La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Como do recato dos tempos aos tempos recatados

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta

Página a página, pedra a pedra, de seta em seteira aberta
Se abrem no muro, as frechas do futuro, por frincha desperta

8.28.2009

O Escriba e seus escribalismos


Além de O Escriba e as Bonecas, são igualmente da autoria de Joaquim Castanho, natural de Portalegre, Alentejo, Euclasia (poemas), A Carta Esquecida (contos, editado pela www.editonweb.com), Capas Pretas (poemas), Qui Pro Quo (novela policial), Fait-Divers (poemas), A Sinistra (romance), Oh Que Bezana (romance), A Virtude Assassina (rom­­ance), O Escribalista (poemas resultantes do blogue http://escribalista.blogspot.com), Crónicas ao Desbarato (reunião de crónicas dispersas por alguns órgãos de comunicação social regional) e, ainda!, algumas brochuras de ensaios, críticas literárias, recensões, conforme serão contactáveis nos blogues http://escribalistas.blogspot.com e http://viverliteraturaviva.blogspot.com que funcionam como moleskine oficial do autor, qual oficina virtual de escrita com efeitos directos na confraternização entre criadores do mesmo ofício. Assim, desempenhadamente como um despropósito e sintoma da época, não vá a língua portuguesa cair em desuso nas coisas da alma, que se quer desafogada de enredos que lhe não pertencem ou outro reino assistem.

8.05.2009

O Escriba e as Bonecas - Primeiro Andamento

O ESCRIBA E AS BONECAS




A) UM ESCRIBA (Piafé)



Às vezes precisamos de escrever sem dizer nada. Sem mensagem. Nenhum objectivo. Pelo simples exercício dos dedos segurando a esferográfica sobre o papel. O escorrer da tinta; a mancha que cresce com o fluir da respiração. E ao ritmo dela.
Mais que tudo, escrever é precisamente isto – um exercício físico e material para surpresa do espírito. Do gozo, da ideia, do pensamento; enfim, da tinta. Alguns há convencidos da utilidade social da escrita; outros, da sua funcionalidade enquanto terapia. A comunhão catártica (orgástica) entre quem escreve e quem lê. Mas, convenhamos, isso é pura fantasia de viciados em racionalização. Ao escrever apenas executo o ritual do escriba. Reinsiro-me na ancestralidade do rito e da partilha, na elaborada feitura dos enigmas. É plena satisfação o que consigo.
Sento-me no chão, à índio. A prancheta sobre os joelhos. E eis se não quando a esferográfica preferida à distância exacta dos olhos, o braço em ângulo ligeiramente obtuso, a bochecha da palma acariciando o papel, se desenham díspares e ordenadas as letras na consumação sintáctica da imagética. Os dedos são gomos maduros dum fruto desconhecido; polpa macia do sonho à flor do osso. Sigilo emergente de ser no gesto simples de alcançar o fim da página.
A máquina de escrever e o computador chegaram. E com ela e ele suposto era também virem mais facilidades para a escrita. Inclusive que os textos fossem melhores e os livros proliferassem com maior intensidade. Todavia, não o foi. Foi aqui principalmente que o progresso falhou: não é verdade que a melhoria e avanço tecnológico trouxeram mais e melhor literatura. Pelo contrário. É antes verdade que ela tem vindo a piorar ultimamente – chegando a tocar as raias do inadmissível. Coisas que o software não resolve!
No tempo das canetas de aparo e do papel pardo avulso houve Eças de Queirós, Camilos, Ramalho Ortigões, Alcides, Florbelas, Raul Brandões, Fernandos Pessoas, Manuéis da Fonseca, Aquilinos, Vergílios Ferreira e Ferreiras de Castro. Hoje, porque as disquetes facilitam imenso, temos escritores que todos vêem nas rubricas televisivas e banquetes oficiais, que vendem aos montões mas ninguém lê. Que confundem política com literatura e impam de cátedra nas suas vídeo-palestras!... de marketing.
Imolam-se publicamente. Querem-se bíblicos como no maior golpe de marketing da História, que foi a morte-crucificação de Jesus Cristo. Os milhões e biliões de Bíblias vendidas atestam-no. Mais de metade foram vendidas a quem nem tão-pouco sabia ler! Por outro lado, nunca houve em outro tempo como hoje tanta gente a saber ler e a comprá-la. Não obstante, nunca como agora, ela se mostrou tão inútil. Eles (os perversos) aproveitam; ela tornou-se inábil (ideologicamente) para tratar da flagelação moral, da tortura emotiva e afectiva, da usurpação da dignidade humana. Tal como a arte, a literatura, a religião monoteísta, teve o seu retrocesso graças ao progresso. Embora por motivos diferentes: a literatura porque piorou em qualidade; a religião, porque perdeu a necessidade. Ser religioso já se não vê hoje como uma necessidade humana. Tanto faz ler a Bíblia como não: o homem deixou de ser um animal religioso. Por isso, tanto faz haver computadores como não: o hábito continua a não fazer o monge, embora que também se confirme que só por vezes (muito raras, por sinal) o monge faz o hábito. O marketing é o hábito que ficou do monge que cada homem foi – reminiscências, regressões à Idade Média, filha suprema da mãe escolástica e do santo ofício da cópia. O império dos copistas. O reinado da memória ruminante. Agora importa reerguer a escrita, subtraí-la ao marketing e à religiosidade, ao progresso tecnológico, e voltar a dá-la, devolvê-la ao escriba.
Este conto, meus amigos, que não tem aspirações nem ambições de Top editorial, foi escrito como os homens os escreviam desde o princípio dos alfabetos, para não ser esquecido, sem nada na mão, nada na manga, mas apenas com a dedicação e entrega dum escriba. A força inocente das palavras que desbravam o sonho e adensam as visões. Que solidificam o crer.
Fala de nada e espera coisa nenhuma. Também sem o pretexto ou qualquer outro motivo além da escrita. Da tinta sobre o papel branco. Do gosto declinante dos dedos alongando o ser. Do fluir desimpedido e nu da inocência dos gestos que nada querem significar. Despojados. Libertos até de quem os comete.
Era uma vez já não comove ninguém. Nem a mim, que sou antiquado e rebelde nos contornos, como tudo o que é romântico. Pinga-saudade por incapacidade e inaptidão ao presente e porvir. Falho de emoções e sentimentos que não nasçam da repetição; bloqueado pelo medo de vir a ser.
Esta é a história do conto que nasceu na primeira letra da primeira linha e morreu na última letra da última linha, cujo cadáver se multiplicou para que os leitores pudessem testemunhar a sua existência. Efémera. Nem mais. É o meu cadáver que estais soletrando. É ele que ficou de mim quando fui passado à máquina, e em seguida policopiado. Eu sou um cadáver. E como tal federei depois; que nem os abutres consentirão o meu cheiro. Lamento. Por vós, é claro. Que por mim nada há que lamentar. Quem se cumpre, cumpre-se. O inverso da ordem não é, obrigatoriamente, desordem.
O importante verdadeiramente importante é a esferográfica. Ela tem que deslizar e deixar um rasto na quantidade de tinta que queremos e gostamos de ver sobre o papel. Eu, por exemplo, gosto delas já em meio uso, que é quando têm a esfera bem polida e lubrificada por tinta mole. Faço jogos com elas. Nada me dá mais prazer do que conseguir fazer coincidir o fim duma esferográfica com o fim dum texto, ou até o fim dum caderno. O terminar de tripla, podendo ser! Isto porque nunca é o enredo quem decide se um conto irá ter dez páginas ou um capítulo vinte. Um capítulo pode ter um caderno, dois cadernos, três cadernos; jamais caderno e meio ou dois cadernos e um quarto. Um conto, a mesmíssima coisa. Quando me proponho a escrever sobre um tema decido também se é tema que merece um caderno, dois cadernos ou três cadernos. Depois escolho a esferográfica com que executá-lo. Uma em que, preferencialmente, cujo fim coincida com as últimas palavras da última página.
Há uma de que gosto extraordinariamente. É daquelas recarregáveis. Com mola e maquinismo de bico para dentro, bico para fora. As cargas são metálicas, duma liga qualquer com cobre, com pouquíssima tinta por carga, e que costumam durar a “pura dimensão” dum caderno. (Tempo de vida: um caderno. Vejam como também o tempo se pode medir por espaço-folha. Não dura uma hora, duas horas, três: dura um caderno. Longevidade: X metros.) Verde. No bojo ainda se notam algumas letras da publicidade que exibia. Mas já se não percebe o que propagandeava. De plástico e metal cromado na cintura, base do bico, alça de prender ao bolso e botão da mola. Made in USA. Viajada, a figurona! É com ela que estou a escrever. Não lhe sentem a vaidade? Ela sabe de quem estamos a falar.
As cargas, compro-as às dúzias, numa das papelarias de Casal Parado, a que está (eternamente) para trespasse. Para fechar, provavelmente, ou mudar de ramo, dado que raro se lá vai comprar além duns míseros envelopes, ou postais de Boas Festas e Parabéns, dos antigos, tipo anos 50/60. Ou bijuteria da Carochinha, modelo small is beautiful e plásticos hippies. Arte Pop. Pop ou coisa de arremedar por aí. Ainda a ostentar um reclame luminoso dos bons: vidro fosco branco em caixa oval horizontal, com os dizeres em relevo pintados a azul e vermelho. Nada de néon. Mas uma lâmpada fosforescente por dentro. Os cadernos são a vinte escudos e ter-lhes-iam custado, ao tempo, prà’i vinte e cinco tostões – uma caravela, das pequeninas. É negócio de miles por cento, abone-se. Mas desde quando estão comprados e o capital empatado?
Na escrita é permitido ouvir com os olhos. Ler é isso. É escutar, mas com um órgão que serve para ver. É a criação de mais um sentido (virtual). É uma multiplicação de capacidades. E é sempre da escrita que falo quando escrevo. De como tal posição não serve para o fazer ou destoutra ser a ideal. Por exemplo, nunca se deve escrever a uma mesa ou a uma secretária: elas obrigam a apoiarmos os cotovelos e/ou o braço, tirando a mobilidade ao pul­so. Daí os calos que alguns ganham nos dedos! Do ter que segurar, pressionar, inclinar e mover a esferográfica só com eles, quando devemos fazê-lo com a ajuda deles. Além de que obriga a coluna a uma posição de pega de touros e os olhos a cair sobre o papel, quando muito simplesmente deveriam estar a olhar para ele. Não manter as distâncias regulamentares é, como noutros jogos, v. g. futebol ou ténis, algo punível e sujeito a sanção, que desfavorece a boa condução na prática desportiva e inferioriza quem comete tamanhos deslizes.
Quanto ao papel... Eis outro pormenor técnico que importa pensar. Comigo, exceptuando a obrigatoriedade de ser quadri­culado, é uma questão mais económica do que de qualidade. Desde que não possua nervuras e seja barato, é quanto basta. O que interessa é que nunca falte! Gosto igualmente do de tipo almaço de 25 linhas, em cadernos de dez folhas a quatro páginas cada. Aquelas onde no passado se faziam as célebres provas escritas da primária. Mas é produto que raramente encontro. E quando tal sucede, é uma festa de sem dormir e sem comer, por mero esque­cimento!...
Em resumo: não há quem escreva bem sem papel quadriculado e esferográfica a três quartos. Ou sem prancheta. Que tudo o mais são dissabores de quem se autotortura.
Se a esferográfica foi oferecida – como é o caso - , também ajuda muito. Tem valor acrescentado. A amizade ainda não é um imposto. E o que ela acrescenta a um escrito pode ter uma influ­ência deveras positiva. É o sal da letra. O tempero que puxa à bebida. Porque de copo aqui, copo ali, se enche a taça da fertilidade. Se alcançam os cumes da glória. Se não acreditam... Então desconhecem por completo porque foram quem foram, os Hemingways e Pessoas da nossa Literatura Universal.
Mas não é de glória e imortalidade que aqui se fala. É de escrita. É do escrever sem motivo nem causa; sem pretexto, nem tese. É do. É gesto. É prática. É. É dissolução, antes de ser solução. Fumo que nasce no arder de coisa nenhuma. Que nem poluente é. Nem fumo se nota. É o rasgar do papel de fotografia antes da gravação, revelação, fixação. Algo que antecede o bom e o mau, o bonito e o feio, o floreado estilístico e o rude esbulhar da ganga. Do sem jeito de ser assim. Porque o importante e imprescindível é gratuito.
Mas também não é o escrever para queimar ou deitar fora. Nem para exibir como peça ou ganha-pão. Ou de confessar e expor o imo aos olhos da censura ou do perdão. Não. É o de até acabar a esferográfica e o caderno que se começaram. É o de prender o tempo e modo com o registo do prazer. É um exercício de gozometria.
Há quem escreva por urgência vital. Para viver. Ou para não morrer. Como tábua de salvação. Mas como bóia já tenho a tábua da prancheta. Portanto, também não é por tal, descansem.
Outros há que o façam por e como staff de enroupamento social. Que o usem como traje de jorna ou de ócio. De fato domingueiro de ir ver a Deus. Mas igualmente esse argumento não cabe aqui. Porque não o faço para definir um estatuto ou papel entre os demais. Faço-o nem porque estou só, nem porque estou acompanhado; faço-o, nem para me apagar ou para me afirmar. Faço-o apesar disso.
