O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway

Ernest Hemingway
Tradução e prefácio de Adolfo Casais Monteiro
328 Páginas
Do laureado autor que foi igualmente aquele a quem a Literatura Universal deve o facto de ter deixado de ser apenas mais um coloquial artifício, argumento de ideologias e moralidades, para passar a ser uma conversa a dois, cuja mais-valia se


Polémicos ao seu tempo, talvez por precisão de marketing, os seus livros, numerosos romances, novelas, contos, de entre os quais podemos referir Na Outra Margem Entre as Árvores, As Neves do Kilimanjaro, O Velho e o Mar, Por Quem os Sinos Dobram, Ter ou Não Ter, Um Gato à Chuva, As Verdes Colinas de África, Capital do Mundo e Outras Histórias, etc., etc., são autênticos hinos ao amor e à paz entre os homens, em função dos quais o universo gravita, e narram a epopeia das naturezas simples e comuns, que se empenham em sobreviver para realizar a sua proeza maior, que normalmente se transformou em farol de suas almas pouco atreitas a espiritualismos profundos. Mas fá-lo em linguagem do dia a dia, de rua, de alcova, de tarimba, de caserna, de trincheira, de luta, enfim, de resistência como de milieu, onde é vulgar as falas cruzarem-se com os sonhos e aspirações mais subterrâneas desses ordinários mamíferos que somos nós, simultaneamente presas e caçadores, tornando o discurso literário num discurso acessível à grande maioria, além do reflexo daquilo que também ela vê em si mesma ou sobre si vai sabendo.

E nela se conta a venturosa aventura entre um americano tenente do exército italiano (Frederic Henry) e uma enfermeira escocesa do hospital inglês (Catherine Barkley), durante o período final da Primeira Guerra Mundial. Depois de ferido, é ele internado no hospital em que ela trabalha, e dessa incerteza, dessa inconstância, dessa ressequida palha que o menor fogo incendeia, nasce um jogo de paixão entre a morte e a esperança, para a urgente confluência do vivido.

Porém, à semelhança dos condenados à pena capital a quem é concedido o último desejo, após a convalescença, e antes que Henry volte para a frente de batalha, são-lhe concedidas três semanas de licença. Decidem passar esses 21 dias juntos, todavia ela engravida e ele adoece com icterícia, despendendo duas das semanas no respectivo tratamento, e sendo-lhe retirada a que resta, sob a acusação de ter provocado a doença para não ter que voltar às trincheiras. E assim que regressa à frente de combate vê-se a braços com uma retirada caótica, em que perde recursos, homens e ambulâncias. É testemunha de fuzilamentos arbitrários pela Polícia do Exército, aos quais apenas escapa atirando-se ao rio. Após o que se reencontram, partindo ambos para a Suíça.
A guerra havia ficado para trás. Teriam os seus dez réis de felicidade, que é quanto cabe e cumpre a cada ser vivente que acredita na esperança. No entanto, outra

Do título, assaz sugestivo, além de denunciar a tentativa de exorcizar, expurgar, afastar, aliviar, despedir a humanidade das guerras e das armas, do flagelo do desamor entre povos como entre indivíduos, falhou redondamente, não só porque Ernest Hemingway se suicida com uma, como também as guerras continuaram a proliferar, que nem coelhos sem predador em mato rasteiro. Talvez O Adeus à Paz, fosse mais elucidativo das intenções e dos resultados. Pois, quer se queira, quer não, foi exactamente isso que aconteceu, com ponto culminante na II Guerra Mundial, onde o autor terá sido correspondente. As voltas que o mundo dá!
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