Sem Piedade!, de Miriam Ali

A Luta de uma Mulher Conta a Moderna Escravatura
Miriam Ali (com Jana Wain)
Trad. Mário Dias Correia
280 Páginas
Dentro da Literatura de Impacto Social (LIS, pròs mais chegados e atentos), e na mesma linha de Vendidas!, de Zana Wain, Meu Amo e Senhor, de Themin Durrain, ou Sultana, A Vida duma Princesa Árabe, de Jean P. Sesson, Sem Piedade! é simultaneamente uma crónica de costumes, uma reportagem, um diário, uma biografia, uma obra literária, um testemunho e um documento comprovativo de como a Idade Média conseguiu romper os limites do tempo e avançar incólume até ao presente da humanidade – indissimuladamente, e sem qualquer receio das instâncias judiciais (planetárias) ou da moral e poder do establishment.

Nele se narra a trágica aventura de Miriam Ali, a quem o marido vendera as filhas adolescentes, para casarem no Iémen, usando o dinheiro dessa transacção numa infinda e extravagante degradação, assim como abusando do seu estatuto de chefe de família para torturar os seus. Recuperar as filhas assume então, para essa mulher de baixíssima estatura, uma hercúlea missão, extraordinariamente burocratizada e r

Fala-se deverasmente, hoje em dia, de terrorismos, de terrorismo ideológico como económico, de terrorismo político como de terrorismo religioso, mas o terrorismo sexual, de género, familiar, cala-se ou ilude-se conforme melhor interesse a quem o pratica, ou sociedade que o assimile – ou tolera, que no fundo é a mesmíssima coisa... –, sobretudo naquelas instâncias do poder para quem a opressão fundamental não é reconhecida nem sequer como problema, pois esse não-reconhecimento equivale à tentativa (aliás, legítima, uma vez que dá emprego a uma enorme panóplia de quadros técnicos, serviços públicos juríco-sociais e seus auxiliares) de o eternizar e perenizar, para dele continuar a alimentar-se enquanto puder, principalmente tapando o de dentro com o escândalo do de lá de fora; todavia, na actual conjuntura mundial, o lá de fora é sempre aqui, conforme estipula a essencial globalização, e reconhecer que distante de nós se está bastante pior em termos de Direitos Humanos é o maior e significativo dos passos possíveis para avolumar o problema onde se omite a sua existência. Não é pelo facto de ele não ser meritório de ser notícia internacional que ele não existe ou se não resolve; mas sim que é por tal que se agrava e, noticiosamente falando, se transforma um tabu num elefante branco, que havemos ter que alimentar e bajular até ao esquecimento, esquecendo inclusive quantas e quantos disso foram
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