Ainda outros há que cientificamente pretendem fazê-lo como laboratório de ensaio para a sua filosofia de vida. Para modificar, testar, comparar, verificar, ou comprovar, ou até para confrontar a vida com a sua imagem (suposição) idealizada da vida. Esboço e utopia. Um “eu sou assim, penso assado, tenho o passado cozido, mas quero um futuro frito”. Ou para apurar estatisticamente quantos alfabetizados há a terem uma igual visão das coisas, da natureza, dos outros, dos animais, do divino e de si próprios. Em pretensa alteração do discurso literário para discurso político. Ou sociológico. Contudo não enveredei por aí – o que é que querem?! Nem vejo por que motivo argumentaria em semelhança. A minha filosofia de vida nem chega a ser como a daqueles que afirmam não ter filosofia de vida. Dos que se bastam em pensar duma pedra que é uma pedra. Duma flor que é uma flor. Duma ovelha que é uma ovelha. E que daí não vem mal ao mundo. Ou que estar aqui é uma coincidência entre o espaço e o quando.
Se escrevo ao sábado não é porque seja sábado, nem por não ser domingo ou apesar de ser sábado... ou ainda que seja sábado. Escrevo simplesmente sem notar que dia é.
Nem por estar sol, ou a chover. Ou ser manhã, ou tarde, ou noite. Ou antes de amanhã. Ou depois de ontem. Escrevo porque o caderno ainda não está escrito, e a esferográfica acabada. Porque querem e podem cumprir-se se eu continuar a escrever. Se o fizer como o faço. Fazendo-o.
Também não é para experimentar o valor das metáforas, ou a tonalidade das metonímias, ou apreciar o efeito desta ou daquela ironia. Tampouco a vivacidade daquela interrogação ou a pujança apelativa daqueloutra anamenese. É para fomentar heurística. Para praticá-la, quanto muito. Ou sofrê-la. Já alguma vez descobriste em ti características e atitudes que odeias nos outros? Tendências esquisitas? Ou potencialidades geniais de que te desconhecias portador? Ou conhecimentos que ignoravas possuir? Tudo riscos que corre quem a excita ou se deixa entusiasmar por ela, a ciência ou a técnica de descobrir coisas, e a primeira finalidade da narrativa, no sentido de que ela procura habilitar os seus entusiastas a encontrarem por si mesmos o verdadeiro significado da existência – a heurística, enquanto programa, software das máquinas de quotidiano que cada um de nós é. Ou pretende ser. Ou se sujeita. Se admite – antes de se demitir ou abdicar de ser, sendo-o.
Saiba-se pois, que escrevo para contrariar a ideia que os portugueses têm da escrita. Principalmente da maioria, chamada camada popular, deles. E de alguns outros fundamentalistas da economia. Dos adoradores do santo escudo-dólar-peseta-euro-libra-etc., desde que dê para fazer figura e atiçar invejas. Compitas. Caldeiradas.
É o artesanato da denúncia. Que é crime e erro que ainda se não pode cometer, não obstante as rábulas dos papagaios da liberdade. Por exemplo, ontem no café travei o seguinte diálogo com um (des)conhecido de vista, do frequentar o mesmo estabelecimento em idênticas horas que eu.
«Boa tarde. É servido?»
«Não, obrigado. Já tomei o meu. É logo que chego... Bem quentinho!»
«Hum!...»
«Se não é indiscrição... O que é que o senhor faz?»
«Escrevo.»
«Não; eu estou a perguntar em que é que trabalha?!»
Ou ainda outro, mas este que ouvi do minigravador que propositadamente deixara ligado no active voice, em cima da mesa da esplanada, ladeada à esquerda por outra a que se sentavam duas senhoras-finas-de-bem, enquanto fui ao balcão comprar tabaco.
«Quem será este fulano?!...»
«Vem aqui todos os dias. Deve morar perto. Sempre com os livros debaixo do nariz!»
«É. Mas não mora perto, não. Nunca o vi falar com ninguém! Lê; só ler. Ou escreve...»
«Aqui há coisa!... Se calhar foi a família que o recambiou pra cá... Por causa da droga. Parece que esses drogados têm tal mania!»
«Pois é. Em calhando já por lerem e escreverem tanto, é que deram em se drogar!...»
«Pschiu! Cala-te, que ele vem aí.»
Actualmente a denúncia é artesanal. É tão artesanato como a louça das Caldas, os tapetes de Arraiolos, as bilhas de Nisa. Mas artesanato que se não deixa obrigar à representação, e a figurar, retratar, por aqueles que dia a dia o destruem e amarfanham. O repudiam. O inutilizam. O vilipendiam. E o compram, porque uns quantos livros na estante do móvel da sala fazem figura, ficam bem, dão aspecto, e pontuam perante as visitas. Afinal, justamente como os bibelots de artesanato!
O bem-bom-doce-mel que eu queria realmente, era poder viver do escrever histórias, vendendo cada uma por seu caderninho manuscrito. Assinados com nome de verdade ao fim. Todas diferentes, embora que tão parecidas no nascer e no partir. No a página tantas do crescimento, das primeiras letras, do diploma de curso, da primeira bebedeira paga com o próprio ordenado, à custa do salário suado, saída do bolso onde caro sacrifício a forçou a entrar. Tudo coisas impossíveis para quem sonha mais do que confia. E confia mais do que à liberdade é permitido. Sob o risco de lhe ser lancetada, confiscada, subtraída. Que o sonho é a hipoteca da liberdade. E esta, a linha que separa a escravatura da dignidade e... integridade. Da igualdade. Da humanidade e da beleza. Da escrita.
Há quem escreva porque confundiu a Feira do Livro com a Feira das Vaidades. Que o faça para editar, às dezenas de milhar, com capas caras e bonitas, encadernações de ponto rematado, sessões de autógrafos, fotografias nos diários, palmadas nas costas. Ou para impressionar o/a bonitão/ona que nunca lhes ligou peva. Mas eu não. Nunca. Eu faço-o porque quero acabar o caderno com esta esferográfica que tenho na mão. E para que o meu prazer seja testemunhado a quantos frígidas e impotentes houver, incrédulos capazes de difamar a escrita e difamar quem a pratique.
São comuns entre os televiciados os hipócritas e os moralistas. Fundamentais da ociosidade mesquinha, e da inveja compadecida e narcísica. Os racionalistas da ração.
É mentira que o cinema, vídeo e televisão prejudicaram a literatura. Se o fizeram, aliás, foi tanto quanto o prejudicou Gutenberg e a imprensa. O jornalismo de jornal (escrito). Promoveram-na ainda. Divulgaram-na. Custearam-na. Folhetiniza­ram-na. O que a prejudicou foi a sociedade de consumo ser uma consequência directa da sociedade de produção; e o indivíduo humano um produto de ambas. Mas que tem os seus dias contados enquanto tal. Enquanto não detentor principal das suas carac­terísticas genéticas, mas intérprete do adquirido condicionado. Ou se não empenhe em recuperar-se para a natureza e resultado natural duma evolução físico-afectiva relacional com os universos bioló­gico e cultural, próprios dum animal bípede deslumbrável. Porque foi no sermos capazes de nos deslumbrar que nos vimos diferentes. Superiores. Em arrebatamento e espanto. Em deslumbração.
Dividir, espalhar, compor, decorar o tempo pelo espaço, a tinta pela página, é tarefa para inocências escrupulosas. O que acontece ao alto da folha não obriga especialmente que anteceda no tempo o que acontece ao fundo. Embora quase sempre assim seja, admita-se; principalmente nos diálogos. Porque há truques de invertê-los ou combiná-los, antecipações e remissões ao passado, flashbacks e replays, se inventaram modos e estilos. Ser barroco é colocar tanta bijuteria e floreado, que ao olharmos, o móvel deixou de existir. É maquilhar de tal forma o papel, que ao lê-lo, consigamos lá encontrar tudo menos o texto, o comunicado. Já ser realista é manchar a tal ponto a página, com aspas e sublinhados, notas e referências, reescrever com itálicos ou inúmeras vezes por cima, acentuar e desnivelar, que ao olhá-lo só é perceptível o borrão, a mancha disforme da ausência de texto. Mas o escriba poupa na tinta. Sabe que para aquele papel todo só tem aquela esferográfica. Nem mais, nem menos um fio de tinta. Daí que o tempo também seja medido pela ampulheta da carga. Embora tenha o “eu” prenhe de ser, nunca exerce o segredo do conta-peso-e-medida, mas o apanágio do grafismo por orçamento. O tantas páginas por esferográfica. O “um conto por caderno”. Na feitura contínua do desenho do mapa interior. Imo. O.
Signo do espelho? Narciso sublimado? Contemplação perpétua, com registo gráfico, das peripécias de relacionamento entre os meus fantasmas? Não. Mil vezes não. Gostava de ter podido falar com o Pessoa acerca disto. Ele deveria ter algumas palavrinhas certas a propósito. E com conhecimento de causa. (Hãn-hãn-hãn-hãn-hãn-hãn-ãn-ãn-nn-n!!...)
O único limite para o niilismo é a ponta do nariz. É o Cabo da Roca do corpo. O ponto mais a ocidente do eu. Da realidade. Da consciência. Portanto, a actividade do escriba e do seu mundo, o seu ego e a sua norma, a sua ética, a sua cabra, porque também assente na refutação da ideia duma verdade moral estática e absoluta, derivada duma hierarquia de valores, em cuja noção de valor está uma incongruência teórico-prática, mas que não se deixa inclusive apontar e afinar pelo diapasão do niilista. Porque a sua prescrição, o seu relato de envolvido condenado a expirar, não é um fim em si mesmo, mas outrossim uma consequência imediata do acto, que sempre leva em si as características e ânimos, os cunhos e marcas de quem o pratica. E por arrastamento.
Tudo isto, não obstante, seria mais fácil, se pudesse acercar-me das pessoas e dizer-lhes: «olá. Sou escriba». E elas aceitassem o facto como acatam que o primo seja pedreiro, a vizinha arquitecta, a amante prostituta ou o cunhado astronauta. Como qualquer mortal. Mas não. Se chegasse à repartição de finanças para me colectar na profissão liberal de escriba, diriam:
«Volte amanhã – se fosse sexta-feira –, que os impressos para essa profissão esgotaram.»
E depois de eu haver saído porta fora, comentariam entre eles:
«O que é que ele disse que era?»
«Louco. Ou parvo. Ou idiota. Não percebi direito.»
«Mas ele falou noutra coisa...»
«Ora! Que importa o que é que ele disse! Que importa o que disse um louco?!»
Aliás, ninguém crê que seja possível escrever sem ser para passar cheques, enviar cartas, mas somente aonde não haja telefone/telex/fax, requerer um subsídio, pedir um deferimento, uma minuta, uma autorização para o uso ou concessão de. Quanto mais haver um escriba?! Sinceramente! Maneirem a coisa!... há que tirar o ursinho da piscina. Molhar o pêlo a animais de peluche dá pneumonia brava!
Ao autor deixou de competir a definição dos seres. Animados ou inanimados. As artes plásticas fazem-no trinta vezes melhor. Compete-lhe agora indefini-las. Que é na indefinição que consiste o baralhamento de voltar a dar (cartas). De continuar o jogo.
Sentem-se comigo. No chão. As pernas cruzadas; a prancheta sobre elas. Respirem fundo, mas não confundam a pose com mais uma asana de yoga. Que é posição de gente. Sem obrigações contorcionistas.
Não pretendam. Queiram sem fingir. Esqueçam as gravuras sobre a vida no Antigo Egipto. Os supostos lacaios do faraó. Ou os contabilistas do Império. Uma tábua basta-vos. Uma. A.
A esferográfica deixou de ser a câmara de filmar dos pobres. E a literatura, o esboço do filme. O guião de empréstimo. O croquis. Assim como o fim do kunstlerroman. A sentença de morte, o golpe de misericórdia, para a historieta da criança com temperamento artístico e delicado, e da sua luta ou incapacidade para se libertar da incompreensão e das atitudes burguesas da família, tal como das suas relações de juventude. A vida e a formação do autor, desde o berço até ao caixão, com passagem abreviada pelas maternidades possíveis, interessa mais aos técnicos especialistas em saúde mental, do que propriamente ao leitor desimpressionado. E por arrasto, igual destino para o kitsch!... O poster. O postal ilustrado. O mícroma.
Aos imperadores do dogma, do postulado, do axioma, concedemos impressões de verdade ou de razão. Que ambas são más companhias para quem ama. Esse precisa de ilusão. De fantasia. A verdade porque nos fere quando não somos os melhores de entre os bons. A razão que nos cega, por alcançá-la e se alcançada. Queremos a frente livre para poder respirar, erguendo o peito e os olhos na distância pontual dum horizonte em que se não participa. O horizonte quer-se longínquo. Porque quanto mais distante ele for, mais extenso e pleno é o nosso campo (de visão). E à herdade de cada um corresponde a dimensão própria da alma.
Façamos as contas. O balanço. Estamos a chegar ao fim do caderninho. O tempo de antena está a findar. Quites.
Não nos devemos nada. Porque nada nos prometemos, nada esperámos. Nem epílogo cínico ou moralista. Fundamental. Expirar como iniciámos é tudo quanto ainda nos podemos dar. Sem dor, no parto ou na morte seríamos todos muito mais parecidos ou desejados. Que é a dor de chegar? A cruel certeza de haver partido. O fim duvidoso indeciso que somente crê em consumações. Chegar é o exílio irreversível do partir; a expulsão do sair, como nas pastas de dentes.
Dizem que pode trazer alegria. Questão de pura contabilidade. Quando o deve e o haver estão no mesmo quantitativo não vejo como poder afirmar que a situação líquida é positiva. Ou negativa. Lá porque o oco está fechado, não quer dizer que possamos concluir que ali está algo cheio de coisa nenhuma. O vácuo é o vazio. E o ser, a embalagem que o limita. (Mas...) Se se quiser juntar um grande monte de terra, a maneira mais fácil é cavar-se um buraco (bem fundo).


