes, e as nádegas firmes, de bochechas alçadas, a afastarem-se ao contacto das minhas mãos, autorizando aos dedos o aflorarem o seu Vale do Nilo, do ânus à púbis. O seu gesto é de entrega, mas as suas mãos procuram em mim o conforto da posse que nunca antes havia desfrutado. Enquanto que com a esquerda me percorre o dorso, comprimindo-me, atraindo-me para si, a direita arrebata-me o sexo repleto e pulsante, fulguroso porém contido e congestionado, que o aperto da ganga não conseguia desmoralizar. É de buscar-mo que o toma, primeiro tacteante e indecisa, mas ganhando pouco a pouco confiança, subtileza, sofreguidão e carícia.
Afasto-me dela, desabotoo as calças – raramente uso cuecas, que me enguiçam os apetites e apetrechos!... – e permito que ela tenha uma visão geral do órgão em que toca, testículos, pintelhos e ancas, e saiba como se afina, ou o que as carícias nele provocam e em mim.
«É tão feérico e irascível...», murmura ela, desmentindo as minhas suspeitas quanto à sua fraca funcionalidade e pequenez, evidenciando o temor (infundado), com que a inexperiência costuma sobrecarregar o fardo das comparações.
Digo-lhe que não, que é simplesmente a percepção primária que provoca essa sensação. Que foi o facto de o não ter visto em pequeno, flácido, ou de não ter assistido ao seu tumescimento e maioridade, mas sim de o confrontar logo entesado pela primeira vez que o contacta e vê, que lhe inspira essa impressão. Que nada receie, conforto-a. Na sua mão a derme é macia, dedos curtos, unhas rentes e palma de gomos cheios. Beijo-a sôfrego, ainda mais intensamente na boca, nas faces, por detrás das orelhas, no pescoço, nos ombros de que lhe arredo a camisa de flanela, ao desabotoar-lha. No peito, entre os seios cónicos, de mamilos medalhudos achocolatados a culminarem nas pontas polposas, bicos fremitantes, a que, entrementes lhe sugo o esquerdo massajo igualmente o direito, com os pomos dos dedos húmidos de saliva recente, e vice-versa. Gigélia dobra-se para trás, desfraldando a camisa axadrezada, e desabotoando as calças, correndo ela própria o fecho éclair. Não usa soutien-gorge, mas tem postas umas cuequinhas brancas de algodão fofo, que reconfortam o tacto só de vê-las, como macios são também os encaracolados dourado-escuro dos pêlos púbicos. Desço-lhas, acariciando-a entrepernas, meigamente, demorada e calmamente, entreabrindo-lhe os lábios exteriores, friccionando-lhe o clitóris curto e insignificante, com a mão livre, enquanto com a língua lhe percorro, em círculos, numa espiral, o abdómen desde o umbigo. Ergo-me e puxo-a comigo, para cima, sentando-a sobre a toalha rendada da mesa dos ofícios, com as coxas afastadas, as calças a descerem-lhe até aos tornozelos.
Desembaraço-a delas, e dos sapatos de ténis, ajoelhando-me sobre elas, afagando e beijando-lhe as pernas, que ela abre sobremaneira, libertas que foram da ganga das jeans. No vale de entre as coxas eleva-se-lhe a púbis, em papo de rola, qual grande plano de relevo cumeado por cordilheira dorsal no emaranhado de cabelinhos castanho-claro, encaracolados e sedosos, a que colo a boca, apartando-lhe os lábios com os meus lábios, e deixando a língua aveludar-se-lhe entre, saboreando o amariscado doce da sua liquefacção, ir ao clitóris e voltar, reiniciar o mesmo ciclo de gestos e retornar, numa cadeia repetitiva de constâncias. E imperiosidades. Com Gigélia a pousar-me ambas as mãos sobre a cabeça, os dedos riscando despenteados, comprimindo-me sempre mais entre as coxas que se lhe retesam, enleando-me, aprisionando-me nelas. As minhas percorrem-lhe o dorso, as costas, num abraço complicado. E mantenho a língua numa lambidela rítmica, até senti-la estremecer em subtis orgasmos, embora que concludentes, evidenciando estar para prestes o tsumanis espasmódico da libertação.
