A QUESTÃO ESCRIBALISTA EM QU'ESTÃO (sentados os escribas)

  


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A QUESTÃO ESCRIBALISTA EM QU’ESTÃO (SENTADOS OS ESCRIBAS)

Realçou Roland Barthes que aquele que pratica a escrita transitiva devia ser denominado écrivant, enquanto aqueloutro que praticasse a escrita intransitiva perderia o t, e seria simplesmente écrivan, num preciosismo crítico a raiar o grau zero da insignificância – já que a letrinha final mal se pronuncia –, e uma vez que toda a escrita, como, aliás, toda a fala, é transitiva, se considerarmos que vai do signo pró significado, ou do emissor pró recetor, à velocidade de um “dejà-vu”, que é o único recorde imbatível desde que o tempo é tempo, o espaço é espaço e um percorre o outro no vice-versa que altera a ordem das parcelas para chegar sempre ao mesmo destino: comunicar com o aval das estéticas socialmente previsíveis, logo, observáveis e reconhecidas, que são o apanágio de qualquer escriba, independentemente do idioma, língua, dialeto ou glossário em que se mova e exerça o seu mister. Pelo que, caso nos interroguemos acerca de quem é esse que atravessou eras e impérios montado num quatro por quatro (4X4) pitagórico, posto que para esse filósofo (Pitágoras) o 4 era o número perfeito e mítico da alma humana, sabendo-se agora porquê (1+2+3+4=10, pois que é tão-só o 2 em binário digital), desde a Mesopotâmia até às Portas de Ródão, usando como único combustível o alfabeto que tinha mais à mão, o escriba, se acaso é écrivant ou écrivan, a resposta está de caretas com um T de todo o tamanho, qual cruz templária onde se crucificam os condenados ao santo ofício da escrita, sobretudo se considerarmos as diferentes fases e estados de ânimo que vulgarmente lhe são inerentes e, quiçá, adversos, que ele é sem dúvida um escrevente, ou ente que escreve (e que, no dizer dos mais puríssimos e arreigados ao linguajar lagóia, é padecente da escrita), o que, pese embora o francês tenha sido o berço de muitos existencialismos, falhou este, porquanto se o termo é intraduzível do alentejano para português, com muito maiores e bastas razões o será para outra qualquer língua indo-europeia com ramificações francófonas, germânicas, saxónicas, eslavas ou mesmo românicas, não obstante que com grande proximidade ao celtibero que lhe ofertou o seio para medrar e singrar praticável por todo o mundo, mas principalmente em Casal Parado, que é a querida terra que me adotou, quando eu ainda nem fraldas usava, a fim de me darem a primeira banhoca no caldo cultural da sustentabilidade global que é a água, pura e transparente, incluindo a morna (das alterações climáticas), para não ferir (esfriar/queimar) a couraça incurtida da nascença.   

Portanto, esclareça-se em abono da irreverência que é o ato da escrita hoje em dia, seja ele executado em sebentas como em tabletes sem cacau, tenham sido compradas em suaves prestações mensais ou oferecidas como brinde de adesão a qualquer ação do mercado mais contundente, um escriba faça o que fizer, pense como pensar, esteja onde estiver – estendendo-se este onde a todo e qualquer suporte – é, para mal dos seus escassos bocados, sempre e imperativamente, um ser transitivo à imagem da maior parte dos verbos que conjuga pelas narrativas por que envereda. 

Salvo quando vai de atravesso e cujo estro lhe cai na cova funda da desgraça maior de todas as desgraças, que é de onde nunca se sai (pelo menos vivo!), a não ser que a campa faça falta para outro mais recentemente defunto, mas já com os ossos limpinhos, chupados até do tutano por qualquer minhoca menos vegetariana, logo menos propícia a voltar ao corpo humano (exemplo deveras edificante da teoria da reencarnação) pela via dos hambúrgueres suculentos a que as alfaces, cebolas, tomates e batatinhas fritas emprestam, além de cor, alguma gracinha da dieta mediterrânica. O que, com as devidas aleluias e hossanas, é também uma sementinha de esperança a germinar pela bem-aventurança da espécie gregária que nos sustenta, que sustentamos, e a que devemos não apenas a origem como igualmente o propósito e derradeira intenção, ou razão de ser – sendo. Desde que já se tenha sido… O quê? Tanto faz, que não há falta que não dê em fartura, principalmente no verbo ser, se julgado e transido, pela estrada fora da existência que, comece ela onde comece, há de voltar sempre ao ponto de partida. Nem mais! 

Joaquim Maria Castanho       

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