(Ilustrações: Fotos de Pedro Alcobia da Cruz)

O Escriba e as Bonecas - Primeiro Caderno

B) BONECAS RUSSAS
( ou a importância do calçado )



Primeiro Caderno (Passo)


Palmira tem a voz (in)sinuante e sugestiva duma hipnotizadora. Lenta, sussurrante, cava, implora ao sonho e à desdita. Sofre-se por prazer mais facilmente do que se imagina! E obedece-se mesmo às mais indignas, criminosos e humilhantes determinações.
Conheci-a há um ano. Em Casal Parado. À hora da bica no café “O Bombeiro”, cujo nome deve à sua proximidade com o quartel dos voluntários desta vila. Bar que exibe uma pequena esplanada durante o Verão. Ou desde que o tempo o facilite, em qualquer outra estação.
A avenida é inclinada, com passeios ajardinados a arbustos e flores díspares; ao fundo, o largo principal do burgo. Tem-se a sensação de estar em outro lugar quando nela. Noutro sítio. As pessoas, numa ocupação pouco empenhada, sobem-na e descem-na com acentuada frequência. O Cinema, o Registo Civil e Predial, o Notário, a Casa do Povo, o Tribunal, as Finanças, tudo num equilíbrio paralelo, ficam nela. Como nas ruas principais das cidades dos filmes de cowboys, do Oeste recôndito: ao entrar-lhe a câmara, num plano geral introdutório da acção, estipula os limites espaciais para o enredo. Thriller, western, policial, cor-de-rosa, aventura, acção, terror, drama, comédia, cabem-lhe por medida. Basta fixar a objectiva e os actores passam ou param, conforme as exigências de cena, evoluindo na nossa compreensão. Há também as portas com chapa na parede, dos médicos de clínica geral, os dentistas, os psicoterapeutas, os floristas, os veterinários, advogados, escritórios de contabilidade agrícola e comercial, um banco, papelaria, perfumaria, pastelaria, dois cafés, seguradoras, pronto a vestir infantil, pizzaria, discoteca, armazém de sortidos e loja dos 300, a fim de ocupar o despropósito dos figurantes. E embora a toponímia deste país não me seduza, em que as mudanças políticas varrem o passado com idêntica ligeireza com que o vento o faz às folhas outonais, no comum rei morto, rei posto, sei-lhe o nome, talvez por não ser o de um ilustre ou dum alto valor prezado: simplesmente, Av. dos Soldados da Paz. Sem voluntários, nem bombeiros, a acautelar, para que no futuro não haja distinções entre eles e os municipais.
É suficiente um silencioso plano geral para que uma vozinha interior nos dite: “Foi aqui que tudo aconteceu...” E assim sucedeu, efectivamente; na mesa da esplanada dum café dessa artéria, conheci a Palmira. A Palmira desta história. Que por único particular diferencial de demais Palmiras, apenas tem o facto de pertencer a esta história. Sem sombra de remorso.
Bem... Também é sexy. E lúcida observadora. E perspicaz. E leitora de todas as minhas histórias (e disparates), que nem as feminis personagens de Camilo. O Castelo Branco. Pardo na vida e na morte. (Senões que só à literatura dizem respeito!) Aliás, a própria vida mais não é do que um romance de cordel mal contado. Falo-vos, como já se aperceberam, da paixão. Não; antes da submissão apaixonado do e ao amor. Antigo e cavalheiro. Mas também trágico e supérfluo, como adiante vereis. É pois altura, dum médio plano da mesa branca da esplanada, em que os dois estamos sentados.
Palmira tem o rosto oval, olhos castanhos, cabelo também castanho (clareado), penteado à Beatriz Costa dos bons velhos tempos. Os lábios são finos e a boca rasgada. Nariz e queixo miúdos; e neste último o sinal da discreta. Traja um vestido preto, dum tecido caro de que não sei o nome, colado ao corpo e a findar a meio da coxa seca, bronzeada e torneada. Os seios são pequenos, a que o decote não chega. Estamos frente a frente, e eu inclino-me. A cabeça levemente de esguelha, a fim de melhor a ouvir. Os dedos pequenos da mão afectuosa, curta e acariciante, quando não seguram no cigarro ou se entretêm com a colher do café, afloram os lábios, ora desenhando-os, ora comprimindo-os, num reconhecimento táctil de variadas sensualidades, não exibem quaisquer anéis ou aliança. Também não tem pulseiras, nem brincos ou fios no colar. Principalmente os da mão direita, que aos da esquerda é frequente esquecerem-se torcendo sem entusiasmo a costura do vestido. Cigarros, duas chávenas vazias, copos com água, uma mala de boneca ao canto direito dela, e, na minha frente, um caderno amplo aberto com um livro aberto ao meio por cima, são visíveis sobre a mesa de plástico branco. As mãos minhas, ocupadas ambas, com a esquerda de polegar enfiado sob o cinto das calças e a direita esgrimindo a esferográfica ou denunciando malabarismos, tentam abster-se de prolongar os ouvidos e os olhos – tentação, sobretudo contínua, aceleradamente crescente e imperiosa ao longo da conversa.
«Matei o meu marido.»
«Sério?!»
«Sim. Conforme ouviste», continuou ela. «Uma longa história. Foi uma ideia que me nasceu na escola primária. Andávamos na mesma sala. Foi amadurecendo dia após dia, hora a hora, minuto a minuto, sempre que o via e com ela estava. Nunca tive dúvidas de que o faria. Nem hesitações. A determinação é a minha principal qualidade, entre outras, como concluirás...»
Agora vem a propósito um grande plano dela. O rosto, o pescoço, as orelhas, a nuca. Observem as pilosidades sedosas, seda alourada imperceptível no buço e na curva do maxilar sob a orelha pequena e comprimida. Os dentes são largos, unidos e grandes, e as asas do nariz alçam felinas. O lábio inferior, sobressaído ao centro, um pouco mais grosso que o superior, dá-lhe um toque de sensualidade afro, enquanto a pele de bronzeado a fins-de-semana, no conjunto com os cabelos palha escura, lhe aplicam uma tonalidade nórdica. Híbrida no semblante, é, contudo, definitiva na feminilidade. Única. A.
«Na segunda classe eu era uma coiseca pequenininha, redondinha, fofa, que não podia ver meninos louros. Os meus braços, os meus olhos, a minha respiração fugia para eles, atraída eu toda em inocência imaculada e adoradora...»
O jeito de olhar dela é de baixo para cima, avançando a testa e retraindo o queixo, intelectualizando a timidez. O branco do globo ocular emergindo da pálpebra, distrai-nos da tentativa de lhe invadirmos o âmago imo pela porta da íris castanha salpicada na pupila. Ao fechar os olhos é um convite que nos faz. Um “tudo bem” de gata. Um convite à entrega, à submissão. Um apetecer fechá-los também, aos nossos, em rendição, sem atender a receios e riscos.
Acende o cigarro. Expira o fumo. E continua.
«Seguia-o que nem um cachorrinho, sem nada esperar em troca. Apenas pelo prazer de o acompanhar, de participar das suas brincadeiras, de o proteger, de o servir, de lhe facilitar a satisfação dos mais perversos caprichos... Queria ser irmã dele. O meu sonho era viver com ele, estar com ele, na mesma escola, na mesma casa, na mesma mesa... Era para ele o primeiro pensamento ao acordar, quando tinha sido também para ele o último, ao adormecer... Se tinha bolos, chocolates, bombons, pastilhas elásticas, em casa, ou alguém da minha família e conhecimento mos dava, corria a dividi-los com ele, sem sequer os provar...»
Notem, neste momento, o plano americano. Ela segura no cigarro com a mão esquerda, enquanto com o polegar e indicador da direita comprime o lóbulo do lábio inferior acariciadoramente, afagando-o com subtileza. Fita-me.
Eu, mantenho-me inclinado para a frente, inconsciente ao sustido movimento, anuo com a cabeça num sim-sim de baixo-para-cima-para-baixo, abanando o chocalho, o cigarro esquecido com a cinza na ponta ardida de centímetros, na mão esquerda, e com a esferográfica na direita em posição de escrita, vou nasalando uns hum-hum psicanalíticos de reforço e incentivo, encorajando-a a que continue. A abstracção é total. Nem a câmara, nem o movimento da rua me distraem.
«À minha irmã, mais nova do que eu um ano, nem com o facto de dormirmos em quarto comum, lhe notava a existência. Tenho uma vaga ideia de a ter visto uma única vez nesse ano: reparei nela pelo aniversário de Pedro, segurando numa prenda, quando minha mãe ma encomendou com um “toma conta dela” responsabilizador. E isto talvez enquanto magicava na maneira mais rápida de me ver livre dela, logo que chegássemos à festa. A ideia de que iria reparti-lo, nas atenções, com ela, atormentava-me até às fronteiras do desespero, da aflição... uma dor de queimar por dentro. Um arder de entranhas a que não podemos socorrer e extinguir com bebidas frescas ou carinhos trocados, ternuras certas, gestos próprios mas da pessoa errada...»
Voltamos ao grande plano de Palmira. Alonga o olhar pela avenida fora, percorrendo-a no sentido descendente.
«Inclusive, desconfio, naquele ano raríssimas pessoas houve dignas da minha preferência e atenção. E disponibilidade. Nem o meu pai, que naquela idade é uma peça fundamental e imprescindível na concretização do puzzle de existir; já que à mãe é atribuído o papel de máquina de satisfação de necessidades. O leite achocolatado, morninho... A sopinha da nossa simpatia... As fatias douradas da nossa predilecção... O vestidinho lavadinho, passadinho e cheiroso que nos arrebita... A banhoca perfumada... Os lençóis fofinhos, quentinhos e aconchegantes... Os sapatos do nosso conforto e ligeireza... Nada disso recordo. Nem lembro o meu pai desse tempo. Ou muito vagamente, como já disse... Talvez naquele dia... Sim. Àquele dia, lembro-o!... O meu pai foi o meu orgulho! O rei da menina dos meus olhos. Era o principal dia das festas de A-dos-Tansos, em Agosto, dia 14 ou 15...»
Plano geral da rua com o largo da Rotunda Sul ao fundo. Um grupo de teenagers à porta do café, discutem acerca do título da próxima sessão de cinema. Ouvem-se indistintamente. Mas a voz de Palmira, em off, sobressai.
«Recordo que vestia as minhas primeiras saiinhas de ganga. Uma T-shirt amarela com o Pato Donaldo. E ténis rosa, com debruns brancos...»
Entretanto o grupo juvenil vai-se afastando, descendo a avenida.
«Meu pai pegou-me na mão e disse: “anda, vamos buscar o Pedro.” E fomos. Na carrinha de caixa aberta... Fiquei em suspenso, como numa nuvem, com vertigem. Com medo de respirar, ainda assim não acordasse. Mas não era sonho nenhum, era pura verdade real: ia passar um dia com ele! Ou melhor: ia tê-lo em minha casa! Mostrar-lhe o meu quarto! Os meus livros! As minhas bonecas! As mesmas bonecas que faziam parte das histórias e brincadeiras em que ele era sempre o personagem principal!... O herói ausente, mas incondicionalmente presente!...»
A objectiva acompanha o grupo até ao largo.
«Quando entrei na viatura, ali, ao lado de meu pai, apoiando-me no tablier, fitando-o de soslaio, notava-o crescendo para mim, ganhando em admiração e respeito, à medida que desdobrava curvas e nos aproximávamos de A-dos-Tansos. Dele. Dele. Dele. Dele.»
(Silêncio...)
«E quando tocámos à campainha», continuou ela, «foi o pai de Pedro quem veio atender; mas ele já sabia, pois fora tudo combinado. Os nossos pais gostavam do idílio, e romanceavam-no. Doutra forma, mais prática, mas tanto como eu.»
O plano geral do largo da Rotunda Sul esvai-se e dilui-se. Nesse apagar-se, fenecer-se, o grupo atravessando a zebra dos peões é apenas um conjunto de silhuetas, coloridas com vivacidade.
«Não cabia em mim. As mãos eram-me curtas. Por isso, contorcia-as e esticava-as jubilosamente. Não tem piada em como sempre que estejamos felizes sejam as mãos que melhor expressam e manifestam essa felicidade? Agarramos. Pegamos. Batemos palmas. Estalamos “castanholas” com os dedos. Abrimos para o céu. Já notaste?...»
A câmara regressa, sobe a avenida até um americano nosso, à mesa da esplanada. Ela volta à fala.
«Hum!...» Respondo eu.
A minha posição mantém-se; é a inicial. Ela recosta-se um pouco e cruza as pernas que – atenção ao grande plano – bron­zeadas, parecem de entre menina e mulher. Curtas, bem desenha­das, inspiram mais ternura que sensualidade. Sexualmente apetecí­veis, é certo e embora, que apetecem beijar e acariciar, são, contu­do, como que um prolongamento da voz, e não um complemento corporal. São sugestão. Sussurro. Ternura que escorre até.
Os pés são minúsculos. Calçados a mocassins, sabrinas, ou qualquer coisa leve e rasteira do mesmo género. Frágeis. A notarem-se os ossículos e nervuras das veias sob a pele. E a câmara salta do peito do pé para as costas das mãos, que ela contempla. Gradualmente o médio plano cumpre-se, à medida que o grande plano das mãos se esgueira.
Abandona o ar sonhador, e é como se se compenetrasse de onde está. De quem é para além de quem foi. Do que está a fazer. Tem os braços esticados para a frente, as mãos à altura dos olhos, e os dedos separados para o alto. Fita-as. E é para elas que parece falar.
«Quase que ia sendo totalmente feliz nesse dia... Voltar a casa, sentada ao lado de Pedro e de meu pai, entre ambos, que com aquela iniciativa vencera a barreira da minha indiferença, foi um diluir-me de quase apetecer chorar... O meu joelho, tocava no joelho de Pedro; a minha perna tocava a sua perna; o meu braço tocava o meu braço; e o respirar era uma surpresa por ainda o conseguir fazer, uma admiração por saber-me a sobreviver a emoções tão intensas.»
O verniz das unhas é transparente. Dá-lhes um aspecto de resistência e textura que na verdade não possuem. Renova-se o grande plano das mãos; é como se a objectiva nos desse aquilo que seus olhos vêem. As unhas estão cortadas, em demasia para o terem sido. Provavelmente foram é roídas e, finalmente, aparadas à tesoura ou corta-unhas. De pequenas, afectivas, o plano torna-as enormes face à avenida que se estende por detrás delas, em diluído fundo. Os braços, esses apresentam uma penugem dourada, quase imperceptível.
