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DO VERBO ANDARILHO NAS FADAS DE PORTUS ALACER "A obra de Luzia lê-se alto diante de toda a gente sem se ter que saltar linhas." In FELICIANO SOARES, Luzia – Espectadora das Comédias do Mundo , inédito, Instituto de Coimbra. Quando recebeu a notícia do falecimento de sua amiga Luísa Grande, escritora portalegrense (1875-1945) que cultivou as letras e a língua portuguesa sob o pseudónimo de Luzia, terá escrito Fernanda de Castro (in FERNANDA DE CASTRO, Ao Fim da Memória , II Volume: 1936-1987, Editorial Verbo. Novembro de 1987, páginas 49-50), “pode a razão dizer-me: «Luzia morreu», que o coração não acredita. A morte é o desaparecimento total, e, para mim, a morte de Luísa Grande é apenas ausência”, mal sabia ela que essa outra viagem e ausência haviam de ter tais efeitos de sumiço de todas as suas “presenças” literárias sobre o universo cultural português, que muito pouca gente “ouviria” falar dela. Dela disse mais: que “falava das coisas da Natureza, do céu,...
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“Estando Galwyn de Arthgyl ajoelhado toda a noite num chão empedrado esperando o dia, sonha que está num local deserto, olhando para um rio escuro, perto do qual lhe acontece ser feito cavaleiro; e ele monta e cavalga com dois recém-conhecidos numa floresta, onde encontra alguém com quem conversam sobre vários assuntos obscuros e metafísicos, embora educados. Sir Galwyn está cético, e, ao ser informado de alguns fatos surpreendentes, Sir Galwyn descobre que está no meio de loucos: Continuam a ser metafísicos e corteses, embora não tão educados. Sir Galwyn fica impaciente perante os conselhos e, despedindo-se do eremita, afastam-se daquele lugar. Sir Galwyn encontra alguém perto de um rio, mata-o, e encontra mais alguém que igualmente mata, num combate leal também; também encontra alguém numa situação íntima que faz corar Sir Galwyn, mas é perdoado por ele. Começa a sua educação sentimental: retira ilações morais da primeira lição. Sir Galwyn continua a sua educação sentimen...
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GENTE INFELIZ SEM LÁGRIMAS Ao contrário do que possa parecer, todos nós nos separamos da razão que nos assiste diversas vezes ao dia, o que fará um número incontável ao ano, sem que nenhuma delas esteja relacionada com o merecido descanso, no sono, no sonho, na alienação, no delírio, na bebedeira, na lua, no que se lixe e no desligar para pôr as baterias à carga: é sobretudo quando pomos os nossos interesses pessoais e narcisismo à frente de tudo o mais, quando deixamos de olhar a meios para nos valorizarmos, que aí desconsideramos quantos se encontrem na trajetória prossecutiva do amor-próprio, seja quem for, principalmente os mais desvalidos. Até mesmo quando contamos inofensivas e inocentes anedotas para fazer sala ou desopilar a família, que incidem sobre alguém de todos conhecido, tipo social ou estado de ânimo que os carateriza. Por exemplo, é comum pelas festividades, no Natal ou Páscoa, nos serões das (melhores) famílias, haver sempre alguém que conta uma historieta ...
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SÓ OS ANIMAIS É QUE NÃO PODEM ERRAR Ou ASSIM HAJA BILHAR QUE TACOS TRAZEMOS NÓS “Este grande e verdadeiro anfíbio cuja natureza lhe permite viver não só em diversos elementos, como as outras criaturas, mas também em mundos divididos e distintos” (in Sir Thomas Browne, Religio Medici), tem quinhentos que não dá pra trocar por miúdos, em duas ou três larachas e parábolas.    No dia em que Tracy Chapman e Carlos Paredes atuaram no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, eu não estava lá. Não assisti, não vi, nem ouvi, mas reconheço que ter Tracy escolhido Paredes para tocar na primeira parte do seu concerto na capital portuga, depois de ter atuado no ano anterior (1988) em Paris, Roma, Barcelona e Londres com Sting, Peter Gabriel, Youssou N’Dour e Bruce Springsteen, a favor da Amnistia Internacional, ter-me-ia valorizado muito, e subido a fasquia no reconhecimento (público) pelo meu bom gosto, mas principalmente na autoestima. Lamento, lamento, contudo a vida é assim...
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RETALHOS DE OUTRAS OUTRAS ÉPOCAS, OUTROS MOTIVOS ÉCLOGA DE JANO E FRANCO (extrato) Dizem que havia um pastor Entre Tejo e Odiana, Que era perdido de amor Per ûa moça Joana. Joana patas guardava Pela ribeira do Tejo, Seu pai acerca morava, E o pastor, de Alentejo Era e Jano se chamava. Quando as fomes grandes foram, Que Alentejo foi perdido, Da aldeia que chamam o Torrão Foi esse pastor fugido. Levava um pouco de gado, Que lhe ficou doutro muito Que lhe morreu de cansado: Que Alentejo era enxuito D’água e mui seco de prado. Toda a terra foi perdida; No campo do Tejo só Achava o gado guarida: Ver Alentejo era um dó! E jano, para salvar O gado que lhe ficou Foi esta terra buscar; E um cuidado levou, Outro foi além achar. BERNARDIM RIBEIRO ( Bernardim Ribeiro , considerado por muitos o patriarca da ficção portuguesa, nasceu na vila do Torrão, em 1482. Passou a infância em Castela, onde o seu pai se exilara dev...