Então, faço-a descer da mesa e ajoelhar-se entre mim e ela, de costas voltadas. Suas nádegas alçadas, equinas, abertas, procuram-me o sexo, anichando-se-lhe em redor. E assim, em perigosa contenção, afasto-lhe ainda mais as pernas e deixo que o pénis endurecido avance até à vagina, que lhe rodeia a glande e ela massaja convictamente com mãos ansiosas. Quanto a mim refreio as pressas e acaricio-lhe os seios, simultaneamente a beijo por baixo da nuca, coluna vertebral e ombros, até ela começar a contorcer-se, em convulsões espasmódicas, intentando cravar-se-me no sexo, o ânus acariciado pelos meus pêlos encarapinhados. Eléctricos. E inesperada e surpreendetentemente úteis.
Noto que nem eu, nem ela, poderemos manter-nos sem que algo deveras importante aconteça. Saco a toalha rendada da mesa para o chão, Gigélia posta-se fronte de mim, deitando-se de costas sobre ela, e só então a penetro, primeiro apenas com a glande, mas depois longa, demorada e profundamente. Os olhos cerram-se-lhe, e as pernas encerram-me, atraindo-me e prendendo-me a si. Não há saudade nem distância que nos façam reflectir a irreversibilidade do caminho. Chegou a hora de procurar o fim do mundo, para nos despenharmos e precipitarmos nele. E quando finalmente desperto duma explosão cósmica em que a arrastei comigo, ela sorriu-me, num esgar de plenitude e alegria como nunca antes lhe tinha visto. Beijámo-nos novamente, e ela virou-se de repente, pondo-se de costas para mim, deitando-se ao comprido de barriga para baixo, mas de traseiro levemente erguido, enquanto com as duas mãos afastava as nádegas, descobrindo o ânus.
«Rasga-me. Magoa-me bem. Até ao fundo», pediu ela. No que se repetiu, implorando.
Obedeci-lhe como se fosse apenas corpo, fazendo-a gemer de dor e o tronco em convulsões de choro.
Violava-a. Mais pela violência do pedido, do que pelo comprometimento do acto. Então compreendi que se sacrificava, que se imolava, como se se quisesse punir pelo prazer que havia auferido anteriormente. Quando terminei, numa ejaculação esforçada e agressiva, beijei-lhe os olhos e bebi-lhe as lágrimas, sem que pronunciássemos qualquer palavra. O sol punha-se, e já mal nos víamos na penumbra crepuscular.
Procurámos, na sacristia, uma janela que fosse suficientemente baixa para podermos saltar sem nos aleijarmos, depois de nos vestirmos.
Saiu primeiro, e atirei-lhe o saco. Saltei em seguida e despedimo-nos, na rua, como se nos tivéssemos acabado de encontrar vindos dos mandados, ao cruzamento das ruas (a da Igreja com a de S. Vicente) com a Estrada do Cemitério, num simples e mútuo
«Inté!...»
seguindo cada um seu rumo, sem uma promessa, sem um contrato, sem nenhuma obrigação de nos voltarmos a ver, ou sentir que devíamos manifestar esse querer embora não estivesse previsto.
Entre outras, era ao futuro que competia essa estipulação, se é que ele existe ou existirá, qual amanhã que se faz ontem... E à vida, que é quem mais manda e impera nestas andanças, que se não lhe são próprias e exclusivas, é somente porque o diabo se mete de permeio. Por incomuns que nos pareçam... Sobretudo porque em Casal Parado o quotidiano é tão imóvel, atarraxado, tão estagnado e pantanoso, que a criação o tem por caldo próprio, onde tudo pode acontecer, desde que ao momento seja dado estar atento, espiando a oportunidade que o procura, e que, enfim, foi quanto nessa tarde apenas sucedeu!
















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A pessoa entre as sombras de ser