«Sabes...» A voz off confunde-se com um apelo, um pedido, mais do que com uma exposição informativa. «Como poderia eu recordar outras pessoas se àquele tempo ele era tudo para mim? De passado pouco tinha, e o presente e o futuro eram ele. Curioso como a esperança é inversamente proporcional ao tamanho das pessoas!... Quanto mais pequenos somos, maior ela é: e àquela idade eu antevia a minha vida junto dele, amada e reconhecida. Legítima e amante. Por tal o tempo passava lesto. Rápido e ligeiro, breve e veloz de encontro ao sonho; expedito e infinitamente intenso na feitura da realidade. Na busca de ser...»
Baixou as mãos; e ao retirá-las revela-se o plano geral. A grupos de três e quatro as raparigas passam, com sacos de compras, livros à frente, à altura dos seios, num pudor estudantil fora de moda. Não raramente um ciclista ou outro, subindo ou descendo. E ainda dois ou três solitários camponeses, em rústicos ócios, de vagares ronceiros ostentando nas mãos, desajeitamente, algum impresso de serviço público ou apólice de seguros.
«Mas foi em vão. Como todo o sonho. Aliás, não só em vão, como também cruel e desesperante... Noutro dia, depois de findas as férias grandes, e após um mês de enlevo em que quando ele não estava na minha casa, estava eu na casa dele, fui violentada na alma propositadamente por Pedro, no mais íntimo, e em demonstração duma perversidade como nunca imaginei possível alguém ter. É demais ter de admitir que a pessoa a quem mais queremos é aquela que menos nos merece. É triste percebê-lo... Quer repentinamente, como no apurar dos sentidos ao lume brando dos anos... É dum sofrer impossível... De morrer. De somente querer morrer. Principalmente se esse sentimento e dor são provocados pela rejeição!...»
Um dos camponeses vem subindo ao nosso encontro. Traz barrete, carapuça negra de lã com a borla da ponta descaída sobre a orelha direita. É de compleição pícnica, para o baixote, atarracado, de pescoço e tronco possantes, mas pernas curtas, rendendo evidente homenagem ao Rafael Bordalo Pinheiro. Nota-se que é roupa domingueira o que veste, pois está-lhe apertada, movendo-se dentro dela sem à-vontade e embaraçado.
“Olhem lá!... Onde são as Finanças?” Pergunta-nos.
“São ali adiante. Ao fundo, depois de passar a Casa do Povo, mais à frente e à esquerda.”
Segue. Provavelmente grato, embora o não tenha dito ou manifestado.
Palmira continua, retomando a palavra. Ambos aproveitámos a intromissão para acender cigarros. Há ausência expectante e serenidade em nossos rostos, olhares e gestos. Respira-se bem; corre um ventinho fresco avenida abaixo, que nos aflora o rosto e nos mexe com os cabelos.
«Foi!...» A anamenese dá-nos o flashback (virtual). «Era depois da escola. Já há duas ou três semanas que haviam começado as aulas... A segunda classe é uma rectificação e um encontro. É alegria, ao contrário da primeira, em que tudo é novo e adaptação. E eu andava cheia de genica, animada e com um entusiasmo danado. E divertida. Ousada.»
«Hum-hum» fiz eu, cortando o flash com mais um americano, o primeiro de uma sequência de intercalares médios com grandes planos antitéticos dela.
«As melhores brincadeiras no recreio partiam da minha iniciativa. A professora elegia-me para modelo das outras rapariguetas, pois que eu tinha sempre as respostas na ponta da língua, os trabalhos de casa certos, os cadernos asseados e sem rasuras, a postura descontraída mas sossegada, a apresentação duma dama confiante e segura de si, embora em miniatura, o que cativava sobremaneira...»
(Grande plano.) «Então juntou-se-nos a Ana Isabel. A prima de Pedro. Um ano mais velha; andava na terceira classe. Mas costumava brincar connosco também, às tardes, no quintal dele. Se estávamos só os dois brincávamos de “pai e mãe”, às famílias, com as bonecas e bonecos a fazerem de filhos, numa arrecadação inutilizada, da qual fazíamos a nossa casa. O nosso lar. Agora se havia mais gente jogávamos ao toca-e-foge e ao esconde-esconde.»
(Flashback.) «Logo que ela chegou, começou por preterir a minha companhia e a espalhar-me os brinquedos. Depois, os três, juntámos cobertores velhos, enchemos dois sacos com palha miúda a fim de substituírem um colchão, e fizemos uma cama. Os dois sacos unidos, em paralelo, davam um leito amplo em que nos deitámos. Ele ao meio, connosco, uma de cada lado. Despimo-nos. Estava calor, e tínhamos fechado a porta. Nuzinhos de todo. De princípio não estava a suspeitar de nada, mas a pouco e pouco fui ficando a mais. A sobrar nas brincadeiras. Por fim, ela expulsou-me da cama. Fiquei encostada à porta enquanto os dois brincavam de “pai e mãe”. E me invectivavam. Chamavam-me nomes feios. E que eu era uma franga!... Até que, como se eu me quisesse interpor entre eles, me atiraram ao chão e bateram.» (Atenção: este flashback é mudo. É em diaporama, a preto e branco, com fotogramas fixos. E a voz off de Palmira é quem nos descreve a acção, eliminando assim as possíveis elipses criadas, pela passagem do álbum de fotografias.) «Tudo suportei. E, ao tentar defender-me e impor sobre ela, me rebelei, lutei com ela, quase conseguindo levar a melhor, quando o Pedro interveio auxiliando-a... Os dois, empurrando-me e arrastando-me, puxando pelos cabelos e pernas, finalmente puseram-me porta fora, tal como estava, em pelota, e sem me atirarem a roupa. Mas o que mais me magoou não foi o ficar nua e despeitada lá fora!... Não. Foi o ter sido excluída e expulsa pela Ana Isabel com a ajuda do Pedro... Com a ajuda do Pedro. Ela só o havia conseguido porque ele a ajudara... E quando meu pai, com minha mãe, me vieram buscar para regressar a casa, os dois mentiram descaradamente: que me tinham posto fora porque eu insisti em estar nua, enquanto eles vestidos, não estavam dispostos a brincar de descaração... E eu pretendi defender-me. Dizer que não tinha sido assim. Mas mal podia falar, por o choro e a vergonha me sufocarem... Sem nada poder... Sob os olhos repreensivos de minha irmã mais nova... E de meu pai... Só chorava... Primeiro de angústia, de impotência; depois de raiva... Choro e mais choro. Até casa. Em casa. Durante a noite. Ao outro dia. E no seguinte. Um choro doloroso, convulso... Sujo de baba, lágrimas e ranho... Um choro asqueroso e deprimente... »
«Hum?...» Interrompi eu, obrigando a retomar o plano anterior ao flashback.
«Se me reconfortaram? Provavelmente. Não me lembro. Mas que podia isso ser além do detonar da compaixão?... O levar-me a chorar ainda mais?... É mentira que as crianças não sentem dó de si mesmas, ou vergonha... É.»
O cigarro queimou-me. Ardera-me nos dedos sem que sequer o tivesse fumado. Nenhuma baforada lhe tivesse tirado.
«Nos oito dias seguintes não fui à escola. E de noite acordava com os meus próprios gritos, dos pesadelos que tinha: nua corria por um túnel ao fim do qual uma luz; mas à medida que me lhe aproximava, essa luz gradualmente transformava-se numa porta de prisão, em que após chegar-lhe eu batia, batia, batia com os punhos fechados pedindo que me abrissem. Suplicando. Implorando. Mas que quanto mais eu batia, mais cliques de fechaduras se ouviam “celando-a”. Mal comia. E se tinha medo de adormecer, estar acordada também não facilitava nada: a melancolia sufocava impossibilitando-me de respirar, mal o fazendo, em aflição contínua. Minha irmã fazia-me companhia, e tentava de um tudo para interessar-me. Reanimar-me. Dela, e principalmente a ela, devo e partiu a maior fatia da minha recuperação... Um dia, apareceu esgadanhada: tinha brigado por minha causa, na escola. Haviam-se metido com ela perguntando-lhe se também praticava nudismo. Desforrou-se conforme pôde. Só a muito custo lhe tiraram das mãos o cabelo do celerado autor do espirituoso dito. É que, não contentes com a franqueza, Ana Isabel e Pedro espalharam aos quatro ventos a sua perversa versão do acontecido... E ao vê-la naquele estado, jurei vingá-la!! A minha dor jamais importava; acreditava-me superior a ela. Sentia-me culpada. E entre rapazecos, já se vê!... Ainda para mais com a minha demissão do ringue!... Mas a tortura da minha irmã mais nova, o imaginar por que teria ela de passar e compará-lo no e com o meu sofrimento, era demasiado; não enxergava como ela o aguentasse. Foi aí, nessa visão, que além da sede de vingança, germinou, nasceu também a ideia de que o viria a matar... Que amadureceu o conceito de que certas pessoas, por tão desumanas e cruéis, não merecem estar vivas.»
A grandes planos alternados, ora dum, ora doutro, como nas telenovelas e entrevistas televisivas, os nossos rostos expõem-se em dialéctica, face à impassibilidade neutral de ambos, a quem as palavras bastam bem na reactualização da memória: não é preciso repetir a expressão de sofrimento para voltarmos a sofrer por uma situação que nos foi dolorosa, chega que a nomeemos e invoquemos para que tal aconteça. É ausente de espanto, mas nunca a sua representação de dolência – daí a passividade neutral –, e embora que invariavelmente a dor reciclada jamais seja consequência das mesmas circunstâncias da da original, a intensidade repete-se; porque o controlo, domínio e poder de encaixe a ela se encontra reforçado pela experiência e distância no tempo, não quer dizer que seja passível de ausência ou pujança. A catarse é mais um estado de compaixão presente por uma dor passada, vivida, do que a representação do sofrimento em causa. O psicodrama é válido não por trazer e exorcizar uma dor pela situação que a causou, mas pelo facto de repetir a mesma dor tendo por veículo uma situação algo diferente e sucedânea. É a reactualização do drama através da reinvenção circunstancial detonadora, tal como a tradução de uma obra literária para uma outra língua não fica sendo precisamente a mesma obra, mas sim uma nova versão muito assemelhada dela. Ao homem não é imprescindível fazer novo corte na pele para sentir a dor que provocou, há tempos um outro golpe, pois pode sempre recorrer à reciclagem das sensações, sentimentos e vivências, através da sua capacidade de virtualização: basta imaginar o golpe para que lhe advenha a imagem da dor virtual em toda a sua plenitude imaginável. Imaginar uma situação arrepiante é provocar um arrepio imaginário mas autêntico, ou com tanta intensidade como o realmente vivido, embora que liberto e resguardado pela redoma da noção de real-actualidade-presente-experimental. Imaginar uma paragem cardíaca em nós pode-nos ser tão fatal como uma paragem cardíaca autêntica e real, se não tivermos a imaginação suficiente para recorrer aos processos iguais de antídoto e reanimação. Só após reposto o equilíbrio é que seremos capazes de discernir se foi ou não realidade, virtualidade ou imaginação. Nunca no próprio momento do acontecido. Um pânico imaginado é tão mortífero como um pânico real, activando as mesmíssimas respostas, sentimentos e consequências. Tanto faz ter medo como imaginar que se o tem, para um indivíduo se borrar de igual forma (e textura). Uma pessoa pode ter dez milhões de contos no bolso, mas se encasquetou que é de uma pobreza extrema, franciscana, de miserável, com fé e resolução totais, quando tiver realmente fome não se dirige a um restaurante, mas sim ao caixote do lixo que está à porta da cozinha!...
«Todo o resto do ano, foi, contudo, infernal!... Tenho a impressão de que se tem havido da parte de Pedro uma manifestação de remorso, de reconciliação, uma só de arrependimento, apenas uma, instantaneamente esqueceria o incidente, tal como a minha jura. Mas não. Pelo contrário: a cada dia aconteciam coisas e mais motivos me dava, mais agravantes acrescentava despundonorosamente. Propositadamente. Perversa­mente.»
E em replay, com off.
«Não obstante o refugiar-me na companhia de minha irmã, e recorrer à sua presença e desenvoltura, aconteceu diversas vezes ter que haver-me sozinha em dissabores. Por exemplo, num dia próximo às férias de Natal, em que tinha chovido torrencialmente, estando portanto tudo enlameado e o chão cheio de poças, a professora, adoentada faltou, sem nos avisar antecipadamente, como era seu hábito. Foi feriado, como soe dizer-se na gíria estudantil. Então, um grupo de rapazes meteu-se comigo. Levantaram-me as saias, atiraram-me coisas, pedras, paus, roubaram-me os livros e lanche para os jogarem no chafurdo do chão. Eram uns seis ou sete, e todos maiores que eu. Fugi. Corri, corri, corri, corri pelas ruas de A-dos-Tansos, com o fito de refugiar-me em casa de minha prima Silvina, que reside na outra ponta da aldeia, contrária à escola. Pois bem, quando pensava estar quase a salvo, embora que estafada e exausta, ao dobrar da esquina para a rua dela, passando-lhe de resvés, eis que alguém escondido nela me rasteira, refastelando-me eu num charco enlameado de água pestilenta, de escorrimento de uma vacaria fronteira, ao comprido, vestido arregaçado até ao pescoço. Magoada, humilhada, cansada, encharcada, suja, descomposta, ergo os olhos para trás, e vejo Pedro, a rir desalmadamente, desandando sem pressas, com as mãos nos bolsos e a assobiar!...»
Fim do replay com passagem ao plano geral da rua, continuando a voz em off.
«Outra vez, ia Janeiro por aí a dentro, já do meio para diante, e porque constantemente molestada, se acaso meu pai me não vinha esperar na carrinha à porta da escola na hora de saída, arquitectava maneiras de prolongar a estadia nela para além da hora,