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A TRAGÉDIA DUM DRAMA (SOCIAL) "Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos pela sala, tornou a sentar-se e disse: – Dou-lhe uma notícia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama. – Um drama! – exclamou o bacharel. – Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. O serviço militar não foi remédio que me curasse, foi um paliativo. A doença regressou com força dos primeiros tempos. Já agora não há outro remédio senão deixá-la e ir simplesmente ajudando a natureza." In JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS, A Chinela Turca É mentira que a democracia em Portugal foi arrumada e enlatada pela direita. Eram poucos, estavam arredados dos meandros do poder e da finança, e não tinham a mínima credibilidade pública. Durante as duas décadas posteriores ao 25 A, a direita não passou de uma anedota que se contava nas tascas do populacho, andando de Ponço para Pilatos com as ...
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ZÉ-PENDETE, O CULTIVADOR DE RESSENTIMENTOS “Um perito é aquele que sabe cada vez mais a respeito de cada vez menos.”                                                                                  N. BUTLER No tempo dos bons e dos maus [também] havia bons que eram maus e maus que eram bons; mas Zé-Pendente sempre fora um assim-assim desde pequenino. Politicamente correto umas vezes, chico-esperto outras, nunca se opunha nem cumpria, que a meio das vontades tinha a sua no mais coisa, menos coisa, com que se ia safando no dia-a-dia. Porém, em dada altura, em que quase todos se for...
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PREFÁCIO   Sou um autor de ficção científica e um historiador. A combinação não é tão invulgar como parece – para citar só alguns exemplos, Barabara Hambly, Katherine Kurtz, Judith Tarr, Susan Shwartz e John F. Carr usaram o que estudaram no colégio para dar profundidade e autenticidade aos mundos que criaram. No meu caso a ligação entre as duas coisas é ainda mais estreita. Se não fosse um leitor de ficção científica, provavelmente nunca teria acabado por ser um estudioso de história bizantina. Andava no liceu quando li LEST DARKNESS FALL, o clássico de L. Sprague du Camp, em que ele lançava um arqueólogo moderno na Itália do século sexto. Comecei a tentar descobrir quanto era inventado e quanto era real, e fui apanhado. O resto, de várias maneiras, é história. Este livro, portanto, assenta fortemente no meu fundo académico. Passa-se no começo do século catorze de um mundo alternativo em que Maomé, em vez de fundar o islão, se convertera ao cristianismo numa missão come...
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UM PONTO DE VISTA... O pseudónimo Luzia é uma espécie de autor exterior ao universo confessional da narrativa, distanciado, no intuito de absorver e relatar a (peculiar) aventura interior humana, mas nunca tanto que impeça, ou venha a impedir que seja continuamente confundida com o autor implícito (Luísa Grande) para, assim, elevar, esclarecer, conseguir, a máxima objetividade textual dentro da (inevitável) subjetividade intrínseca ao género lírico e intimista cultivado pelos parnasianos. As cartas, as observações quotidianas, a experiência de vida, a infância que Luzia quer servir/mostrar ao leitor, são as mesmas que Luísa Grande viveu, experienciou, teve, e quiçá terá registado nos seus diários; Luzia foi buscá-los, deu-lhe a redação que entendeu, embutiu-os quase como flashbacks no texto que estava a redigir/compor ao momento e consoante a estrutura que lhe definira. Os seus melhores textos sobre Portalegre provavelmente foram escritos no Funchal – e vice-versa. Também a...
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Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, sessão do Grupo de Leitura READCOM de Portalegre, na Biblioteca Municipal sobre obra de Jorge Luis Borges  O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano, entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a obra ...
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LANÇAMENTO DA REVISTA PLÁTANO nº 5, dia 23 de Maio de 2012, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre  Sob a iniciativa do coordenador e responsável editorial, Mário Casa Nova Martins, a revista PLÁTANO, revista de arte e crítica de Portalegre, nasceu em má maré mas tem-se aguentado. Tanto assim que já vai no nº 5, e surge num momento histórico algo anorético para a carteira da maioria. A adivinhar pela capa e colaborações, propondo uma grelha eclética e diversificada. Vai ser apresentada ao público, dia 23 de Maio, pelas 16 horas, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre. Talvez não seja uma oportunidade a desperdiçar para quem, depois de um almoço de feriado a meio da semana, esteja recetivo às novidades e iniciativas que a sociedade civil portalegrense vai pautando, sem outra aspiração além da participação ativa no seu tempo e território… Que tal?  
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CANTO DE JARDIM Há, no fundo deste velho jardim, um canto que faz as minhas delícias. Ensombrado pelas árvores dos quintais vizinhos, tem qualquer coisa de misterioso como os bosques… A erva cresce entre o musgo. Aqui e ali, surge, na sua haste delgada, uma papoila vermelha. Contra o muro vivem, exuberantes, a hera, o alegra-campo e, onde pode surpreender um raio de sol, debruça-se, miudinha, clara, uma roseira de toucar. No inverno, cheira a violetas, a terra húmida. Na primavera, tem um perfume especial de erva fresca, de folhas tenras. O rouxinol, que ama o mistério e a sombra, escolheu este canto do jardim, para nele exalar as suas lágrimas musicais, as suas harmoniosas queixas… Se eu tivesse a voz do rouxinol, era ali que chorava, que me queixava também…  Portalegre, junho 1922. In LUZIA, Almas e Terras Onde Eu Passei , Edições Europa, pág. 37. Lisboa, 1936