O Poeta, de Michael Connelly

Michael Connelly
Trad. Eduardo Saló
480 Páginas
"A escrita exerce em mim o mesmo efeito que o conteúdo desse copo em ti. Se conseguir escrever sobre o caso, é porque o compreendo. Nada mais me interessa."
"Queria ser escritor e afinal tornei-me jornalista."
"Uma pessoa tenta reconstruir um puzzle em conformidade com o que tem na mente."
"– Vou escrever sobre o meu irmão – anunciei. (...) Depois disso tudo se alterou na minha vida."
"A morte é o meu negócio. É dela que vivo. Baseia-se nela a minha reputação profissional. Trato-a com a precisa paixão de um agente funerário – grave e consolador perante os enlutados e artesão eficiente com ela, quando estou só. Sempre achei que o segredo para me ocupar da morte consistia em a manter a uma distância prudente. É a regra de ouro. Não permitir que o seu alento me atinja a cara."

Sob o modelo narrativo das "bonecas russas", matrioscas, ou das caixinhas que têm uma caixinha dentro que têm outra caixinha, e por aí fora, até desvendar todas as peças do puzzle num quadro geral, este romance assenta, contudo, numa estrutura molecular poeniana, cujos pilares, ou formas essenciais (e explícitas) são: A Queda da Casa de Usher – conto que gira à volta da temática dos sepultados vivos, vítimas dos seus antecipados terrores – e da poesia do mesmo Edgar Allam, principalmente do poema País dos Sonhos, e no qual, aliás, vem a residir a chave do enigma policial, num enredo aos socalcos, em que, a cada nível, se tenta colocar o leitor "fora do espaço, fora do tempo", tornando-lhe as conclusões obsoletas na justa medida em que a elas chega, demonstrando uma vez mais que em poesia uma coisa é sempre outra, qual encadeado metafórico cujos limites não cabem na ideia que possamos ter de infinito, pois que, invariavelmente,

Nele, um homem que vivia da morte, e mantinha a sua sanidade à custa de nunca se deixar envolver demasiado pela causa do seu ofício, vê-se, em resultado de um “aparente” suicídio, o do seu irmão gémeo, transformado de jornalista em detective, na peugada de um serial killer que matava polícias a investigar crimes pendentes, recentes, e relacionados com uma rede de pedofilia, assinando o seu acto com uma

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