O Escriba e as Bonecas - Segundo Caderno

Segundo Caderno (Trote)

esperando que todos os outros se fossem embora, e de cujas artimanhas uma era o refugiar-me na casa de banho. Num dia frio-friíssimo, daqueles dias de Janeiro em que o ar corta que nem gelo, contava eu, os demais saíram debandando em correria e eu deixei-me atrasar, aproveitando o reboliço da saída para passar despercebida e entrei na casa de banho, a fim de prolongar o atraso para reforçar a confiança... Até aí a estratégia tinha sortido efeito! Só que naquele dia, em desespero, o fiasco deu-se: ao trancar a porta por dentro fiquei à mercê de quem quer que estivesse por fora! Alguém, que a porta abre-se para fora dado o espaço exíguo da casa de banho, um quadrículo onde malmente cabia a sanita, após ter colocado um pedaço de madeira em cunha por baixo da porta, sem que me tivesse apercebido da marosca na fisga, e porque a empregada de limpeza houvesse deixado a mangueira de lavagem de lavabos e alpendre de recreio ligada, embora que fechada na torneira, enfiou pelos buracos de ventilação sobre a porta a dita mangueira, abrindo seguidamente a torneira da água ao máximo da pressão possível. A água batia-me com toda a força sobre a cabeça, os ombros, fria e opressiva, acutilante, sufocante, asfixiante; e eu, também com toda a força que a ânsia e o desespero emprestam aos fracos, arremessava-me de cabeça contra a porta enquanto a mãos ambas empurrava e abria o fecho interior. A debalde. Batia e gritava. Berrava e chorava de raiva e impotência, quando a água embatia nas paredes e sanita, alagava o cubículo do WC e me ensopava, me enregelava... E àquela hora somente duas classes continuavam em aulas! As dos maiores; terceira e quarta, na outra banda do edifício escolar!...»
O plano geral da rua mantém-se. Figurantes aparecem e desaparecem consoante as suas entradas e saídas das portas e comércios, e inversamente. A luz é aberta, e a tarde estival. O off vigora, impessoal.
«Atirava-me contra a porta com quantas ganas tinha... Empurrava com o tronco, batia com os punhos e gritava, gritava, gritava... Até que quase abatida e sacudida pelos espasmos, ouvi alguém indignado do outro lado: era a empregada que ia arrecadar a mangueira. Foi ela quem me encontrou e abriu a porta, depois de haver fechado a água na torneira!»
A objectiva aproxima-se, subindo a avenida. Pára. É um grande plano de Palmira. O rosto pétreo apenas denuncia revolta pelo olhar. Parecem faiscar os olhos castanhos, paralelos, que em momentos outros sugerem ternura, fidelidade, segurança, compreensão. Mas são os dela, e isso acarreta-lhe o anexo da experiência e a história da sua dona. No grande plano do busto a boca mexe-se em câmara lenta, enquanto a voz off mantém a velocidade natural, o que provoca uma sensação de desapego, pois que as palavras ouvidas actuais não correspondem ao momento presente nos lábios, mas sim reportam a um movimento passado próximo, já ouvido, que nos obriga a um costurar de retomar o ponto atrasado, recuado, do pensamento.
«Ao descobrirem-me, a indignação foi geral. Ninguém suspeitou de ninguém, tal como também pessoa alguma seria capaz de conceber que houvesse alguém em A-dos-Tansos que o tivesse feito, perversamente e de propósito. Quanto muito, talvez por brincadeira, sem consciência dos riscos e prejuízos prà saúde. De mau gosto, é certo; mas de brincadeirinha. Não obstante dela tenha resultado uma constipação complicadíssima, que me obrigou a ficar de cama durante quinze dias. Depois deles, e segundo um período de tempo suficiente para esquecer o acontecido, jamais me deixaram andar sozinha. Mesmo dentro da escola, alguém maior faziam por estar sempre por perto. Recomendações de meu pai, possivelmente. E, tirando eu, mais ninguém soube efectivamente quem tinha feito a heresia. Todavia eu soube... Um dia, antes das férias do Carnaval, fiquei certa de que tinha sido ele, o Pedro: num comentário indirecto, mas em voz suficientemente alta para eu ouvir, esclareceu sorrindo sarcasticamente: “É muito asseada, não haja dúvida! Até toma banho frio de chuveiro no Inverno!...” E fitou-me desafiadoramente de soslaio, vitorioso, provocante, em malévola sedução entendida pelos outros coleguinhas dele! E houve risinhos abafados...»
O grande plano alterna para mim. Mas em velocidade normal. Há no meu rosto expectativa, mas também interrogação suspeitosa e insatisfeita.
«E não contaste a ninguém de quem suspeitavas? Não foi feito nada para o castigar?»
«Não.» Continuou ela, retomando o centro de cena em evidência no plano. «Não. Além de a minha irmã, não. E que por sinal nutria iguais conjecturas em relação à mesma pessoa, quando lhe contei o meu encontro com Pedro e o que ouvi da boca dele. Também de que serviria nós contarmos? Ele era o menino prodígio, bonito e bem comportado que todos os adultos aplaudiam... Como concebê-lo capaz de tais actos, não é?!... Por mim, tinha a certeza de que todos me recambiariam com um retumbante “estás parva” da praxe!... Inclusive meus pais, para já não falar nos dos dele!..»
Escuto. O meu rosto transfigurou-se num papiro com mapa de latitude nenhuma. Nele não há lugar a sentimentos nem emoções. É um plano de ausência. Uma carapaça marmórea que esconde o ser. Apenas ouvidos, nada mais. A câmara intercala de um para o outro. E ela inscreve-se no mesmo figurino que eu. Somente com uma diferença: enquanto eu sou todo ouvidos, ela é unicamente boca. Fala. Instrumento de precisão.
«Depois deste incidente, tive uns meses de paz consentida. Alguns rapazes e raparigas, influenciados ou não pelos mais velhos, condoeram-se pelo ostracismo a que fora votada e aproximaram-se mais de mim. Criei novas amizades, tentei uma vida normal, e adesivei-me superlativamente ainda mais à minha irmã. Tornámo-nos boas companheiras e amigas, além das boas irmãs que já éramos, não obstante a diferença de idades. E a necessidade de o matar apurou, engrossou, fez-se autónoma, a lume brando dentro e mim. Até à obsessão. Fez-se ritmo pulsante, mas calculado, da vida, do quotidiano. Para mais, no último dia de aulas, ao vir para casa só, Ana Isabel e Pedro cruzaram-se comigo. Chamaram-me nomes ordinários (flashback), provocam-me e atiram-me pedras. Fujo. Mas em vão, pois perseguem-me e cortam-me as saídas. E fazem-no obrigando-me a entrar num beco. Sou forçada a lutar e defender-me. Com ela podia eu bem, não fosse ele! Então, a um dos cantos vejo um pau, um resto de cabo enxada ou forquilha. Sem que eles se apercebam pego nele e desanco-os a quantas ganas tenho. Acredito que se na altura (fim do flashback), não fugissem, cada um para seu lado, não mais o poderiam voltar a fazer, já que a minha vontade era matá-los a ambos, ali, esmagar-lhes as cabeças cruelmente, como a vilões, que nem a duas cobras venenosas. Desfazer-lhes os crânios até verterem os miolos no chão, e o ódio que me tinham com eles. Todavia, mais tarde, depois de atacada ainda fui castigada por me haver defendido...»
«Como assim?!» Retorqui.
«Foi. Quando cheguei a casa já a mãe de Pedro havia telefonado a meu pai, contando-lhe, segundo a versão de Ana Isabel e do primo, como eu os tinha esperado traiçoeiramente à esquina tal com um pau e os espancara selvaticamente. Coisa que (palavras dela), além de pecado e pôr a vida dos outros em risco, fica muito mal a uma menina da minha idade. E família. Como balancete do sucedido ainda apurei umas boas correadas além de um fim-de-semana de quarto, do qual apenas podia sair para ir comer ou à casa de banho. Tudo o mais vedado, por castigo. Tanto ver televisão, como brincar com minha irmã. Unicamente no quarto, em solitário destilar de vinganças...»
O grande plano fixa-se nela.
«Finalmente vieram as férias de Verão. Só lá para Outubro o meu pesadelo recomeçaria novamente. Eram mais de três meses de descanso!... Nunca umas férias me souberam tão bem! Além do mais, durante elas, foi um elaborar de planos em que vingar-me, a matá-lo. As brincadeiras com minha irmã funcionavam como laboratório. Nelas, a principal, era uma a que chamávamos de “matar o maldito”. Sendo o maldito o nome de código que entre nós significava Pedro, para despistar ingerências adultas... Mas a cada dia de brincadeira, sempre a matá-lo de mais uma maneira diferente, reconhecíamos a enorme dificuldade que era fazê-lo sem deixar provas de termos sido nós... E matámo-lo de todas as maneiras e feitios! Desde a pedrada na cabeça ao envenenamento, passando pelo afogamento, atropelamento e a tiro, tudo ensaiámos. A debalde!... Infrutífera pesquisa.»
Novo replay com a voz em off.
«Contudo, não sei se por distracção, se por esquecimento dele, após o findar das férias e no recomeço das aulas do ano lectivo seguinte, os ataques odiosos de Pedro cessaram. Mais tarde compreendi que foram o cansaço e incapacidade de levar as coisas até ao fim que o fizeram esquecer-me. Nele, mesmo o manter dum sentimento tão forte como o ódio durante mais de nove meses, era exageradamente superior às suas forças. Para Pedro qualquer ideia, sentimento ou vocação, só seria útil e aproveitável se fosse descartável e de tara perdida, do tipo usar imediatamente e deitar fora... Tudo o mais eram desperdício de tempo e de boa vontade!... Até na memória essa preguiça se fazia valer: se fosse preciso recuar mais do que uma semana no tempo, a recordar qualquer situação ou ensinamento adquirido, encontrava logo dificuldades e forjava obstáculos sem fim. E que raramente ultrapassava. O mais comum nele eram o excessivo entusiasmo em começar algo de novo, assim como a rapidez com que disso desistia!... Nele até o prazer da novidade era efémero!»
«E conseguiste discernir tudo isso sobre ele nessa idade?»
O silêncio fez-se. Todavia a imagem, atrasada que está em relação ao verbo, mantém-se durante alguns (muitos) segundos mais.
«Não. Só posteriormente», e o grande plano esbate-se pouco a pouco. E também lentamente substitui-se por um geral da rua com o Largo da Rotunda Sul em fundo. A voz impõe-se em off, «enquanto estudava psicologia e me preparava para fazer bem o que tinha de ser feito...» Alguns bombeiros, cinco ou seis, sobem a avenida. Gesticulam, falam alto, sacodem as pernas, batem as botas. A mancha azul-escura da ganga dos macacões, à distância, ora aproximando-se, ora afastando-se do núcleo, em pulsar ritmado e entusiástico, estabelece uma dança estranha e sombria dum enorme polvo a diluir-se à medida que sobe no separar das formas, individualizando-as e aos corpos. «Mas estou a precipitar-me!... Já lá vamos!»
A câmara acompanha o grupo de bombeiros na subida. Quando estes se cruzam connosco, nos ultrapassam, deixa-os. Ficamos nós em plano americano.
«O que se passou, foi que durante a quarta classe, ciclo preparatório e escola secundária, eu me tornei, para além da melhor aluna de A-dos-Tansos, na mais cuidada e bonita também. Embora que neste capítulo fosse mais honesto e justo dar o lugar a minha irmã! Era bem mais bonita que eu! E asseada! Que, aliás, nunca mas disputou, mas sim antes, se alguém acendia a competição, logo se prontificava a esclarecer favorecendo-me, evidenciando desprimores na sua apresentação, e referindo que a qualificação me assentava melhor do que a ela...»
Passagem a mais um grande plano de Palmira, como fotograma inicial de uma sequência alternativa de planos comigo, conforme se sou eu ou ela quem está no uso da palavra.
«Esses anos foram, todavia, bastante cinzentos para mim. Como todos os outros mais, aliás. Depois dos fatídicos acontecimentos de que fora alvo e vítima, fiquei como que morta e oca por dentro. Desmobilizada. Não fosse a sede ansiosa e obsessiva de vingar-me com a morte dele, creio que me teria apagado totalmente. Para melhor compreenderes digo-te que até esta data e idade nunca senti qualquer prazer sexual, nunca tive um orgasmo, do mais pequeno e subtil grau que fosse!... Nunca.»
«Mas estudavas e cuidavas-te... Não foi o que disseste? Algum motivo havias de ter para isso! Não desejavas ser amada? Desejada?»
«Sim, estudava; e muito. Porque foi a estudar que consegui reconquistar a admiração e respeito, tanto dos meus colegas, como dos meus pais e professores. E também usurpar a Pedro o primeiro lugar no podium dos meninos prodígio. Nos anos que se seguiram tornou-se vulgaríssima e banal a sua pouco dotada perspicácia e sabedoria. Revelou-se um modesto aluno que conseguia os mínimos para passar de ano, ou um nadinha mais, e quase sempre esforçadamente. Vantagem que explorei exaustivamente, como não poderia deixar de ser!»
«Assim, de repente. Dum momento para o outro?...»
«Não. Gradualmente. É como se a inteligência dele fosse inversamente proporcional à idade: à medida que crescia menores se tornavam a sua memória, objectividade, lucidez e diligência. É como se tivesse crescido e evoluído tudo em acelerado, até aos 8/9 anos, e ficasse com uma idade mental bastante superior aos seus oito/nove anos, mas que também de repente parara de crescer aí, ficasse estagnado nessa idade e atitude mental. E memória.»
«Enquanto tu...»
«Enquanto eu mantive os meus índices de crescimento na mesma. Enquanto para ele única e aparentemente só podia haver degradação, para mim havia realmente evolução, contínua e gradual. No aspecto físico, importa salientar, que ainda não frequentava o ciclo preparatório, pois fora nas férias grandes que antecederam a entrada nele, quando me veio o primeiro período menstrual. Nas leituras também fui precoce! Nesse mesmo ano li, na íntegra, Os Lusíadas.»
«E com algum motivo especial? Com algum objectivo explícito para o fazer?»
«Não. Li-o, porque naquele ano e àquele tempo lia tudo o que fosse livro, e me viesse parar às mãos. Sem qualquer motivo nem critério! Era apanhar qualquer livro que fosse, que só o largava quando terminado. Não precisava de justificação alguma. Agora penso, que era uma atitude lógica dentro do plano que inconscientemente tecera para acabar com Pedro. Como fazem os caçadores: estudar os hábitos, comportamentos, características e habitas dos animais que pretendem capturar, além de rentabilizar a busca diminui as possibilidades de falhar no tiro ou no aprisionamento. Conhecer a sua vítima o melhor possível é uma tarefa do predador que se preza. E a leitura fornece inúmeros acontecimentos, relatos e conhecimentos sobre a natureza geral e particular do homem... Ou não é?!»
«Também creio que sim. É sempre do homem enquanto homem, do seu relacionamento consigo mesmo ou com os outros, com as coisas ou com os animais, com as ideias ou com o ambiente, que se fala quando se escreve, ou quando se lê. Os livros são uns bons ficheiros de registos de ser; testemunhos de experiências em situação... Penso.»
«E estás muito certo. Os livros são feitos por homens, e estes falam sempre de si mesmos, até quando pretendem falar doutras coisas. Além de facilitarem e serem um bom pretexto e ocupação para a solidão inventiva. Eu conto. Em resumo, o que me mantinha viva e a funcionar era a vingança que somente se consumaria com a morte de Pedro. Desde o matá-lo eu própria, com faca, pistola, veneno, objecto contundente, etc., etc., até ao contratar ou sugestionar quem o fizesse por mim, tudo me passou e foi revisto inúmeras vezes pela cabeça. Mas sempre com um senão: dificilmente escaparia impune por tal, num ambiente tão restrito e limitado. Até por minha irmã eu corria o risco de vir a ser apanhada. Qualquer desabafo ou fraqueza que ela pudesse vir a ter que revelassem o conteúdo das nossas brincadeiras, principalmente a de jogar ao “matar o maldito”, denunciar-me-iam e fragilizavam-me. A televisão, nas séries e filmes, mormente nos policiais, depressa me alertou para o significado e risco que corre quem pratica a justiça por mão própria: é-se consequentemente condenado por ela ou em nome dela. Por conseguinte...»
«E ele imaginava ou sabia de alguma coisa? Como é que tu te relacionavas com ele? Contaste-lhe ou deste-lhe alguma vez motivos para desconfiança?»
«Até mais ou menos ao final do preparatório não me aproximei muito dele. E por isso mesmo: porque tinha medo de vir a trair-me, por um lado dando-lhe pistas que o prevenissem, e por outro, com medo de o desculpar pelo reavivar dos sentimentos (nobres) que havia nutrido por ele. Mas no fossilizar dos meus propósitos fui ganhando à-vontade e ousadia. E certeza. Até que, em consequência disso, me convenci de que temos de estar o mais perto possível daqueles a quem queremos destruir, se queremos que a oportunidade surja eficaz e descomprometida...»
«E ele?»
«Ele tinha-se esquecido de tudo: tanto do que me fez, como do que pensava e sentia sobre mim. Depois de três ou quatro anos de separação efectiva ou de diminuto contacto, pouco ou nada manifestava saber acerca de mim. Apenas que andara na mesma classe e sala que ele. E que os rapazes mais velhos me cortejavam descaradamente, e sem tréguas!... E que o estar comigo e gozar das minhas atenções e conversas, provocava inveja, admiração, sei lá!, da parte deles. Lhe dava um estatuto superior e mais atenções, principalmente dos maiores, a quem imitava e lhe inspiravam temor e superioridade. Foi daí que nasceu o primeiro fio da teia em que se enredou...»
«E tu já reconhecias isso naquele tempo? Conscien­temente?...»
«Não; mais tarde. Àquela altura do campeonato a única coisa de que tinha plena consciência era de que iria matá-lo, como aliás aconteceu, mas não sabia com o quê nem quando. Nem o que fazer para o conseguir. Apenas reconhecia que tinha que esconder bem o que pretendia, e que para o fazer devia representar muito bem o contrário. Talvez que mais por imposição do meu inconsciente. Eu autoprogramara-me heuristicamente, e a entrada de dados e de informações era funcionalmente feita e interiorizada segundo os objectivos estipulados, da mesma forma que os rectificavam e (re)actualizavam à luz dos novos conhecimentos recentemente adquiridos e se reposicionavam pragmaticamente. O meu corpo era um biombo que escondia e enfeitava o software da morte, que depois de accionado, activado, procedia de acordo com uma cadeia automática de atitudes e comportamentos para a qual a minha livre vontade pouca importância tinha. Tanto faz que se considere que aquele acto era ou não consciente; que aquele pensamento fosse lógico ou não; que tal memória fosse espontânea ou provocada; porque o certo, o certo mesmo, é que ele teria a validade que merece ter um dado parafuso na estrutura geral duma determinada máquina, ou duma particular e pontual peça no puzzle que a inscreve. Nesse universo essencial, e em que fora dele não vale nada.»
«Por exemplo!...»
«Por exemplo a minha curiosidade e predilecção por livros e filmes policiais, assim como o ter começado a estudar psicologia ainda no oitavo ano, extracurrículo, e às escondidas quase, quando apenas viria a ter a disciplina no 10º ano. Esta antecipação de dois anos, foi uma resposta condicionada pelo programa, que por sua vez o condicionou... Uma consequência influenciável que o influenciou... Topas?!»
«Claro; é um ponto de vista. Mas também não podemos deixar que a parte tome o lugar do todo. Tu, provavelmente, como toda a outra gente, estavas inclusive sujeita a imposições e influências sócio-familiares, a responder às expectativas dos adultos e das outras crianças, como da tua irmã e etc., etc. e tal.»
«Isso é o que se pensa! E erradamente. Ninguém nos ensina nada: nós é que aprendemos. E aprendemos o que queremos, não o que esperam que nós queiramos, nem o que nos querem ensinar. Só vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir, em matéria de aprendizagem. E se não tivermos onde encaixar um dado conhecimento, tanto faz explicarem-no-lo uma vez como um milhão de vezes, que o não memorizamos. Que o esquecemos assim que viramos costas. Sobretudo, tão-só retemos aquilo que consideramos útil e funcional para o motivo, preocupação e preposição que assumimos. E é esse princípio objectivado que selecciona e classifica a informação, não nós, embora que de acordo com o desenrolar evolutivo na gradação crescente de realizar-se.»
«É uma maneira de dizer... Uma opinião.»
«Não é, não; é a pura verdade. Por exemplo, a Caixa de Skiner. Como é que eu aos catorze anos podia conscientemente reconhecer o valor dos reforçamentos na determinação dos comportamentos humano e animal? Como consegui eu associar e adaptar o procedimento para influenciar e levar o Pedro a fazer o que eu queria? Porque o recompensava sexualmente logo após ele ter tido uma manifestação de dependência em relação a mim? De dependência escolar/cognitiva ou financeira. Mas eu fazia-o. E sentia que era a única coisa que estava certa de querer e devia fazer.»
«É um tanto vago... Não é?»
«Parece. Como muitas outras associações, aliás. Mas não é. É antes essencial. Se ou não se, eis que. A uma atitude certa a recompensa apropriada, estabelece quase sempre a possibilidade de repetição duma conduta que preferimos, mesmo que não seja desejável moral e sexualmente. Biologicamente. Foi o caso da droga, em que se meteu da mesma forma e modo com que começou a fumar tabaco e se lhe viciou. Assim: primeiro comecei por semear ao deus-dará uns quantos “sinto mais desejos por homens que fumam”, “nem sei como me contive ao sentir-lhe o cheiro a suor e tabaco”, “um homem que não fume não é totalmente homem”, “fulano é suficientemente maricas, para nem fumar” e quejandos, enquanto o submetia a um longo período de terapia de choque pelo método do balde de água fria, de meles e entusiasmos repentinamente interrompidos, além do negar-me a satisfazer sexualmente os seus apetites ansiosos mais audazes que a carícia refreada e o linguado incompleto. Principiou a andar nervoso e deprimido. Depois, num dia comprei um maço de tabaco. A que acrescentei o efeito fruto proibido, mostrando-lho, enquanto languidamente lhe inspirava o odor e o cheirava libidinosamente, às escondidas, mas unicamente onde e quando soubesse que ia ser apanhada por ele a fazê-lo. Duas, três, quatro vezes, e o resto foi fácil: ele mesmo se informou junto dos mais velhos, e deu com eles as primeiras fumaças de iniciação. No dia em que se aproximou de mim a tresandar a tabaco, confessando-me orgulhoso o acto de haver fumado, fui caprichosamente gentil com ele. Lubrifiquei-me com vaselina e fiz-lhe sentir as delícias do coito sexual completo, numa penetração plena, em que o ajudei excepcionalmente, acompanhada de ejaculação abandonada. Tiro e queda. Foi infalível. Com a repetição regrada do aperitivo, em pouco menos de um mês tornou-se um fumador exímio, assim como me deu a ganhar mais um ponto de recurso no segredo guardado e escondido dos pais dele.»
«Mas tu falaste também em droga...»
«Pois falei. Falei porque o método foi idêntico, embora que com as nuanças correspondentes no passar das leves para as pesadas, do haxixe à heroína, em aceleração pausada mas crescente. Um crescendo que o tempo ajudou. E a hiperdependência dele consolidou.»
«Não acredito que um efeito tenha apenas e somente uma causa. Numa atitude determinada e tomada por um homem, incorrem sempre não uma, mas diversas circunstâncias...»
«Nem eu. Nunca o afirmei; nem sequer o pretendi. Aliás a operação D&TP (Droga & Tabaco em Pedro), não teve como única responsável a minha pessoa, não obstante tenha sido eu a dar o empurrão inicial, tal como a ajustar acelerações e ritmos sempre que o sentia afrouxar nas suas utilizações e consumos. Tive ajudas. Nesse sentido, devo muito aos pais dele, a dois ou três amigos e colegas, à minha irmã até, à filosofia do sistema de ensino português e a alguns professores autoritários e casmurros, o tê-lo conseguido com tamanho êxito. Sem eles e ao chamamento da diferença, ao apelo interior da originalidade narcísica, ao desejo ansioso de ser continuamente amado e vangloriado, nunca me teria sido possível fragilizá-lo a ponto de o reprogramar motivacionalmente. E essa fragilização começa precisamente pelo facto de ele ser filho único, com um pai benevolente, mole, católico praticante ao nível da beatice, moralista das aparências e apóstolo do “dever ser”, mas cobrador de expectativas, e uma mãe hipocondríaca, propensa a lamentações, lamechismos e lamúrias, assim como sempre pronta a assumir o papel de invariável vítima sob os mais variáveis pretextos, onde ambos depositavam o objectivo e motivo de viver, além da única razão de ser para continuarem juntos maritalmente, em consentido e mútuo sacrifício, no manter dum casamento em que nunca houve amor, mas sim interesse e submissão. Ou seja, pela frouxidão dos pais, nunca aprendeu a querer para ter, tal como também nunca se preparou e autopreveniu contra a hipótese de haver alguém capaz de lhe fazer frente de se opor aos seus pretensos caprichos teimosa e inteligentemente. O mimo e superprotecção de “o menino quer, o menino tem” de ambos foi um óptimo fertilizante para o desen­volvimento e crescimento dos meus propósitos. Reconheço...»
O alternado de grandes planos continua actual. Todavia uma diferença: por vezes o câmbio é contrariado por alguns americanos simples ou dos dois, para normalizar os créditos na ideia de que o diálogo se mantém à escala do desafio, do debate, na competição de e por argumentos persuasores e sugestivos.
«Antes de te adiantares, gostava que soubesses que não sou fácil de convencer... Principalmente quando o absurdo se me depara.»
«Não sou vulnerável a ironias. Posso continuar?»
«Claro. Desculpa.»
«Desde muito cedo me apercebi que o êxito da OMP ( Operação Matar Pedro), dependia em grande parte de transformar a sua hiperdependência aos pais numa dependência, de igual calibre se não superior em grau, em relação a mim. O que foi canja! O moralismo hipócrita e convencional auxiliou bastante!... Por outro lado, o fundamentalismo conceitual no referente ao tabaco, droga e sexualidade, raiando o puritanismo vitoriano, assim como à noção de segurança financeira pelo mínimo gasto igual a máxima poupança - de no poupar é que está o ganho –, vieram condimentar q.b. o cozinhado de cumplicidades entre nós dois. E haverá melhor dependência que a cumplicidade?... Melhor amarra que a corda invisível?...»
«Não. Realmente o secreto ilícito partilhado foi a génese da nossa civilização: note-se a história de Adão e Eva, a do comer o fruto da árvore proibida do paraíso...»
«Eis exactamente a ideia... Primeiro meti-o no tabaco e escondi o caso dos pais dele. Depois dei-lhe dinheiro para o comprar quando eles o não faziam indirectamente. Mais tarde, levei-os a admitirem que Pedro fumasse tal como lhe custeassem o vício, no soltar duma amarra, no folgar da pressão, no descansar da boca afrouxando as rédeas do freio... O êxito desta tarefa, com o benefício da recompensa sexual, em breve garantiria que eu pudesse iniciar com igual efeito a fase “droga”. O primeiro capítulo do resto. Pois que nessa altura já ambos andávamos no décimo ano, e aí pelos 17 ou 18 anos cada um!»
«Quer dizer... Saídos de fresco da adolescência, não?!»
«Tal e qualmente. (Quão perverso és também!...) E as suas principais vítimas tinham sido os pais dele: haviam fraquejado e desbaratado quase todas as sua munições antivício na batalha preliminar. O que os deixara estropiados e agonizantes enquanto família. O tabaco não merecia tanto, é claro. Mas a eles, desprevenidos, pois que nunca haviam sonhado que tivessem de se debater com semelhante problema, não lhes passou pela cabeça que precisariam delas para outra batalha mais pujante: a droga. Principal elo para fechar o ciclo de morte que eu havia elaborado e instituído à volta de Pedro. A OMP era, em verdade, uma roleta viciada. E o croupier era eu... Os pais dele, os professores, os colegas, os conselheiros morais e psicológicos, não passavam de simples jogadores com fichas contadas e limitadas, e que tampouco sabiam a que (ou se) estavam a jogar!...»
«Lógico. Peculiar... Mas pouco convincente, convenhamos.»
«Se pouco convincente ou não, não sei, nem importa. Creio, ou ao contrário, não creio que só uma causa tenha um efeito. (Aliás, como afirmaste anteriormente!...) O efeito X é sempre resultante não só de uma, mas de nY de causas. Ou seja: Para Pedro se deixar convencer, sem sequer notar que estava a ser levado a isso, e começar a fumar haxixe foi necessário um empurrão coincidente (e eficaz) em várias frentes. Pelo que me diz respeito, rodeei-me de uns quantos fumadores já experimentados, que gostavam, e não lhes regateei elogios e atenções. Facilitei-lhes dinheiro e até participei em algumas queimadas, puxando fumaça. Fiz-lhes os trabalhos de casa e participações em grupos disciplinares, visto que naquele tempo serem moda os trabalhos de grupo em quase todas as disciplinas curriculares. E limpei-lhe sempre a barra, se havia caso com os pais dele, que viam em mim mais uma filha ( a filha desejada, e que não tiveram) pelo meu aprumo, interesse e notas escolares, asseio, etiqueta e delicadeza de exemplo a seguir. Além, é claro, da consumação do futuro do filho, com um casamento desde muito novos engendrado pelas duas famílias.»
«E aos pais dele, como conseguias ludibriá-los? Olha que não é fácil atentar contra o filho duma mãe-galinha!... Ainda das que eternamente chocas!...»
«Não sei se com provas, se com testes especializados, ou qualquer outra facilidade de diagnóstico, mas eles sabiam das dificuldades do filho: da fraca memória, da falta de talento, da excessiva de pendência, fraqueza de vontade e pueril carácter... e talvez por isso viam em mim a outra parte, a metade que faltava, a capaz de compensar e equilibrar as coisas. Era o exemplo que ele deveria seguir, copiar. E conheces alguém que ponha em causa ou critique os seus modelos e eleitos?!... Então, eu fiz jogo duplo. Além de me tornar no principal intermediário/intérprete entre eles e o filho, logo que Pedro se começou a afastar progressivamente deles, dando-lhes também a possibilidade de controlo e influência sobre ele, a baixo custo, alinhando nas suas maquiavélicas tendências para o educar conforme os seus cânones. Se eles queriam que ele fosse a determinado lugar ou acontecimento, então deixava-os iludirem-se de que me convenciam a lá ir, para que eu lhes levasse o filho comigo, ou para levarem o filho sob o pretexto de eu também aí estar. Como foi no caso do evento anual dos grupos e Convivas da Juventude Católica. Tornei-me seu alibi e cúmplice, pelo menos nas suas tentativas de moldar o seu objectivo de vida em orgulho de viver, o seu doce e queridinho rebento. É que eles sempre foram um fungo, um musgo, uma espécie de parasitas do filho: viviam dele, embora convencidos e conven­cendo todos de que o faziam para ele.»
«Mas não há aí complexidade a mais...? Não te parece isso bastante complicado para já ser compreensível a uma garota de dezasseis, dezassete anos?... Francamente! Mais velho sou eu e não o vejo lá muito claro!...»
«Eu naquela altura não compreendia o que estava a fazer. Simplesmente sabia que estava a contribuir com qualquer coisa para alcançar o que queria. Nem tinha plena consciência de que eles eram assim. Era o meu inconsciente que captava e trans­formava a informação útil em prática. Não carecia de compreender o quer que fosse; precisava é de reagir conforme os ventos e acertar as rotas pelo meu rumo. Era a heurística do meu programa a funcionar, nada mais. Como no judo: quando alguém nos empurra devemos aproveitar a força desse empurrão e puxar decididamente, a fim de que esse alguém seja obrigado a dar uma cambalhota por cima de nós, e ir estatelar-se no chão, nas nossas costas. E flexibilidade e sentido de oportunidade nunca me faltaram!»
«Contudo, continuo a não perceber bem como é que uns pais superprotectores abdicaram assim do seu filhinho, e logo nas tuas mãos... »

O Escriba e as Bonecas - Terceiro Caderno


Terceiro Caderno (Galope)


«Não compreendes porque te esforças em não o querer, nem o conseguir. Pois é bem claro: os pais, ao notarem que o seu bebezinho único logo que deixava de estar sob a minha alçada e tutela directa, coisa que subtilmente me empenhei em demonstrar-lhes, fazia burrada da grossa, desaparecia de casa durante dois ou três dias, pedia dinheiro emprestado a comerciantes conhecidos sem autorização do pai, e para este pagar!, drogava-se até ao descontrolado comportamento e demais tristes figuras, optaram por convencer-me de que o mais cristão e menos pecaminoso seria consentir casar com ele. Por dois ângulos ou pontos de vista: porque desconfiavam da existência de relações sexuais pré-matrimoniais; e segundo, que ele viesse a assentar à custa dos desígnios da novel responsabilidade de vir a ser chefe de família. Casamento em que mui modestamente consenti, deixando imediatamente de tomar a pílula para lhes facilitar a sempre nobre esperança de virem a ser avós, com brevidade e sem esperas prolongadas. Recompensa merecidíssima pelo esforço que despenderam em me proporcionar tão importante passo para a meta que me impus. Truque duplo. Doble num tiro.
«E a maternidade aconteceu?»
«Aconteceu sim. Precisamente ao décimo mês de casamento nasceu o Filipe. E para Pedro, os três meses que antecederam o parto mais os nove que se lhe seguiram, foi o ano de todos os anos... O dinheiro das prendas de casamento ainda durava, pois quem abonou com todas as outras despesas (mobília de casa, jantar e copo d’água do casamento, instalações para o aviário, de que era suposto virmos a tirar os rendimentos para tocarmos a vidinha prà frente), foram os nossos pais, e estes, com o surgimento do neto, deram-lhe carta branca em tudo, esquecendo-se inclusive que ele existia, excepto quando aprontava alguma da qual eu o não conseguia esconder ou ilibar. Quer os meus pais, quer os dele, vinham frequentemente a nossa casa no declarado pretexto de verem o Filipe, mas raramente se cruzavam com o Pedro. Ele, o estava com os amiguinhos dos xutos, ou estava no aviário, mas sobretudo estava carregado na cama. “A descansar do serviço no aviário”, dizia eu às famílias embevecidas, se acontecia pergun­tarem-mo.»
«Os amiguinhos?... Alguns junkies, não?...»
«Qual quê!! Não; eram caveiras mesmo, e a valer. Eram dois ou três mais mortos que vivos, que nem alimentar-se queriam, preferindo a heroína a qualquer outro acepipe. Em fase de muito adiantado estado de degradação, de destruição, e que, contudo, se safaram com vida através de consecutivos internamentos clínicos para desintoxicação e alguns retiros (espirituais) no Le Patriarche. Os mesminhos com quem começou a fumar haxixe, aliás. Companhia de quem eu o não podia proibir, já que tinha sido eu a arranjar-lha!...»
«Nem querias
«Bingo!! Com as boas graças dos sogros, pelo feito heróico de lhes haver renovado os motivos e a esperança de vida, com um neto, apenas deixava e precisava de deixar correr o marfim, facilitando a Pedro o acesso aos dinheiros do fundo de maneio familiar. E depois ia queixar-me à mãe dele, ou ao pai, por ele gastar todo o dinheiro que fazia falta para o filho e despesas domésticas “sabe-se lá onde”, mas pondo a pairar no ar a sublinhada suspeita de saber muito bem para que fim, onde, com quem e no quê o gastava. Eles também: embora adiando sempre no mais possível a verificação e comprovação das suas suspeitas. Uma fé esperançosa de um por mil, em não estarem certos nas mesmas.»
«E a tua família estava a par disso? Como reagia ela ao facto de vos ter dado o aviário para vocês não precisarem de pedir dinheiro a ninguém, e vocês não se governarem de lá? Ela estava ao corrente de tudo quanto se estava a passar convosco? Não me parece que sabendo, aceitassem a situação de ânimo leve...»
«O curioso é que a minha família, não só sabia de tudo (pela santa boca da minha sogra, claro está), como também se estava literalmente nas tintas para o comportamento de Pedro. Diziam que não era para preocupações; que era só uma fase ruim, uma fase passageira. Levavam a coisa na berlinda. Mas, no final, foram eles que, com o agravamento da dependência, e numa altura em que Pedro vendera todas as sacas de ração para os galináceos, a quase de metade do preço que haviam custado a meu pai, não só deixando os bichos a passar fome como fazendo uma dívida impagável para com o sogro, alertaram os compadres para a necessidade do filho se ter que submeter a um tratamento de desintoxicação e reabilitação.»
«E Pedro fê-lo?...»
«Fez pois. Só que a abstinência apenas lhe durou o tempo de internamento. À primeira vez que veio a casa, e notando-o um tanto ou quanto agitado, eu própria lhe preparei uma dose de cavalo, das dez que tinha comprado na sua ausência para o efeito... Foi tiro e queda! A partir desse dia, e se antes do tratamento andava a precisar de três doses diárias, passou a necessitar de cinco ou seis.»
«E não te pesava na consciência pelo que estavas a fazer?!...»
«Não. Eu só queria o bem dele. E para que não sofresse! Aliás, fora ele quem implorara por elas!... E tinha medo que ele se tornasse agressivo se eu lhas negasse...»
«Era o que argumentarias junto dos pais dele se, não?...»
«Uma espécie disso, perfeitamente. Mas acima de tudo, eram os comentários que concedia às minhas amigas da nossa geração, que pretendiam apelar ao meu bom senso... Que aliás compreendiam divinalmente!»
«Porquê? Elas inquiriam-te? Preocupavam-se ou tentavam intervir na tua vida matrimonial?»
«Não era bem interferir. A minha desgraça é que era do domínio público. Interessavam-se, era o termo mais adequado. Quando nos encontrávamos no café, no supermercado, viajávamos juntos de ou para Casal Parado e Vale de Burros, conversávamos normalmente das nossas vidas, dos nossos filhos, dos nossos maridos. Era coisa comum, que não evitávamos nem escondíamos. É como falar da tropa quando se está na recruta. Ou de política quando nos inscrevemos há pouco no partido. E esporadicamente lamentava-me, e à sorte que tinha tido pelo marido que me calhara... Visto que numa terra tão pequena, é impossível guardar segredo sobre muitas coisas íntimas e familiares, durante um período superior a oito dias!...»
«E como é que elas apelavam ao teu bom senso?... Não percebo bem como é que isso se faz!»
«Ora toma. Era o que faltava!... Apelavam ao meu bom senso quando me aconselhavam a separar-me dele, caso ele não deixasse de se drogar. A impedi-lo por todos os meios de consumir drogas. A não lhe facilitar dinheiro para comprar droga. E etc., etc. e tal.»
«’Tá lógico.»
«Lógico, não. Está verdadeiro. O que tem de ter lógica e coerência são os romances e demais ficções. A vida raramente a tem ou o é, percebes? A vida real é real e cruel como a verdade, nada mais. Nem lógica, nem coerente. Nem qualquer oportunidade para o dourar da pílula.»
«Pois; siga.»
«Por instantes pensei que era teu intento irritar-me. Tirar-me do sério. Não?... Com que finalidade? Ah, ainda desconfias de mim!»
«Não desconfio. Sou simplesmente de difícil compreensão... Em nada creio às primeiras.»
«Estás no teu direito, mas não abstraias conclusões antes de eu acabar, que é para isso que comecei. Eu ainda não sou como o meu ex-; eu quando começo algo é para ir até ao fim. É da minha natureza...»
«Do carácter asténico, diz antes...»
«Certo. Ou isso! Como queiras. Agora nota, que os pais de Pedro andando como andavam, embobados pelo neto, nem se davam conta de que o filho regressara do tratamento com mais necessidade de dinheiro do que quando fora. As doses dobraram. E triplicaram. Até que um dia foram visitar o netinho e depararam com a sala de estar e de jantar sem mobília nenhuma. Fizeram um escarcéu dos infernos. A custo, intimidada, submissa, obediente, lá lhes contei que o filho as havia vendido para pagar a droga que já tinha consumido desde que voltara, e comprara fiado. Foi um desgosto danado!... Ficaram inconformáveis! Pesarosos e abalados com a notícia!»
«E foi o que acontecera efectivamente?»
«Em parte sim, embora não fosse toda a verdade. Acrescentei, desculpando-o aparentemente, em atenuante, que a culpa provavelmente não tinha sido exclusivamente dele, mas dos traficantes e companhias com que se voltou a dar. Que os formigas o haviam ameaçado de morte, e ao filho, se ele lhes não pagasse rápido. & etc. Mas a verdade fora outra. Eu é que lhe tinha fornecido a ideia de vender as mobílias das salas, com aparelhagens sonoras e de vídeo incluídas, a fim de pagar as dívidas e ficar ainda com algum para as próximas “receitas”. Disse-lhe inclusive, convenci-o mesmo disso, que os pais andavam tão contentes com o neto que eram bem capazes de relevar, de lhe perdoar tudo a ele, só para não prejudicarem afectivamente a criança, nem a traumatizarem psicológica e familiarmente. E ele caiu!... Que nem um patinho. Em resultado: os pais dele reenviaram-no para nova desintoxicação mais consequente reabilitação no Le Patriarche, dessa tirada para a Suíça, nos frescos e bons ares dos Alpes.
«E deu efeito? Quando voltou, veio recuperado?»
«Recuperadíssimo!... (À moda do não.) Nem falar conseguia, normalmente; unicamente aos supetões. E nem assim saíam duas direitas! Debaixo de uma tensão angustiosa de cortar a alma... Tive pena. Doeu-me o coração. Meteu-me dó... Não resisti.»
«O quê?! Tiveste pena!!! Quer dizer: voltaste a dar-lhe heroína, comprada por ti, do teu bolso?...»
«Sim. Quer dizer: foi exactamente isso que fiz. E em pouco menos dum mês estava ele a vender o que restava do aviário, num descuido de vigilância de meu pai, que era quem o tutelava e mantinha em funcionamento, depois da venda das rações, e por lhe estar mais próximo de casa do que a meus sogros. E como lhe não bastasse, passou também a patacos o material de construção civil, que o meu pai e o dele andavam amealhando para nos fazer uma vivenda. Foi tudo pràs urtigas!... Até os vinte quilos de pregos!...»
«Não acredito.»
«Então não acredites. O incrédulo és tu!... Mas foi como te disse. Nem mais, nem menos uma vírgula.»
«E tu? Que fazias? Que dizias?»
«Bom: a ele, quando sós, dizia que não havia problema, que tudo se iria resolver. Se os pais estavam presentes desculpava-o, e maeuticamente levava-o a prometer que jamais voltaria a usar uma agulha (de costura). Não convencia ninguém mas era um indicador precioso do quanto eu me esforçava e sacrificava para levar o casamento a bom porto, e feliz rumo. Quando estava sem ele presente, sozinha com meus pais ou com os dele, transformava-me numa madalena chorosa, lamentando que não conseguia suportar mais aquele calvário, que ele estava a arruinar-me os nervos e a pôr em risco a futura saúde do filho. Que estava sujeita a deixar-me contaminar por alguma doença mortal, contagiosa, que ele pegasse no convívio e utilização das seringas dos outros “sidosos” com quem tanto gostava de acompanhar e privar...»
«De forma decidida e conformada?»
«Tão convicta que a iniciativa de me divorciar de Pedro e abandoná-lo, retirando-lhe também a tutela do filho, partiu deles. Os meus pais, porque eram meus pais e não queriam que eu sofresse. Os dele, porque estavam saturados e queriam salvaguardar a saúde, segurança e estabilidade psicológica e emocional do neto.»
«Ao que tu...»
«A que eu obedeci pesarosamente... E a que só me submeti depois de instada a que se o não fizesse, eles me abandonariam também. Que deixariam de querer saber de mim. Que me retirariam o Filipe, e me deixariam à mercê do destino... E de Pedro.»
«E fariam-no?...»
«Não; provavelmente, não. Mas eu preferi não arriscar. Lavei as minhas mãos. Como Pilatos. A partir dessa altura, tudo quanto viesse a acontecer com Pedro, passaria a não dizer-me respeito. A responsabilidade seria exclusivamente dos quatro. Eles é que haviam decidido e me obrigado. Apenas tive que submeter-me ao aceitável... E imperativo. Era ele ou eu...»
«E?...»
«... E numa quinta-feira à noite, ouvi baterem-me à janela do quarto que fiquei a ocupar em casa dos meus pais. O divórcio estava em curso, mas ainda não tínhamos sido notificados com o deferimento e decisão definitiva e oficialmente, por escrito. Abri. Era Pedro. Com delirium tremens, arrasado, suplicando que o ajudasse. Fi-lo compreender que não podia fazer nada, que não tinha dinheiro nenhum, e que eles mo não davam pois temiam que ele mo tirasse. A não ser que... A não ser que...»
«A não ser o quê?!»
«A não ser que lhe desse as chaves do carro que me pai nos havia comprado, em substituição do jipe que Pedro vendera, mas que avariou, e nós metemos na oficina, o que afinal o salvou de também ter sido passado a patacos. E que, como não tivéssemos dinheiro para pagar o arranjo, o pagou ele, recuperando o automóvel para si, por conta do pagamento do conserto e mais uns contos de réis pelas rações das galinhas. Carro esse que ainda estava em nosso nome!»
«Queres ver que me vais dizer, que lhe deste as chaves e o carro, e que ele se despenhou, morrendo no acidente... Não?... Já vi esse filme!»
«Não. Não foi assim. O que foi, foi sim que ele levou o carro e o vendeu por quanto pôde e lhe deram a pronto, em dinheiro batido na mão, em troca do livrete que meu pai ainda não tinha recuperado de mim. Depois comprou heroína suficiente para arrumar dez cavalos, e morreu de overdose. Tão simplesmente quanto isso. Não aguentou a pedalada. Tão-só. E apenas. Encontraram-no sexta-feira, ao meio-dia, no chão da garagem do pai, encostado à roda do tractor com a seringa ao lado e o garrote caído do braço, descambando lasso...»
O grande plano da minha surpresa e incredulidade esbate-se gradualmente, ficando em sua substituição o plano geral da rua com o largo em fundo, sob um trânsito de hora de ponto. A luz é menos aberta, e apercebe-se bem que a tarde está a entrar no seu término. É a agonia do dia em trabalho de parto.
«Pronto», concluí eu. «Partamos do princípio que me deixei enrolar com a veracidade desta história macabra. Que o teu marido depois de endividado, viciado, e votado ao ostracismo, se deixou abater e se suicidou por excesso de dose. Seja. E o corpo? E o cadáver? E o defunto? Será que existe mesmo alguma viúva? Não o creio. Até porque no teu B.I., em que reparei sorrateiramente enquanto procuraste na carteira o dinheiro para pagar o café, o estado civil constante é o de divorciada. E se assim, como contas, tivesse sido, constaria lá escrito viúva!»
Regresso a um americano de ambos. Ela tira o Bilhete de Identidade da malinha de mão, de sobre a mesa. E confirma.
«Tens razão. É que me esqueci de dizer que, naquela quinta-feira à tarde foi quando o corpo judicial deferiu o pedido de divórcio. Eu na realidade não sou viúva: sou divorciada. E já estava divorciada há um dia quando o meu ex-marido se suicidou.»
«E o suicídio também não é garantido... Provavelmente foi engano de dose, um acidente, sei lá!...»
«Sim. Eventualmente... Mas sublinhe-se que ele estava muito bem informado nesse capítulo. Era um barra na matéria. Um expert. Um acidente só podia acontecer para cúmulo do “acidentalmente”. Muito pouco plausível.» (Silêncio. A câmara fixa-se-lhe no rosto, a que o pensamento empresta um ar meditativo e enigmático. Até que, com um piparote na mesa, ela destrava:) «E o cadáver está no cemitério de A-dos-Tansos. Por acaso sinto vontade de visitar a campa. Acompanhas-me? Queres vir? Se negares, concluirei que a tua incredulidade é bluff!...»
Voltamos a mais um plano médio dos dois. A levantarmo-nos

* * * * *

(Atenção à elipse.)

enquanto nos sentamos à mesma mesa, exactamente nos mesmos lugares, as sombras provocadas pelo candeeiro que nos fica atrás, anunciam um bailado singular: o assentar das formas, como se estas fossem poeira que se cola às coisas. É noite já. É a hora da bica do jantar. Chegámos como quem vem dele, e como qualquer assíduo frequentador concluiria automaticamente. Mas não o tomáramos. Estivemos no cemitério.
«Porque é que as pessoas quando falam a fazer qualquer outra coisa nos parecem mais sinceras?» Pergunto eu, a provocar polémica. «Já em minha mãe essa sensação se me afigurava. Se ela queria dizer qualquer coisa importante levava-me sempre para a cozinha, e enquanto cozinhava ou descascava batatas, a bomba ia despejando.»
«Porque dizes isso agora. Logo agora?... Não percebo.»
«Bom. É simples.» E o plano americano dá lugar a uma sequência de grandes planos alternados de mim e dela. «É que durante o tempo em que conduzias, tanto na ida a A-dos-Tansos, como no regresso, me soaste menos a falsete do que quando aqui estivemos à tarde. Estavas mais preocupada em que eu amasse a mesma paisagem que tu. Falavas dos vinhedos e pomares, não como se fossem coisas, matéria vegetal, mas sim seres vivos em vias de extinção. Preciosos e insubstituíveis. Dos ondeados de vales e de montes como se da tua própria pele se tratasse. Dos moinhos, como de entes queridos desaparecidos.»
«Se dizes isso, é porque ainda não ouviste nada!... Deixa-me só começar a falar da Serra de Todo O Sempre! Da Ermida e Convento de Nossa Senhora dos Flocos! Da Real Fábrica do Sorvete! Da Igreja Matriz de Casal Parado! Do Castro de Vale de Burros! Da Igreja Paroquial de A-dos-Tansos! Da minha vila! Da minha vida! Da minha história! Das minhas paixões!»
«Porquê? Esse entusiasmo tem raízes em algo profundo que ainda não conheça?...»
«Talvez. Se o quiseres interpretar assim. É que ao notar e compreender como a minha vida sexual e afectiva se tornara miserável, agarrei-me à única centelha de amor que em mim ainda se não tinha extinto: o amor à minha terra. Acreditava que assim salvaguardaria a promessa de que essa semente viesse a frutificar e desenvolver-se, evoluir até transformar gradualmente esse apego à terra e passado dela, em amor ao presente e às pessoas que nela vivem, incluindo a mim mesma...»
No seu grande plano podemos notar que a frontalidade intelectual foi descurada. Há até duas lágrimas a nascer hesitantes em seus olhos, agora húmidos e brilhantes. A testa foi atirada para trás e o queixo, antes recolhido duma animalidade em stand by, aproveita o inclinado perfil para reaparecer miúdo e interferente no espaço. Inclusive a própria pose de sentada com as pernas cruzadas, já não exibe a rigidez e contenção anteriores; é abandonada e leve, alongando-se nas curvas, sem a brutalidade das articulações contraídas em esforço. É como se o corpo nos desse a ver a facilidade com que o sangue lhe circula dentro, em pulsação ritmada e entusiástica. Grata por cumprir-se.
«E terá resultado?»
«Sem dúvida. Apercebi-me de que resultou quando me abraçaste no cemitério. Quando senti um imenso, imperioso e verdadeiro desejo de te beijar e acariciar, tal como o de permitir e desejar que me fizesses o mesmo. Até quando...»
Flashback: “ O cemitério de A-dos-Tansos é um receptáculo rectangular de medir o poente, que se lhe estampa frontal. Deitado preguiçosamente na encosta leste do Rio Tramóia, que como rio é a vergonha da família, pois além de nunca ter caudal superior a um reles ribeiro, inclusive no pinho do Inverno, único período em que tem água entre as margens, corre ao contrário da maioria dos seus congéneres, marcha contra a corrente, de Sul para Norte, de baixo para cima, como que a querer demonstrar que lhe sobra em coragem aquilo que lhe falta em ser, em circunstâncias físicas e líquidas. Paradoxos que a natureza tece e o homem nomeia!
E ao canto superior direito, em ponta de fila, das outras restantes idêntica, a campa de Pedro remata o ângulo. Em nada difere das demais, com cabeceira de pedra calcária branca, polida, em forma de Bíblia aberta, encaixe para a fotografia do inquilino, nome completo e datas biográficas: nascimento e morte. Sobre a sepultura uma outra pedra branca, comprida, mas de mármore. E ao fundo dela Palmira, braços caídos ao longo do corpo, pernas afastadas, que nem um cowboy ou pistoleiro preparado para mais um duelo mortal. Tem espasmos e convulsões de choro e raiva: «Maldito!... Maldito!...» Repete inconscientemente. O vestido, devido à posição das pernas, sobe-lhe mais um pouco e, de tão curto, quase se vê o desenho curvo do princípio das nádegas. Aproximo-me-lhe por detrás e acaricio-lhe os ombros. Insinuo-me, beijo-lhe o pescoço. Deixo as mãos, os dedos, percorrerem-lhe os braços, até os entrelaçar nos seus, sobrepondo as palmas das minhas às costas de suas mãos. «Maldito!... Maldito!...» E enquanto o diz ergue os braços ao céu, chorando espasmodicamente. Mas ao fazê-lo puxa-me para a frente, içando igualmente os meus braços e comprimindo-me também de encontro ao seu corpo. «Maldito!... Maldito!...» Vocifera. Sob o meu peito descoberto pelo abotoado da camisa, os seus ombros e dorso flectiam convulsos, e as suas coxas e nádegas alçadas anichavam-se de encontro ao meu sexo, procurando-o e submetendo-o, em pura animalidade ciosa. «Maldito!... Maldito!...» E chorava.
Por detrás de nós o sol cruzava a linha do esquecimento e escondia-se. Sobre o ondulado dos montes distantes uma estrada alaranjada marginava a terra, marcava a fogo os limites do dia. «Maldito!... Maldito!...» Proferia Palmira, entretanto se virando no desenclavinhar dos dedos, procurando-me a nuca e pescoço com eles, sôfregos e curtos e cárneos de carinho e ternura contida. Nervosos e cegos: agitados, e insaciados. «Maldito!... Maldito!...» Desabafava. E eu beijei-lhe os olhos. Bebi-lhe as lágrimas. Acariciei-lhe as costas, numa ânsia de protegê-la da luz, do mundo, das recordações, da dor. E nesse gesto continuado até ao despir-lhe das cuequinhas brancas, que lhe caíram aos pés no fundo da campa, qual noiva branca oca e vazia abandonada no chão da morte. Então, coloquei todo o meu libidinoso desespero na busca da resolução dos mistérios da tarde que quer ser noite, da noite que quer ser madrugada, na esperança de vir a ser dia, e ali a sentei sobre a pedra fria, de coxas separadas, vestido subido, para entre elas me ajoelhar na terra seca e esfarelada, em prece, beijando-lhe os lábios frementes de choro enraivecido, o pescoço crispado, o peito arfante. Até à penetração total e plena, que a fez, de olhos esgazeados, atirar-se para trás levando-me consigo; olhos que cerravam à medida que descíamos para a horizontal do mármore, e se esqueceram fechados até quando...”
Fim do flashback e retomar do grande plano anterior a ele. Mas ao falar Palmira gesticula. Mexe-se ao ritmo das palavras. Aviva-as. Baila com elas. Dá-lhes espaço habitacional. Empresta-lhe o próprio corpo!
«... voltei a abrir os olhos e concluí que tudo se tinha passado noutra dimensão. Que a luta não tinha sido luta. Que o planalto relvado a findar em abismo nunca existiu. Que a queda no precipício e explosão sofrida enquanto ela, não acontecera. E sim que a realidade era tão simples e natural como o teu olhar morno, meigo e grato no escurecer ocasional, e o esquecimento tranquilo de teus beijos lânguidos e cansados. Demorados. Perdidos numa demora em busca de retenção. De eternidade.»
Inicia-se então, com também a minha tomada do plano, em figura de centro, a última sequência de alternados, segundo a quem calha estar no uso da palavra.
«Mas essa luta no planalto relvado em que te debateste, rolando e contorcendo até cair no precipício, é igualmente real. Tão real que também eu a tive e partilhei. Tão autêntica que dos meus últimos dias e por muitos anos, irá ser a única recordação que perdurará. Tão real como a gratidão do meu olhar, porque ela era devida ao facto de, quando após termos descuidado o abismo e a sua proximidade, num desesperante debater aflito em contorções e arremetidas, nele caindo, teres sido tu aquela a quem me agarrei em ânsias de afogado para não embater no fundo frio e agreste e rude de pedra e vácuo do infinito em forma de abismo. Porque ao segurar-me em volta de ti te absorvi, e ambos explodimos num Big Bang virtual que nos aspergiu pelo cosmos. Agora podemos ter a certeza de ser pertença do mundo. Agradecido por teres sido a primeira pessoa que vi depois de ter assistido ao estilhaçar explodido de toda a argila recozida e escura da minha armadura existencial. A primeira a testemunhar o espectáculo de inocência, o núcleo de amor, com que recomecei a viver. A que me ajudou a recolher a nudez de minha alma viva e renascida, para mais uma era de crescimento e morte, em cumprimento da lei que nos comanda e executa.»
Palmira ri. Não sorri; ri mesmo, em gargalhadas jocosas e estridentes. Lança as mãos para a frente, para as minhas mãos, e diz:
«Não sei porquê, mas não me sinto com idade suficiente para compreender o que queres dizer. Foi verdade: mais ou menos palavra, foi também essa queda irreversível que vivi e senti. Esse espalhar de mim pelo universo. Mas não quero, nem sou capaz de compreender. Finalmente sinto-me livre para poder ser eu. Sinto-me que nem uma criança, sem passado, apenas presente e a certeza de que o futuro é algo inadiável, que não vejo como evitá-lo ou por que pensar nele. Acho que voltei a ser pequena, frágil, despreocupada, aberta, disponível, inocente e confiante. Que finalmente regressei ao corpo nu que abandonei um dia, enquanto este batia desesperadamente e humilhado a uma porta irremediavelmente fechada. Trancada. Teimosa e cruelmente selada.»
«De arrecadação?...»
«Não. De prisão, de túnel. De aço cromado e frio, gélido, espelhado e inabalável.»
«De ficção...»
«Sim, de ficção. Ou por outra, como as portas das prisões dos filmes de ficção científica, onde até o improvável é possível. E o possível pouco provável.»
A avenida cambaleia na luz eléctrica. Por vezes um carro passa devagar, em velocidade de ronda, para não abanar cenário. Há alguns reclames luminosos a colorir a noite. Mas o principal movimento é o das pessoas a entrar e sair do café, às famílias completas, com pai, mãe, filho e/ou filha, a quem não faltam o cão nem a boneca. E um agrupamento superiormente notório nas escadas de acesso à porta do cinema.
Aparentemente é uma noite igual a tantas outras de Junho ou Setembro. No clima. No traje e frequência dos frequentadores. E a expressão dos rostos que apreciam o descanso.
Mas essencialmente é o remate, o nó de uma linha que perdeu o fio de cor. Que tem de mudar de novelo e de tom. Que recomeçar é isso: é voltar a pintar o mesmo desenho com diferente paleta, com outras cores, que preferencialmente temos por mais adaptadas, reais e motivadoras. Como num ritual encenável, repetidamente representado, irremediável e consecutivamente pelos mesmos actores. Um palimpsesto reciclado. Repetidamente reciclado. Até à exaustão. Até à velhice. Até à morte, que é a falta de coragem e força para insistir uma vez mais nos gestos tantas vezes feitos em vão. Porque só morremos quando ficamos em estado de não aguentar outra reciclagem.
E as bicas vieram, quentes e fumegantes, aromáticas e cremosas. Que bebemos em silêncio. Religiosamente. Como em silêncio se extinguiu a imagem, que a cada golo de café escorria para o mais brumoso, cinzento, pardo, escuro, escuríssimo, preto, negro do quadro da ausência. Das ausências.



RODAPÉ: Ah, quase esquecia de me apresentar! Fisilogicamente sou um gémeo perfeito do Ribeirinho, um Woody Allen à portuguesa, no filme de sua autoria, O PÁTIO DAS CANTIGAS (Francisco Ribeiro, 1941 ), rodado em Lisboa, embora que um tanto mais baixo e magro – que a época não perdoa. Visto um casaco aos quadrados brancos e pretos, que nem um tabuleiro de xadrez, camisa amarela de colarinhos com enormes bicos e desabotoada até ao cinto; calças de veludo grená, e uma cartola empoleirada no cocuruto da cabeça. E Palmira é igualmente uma boneca.
Os sapatos que uso? Esses ficam totalmente a vosso critério (e gozo).

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